1. Introdução
A qualidade de energia elétrica está vinculada a um universo de anomalias que podem ocorrer no sistema
elétrico. As anomalias podem acontecer desde a geração de energia até as instalações internas da unidade
consumidora, podendo provocar inúmeras falha no sistema. As falhas podem ser definidas como qualquer alteração
que impeça a entrega de energia elétrica de qualidade ao cliente final (Franco, 2005).
(Redundante, sugiro retirar) A complexidade na eliminação dos distúrbios não está somente na quantidade de
possibilidades de ocorrência das amomalias e nos efeitos negativos que estas falhas podem ocasionar (Deckmann;
Pomilio, 2010).
Considerando a importância da confiabilidade no sistema elétrico de energia, conforme Borba, Vaz e Coelho
(2006), evidencia-se a necessidade de um método que indique qual a prioridade em termos de manutenção
corretiva.
Dentro da gestão da maioria das concessionárias de energia, não existe uma coerência no que se refere ao
planejamento da manutenção. Boa parte das manutenções, nas concessionárias, é programada através de critérios
que não seguem uma uniformidade. O planejamento da manutenção executado criteriosamente é um dos principais
fatores que podem determinar um alto índice de confiabilidade do sistema elétrico.
A confiabilidade do sistema elétrico é muito importante tanto para os clientes como para as concessionárias,
visto que para os clientes é fundamental a utilização da energia em seu dia a dia. Por outro lado a venda
deste produto é o que garante a continuidade da existência das empresas do mesmo ramo.
O presente artigo demonstra os resultados da aplicação de ferramentas da qualidade com a meta de reduzir o
número de interrupções e avarias nos equipamentos vinculados à rede de distribuição de energia elétrica. O
estudo proposto, ocorreuem um município atendido por uma concessionária de energia do estado do Rio Grande do
Sul.
2 Revisão Teórica
2.1 Sistema Elétrico de Distribuição
O sistema elétrico de distribuição de energia é composto de instalações e equipamentos elétricos que
possibilitam a distribuição de energia elétrica. A configuração deste sistema tem como objetivo o fornecimento
de energia ao cliente final (BORBA; VAZ; COELHO, 2006).
2.1.1 Interrupções no Sistema Elétrico de Energia
Uma interrupção no sistema elétrico significa a descontinuidade no fornecimento de energia elétrica a um
determinado cliente, ou a um conjunto deles (ANEEL, 2010).
A energia elétrica é diferenciada dos demais insumos industriais. Ela tem que estar disponível para consumo
sempre que é requerida, não tem como ser armazenada pelos clientes e também não pode ser transportada pelos
meios usuais de transporte. A qualidade de fornecimento da energia elétrica depende exclusivamente das
empresas que a produzem e distribuem (Kundur et al., 2010) e (SILVA et al., 2010).
A melhoria da qualidade de energia vem ao encontro à redução dos índices de interrupção no fornecimento, e
estes itens devem ser metas constantes para as concessionárias de energia (KAGAN e OLIVEIRA, 2008).
2.2 Ferramentas da qualidade
Pertence e Melleiro (2010) afirmam que as ferramentas de qualidade são métodos utilizados para indicar,
quantificar e avaliar as falhas que atrapalham o andamento dos processos produtivos de serviços e produtos.
Tais métodos, ou ferramentas, como são mais conhecidas, fazem parte de um conjunto de metodologias
estatísticas básicas utilizadas para a otimização de produtos, serviços e processos. As mesmas podem ser
consideradas como técnicas ou instrumentos utilizados para o alcance do objetivo proposto.
A aplicação demonstrada neste artigo foi baseada em ferramentas de melhoria de processos que são: (i)
Brainstorming, (ii) FMEA, (iii) Diagrama de Causa e Efeito.
2.2.1 Brainstorming
Segundo Leal et al. (2011) brainstorming é uma ferramenta de geração de ideias, que tem sido
utilizada com grande frequência nas organizações. Essa ferramenta apresenta uma grande adesão nos setores de
qualidade do corpo industrial brasileiro. O brainstorming é uma conversa com direcionamento específico para
solução de um problema, uma troca de sugestões sobre determinado tema. É um método cuja ideia principal
consiste na ausência de pré-julgamento. Logo, serão aceitas todas as sugestões. Está falando somente do
Brainstorming, não misturar.
2.2.2 FMEA
Failure Mode and Effect Analysis – FMEA significa Análise de Modos de Falha e seus Efeitos. Seu
conceito está relacionado à ferramenta utilizada para indicar onde pode ocorrer uma falha em um processo ou em
um equipamento. Esta ferramenta direciona as principais possibilidades de falhas, demonstrando o grau de
impacto de cada uma (Palady, 2007).
Carbone e Tippett (2004) afirmam que no desenvolvimento do FMEA são evidenciadas as possibilidades que podem
reduzir ou eliminar as possíveis falhas. Os dados de entrada são definidos por uma equipe multifuncional para
assegurar a confiabilidade.
Segundo Fernandes (2005), o potencial de risco em cada modo de falha está diretamente ligado ao seu impacto
ao cliente, logo, o potencial de risco representa a severidade, a probabilidade da sua detecção e a
probabilidade de ocorrência. O método que se utiliza para medir o risco de cada falha é a multiplicação dos
três fatores, isto é, o produto da ocorrência, severidade e detecção. O resultado do produto S x O
x D, vai de 1 a 1000 e denomina-se como número potencial de risco, ou Risk Potential Number
– RPN.
Na aplicação do FMEA do processo ou produto, devem-se verificar as possíveis falhas, indicar para cada uma
delas suas causas e seus efeitos. Em seguida, indica-se as atitudes tomadas para detecção e prevenção de
falhas e se compara relacionando “pesos” para avaliar os riscos de cada causa de falha (Leal;
PINHO; ALMEIDA, 2006).
Após análise do panorama apresentado pelo FMEA, devem-se aplicar as melhorias necessárias para redução das
falhas de acordo com o diagnóstico apresentado pela ferramenta (Palady, 2007) e (Miyazaky; Maneira; Assis,
2011).
2.2.3 Diagrama de Causa e Efeito
Diagrama de Causa e Efeito, também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Espinha de Peixe, auxilia na
indicação das causas de determinada falha de maneira hierárquica. (Sabino; Mariani Jr.; Sabino, 2011).
Miguel (2006) apud Fornari Jr. (2010) afirma que, em seu modelo básico, as causas são agrupadas
considerando a metodologia dos 6M, indicando falhas em máquinas, materiais, meio ambiente, métodos, mão de
obra, medidas. Contudo, o brainstorming e o diagrama de causa e efeito são ferramentas
complementares, porque incentivam a elaboração de planejamentos para o equacionamento de problemas.
3 Desenvolvimento
3.1 Cenário
Compreende dois municípios, Santo Antônio da Patrulha e Caraá, ambos abrangem uma vasta área de atendimento,
em um total de 1342,33 km², e possuem em torno de 20 mil clientes. Dentre estes destacam-se, em especial, as
fábricas de rapaduras, cachaça e de calçados, além de empresas do ramo metal-mecânico (CEEE, 2013).
A empresa possui 1.477 transformadores de distribuição de energia instalados em sua área de atendimento
(CEEE, 2013).
3.2 Determinação da demanda
Redução de interrupções e avarias em transformadores do sistema de distribuição de energia que tiveram maior
número de interrupções no ano de 2012, com base nas ferramentas da qualidade, Brainstorming, FMEA e Diagrama
de causa e efeito.
3.3 Amostra das Interrupções
A amostra foi baseada em interrupções e avarias de transformadores de distribuição da concessionária de
energia e tomará como base o ano de 2012, onde foram selecionados nove (9) transformadores que tiveram número
de atuações igual ou maior que cinco (5) interrupções. Os números apresentados equivaleriam a mais do que uma
interrupção a cada três meses.
3.4 Metodologia
A pesquisa realizada foi de natureza empírica e sua abordagem foi quantitativa. Segundo Boente e Braga (2004)
a pesquisa aplicada tem como principal finalidade a solução de um problema, demonstrando resultados práticos
em sua aplicação.
Foram utilizadas por base as seguintes ferramentas: FMEA, brainstorming, Diagrama de Causa e Efeito, e
Relatório de Atuações em equipamentos no sistema Elétrico de Distribuição de Energia.
4. Estudo Aplicado
4.1 Planejamento
O primeiro passo na aplicação da metodologia foi consultar, nos arquivos da concessionária, todas as
reclamações de falta de energia ocorridas no ano de 2012, selecionando transformadores que tiveram um número
de interrupções maior ou igual a cinco (5), critério que foi estabecido considerando que este número
equivaleria a mais de um atendimento de falta de energia por trimestre no mesmo transformador.
Em um segundo momento foram mapeadas e tabuladas todas as causas de interrupção de cada transformador de
distribuição e, após, foram classificadas por tipo. Para uma melhor seleção de avarias, classificaram-se as
mesmas como sendo, interferência vegetal, sobrecarga, condutor, entre outras.
Foi utilizada a técnica de brainstorming para verificar as causas das interrupções que constavam
como causa desconhecida, elo fusível ou avaria do transformador. Visto que as mesmas não são causas que
especifiquem realmente qual foi o elemento que occasionou a interrupção. Logo devem ser tratadas por outra
metodologia.
A Figura 1 apresenta as causas de interrupções e avaraia do transformador D, ilustrando de modo lógico as
sugestões indicadas durante a sessão de brainstorming.
Esta ilustração foi realizada com base no transformador D, considerando que foi o equipamento que teve um
maior número de interrupções entre os selecionados como amostra da pesquisa, além de ter ocorrido também uma
avaria no mesmo equipamento.
Figura 1 - Diagrama de Causa e Efeito TR D
Fonte – Dos autores
4.1.1 Etapa 3 – FMEA e Análise dos dados
Após a identificação dos motivos de interrupção dos transformadores e da avaria de um dos mesmos, foi
utilizada a ferramenta FMEA para determinação das causas prioritárias em termos de manutenção.
Na criação do FMEA foram utilizadas o número de interrupções para determinar o valor da variável Ocorrência;
já os valores de Severidade e Detecção foram pré-estabelecidos pela mesma equipe multidisciplinar que
determinou o Diagrama de Causa e Efeito.
4.1.2 Etapa 4 – Planejamento da Manutenção
Após análise realizada com base nos valores de RPN indicados no Quadro 1, que ilustra a ferramenta FMEA, foi
efetuado o planejamento da manutenção dos transformadores. Os valores de RPN mais elevados em cada
transformador foram destacados em negrito para facilitar a visualização. Estes valores foram recalculados
considerando como ficaram após a execução das manutenções, demonstrando a grande redução do risco potencial.
Quadro 1 – FMEA

Fonte – Dos autores
4.2 Execução
A partir da priorização das causas indicadas com os valores de RPN mais elevados pela ferramenta FMEA, foram
programadas as manutenções nos transformadores.
Estas manutenções foram executadas em campo pela Equipe de Manutenção de rede de distribuição, entre os meses
de abril e maio de 2013.
4.3 Análise dos Resultados
4.3.1 Análise
Foram coletados os dados de interrupções nos transformadores selecionados, após a execução das manutenções, e
houve considerável redução no número de interrupções. Na Figura 2 é apresentado o gráfico das interrupções em
transformadores de distribuição comparando as interrupções antes, e após as ações de manutenção corretiva.
Figura 2 – Gráfico interrupções x interrupções após ações
Fonte – Dos autores
A Figura 2 mostra que ocorreram interrupções apenas nos transformadores A, D e G, porém em todos os casos
houve redução do número de interrupções. Considerando a amostragem de junho a outubro de 2013, ocorreram uma
interrupção no trasnformador A ocasionada por descarga atmosférica, duas no transformador D oriundas de
interferência vegetal e uma interrupção no transformador G referente a ramal de ligação em curto-circuito
devido a desgaste na isolação do material.
A Figura 3 mostra os valores de RPN apresentados antes e após as ações de melhoria. Estas ações foram
realizadas com o objetivo de executar manutenção corretiva com foco nas causas de interrupção indicadas pelo
FMEA.
No eixo Y do gráfico foram ilustradas as causas referenciando os devidos tranformadores, no eixo X constam os
valres de RPN antes e após as ações de melhoria.
Figura 3 – Gráfico RPN X RPN após ações

Fonte – Dos autores
Após análise dos dados apresentados no FMEA, podemos apresentar os seguintes dados de redução do RPN nas
causas onde foram direcionados os recursos de manutenção, sendo que, conforme a figura 9, a menor redução foi
50%, e a maior redução no potencial das causas foi de 80%.
Considerando os resultados finais apresentados, foi possível estabelecer um comparativo entre a pesquisa
apresentada, e uma das referenciadas. Com relação ao RPN, a pesquisa demonstrada por Miyazaky, Maneira e Assis
(2011), indicou uma redução média de 80,73% nos Potenciais modos de falha. Os autores afirmam que esta redução
se deu devido à priorização da resolução das principais causas de falhas indicadas pelo FMEA. Não foi possível
realizar comparações com as demais pesquisas referenciadas.
5 Considerações Finais
Verificou-se que, com a respectiva aplicação das ferramentas da qualidade foi possível a redução do número de
interrupções nos equipamentos de distribuição de energia elétrica, que foi o foco principal do trabalho em
análise.
Outro fator importante foi o aumento no faturamento da concessionária devido à redução da energia
interrompida. Isso vem ao encontro do aumento da satisfação dos consumidores, evidenciando um fortalecimento
da imagem da empresa.
Desta forma, no que se refere ao sistema elétrico de distribuição, evidenciou-se a melhoria da confiabilidade
do mesmo, justificada pela considerável redução no número de interrupções dos equipamentos escolhidos para a
pesquisa.
Para análise dos resultados considerou-se uma amostragem de cinco meses após a execução das manutenções
indicadas pela ferramenta FMEA e demais aqui utilizadas. Foi comprovado, conforme observado nesse artigo que o
uso das ferramentas é uma boa alternativa de solução de problemas. A considerável redução das interrupções,
além da eliminação da avaria de transformadores dentre aqueles que foram pré-selecionados para a pesquisa,
mostraram a eficácia da aplicação das três ferramentas da qualidade propostas.
Com a inclusão de um número maior de variáveis que interferem na confiabilidade do sistema elétrico, esta
metodologia pode ser aplicada como base para priorização dos investimentos de uma concessionária,
estabelecendo com isto uma maior assertividade nas manutenções relacionadas à qualidade do fornecimento de
energia.
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