1. Introdução
O estado de Minas Gerais é o maior produtor de café do Brasil, em 2011 foram produzidas 25
milhões de sacas de 60 kg beneficiadas, incluindo café arábica e robusta (CONAB, 2012). A
cafeicultura mineira tem grande importância econômica e social como geradora de empregos e como
fixadora de mão de obra no meio rural. O parque cafeeiro mineiro abrange mais de 90 mil propriedades
em, aproximadamente, 60% dos municípios do estado, ou seja, 510 municípios (ROMANIELLO et al.,
2003).
É indiscutível o papel histórico que a cafeicultura desempenhou – e ainda
desempenha na economia e no desenvolvimento do estado. Entretanto, a constante regulamentação do
setor ao longo do tempo implicou em alguns efeitos secundários como o estímulo à
ineficiência, o despreparo tecnológico e gerencial e o aumento da produção mundial,
devido à entrada de novos países produtores no mercado internacional de café.
Ademais, nas últimas décadas, devido ao dinamismo das transformações da economia
e do comércio mundial, a cafeicultura é um dos segmentos do agronegócio brasileiro que
têm enfrentado dificuldades para manter a sustentabilidade.
A sustentabilidade é imprescindível para a cafeicultura atual e deve ser abordada integralmente
para ser alcançada. O produtor deve se profissionalizar, ou seja, deve adotar todas as técnicas
e procedimentos modernos de gestão, de modo que produza com eficiência, buscando escala e
redução de custos, qualidade e adequação às exigências legais e do
mercado.
Dentre outros métodos, os produtores terão que se apoiar em indicadores que expressam a
situação financeira das empresas, e utilizar estratégias eficientes de
comercialização para obtenção de rentabilidade máxima a um nível
mínimo de risco.
Para amparar a sustentabilidade financeira da cafeicultura, foco deste trabalho, a gestão de riscos se
torna imprescindível. Ela é um processo que deve considerar variáveis financeiras da
empresa e de mercado, principalmente o fluxo de caixa, os custos de produção e o preço do
café. A gestão de riscos eficiente aumenta os resultados econômicos e diminui a
variabilidade dos retornos (COSTA, 2011).
No Brasil, estudos ligados à gestão de riscos das propriedades cafeeiras vêm sendo
exploradas recorrentemente, dentre eles, Fontes et al (2005), REIS et al (2005), Costa
et al (2012), Costa et al (2013), Lima et al (2012), Amaral (2011), Arêdes e
Pereira (2008), Lanna e Reis (2012) e Siqueira et al (2011). Em tais estudos, os autores determinaram
fronteiras de eficiência econômica e produtiva, a viabilidade econômica e financeira e a
efetividade da utilização de estratégias de comercialização na atividade.
Todos estes estudos corroboram a necessidade do gerenciamento eficiente por parte dos empresários
rurais da cafeicultura para a sobrevivência em um ambiente cada vez mais complexo e dinâmico.
A cafeicultura é desenvolvida em diferentes regiões de Minas Gerais. Cada uma delas apresenta
diversidade em termos de variáveis que impactam nos seus resultados. As características
geográficas, edafoclimáticas, de manejo, gerenciais, de mercado e os pacotes tecnológicos
das localidades interferem na sustentabilidade econômico-financeira. Neste sentido,
avaliações da cafeicultura que abarquem tais discrepâncias regionais se fazem
necessárias para o mapeamento do setor em termos de resultados financeiros.
Na maioria dos casos, os trabalhos não tratam de forma específica os diferentes sistemas
produtivos da cafeicultura. Resultados encontrados em algumas condições não se aplicam a
realidades distintas. A proposta deste trabalho é a análise da atividade por estratos
(agrupamentos de produtores de café com sistemas de produção semelhantes).
Na produção de café, alterações na alocação dos recursos, no
manejo e no mercado, interferem na qualidade da produção e nos resultados da atividade.
Portanto, se faz necessário um estudo que aplique a gestão de riscos a diferentes sistemas
produtivos de Minas Gerais. A obtenção de tais resultados pode se tornar um diferencial na
avaliação da sustentabilidade da cafeicultura mineira.
O objetivo do trabalho é verificar o impacto da gestão de riscos nos resultados financeiros da
cafeicultura em Minas Gerias na safra 2011/12.
Especificamente pretende-se:
- Descrever os custos de produção e os resultados financeiros da cafeicultura em diferentes
sistemas de produção;
- Verificar o impacto do hedge de venda na margem líquida da cafeicultura em diferentes
regiões.
2. Referencial Teórico
O referencial teórico aborda a gestão de riscos e suas partes componentes aplicadas à
cafeicultura.
2.1 Gestão de Riscos
Segundo Gitman (2004), risco é a variabilidade associada à obtenção de retorno
sobre algum investimento, ou seja, levando-se em consideração a possibilidade do retorno
não existir, o risco é a probabilidade de haver retorno.
Markowitz (1952) afirmou que existem basicamente dois tipos de risco: sistemático e não
sistemático. O primeiro, afeta a economia como um todo, de forma que não é
possível eliminá-lo através de estratégias de diversificação. O
segundo afeta somente uma determinada empresa ou setor, e este sim pode ser reduzido a um valor
aceitável, conforme a teoria de carteiras ou do portfólio.
Na conjuntura da produção de café, o risco principal a ser observado é o risco
não sistemático, ou específico, que afeta pontualmente o café e seu mercado. Esse
risco pode ser mitigado, com uma gestão financeira e de custos efetivos e com a
estruturação de uma carteira de comercialização composta, em diferentes
proporções, de alternativas de comercialização disponíveis. Portanto, a
gestão financeira como base do planejamento da comercialização do café é um
mecanismo de gestão de risco não sistemático para os participantes do mercado cafeeiro
que precisam de um horizonte de planejamento, segurança para a comercialização e o
financiamento da produção.
A gestão de riscos é um processo amplo e complexo. Amplo por ser composto de diversas
alternativas de procedimentos e complexo, porque para ser bem sucedido deve ser função de
algumas variáveis, dentre elas as mais importantes são: preço do café,
variáveis financeiras (fluxo de caixa e custo do produto a ser vendido) ambas microeconômicas.
Essas variáveis devem ser analisadas em conjunto e considerando o fator tempo, para, assim, embasarem a
elaboração da estratégia de comercialização mais adequada para o aumento do
lucro e diminuição do risco (COSTA, 2011).
2.1.1 Gestão de Custos
Esse procedimento permite avaliar a capacidade de gerar lucro da empresa rural, o que pode ser resumido como
a capacidade de pagar por todos os recursos destinados à produção e recompensar o
empresário pela decisão de continuar produzindo determinado produto em detrimento de outros
investimentos alternativos. Ao se analisar o custo de produção, boa parte das causas do sucesso
ou insucesso do negócio é detectada, o que proporciona decisões mais acertadas acerca do
desempenho operacional e organizacional da empresa rural (REIS, 1999).
A estrutura da cadeia produtiva tem exigido maior eficiência do processo produtivo, o qual é
composto de setores intrinsecamente relacionados, que devem, portanto, culminar em resultados financeiros
favoráveis e, assim, gerarem lucro. Os indicadores setoriais devem ser avaliados periodicamente para se
adequarem às novas demandas do resultado financeiro, já que ele representa a vitalidade da
empresa e todos os outros indicadores têm nele sua razão de existir.
Segundo Costa (2013), para atingir as metas relativas a custos e produtividade e, consequentemente, lucros,
os gestores devem decompor os indicadores globais em específicos, estabelecendo medidas capazes de
orientar as ações. Por meio da decomposição do processo produtivo em suas partes
constitutivas, o custo de produção orienta a análise de eficiência da
produção, integral ou setorialmente. Ao mesmo tempo, fornece informações
extremamente relevantes, que permitem uma avaliação mais aprofundada da situação,
o que resulta em decisões mais eficazes.
Na gestão da cafeicultura, os indicadores de custos, de eficiência produtiva, devem ser apurados
especificamente por talhões produtivos. Esse procedimento propicia aos gestores verificarem quais
glebas mais contribuem com os resultados positivos, as que multiplicam os recursos empregados, e as que geram
prejuízos. Ao contrário dos indicadores gerais, os indicadores específicos ensejam a
ação visando à resolução dos problemas, o que não é
possível de outro modo. Nesse mesmo sentido é importante que valores médios sejam
utilizados com cautela, pois eles são carregados de distorções, que podem conduzir a
análises sem validade (COSTA, 2013).
2.1.2 Estratégias de Comercialização
Segundo Fontes et al. (2005), diversas estratégias, isoladas ou conjuntas, podem ser utilizadas pelos
empresários cafeicultores para comercializar o café, porém, o processo de
comercialização do mesmo é feito basicamente com o produto físico, em que os
cafeicultores vendem diretamente para os compradores ou utilizam a intermediação da cooperativa
para a venda. A comercialização do café em mercados derivativos, por bolsa de mercadorias
ainda é pouco usada, mas vem ganhando importância, pois, com a tendência da
profissionalização da cafeicultura, a utilização de mecanismos que garantam
preços para os cafeicultores, será cada vez mais ampliada.
2.1.2.1 Mercados Futuros
Os contratos futuros constituem compromissos de compra ou venda de um determinado ativo numa data
pré-estabelecida e a um preço (cotação) que reflete as forças de oferta e
demanda que atuam naquele momento. Tais mercados são aqueles que propiciam a transação de
contratos nos quais compradores e vendedores definem acordos de realização de negócios
futuros de produtos específicos a preços pré-estabelecidos. O intuito na
realização de negócios para o futuro é a redução de riscos advindos
de flutuações de preços que, no caso do setor agrícola, são bastante
acentuados (HULL, 1996).
Os mercados futuros possibilitam alternativas variadas de instrumentos de comercialização de
produtos agropecuários. Dependendo do tipo de contrato comercializado, eles atendem pelo menos a uma
das seguintes funções: proteção contra variação adversa de
preço; e garantia de mercado (AGUIAR, 1999).
A principal finalidade do mercado futuro é a fixação de preço da commodity
eliminando o risco da variação, pois há uma interrelação de
interferência entre os preços futuros e os preços à vista do mercado físico.
Quando o cafeicultor busca a comercialização no mercado futuro, ele procura realizar o
hedge, que consiste no ato de defesa contra variações futuras adversas no preço.
Os hedgers são agentes de mercado que têm interesse na commodity negociada.
Podem ser cafeicultores, beneficiadoras, torrefadoras, exportadores, etc. Para a realização do
hedge é necessário que existam agentes dispostos a correr o risco da
variação de preço, pois o que ocorre com o hedge é a transferência
do risco de variação do preço da commodity para outros hedgers ou
outros agentes dispostos a assumir tal risco, os especuladores.
Porém, a utilização de tais mercados ainda não é a realidade na
cafeicultura de muitas regiões mineiras. Em um estudo realizado nas regiões sul e sudoeste de
Minas Gerais, Costa (2011) comprovou que os cafeicultores carecem de conhecimentos e de ferramentas visando
à eficácia na comercialização do café. O mercado futuro ainda é
pouco utilizado pelos produtores.
Por meio dos mercados futuros produtores de diferentes regiões e sistemas produtivos podem otimizar o
planejamento da comercialização do café com base nos dados da gestão financeira
das propriedades, reduzir os riscos da atividade, além de aumentar a rentabilidade do negócio.
3. Metodologia
3.1 Área de estudo e fonte de dados
Os dados referentes às propriedades cafeeiras pertencem ao Centro de Inteligência em Mercados
(CIM) da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Ao todo foram estudadas 32 propriedades, localizadas em duas
mesorregiões de Minas Gerais na safra 2011/12, Cerrado e Sul de Minas.
Os dados das propriedades são recebidos pelo CIM e inseridos em uma plataforma de gestão, de
forma a gerar informações de custos de produção aos produtores de café.
São confeccionados relatórios individuais, que auxiliam no processo de gestão das
propriedades.
Para a coleta de dados, são utilizadas planilhas contendo todos os itens necessários ao
processo de geração dos relatórios de custos. Elas fornecem informações de
cadastro de talhões (unidades produtivas das propriedades), os inventários das propriedades e
custos com: operações realizadas no ano agrícola, funcionários fixos e eventuais,
insumos, máquinas e implementos, veículos, benfeitorias, gastos administrativos, custos
indiretos com colheita e pós-colheita, com a comercialização e preços de venda da
produção.
Para propiciar a gestão das propriedades, o CIM, utiliza-se do benchmarking
(comparação entre produtores), para que a melhoria contínua seja atingida por meio
de metas de eficiência. Para a geração das metas, agrupam-se os talhões com
características semelhantes por meio de um processo de estratificação. Todos os
talhões inseridos na plataforma de gestão são agrupados em estratos, de acordo com
características regionais, agronômicas e de manejo como: mesorregião, nível de
mecanização, espaçamento utilizado, variedades, utilização
irrigação, dentre outras.
Para este trabalho, a estratificação será a forma utilizada para o estudo dos resultados
finaceiros e dos impactos do hedge na margem líquida dos cafeicultores com diferentes sistemas
de produção. De acordo com os dados disponíveis foram formados quatro estratos,
classificados de acordo com a mesorregião da propriedade, nível de mecanização e
utilização de estrutura de irrigação.
3.2 Metodologia de cálculo dos Custos de Produção
A metodologia utilizada nos cálculos de custos considera o Custo Operacional Total (COT). Foram
estimados os custos com operações agrícolas e com material consumido, totalizando os
Custos Operacionais Efetivos (COE). O COE é composto pela soma dos Custos Diretos (CD), que considera
os fatores dispendiosos e diretamente ligados ao setor produtivo (talhão), englobando mão de
obra, máquinas e insumos; e pelos Custos Indiretos (CI), que seriam os custos, na maioria das vezes,
menos representativos e indiretamente ligados ao processo produtivo, tratados como “Gastos Gerais”
nas análises dos resultados da pesquisa. O COT contém, além do COE, a
depreciação de máquinas, equipamentos e benfeitorias.
Não são considerados custos de oportunidade imputados à atividade produtiva que visem
à remuneração do capital fixo em terra, instalações e máquinas que,
somados ao COT, representariam os Custos Totais de Produção (CT). Os custos com
remuneração do proprietário e com a depreciação das lavouras também
não são considerados, devido ao fato de serem de difícil padronização, o
que não se adéqua a proposta do CIM, o benckmarking entre pares de produtores.
Para a mensuração dos Custos Diretos (CD), são discriminados os custos com mão de
obra, fixa e eventual nas propriedades. São calculados os dispêndios com insumos de diferentes
categorias, como fertilizantes (adubos de solo e corretivos – os últimos foram inseridos neste
grupo devido a pequena participação no COT), agroquímicos (fungicidas, inseticidas,
herbicidas e adjuvantes), além de custos com mecanização, máquinas próprias
e alugadas.
Os Custos Indiretos (CI) ou “Gastos Gerias” são formados por gastos que não
são vinculados diretamente aos talhões produtivos, como custos com escritório, despesas
com contabilidade, energia elétrica, energia de irrigação, telefone, juros de
financiamentos, gastos com benfeitorias, IPVA, ITR, sindicato, despesas bancárias, fretes de
café e custos de colheita e beneficiamento, dentre outros. Eles apropriados aos talhões mediante
rateio.
3.3 Cotações de café
Os preços de referência do café no mercado Spot
(Físico) foram obtidos por meio de consultas diretas nas regiões analisadas, e corresponderam
à espécie Coffea arabica L. - Café Arábica -, classificado como
“tipo 6”, e sensorialmente como “bebida dura”. Estes dados foram obtidos pelo Projeto
Campo Futuro, uma iniciativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e
Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), e executado pelo CIM/UFLA.
As cotações utilizadas nas simulações de hedge corresponderam aos
valores registrados pela Bolsa de Mercadorias e Futuros - BM&FBovespa - nos meses de fevereiro e setembro
de 2012, tendo como referência o contrato futuro para entrega neste último mês (ICFU12).
Foi considerada a realização de um hedge de venda, não sendo computadas as
despesas operacionais da negociação. Pelo fato de utilizar as cotações futuras
médias dos meses em análise, optou-se pela demonstração apenas do ajuste sobre as
cotações, sem a caracterização do número de contratos e montante total
envolvido da negociação.
3.4 Margem líquida
Os resultados das condições de mercado e rendimento da empresa agrícola (ou atividade
produtiva) são medidos pelo preço do produto ou pela receita média. Comparando-se a
receita média ou o preço com os custos totais médios obtém-se a análise
econômica da atividade em questão por unidade produtiva (Reis, 2007).
A receita representa o resultado da atividade em valores monetários. Corresponde a
multiplicação do preço pela quantidade produzida (Pxq). Comparando-se a receita total com
os custos operacionais totais (COT), tem-se a margem líquida do empreendimento.
Nas análises considerar-se-á a margem líquida obtida pelos cafeicultores com a
comercialização do café no mercado físico. Posteriormente, os resultados obtidos
serão comparados com os obtidos pela utilização do hedge de venda no mercado
futuro.
4. Resultados e Discussão
A seguir serão apresentados os custos de produção e a margem líquida da
cafeicultura em diferentes sistemas produtivos. As análises comparativas demonstrarão as
diferenças na eficiência quanto à utilização dos fatores produtivos nas
regiões estudadas. Além disso, analisar-se-ão os impactos do hedge de venda na
margem líquida da cafeicultura.
4.1 Sul de Minas Gerais
O Sul de Minas Gerais é a maior região produtora de café do estado e do Brasil, com
cerca de 37.000 propriedades cafeeiras, área cultivada de 516 mil hectares. Em 2012 sua
produção chegou a 13,79 milhões de sacas na região, cerca de 36% da
produção nacional de arábica (CONAB, 2013). O relevo montanhoso é ideal para
produção de café. A altitude varia de 950 a 1.300 metros e a temperatura anual permanece
em torno de 22 a 24ºC. Predominam na região pequenas e médias propriedades cafeeiras.
Tabela 1 - Descrição do Estrato 1.
|
Estrato (1)
|
Sul de Minas, Manual, Não irrigado
|
|
Tamanho médio das propriedades
|
5,24
|
|
Produtividade média
|
31,87
|
Fonte: Dados da pesquisa
O Estrato 1 é composto por propriedades localizadas no Sul de Minas Gerais, com o tamanho médio
de 5,24 hectares, com as operações realizadas de forma manual, sem irrigação e que
produzem em média 31,87 sacas de café por hectare de lavoura.
A produtividade corresponde à média das unidades produtivas estudadas neste estrato. Sabe-se
que o café apresenta um ciclo bienal de produção, entretanto, o presente trabalho busca
estudar os efeitos da gestão de riscos apenas na safra 2011/12.
Tabela 2 - Discriminação dos custos de produção e
margem líquida da cafeicultura - Estrato1
|
INDICADORES
|
R$/hectare
|
R$/saca
|
%
|
|
Pessoas
|
2.942,02
|
92,31
|
25,32
|
|
Mecanização
|
6,21
|
0,20
|
0,05
|
|
Agroquímicos
|
868,75
|
27,26
|
7,48
|
|
Fertilizantes
|
3.475,00
|
109,04
|
29,91
|
|
Gastos Gerais
|
3.328,99
|
104,45
|
28,66
|
|
COE (A)
|
10.620,98
|
333,26
|
91,42
|
|
Depreciações (B)
|
996,29
|
31,26
|
8,58
|
|
COT (A + B)
|
11.617,27
|
364,52
|
100,00
|
|
Mercado Futuro fev/12 (venc. set/12)
|
-
|
476,70
|
-
|
|
Mercado Futuro set/12 (venc. set/12)
|
-
|
453,02
|
-
|
|
Mercado Spot (set/12)
|
-
|
388,00
|
-
|
|
Margem Líquida (Mercado Spot)
|
748,38
|
23,48
|
-
|
|
Margem Líquida (Com Hedge)
|
1.503,07
|
47,16
|
-
|
|
Ganho com a gestão de riscos
|
754,69
|
23,68
|
100,84
|
Fonte: Dados da pesquisa
Pela análise da tabela 2, observa-se que o Custo Operacional Efetivo (COE) da cafeicultura no Estrato1
é de R$ 333, 26 por saca de café produzida. Os custos com Pessoas na condução da
lavoura são responsáveis por aproximadamente é de 25,32% do COT. No total, a mão
de obra fixa e eventual representam R$ 92,31 por saca produzida neste estrato. A mecanização tem
uma participação pequena no COT. Já os Insumos (Fertilizantes e Agroquímicos)
correspondem ao grupo de custo mais representativo nos custos deste estrato, contribuindo com 37,39% do COT.
Somente os custos com fertilizantes somam R$109,04 por saca. Os Gastos Gerais e as depreciações
representam respectivamente R$ 104,45 e R$ 31,26 por saca.
O Custo Operacional Total (COT), resultante da soma entre o COE e as depreciações, totaliza R$
364,00 por saca. Portanto, a comercialização de café no mercado Spot
(Físico), gerou aos produtores uma margem líquida de R$ 23,48 por saca. A Margem líquida
positiva indica que vendendo o café no mercado físico os cafeicultores do Estrato 1 conseguiriam
arcar com todos os custos operacionais no ano produtivo e com a reposição da capacidade
produtiva das propriedades em longo prazo.
Entre 2011 e 2012, houve uma queda considerável das cotações do café,
influenciada principalmente pelas perspectivas de aumento na produção do Brasil e pela crise
financeira na Europa. Algumas ações poderiam ter diminuído o impacto das baixas
cotações e aumentado a margem líquida da atividade.
Considerando as cotações registradas em fevereiro de 2012 na BM&F Bovespa, se o produtor
realizasse um hedge de venda (não foram computadas as despesas operacionais desta
negociação), a Margem Líquida se elevaria em R$ 754,69 por hectare de lavoura, em
setembro de 2012.
Tabela 3 - Descrição do Estrato 2.
|
Estrato (2)
|
Sul de Minas, Semi-mecanizado, Não irrigado
|
|
Tamanho médio das propriedades
|
10,31
|
|
Produtividade média
|
35,35
|
Fonte: Dados da pesquisa
O Estrato 2 é composto por propriedades localizadas no Sul de Minas Gerais, semi-mecanizadas e que
não utilizam irrigação, com o tamanho médio de 10,31 hectares e que produzem em
média 35,5 sacas por hectare de lavoura.
Tabela 4 - Discriminação dos custos de produção e
margem líquida da cafeicultura – Estrato 2
|
INDICADORES
|
R$/hectare
|
R$/saca
|
%
|
|
Pessoas
|
1.918,56
|
54,27
|
21,73
|
|
Mecanização
|
981,98
|
27,78
|
11,12
|
|
Agroquímicos
|
633,31
|
17,91
|
7,17
|
|
Fertilizantes
|
2.644,56
|
74,80
|
29,95
|
|
Gastos Gerais
|
1.889,50
|
53,45
|
21,40
|
|
COE (A)
|
8.067,92
|
228,20
|
91,38
|
|
Depreciações (B)
|
761,00
|
21,53
|
8,62
|
|
COT (A + B)
|
8.828,92
|
249,73
|
100,00
|
|
Mercado Futuro fev/12 (venc. set/12)
|
-
|
476,70
|
-
|
|
Mercado Futuro set/12 (venc. set/12)
|
-
|
453,02
|
-
|
|
Mercado Spot (set/12)
|
-
|
388,00
|
-
|
|
Margem Líquida (Mercado Spot)
|
4.888,44
|
138,27
|
-
|
|
Margem Líquida (Com Hedge)
|
5.725,63
|
161,95
|
-
|
|
Ganho com a gestão de riscos
|
837,08
|
23,68
|
17,13
|
Fonte: Dados da pesquisa
No Estrato 2, como mostra a tabela 4, o COE corresponde a R$ 228,20 por saca, sendo R$ 105,06 por saca
inferior ao do Estrato 1. A maior utilização de máquinas na atividade faz com que os
custos com pessoas diminuam em relação ao Estrato 1, que possui um custo maior em R$ 54,27 por
saca com mão de obra.
Os gastos com insumos, que totalizavam R$ 136,30 no Estrato 1, correspondem a R$ 92,71 no Estrato 2.
Comparados ao Estrato 1, os Gastos Gerais e a depreciação também caíram para R$
53,41 e 21,53 por saca, respectivamente. O COT do Estrato 2 soma R$ 249,73 por saca, sendo R$ 114,79 menor em
relação ao estrato 1.
São notadas diferenças significativas entre os indicadores de custos dos Estratos 1 e 2. Apesar
das propriedades pertencerem à mesma região, os diferentes sistemas produtivos fazem com os
cafeicultores tenham resultados contrastantes.
A primeira consideração a ser feita é que em média as propriedades do Estrato 2
têm o dobro de tamanho. Uma maior área produtiva pode diluir custos fixos e gastos gerais da
atividade.
Outro fator preponderante é a maior produtividade por hectare do Estrato 2, que gera economia de
escala, diminuindo o custo por saca produzida. Com relação aos insumos, a
utilização de máquinas pode contribuir para que suas aplicações sejam mais
uniformes e com melhor rendimento em relação à aplicação manual. Tais
fatores acarretam maior eficiência na utilização dos fertilizantes e agroquímicos,
diminuição de desperdício e um possível aumento da produtividade da lavoura.
Todos estes fatores contribuem com aumento da margem líquida. Por meio da
comercialização no mercado físico, os cafeicultores deste estrato obtiveram uma margem
líquida de R$ 138, 27 por saca, totalizando R$ 4.888,44 por hectare. Este valor é
aproximadamente seis vezes maior do que a margem líquida por hectare do Estrato 1.
Por meio do hedge de venda os resultados seriam ainda mais positivos, já que a margem
líquida por hectare se elevaria em R$ 837,08. Assim como no Estrato 1, o impacto da gestão de
riscos nos resultados financeiros do Estrato 2 são significativos.
4.2 Cerrado Mineiro
Na região do Cerrado Mineiro, a temperatura média é de 18°C a 23°C. A
produção de café ocorre na altitude de 800 a 1.300 metros acima do nível do mar,
sob índice pluviométrico de 1.600 milímetros anuais e baixa umidade relativa do ar no
período da colheita. Somadas às características do relevo, essas são
condições favoráveis ao cultivo do café. São 155 mil hectares de
café plantados e, aproximadamente, 440 milhões de pés de café distribuídos
por 55 municípios que, juntos, produzem, em média, 3.500.000 sacas de 60 kg por ano (ORTEGA
& MOURO, 2007). A cafeicultura nessa região é caracterizada por seu alto nível
tecnológico, o que tem possibilitado altas produtividades e bebidas de excelente qualidade.
Tabela 5 - Descrição do Estrato 3.
|
Estrato (3)
|
Cerrado , Semi-mecanizado, Irrigado
|
|
Tamanho médio das propriedades
|
11,76
|
|
Produtividade média
|
57,27
|
Fonte: Dados da pesquisa
O Estrato 3 é composto por propriedades localizadas no Cerrado Mineiro com o tamanho médio de
11,76 hectares, semi-mecanizadas, com estrutura de irrigação e que produzem em média
57,27 sacas por hectare de lavoura.
Tabela 6 - Discriminação dos custos de produção e
margem líquida da cafeicultura – Estrato 3
|
INDICADORES
|
R$/hectare
|
R$/saca
|
%
|
|
Pessoas
|
1.033,44
|
18,05
|
6,91
|
|
Mecanização
|
2.102,68
|
36,72
|
14,06
|
|
Agroquímicos
|
2.105,56
|
36,77
|
14,08
|
|
Fertilizantes
|
4.980,28
|
86,96
|
33,30
|
|
Gastos Gerais
|
4.193,73
|
73,23
|
28,04
|
|
COE (A)
|
14.415,70
|
251,71
|
96,40
|
|
Depreciações (B)
|
538,23
|
9,40
|
3,60
|
|
COT (A + B)
|
14.953,93
|
261,11
|
100,00
|
|
Mercado Futuro fev/12 (venc. set/12)
|
-
|
476,70
|
-
|
|
Mercado Futuro set/12 (venc. set/12)
|
-
|
453,02
|
-
|
|
Mercado Spot (set/12)
|
-
|
387,50
|
-
|
|
Margem Líquida (Mercado Spot)
|
7.238,36
|
126,39
|
-
|
|
Margem Líquida (Com Hedge)
|
8.594,52
|
150,07
|
-
|
|
Ganho com a gestão de riscos
|
1.356,16
|
23,68
|
18,74
|
Fonte: Dados da pesquisa
O Custo Operacional Efetivo (COE) da cafeicultura no Estrato 3 é de R$ 251,71 por saca de café
produzida. Os custos com Pessoas na condução da lavoura correspondem a 6,91% COT, que
corresponde a R$ 18,05 por saca. A mecanização da lavoura custa R$ 36,72 por saca. Os
Fertilizantes e os Gastos Gerais detêm os percentuais mais elevados na participação do
COT, correspondendo a R$ 86,96 e R$ 73,23 por saca, respectivamente.
O COT do Estrato 3 soma R$ 261,11 por saca, R$ 14.953,93 por hectare. Mesmo apresentando custos por hectare
maiores do que as propriedades do Sul de Minas (Estratos 1 e 2) a produtividade elevada faz com que a
atividade apresente resultados financeiros mais satisfatórios. O sistema de produção do
Cerrado, mais propício à mecanização, tende a aumentar a eficiência das
operações, refletindo em ganhos produtivos.
Comercializando o café no mercado físico, os cafeicultores que compõem este estrato
obtiveram uma margem líquida de R$ 126, 39 por saca, totalizando R$ 7.238.36 por hectare. Por meio do
hedge de venda da produção, os resultados aumentariam para R$ 150,07 por saca e R$
10.324,66 por hectare. Com a gestão de riscos, os cafeicultores deste estrato elevariam seus ganhos por
hectare em R$ 1.356,16 por hectare.
Tabela 7 - Descrição do Estrato 4.
|
Estrato (4)
|
Cerrado, Mecanizado, Irrigado
|
|
Tamanho médio das propriedades
|
62,41
|
|
Produtividade média
|
65,82
|
Fonte: Dados da pesquisa
O Estrato 4 é composto de propriedades localizadas no Cerrado, mecanizadas, irrigadas, com o tamanho
médio de 62,41 hectares e que produzem em média 65,82 sacas por hectare de lavoura.
Tabela 8 - Discriminação dos custos de produção e
margem líquida da cafeicultura – Estrato 4
|
INDICADORES
|
R$/hectare
|
R$/saca
|
%
|
|
Pessoas
|
1.591,64
|
24,18
|
14,78
|
|
Mecanização
|
516,96
|
7,85
|
4,80
|
|
Agroquímicos
|
2.285,55
|
34,73
|
21,22
|
|
Fertilizantes
|
4.119,32
|
62,59
|
38,24
|
|
Gastos Gerais
|
1.510,63
|
22,95
|
14,02
|
|
COE (A)
|
10.033,49
|
152,45
|
93,14
|
|
Depreciações (B)
|
738,64
|
11,22
|
6,86
|
|
COT (A + B)
|
10.772,13
|
163,67
|
100,00
|
|
Mercado Futuro fev/12 (venc. set/12)
|
-
|
476,70
|
-
|
|
Mercado Futuro set/12 (venc. set/12)
|
-
|
453,02
|
-
|
|
Mercado Spot (set/12)
|
-
|
387,50
|
-
|
|
Margem Líquida (Mercado Spot)
|
14.731,42
|
223,83
|
-
|
|
Margem Líquida (Com Hedge)
|
16.289,94
|
247,51
|
-
|
|
Ganho com a gestão de riscos
|
1.558,51
|
23,68
|
10,58
|
Fonte: Dados da pesquisa
No Estrato 4, o COE corresponde a R$ 152,45 por saca. Os custos com pessoas somam R$ 24,18 por saca, devido
ao alto nível de mecanização deste sistema de produção. Os gastos com
mecanização correspondem a R$ 7,85 por saca e R$ 516,96 por hectare. Os gastos com insumos
totalizam R$ 97,32 por saca. Os Gastos Gerais e depreciação correspondem a R$ 22,95 e 11,22 por
saca, respectivamente.
Os dados mostram a eficiência na utilização dos recursos deste sistema, com custos
significativamente diluídos pela combinação de áreas maiores (permitindo a
diluição de custos fixos, entre outros) e altas produtividades. A mecanização
intensiva leva a uma maior racionalidade na condução da atividade, padronização
das operações e controle gerencial. Além de tais fatores, a utilização da
irrigação também contribui para que atividade tenha produtividades elevadas.
Todas essas características contribuem para a elevada margem líquida apresentada no estrato 4.
Comercializando a produção no mercado físico, os cafeicultores obtiveram a margem
líquida de R$ 223,83 por saca ou R$ 14.731,42 por hectare. Com a utilização do
hedge a margem líquida por hectare foi R$ 16.289,94 por hectare, uma aumento de 10,58% nos
ganhos.
5. Conclusões
Existem diferenças significativas na utilização dos recursos produtivos entre os
estratos de cafeicultores estudados. As diferentes combinações das variáveis:
região das propriedades, o tamanho da área produtiva, a utilização de estrutura de
irrigação e, principalmente o nível de mecanização da lavoura, geram
resultados diferenciados com relação à produtividade e margem líquida da
cafeicultura. Devido à complexidade e diversidade da atividade, a análise por extratos se
mostrou conveniente.
Para os dados analisados, quanto maior o nível de mecanização, melhores foram os
resultados. Uma explicação coerente é a tendência de que as operações
sejam padronizadas, e que o cafeicultor consiga gerenciar de forma eficiente a atividade quando as
operações são mais automatizadas. Há de se considerar a importância social
da atividade quanto à geração de empregos nestas regiões, entretanto, a mão
de obra deve ser utilizada de forma eficiente para que os cafeicultores otimizem seus resultados.
O aumento da eficiência produtiva, por meio da gestão dos custos de produção
impacta significativamente nas margens líquidas. O melhor aproveitamento da mão de obra, dos
insumos e da mecanização acarreta em elevação na produtividade. Consequentemente,
alavancam-se as margens de lucro na medida em que os custos de produção por saca se diluem. Tais
condições puderam ser observadas, sobretudo na cafeicultura do Estrato 4.
O planejamento da comercialização também é um fator primordial no processo de
gestão de riscos. Os produtores devem avaliar as melhores alternativas disponíveis considerando
seus custos de produção. A utilização do hedge de venda é uma
alternativa interessante. Em todos os estratos analisados os resultados financeiros foram alavancados com a
venda futura do café. Há de se considerar que foram analisados dados de uma safra e que os
resultados deste estudo não podem ser extrapolados para outras realidades sem as devidas
adequações.
Outra forma de comercialização antecipada que merece atenção por parte dos
produtores para a gestão de riscos, é a troca de café por insumos. Esta
negociação se enquadra no Mercado a Termo, pois o preço do café é fixado no
momento da compra do insumo e o pagamento ocorre em uma data futura. Em estudos posteriores é
interessante a verificação da eficiência desta alternativa em conjunto com o
hedge de venda, já que o mecanismo também objetiva a trava de preço do
café e a redução dos riscos.
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