1. Introdução
A água constitui-se como um dos recursos naturais mais importantes da Terra, sendo
imprescindível para a geração e manutenção de todas as formas de vida em
nosso planeta. O volume total de água na Terra é estimado em 1,34 bilhões de km3, mas
somente 2,7% deste valor correspondem à água doce, sendo que boa parte deste volume encontra-se
congelada nos pólos (cerca de três quartos) ou armazenada em depósitos subterrâneos
(Baird, 2002)
Águas superficiais, tais como rios, lagos e oceanos, recebem grande quantidade de resíduos
provenientes das indústrias, residências e agricultura. Estas águas superficiais, as quais
contêm muitos compostos desconhecidos, são usadas como fonte para consumo humano, assim como para
agricultura e recreação.
Consequentemente a poluição da água pode ser um sério problema para a
saúde humana e ambiente aquático (Houk, 1992) (Claxton et al.,1998) (White; Rasmussen, 1998).
Desta forma, a identificação destes compostos é o primeiro passo pra que se
estabeleça uma estratégia eficiente para um monitoramento.
Indústrias têxteis são responsáveis pela liberação de grandes
quantidades de efluentes ao ambiente, devido à utilização de muitos litros de água
no processo de tingimento (Umbuzeiro, 2005). As indústrias de tingimento consomem cerca de 7x105
toneladas/ano de corantes e pigmentos em todo mundo (Nigam, 1996), sendo 26.500 toneladas somente no Brasil e,
mesmo utilizando-se corantes de elevada capacidade de fixação, admite-se que, em média,
20% de toda a carga de corantes utilizada em operações de tingimento é perdida sob a
forma de resíduos deste processo. (Guaratini; Zanoni, 2000).
Estima-se que o potencial poluidor de uma indústria têxtil de pequeno/médio porte
equivale ao volume de resíduos gerados por aproximadamente 7.000 pessoas ou, ainda, ao de 20.000
pessoas considerando-se o teor de material orgânico (Moraes et al., 2000).
Além da poluição visual, a contaminação dos corpos d'água com estes
compostos provoca também alterações nos ciclos biológicos, afetando principalmente
processos de fotossíntese.
Destaca-se também, que estudos têm mostrado que algumas classes de corantes, principalmente azo
corantes, e seus subprodutos, podem ser carcinogênicos e/ou mutagênicos (Kunz et al., 1999).
Várias pesquisas têm demonstrado que diversos corantes azóicos apresentam atividade
mutagênica e genotóxica em testes com microrganismos e células de mamíferos
(Clonferoet al., 1990) (Freeman et al., 1990) (Garget al., 2002) (Venturin; Tamaro, 1979.).
Após sofrerem processos de redução de e cloração em sua molécula, os
corantes tipo Azo dão origem a subprodutos tóxicos denominados 2-fenilbenzotriazol (PBTA).
2. Corantes azóicos
Os corantes são produtos químicos normalmente aplicados em solução, os quais se
fixam de alguma forma em um substrato.
As principais características dos corantes podem se resumir à estabilidade á luz,
distribuição uniforme, alto grau de fixação e resistência ao processo de
lavagem. Essas características essenciais aos corantes somente foram conseguidas com o surgimento dos
corantes sintéticos. Atualmente, todos os corantes e pigmentos comerciais são substâncias
sintéticas, com exceção de alguns pigmentos orgânicos (Carreira, 2006).
Todavia, sua proporção de fixação pode variar entre 60 a 90%, razão pela
qual quantidades substanciais são lançadas em efluentes industriais (Pelegrini et al.,
1999).
Corantes sintéticos são amplamente utilizados para fins de tingimento pela indústria
têxtil e apresentam uma considerável diversidade estrutural. A molécula do corante
utilizada para tingimento de fibras pode ser dividida em duas partes principais, o grupo
cromóforo e a estrutura responsável pela fixação à fibra (Kunz et al.,
2002). Os corantes podem ser classificados de acordo com o grupamento cromóforo, sendo mais relevantes
os compostos azóicos, antraquinonas, nitro e quinolinas (Gregory, 1990) ou de acordo com o
método pelo qual são fixados às fibras: ácidos, diretos, básicos, de
enxofre e reativos.
Os corantes reativos com grupo azo, pelas suas características de brilho e solidez, e por cobrirem um
largo espectro de tonalidades, predominam em quase todas as aplicações no processamento
têxtil (Robinson et al., 2001), com participação em cerca de 50 a 65% das
formulações comerciais (Chung; Stevens, 1993) (Kunz et al., 2002) (Rafii et al., 1997).
Apresentam o grupo azo (-N=N-) em sua composição, que se unem principalmente aos grupos benzeno
e naftaleno, em alguns casos se unem à heterociclos aromáticos. Os naftóis, corantes mais
comuns que possuem a ligação azo, são usados especialmente nas cores vermelho, amarelo e
laranja. São empregados em fibras celulósicas, e apresentam grau de difícil
remoção no tratamento dos efluentes (Kunz et al., 2002).
Entre os diferentes tipos de corantes existentes no mercado, os que apresentam maior toxicidade são os
do grupo azo, pois o meio redutor se apresenta como um ambiente propício para a clivagem redutiva nos
anéis aromáticos e conseqüente formação de aminas aromáticas com
potencial carcinogênico e mutagênico (Pinheiro et al., 2004).
3. Formação de (non-CLPBTA) e (PBTA)
Atividade mutagênica para Salmonela typhimurium TA 1538, TA 98 e YG1024 na presença de
ativação metabólica, foi relatada no rio Yodo no Japão (Maruoka et al., 1982)
(Nakamuro et al., 1989) (Sayato et al., 1990). Sakamoto e Hayatsu (1990) coletaram amostras de água dos
rios Nishitakase e Katsura, afluentes do rio Yodo, que se mostraram altamente mutagênicas a jusante de
estações de tratamento industrial e doméstico, o que sugeriu que compostos descartados em
água tratada estavam contribuindo para a mutagenicidade do rio Yodo.
Em estudos seguintes foram isolados cinco compostos mutagênicos (Nukara et al., 1997). Em estudos de
síntese dos tipos de 2-fenilbenzotriazois:
2-[2-(acetil-amino)-4-[bis(2-metoxietil)amino]-5-metoxifenil]-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol
(PBTA-1) (Shiozawa et al., 1998), 2-[2-(acetilamino)-4-[N-(2-cianoetil)etilamino]-5
metoxifenil]-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol (PBTA-2) (Oguri et al., 1998),
2-[2-(acetilamino)-4-[(2-hidroxietil)amino]-5-metoxifenil]-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol
(PBTA-3) (Shiozawa et al., 2000), 2-[2-(acetilamino)-4
amino-5-metoxifenil]-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol (PBTA-4) (Nukaya et al., 2001),
2-[4-[bis(2-acetoxietil)amino] -2 -(acetilamino) -5 -metoxifenil]
-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol (PBTA-5) (Watanabe et al., 2001),
2-[2(acetilamino)-4-(dietilamino)-5-metoxifenil]-5amino-7bromo-4-cloro-2H-benzotriazol (PBTA-7) e
2-[2(acetilamino)-4-(dialilamino)-5-metoxifenil]-5amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol (PBTA-8)
(Watanabe et al., 2002) demonstraram que os PBTAs são formados a partir da redução de
corantes azóicos por hidrossulfito de sódio formando intermediários não clorados e
após sucessivas etapas de cloração com ácido hipoclórico, é gerado o
PBTA. No meio ambiente aquático, a presença dessas substâncias pode ocorrer, inicialmente,
através do tratamento do efluente têxtil com hidrossulfito, utilizado para a
remoção da cor, gerando os PBTAs não clorados (non-ClPBTA). Esse efluente, agora sem cor,
enviado a uma estação de tratamento de esgoto municipal, que clora seus efluentes antes de
liberá-los para os corpos d'água poderá gerar os PBTAs.
O
2-[2-(acetilamino)-4-[bis(2-hidroxietil)-amino]-5-metoxifenil]-5-amino-7-bromo-4-cloro-2H-benzotriazol
(PBTA-6) foi sintetizado a partir da utilização de hidróxido de sódio na
molécula de (PBTA-5) (Watanabe et al., 2001). Portanto, o (PBTA-6) consiste em um produto de
hidrólise do (PBTA-5) no ambiente aquático.
Vários PBTAs diferentes já estão descritos na literatura, e suas estruturas
químicas variam de acordo com o corante que os originou. Na Tabela 1 estão descritos os PBTAs
estudados até o momento e seus corantes precursores.
Watanabe (2002) menciona que os PBTAs-1 a 4, provavelmente possuem parte de sua molécula muito
semelhante ao corante Disperse Blue 79:1, por esta razão estas substâncias tóxicas podem
ser derivados deste corante.
4. Estudos toxicológicos
Vários estudos tem sido realizados com o objetivo de identificar novos PBTAs que exerçam
efeitos tóxicos bem como seus mecanismos de toxicidade.
O composto químico PBTA é uma amina aromática produzida através de uma
redução, gerando uma forma não clorada de PBTA e conseqüentemente sofre uma
cloração através de um ataque do íon Cl- na terminação azo do
corante azóico (Shiwozawa et al., 1998). Aminas aromáticas apresentam conhecida atividade
mutagênica (Ohe et al., 2004). Este composto, o PBTA, com o átomo de cloro apresenta maior
mutagenicidade que seus precursores (Matsuoka et al., 2001).
A maior parte dos estudos realizados em relação a seus efeitos tóxicos foram efetuados
no Japão.
O primeiro trabalho demonstrando a estrutura de um PBTA foi realizado por Shiwozawa et al. (1998) em um
estudo realizado no rio Nishitakase em Kyoto, Japão, coletaram água deste rio a jusante de uma
estação de tratamento e isolaram 5 compostos com efeitos mutagênicos pela técnica
de cromatografia líquida de alta eficiência ou CLAE. Dentre estes compostos, uma nova estrutura
de amina aromática mutagênica foi determinada,
2-{2(acetylamino)-4-[bis(2-methoxyethyl)amino]-5-methoxyphenyl]-5-amino-7-bromo-4-chloro-2h-benzotrialoe
(PBTA1) e isto sugere que este composto é derivado de corantes usados em industrias têxteis.
Posteriormente, em estudo realizado pelo mesmo grupo (Shiwozawa et al., 1999), no mesmo rio, também
verificou-se a presença de PBTA1. Este composto apresentou atividade mutagênica em Salmonella
typhimurium TA 98 com a presença da fração S9.
Outros 7 tipos e compostos com estruturas parecidas com o PBTA 1 foram isolados e denominados de PBTA2,
PBTA3, PBTA4, PBTA5, PBTA6, PBTA7e PBTA8, todos eles apresentando elevada atividade mutagênica (Watanabe
et al., 2001).
Matsuoka et al. (2001) realizaram testes de mutagenicidade em duas linhagens de células de hamster
chinês (CHL e V79-MZ) e observaram que tanto o composto PBTA2, seu precursor PBTA2 não clorado
bem como o corante que originou os compostos foram altamente mutagênicos e citotóxicos.
A presença de PBTAs bem como seus precursores nas águas para consumo humano pode levar a uma
grande variedade de desordens genéticas no homem, tais como: cânceres, envelhecimento precoce,
redução de fertilidade e predisposições a vários tipos de doenças.
A exposição a alguns corantes azóicos tem sido relacionada ao desenvolvimento de
câncer de bexiga, sarcomas esplênicos, hepatocarcinomas, anomalias celulares e
aberrações cromossômicas (Patterson; Butler, 1982) (Percy et al., 1989) (Rafii et al.,
1997). Estes efeitos podem ser devidos à ação direta dos corantes nas células ou
à formação de produtos do metabolismo decorrentes da redução da
ligação azo. A azo redução em mamíferos é catalisada por enzimas
hepáticas (Martin; Kenelly, 1981) e por atividade da enzima azoredutase de bactérias intestinais
sob condições anaeróbicas (Joachim et al, 1985) (RafiI et al., 1997).
De Lima et al. (2007) demonstraram em um estudo realizado no Brasil que a água do Ribeirão dos
Cristais no estado de São Paulo após a descarga de efluentes de uma indústria
têxtil localizada próxima ao rio, apresentava quantidades significativas de corantes
azóicos. Foram realizados testes de carcinogenicidade em ratos Wistar e os resultados obtidos
demonstraram que houve um aumento no número de criptas aberrantes do intestino delgado destes animais,
as quais são consideradas lesões pré-neoplásicas. Deste modo, o intestino delgado
é um possível órgão alvo de carcinogênese pela exposição a
corantes azóicos.
Em relação ao ambiente, além dos danos de natureza patológica, o contado de
animais ao PBTA podem acarretar vários prejuízos como a extinção da
espécie, devido a uma mutação nas células germinativas e conseqüentemente uma
incompatibilidade reprodutiva bem como o aparecimento de novas espécies devido a variabilidade
genética gerada pelas mutações, levando desta maneira, a um desequilíbrio em um
determinado nicho ecológico qualquer.
5. Conclusões
Frente ao fato de que corantes azóicos bem como seus metabólitos apresentam proeminente
atividade mutagênica e carcinogênica, e que a maioria dos estudos realizados a respeito destes
corantes e subprodutos foram realizados no Japão, torna-se necessário mais estudos relacionados
a estes compostos principalmente no Brasil, para que se possa compreender melhor seus mecanismos de
ação, bem como, estabelecer medidas profiláticas e/ou de remediação no
sentido de minimizar as conseqüências relacionadas à sua exposição.
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