1. Introdução
Iniciamos este artigo com a fábula da caverna de Platão (427-347 a.C.), que resumidamente descreve a situação
em que se encontra a humanidade, mas que no contexto desse artigo retrata o docente sem formação pedagógica e
didática inserido no ensino superior. Na fábula em questão algumas pessoas estão presas dentro de uma caverna,
acorrentadas de forma a ficar de costas para a entrada da caverna e tendo a sua frente uma parede. A luz que
vem de fora projeta através das sombras a imagem do que ocorre no mundo exterior, essas pessoas acorrentadas
só ouvem o barulho vindo de fora e as sombras do que se passa no mundo exterior. Para essas pessoas o que se
passava na parede era a sua única realidade. Ocorre que uma das pessoas se solta e caminha para fora da
caverna vendo o mundo real, ofuscado pela luz do sol, que cega esse desbravador e incompreensível a princípio,
mas que vai tomando forma, com cores e sentidos até se tornar a realidade daquela pessoa.
Dentro deste contexto a metáfora de Platão (427-347 a.C) ensina que para se chegar ao conhecimento
passaríamos por um momento em que nossos olhos ficariam ofuscados, como o personagem que escapa da caverna,
assim como adentraríamos num mundo incompreensível até chegarmos ao conhecimento, pois para romper os
paradigmas que nos cercam passamos da ignorância para ter nossa própria opinião sem ainda ter consciência do
todo, para em seguida atingir o conhecimento necessário.
Platão (427-347 a.C) através de Sócrates, que nessa fábula é o personagem central, questiona o que ocorreria
se o personagem que viu a realidade tomar forma voltasse para dentro da caverna e como ele seria recebido.
Certamente com muita desconfiança e até mesmo sendo motivo de escárnio ao se colocar em dúvida a existência
desse outro mundo. É dessa forma que esse homem, agora sábio, é obrigado a conviver no mundo com homens comuns
que o consideram um sonhador.
2. Considerações Iniciais
Essa metáfora se insere perfeitamente no contexto desse estudo que busca entender, mesmo que
superficialmente, a prática da docência no ensino superior inserido na cultura digital, a partir de um
levantamento preliminar de dados e informações realizado junto a docentes do ensino superior, artigos, teses e
dissertações relacionadas à educação no ensino superior, onde se detectou que a partir de meados dos anos 90
com o advento da internet e a partir dos anos 2000 com seu amadurecimento, houve profundas mudanças na forma
de se ensinar e de se aprender e apreender o conhecimento.
A partir de levantamento preliminar passou-se a analisar as mudanças ocorridas e em andamento no ensino
superior, no que diz respeito aos métodos de ensino tradicionais e ao mesmo tempo rever os instrumentos
tecnológicos atuais, assim como a forma de se ensinar no ensino superior, onde na maioria das vezes o discente
é aquele que melhor domina a tecnologia existente o qual será descrito com maiores detalhes durante o
desenvolvimento do trabalho que envolve além do levantamento junto a docentes a revisão da literatura
existente.
A partir dos anos 2000, quando a internet esta plenamente amadurecida, podemos distinguir o surgimento de
diversos meios de comunicação digital que tem em comum a interface lúdica e o acesso fácil, plataformas como o
Moodle, MSN, Wikipédia, Facebook, Orkut, Blog, Fololog e Twitter, para dizer dos mais conhecidos, o que tornou
a comunicação pela internet uma atividade comum e até certo ponto prazerosa.
A internet passou a fazer parte do cotidiano das empresas e conseqüentemente das pessoas físicas, que
passaram a ser chamados internautas, alusão ao espaço ocupado pela internet o qual também passou a ser chamado
de ciberespaço. A partir desse momento e com o aumento da facilidade ao acesso à internet no Brasil
encontramos um terreno propício a um novo mundo de informações facilmente acessíveis a qualquer aparato ligado
a grande rede de computadores, de forma que a internet se vê plenamente inserida no contexto acadêmico
passando a explorar o ensino à distância, doravante EaD, incorporando todas as possíveis fontes de informação
advindas do acesso a grande rede de computadores interligados, com isso o ambiente virtual de aprendizagem,
doravante AVA, passou a complementar o ensino EaD, criando novas formas de se ensinar.
3. Metodologia
O desenvolvimento desse trabalho abrangeu primeiramente entrevistas com docentes do ensino superior, que
atuam em instituições de ensino no estado de São Paulo, com o objetivo de elencar as primeiras impressões
sobre o ensino superior. Essas entrevistas iniciais permitiram delimitar a questão do ensino superior e suas
limitações, possibilitando uma abordagem mais padronizada sobre o tema. A realização de pesquisa sobre o tema,
através de artigos, teses, dissertações e livros teve o objetivo de levantar dados para a análise das mudanças
que estão ocorrendo no ensino superior no estado de São Paulo, quanto à capacitação do docente e
conseqüentemente, sobre sua inserção na cultura digital.
4. Referencial teórico
Conforme Ramal (2000) partindo do momento em que as antigas culturas não conheciam a escrita, a transmissão
do conhecimento se dava através de narrativas orais, onde o conhecimento era preservado, com o surgimento da
escrita o conhecimento adquirido pode ser compartilhado com as gerações futuras.
Lévy (1999) trata em seus estudos os principais aspectos da ciência da computação e da comunicação no mundo
neoliberal, enfatiza ainda que a cibercultura transforma o saber através de um conjunto de técnicas materiais
e intelectuais, que se desenvolvem na medida em que leitores fazem uso de elementos lingüísticos e cognitivos
na rede de computadores conectados a internet da mesma forma que fariam fora desse ciberespaço. Ainda Lévy
(1996) cita que o advento da internet modificou a maneira de como se ler e aprender no ciberespaço.
Os docentes, especialmente do ensino superior, dado a acessibilidade, devem usufruir das tecnologias
disponíveis na rede para a sua prática docente desenvolvendo com os alunos atividades mais funcionais, aja
visto a infinidade de informações disponíveis nesse ciberespaço, sendo essencial trabalhar o aspecto cognitivo
da aprendizagem, que envolve atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e
linguagem.
Sobre ler e escrever na cultura digital Ramal (2000) nos alerta para o fato que:
“as relações de poder que surgem na escola a partir dos instrumentos tecnológicos são
totalmente novas. Pela primeira vez na história, a tecnologia da dominação é mais conhecida pelo
“dominado”. Em outros termos: até hoje o professor trazia o saber, a norma culta, a
escrita “correta”, para os não letrados, reproduzindo no contexto escolar...as situações
de imposição lingüística vividas pelas culturas orais. Hoje ocorre um paradoxo: aquele a ser educado é
o que melhor domina os instrumentos simbólicos do poder, o aparato de maior prestígio: as tecnologias.
O que ocorrerá na sala de aula ?” (RAMAL, 2000, p. 8)
Saber trabalhar os conteúdos e a forma de expor aos alunos deve ser totalmente revista, tendo em vista que a
atenção do aluno hoje é voltada para uma quantidade infinita de informações via ciberespaço, mas sempre de
forma superficial, trazer o aluno de volta a realidade da sala de aula para que tenham aprendizagem
significativa, ou que a aprendizagem tenha significado para o aluno é de fato o grande desafio para o docente.
Diversos artigos já exploraram o fato inquestionável dos inúmeros problemas decorrentes da ausência da
formação pedagógica ou didática de docentes no ensino superior, além da questão dos baixos salários e falta de
prestígio dos docentes, nesse caso desde o ensino fundamental, médio e superior, de forma que apenas os cursos
de graduação em licenciatura se preocupam, mesmo que minimamente com a formação do professor (Pimenta,
Anastasiou, 2002; Belei at al, 2006).
Tendo em vista que na maioria das instituições de ensino superior não é exigido o curso de formação
pedagógica para docência, onde a especialização do docente por si só já se mostra suficiente, bastando para
isso ter conhecimento específico da área em que se leciona, temos profissionais até certo ponto despreparados
para lecionar, assim como, sem todas as condições necessárias para lidar com esse novo discente, de forma que
se torna imperativo a profissionalização dos docentes universitários, muitos dos quais não possuem formação
pedagógica ou didática, situação criada em decorrência da forma como se estruturou o ensino superior no Brasil
(BELEI at al; 2006). Ainda segundo dados da UNESCO, demonstram que o número de professores universitários,
entre 1950 e 1992, saltou de 25 mil para 1 milhão, aumento de 40 vezes, sendo em sua quase totalidade
professores improvisados, sem formação pedagógica ( BELEI, 2006, pud Pimenta, Anastasiou, 2002).
5. Tendências e desafios
O ensino superior sobrevive às grandes mudanças no cenário educacional brasileiro, em especial no período pós
internet onde o número de alunos no ensino superior tem crescido de forma geométrica, tendo em vista a
utilização também crescente do AVA. A acessibilidade da internet, especialmente com o advento da banda larga
exige que o profissional docente no ensino superior se remodele, a fim de que o ensino superior possa também
ter uma melhor qualidade. O investimento necessário, muitas vezes vem do próprio docente que busca
especialização através de cursos, congressos e pós-graduação. Se até os anos 90 havia apenas a necessidade de
conhecimentos específicos, entramos nos anos 2000 exigindo um docente plenamente capacitado para lidar com
essa nova cultura digital, onde o conhecimento é sempre relativo, provisório e histórico.
Da mesma forma, se a Internet proporciona mais rapidez no acesso a mais e melhores informações ao discente,
também seria razoável supor, sabendo-se que o grau de qualificação sempre foi um fator chave em qualquer
especialidade, em especial na educação, que o docente também desse prioridade à formação específica para o
ensino superior conforme Silva Junior e Sguissard (2001).
Entretanto há que se fazer uma consideração a este respeito, que diz respeito à Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (Lei nº 9.394/96) e o decreto nº 2.207/97, onde regulamenta o sistema federal de ensino e
exige das instituições de ensino superior preparação pedagógica para o exercício da docência no ensino
superior, mas ainda sem garantir formação específica para o processo educacional.
6. Conclusão
Este trabalho foi motivado pela tentativa de se entender o nível de qualificação dos docentes do ensino
superior inseridos na cultura digital, sabendo-se que o conhecimento adquirido é sempre relativo, depende do
ponto de vista de cada pessoa, é provisório pois a quantidade de informação disponibilizada todos os dias na
internet é inversamente proporcional a capacidade de assimilação por parte do docente e sempre será histórica,
devido as constantes transformações em andamento no ensino superior no Brasil, de forma que este pequeno
estudo, ainda que superficial, busca trazer a tona mais algumas informações relevantes sobre a situação do
docente no ensino superior.
Por fim tal motivação deveu-se ao fato de constatar, durante nossos poucos anos lecionando no ensino
superior, que diversos professores são totalmente despreparados e por conseqüência as instituições também
pouco ou nada sabiam do manuseio das novas tecnologias de informação, no entanto, não só pela formação, assim
como pelo tempo de atuação na vida corporativa e no ensino superior, grande parte dos docentes buscam
qualificação a fim de terem autonomia e capacidade de gerenciar o próprio conhecimento.
7. Referências bibliográficas
BELEI, R. A. ; GIMENIZ-PASCHOAL, S. R. ; NASCIMENTO, E. N. ; NERY, A. C. B. . Profissionalização dos
professores universitários. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 87, p. 401-410, 2006.
LÉVY, Pierre. O que é virtual ? São Paulo: Editora 34, 1996.
LÉVY, Pierre. Cibercultura (trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34, 1999.
PLATÃO, A República. livro VII. Martin Claret. São Paulo: SP: Brasil: 2001.
PIMENTA, S.G.;ANASTASIOU, L.G.C. Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.
RAMAL, Andrea Cecília. Ler e escrever na cultura digital. Porto Alegre: Revista Pátio, ano 4, nº 14,
agosto-outubro 2000,p.21-24.
SILVA JUNIOR; J.R.; SGUISSARD, V. Novas faces da educação superior no Brasil. São Paulo: Cortez, 2001.
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