1. Introdução
Ideias inovadoras nascem em contextos apropriados na nova Sociedade do Conhecimento, que vem colocando o
potencial das pessoas como a principal fonte geradora de excelência das organizações.
Enquanto as economias anteriores buscaram desenvolver os recursos para melhor utilização do
trabalho artesão, melhor utilização do solo, e para melhor gestão do capital
financeiro, a atual economia do conhecimento tem concentrado esforços em desenvolver recursos para o
melhor gerenciamento do conhecimento humano e organizacional.
Um amplo leque de técnicas, ferramentas, tecnologias, métodos, processos, e teorias, passaram a
ser desenvolvidas para dar suporte, direcionamento, e embasamento para as práticas de Gestão do
Conhecimento (GC), estreitando os vínculos entre teóricos e práticos. Afinal, gerenciar o
conhecimento virou um desafio comum tanto à regência acadêmica quanto a de mercado.
Um dos pontos comuns entre os pesquisadores da gestão do conhecimento é a importância do
papel das pessoas e do conhecimento tácito que elas portam consigo ou do conhecimento explícito
que geram. Nestas modalidades de conhecimento anunciadas por Michael Polanyi (1996 apud NONAKA;
TAKEUCHI, 1997), reside a chave para a inovação, para a geração de ideias, para a
evolução de pessoas, organizações e sociedades.
Young (2010), reuniu trabalho colaborativo por intermédio da Asian Productivity Organization (APO),
estabelecendo o que chamou de as “cinco etapas do processo de gestão do conhecimento da
APO”, sendo elas a identificação, criação, armazenamento, compartilhamento e
utilização do conhecimento. Para cada uma destas etapas o organizador reuniu as principais
ferramentas e técnicas utilizadas em diferentes países.
Esta pesquisa se concentra na fase de criação do conhecimento, com foco na técnica de
captação de ideias e aprendizagem – “learning and idea capture” -
apresentada por Young (2010, tradução livre). Após revisão da literatura, de posse
da necessária compreensão teórica sobre a técnica, a indagação que
se apresentou foi: como lançar a ferramenta de captação de ideias em uma
organização e obter o efetivo envolvimento dos colaboradores?
Por meio de estudo de caso, buscou-se analisar como uma ferramenta de criação do conhecimento
pode ser lançada em uma organização para obter o envolvimento dos colaboradores, levando
à inovação e aprendizagem. Propõe-se, ainda, a verificar o alinhamento da
ferramenta com os objetivos estratégicos da organização, descrever a ferramenta e a forma
como foi utilizada, contextualizando-a em uma organização intensiva em conhecimento situada em
um dos parques tecnológicos de Florianópolis, Santa Catarina.
2. Referencial teórico
Passada a fase de expectativas em torno da inteligência artificial, o elemento humano vem conquistando
crescente espaço na atenção de pesquisadores, que procuram desvendar as capacidades
cognitivas do sujeito. Reconhece-se que as ideias estão nas pessoas, sendo necessário saber como
estimular, motivar, liderar, promover o compartilhamento para que as ideias se manifestem e gerem
inovações e melhorias em produtos e serviços a clientes cada vez mais exigentes.
Na concepção de Cooper et. al. (2002, p. 22, tradução livre), “Ideias
estão por toda parte, dentro e fora da empresa. O problema é que muitas vezes elas permanecem em
repouso; não geram tomada de decisão ou ação [...]”. Para aproveitar a
criatividade de todos na organização, os autores defendem a estruturação de
processos, ações sistemáticas, e eventos anuais onde se busque “aproveitar a
energia criativa”.
Para Sternberg e Lubart (1996), o mercado das idéias precisa da combinação de seis
recursos para produzir desempenho criativo, sendo eles: a inteligência, o conhecimento, os estilos de
pensamento, a personalidade, a motivação e o ambiente propício. Como aspecto relacionado
à inteligência, os autores enfatizam a capacidade das pessoas em redefinir problemas, pensar com
vivacidade; o conhecimento contribui para as análises e para evitar a reinvenção da roda;
os estilos de pensamento compreendem a maneira como as pessoas exploram a própria inteligência e
conhecimento em suas interações diárias; a personalidade contribui com atributos como a
tolerância da ansiedade na solução de problemas, perseverança, desapego às
ideias já aprovadas, riscos assumidos, auto-confiança; como motivação, os autores
evidenciam as de caráter intrínseco, que levam ao maior envolvimento; e como meio ambiente os
autores consideram ambientes que promovam, aceitem e premiem as ideias criativas. Infelizmente, segundo os
autores, escolas e outras instituições não cultivam o ambiente propício.
Neste sentido, fazendo associação com o tema inovação, encontramos em Reis
(2008), a avaliação de que o Brasil tem se apropriado pouco de seu conhecimento
científico para promover inovações tecnológicas. O autor considera que
universidade e empresa precisam interagir de forma mais eficaz. Ghani (2009, p. 34, tradução
livre), considera que as perspectivas apresentadas em gestão do conhecimento advêm de muitas
áreas. “algumas de base intelectual, enquanto outras pragmáticas e fundamentadas na
necessidade de inovar para assegurar performance”.
“Uma inovação é a implementação de um produto (bem ou
serviço) novo ou significativamente melhorado, ou processo, um novo método de marketing, ou um
novo método organizacional [...]” de acordo com definição apresentada no Manual de
Oslo (OECD/Eurostat, 2005, p. 46, tradução livre).
Analisando-se os enfoques dados pelos autores referenciados, verifica-se que o mais importante fator de
diferenciação nos dias atuais se encontra no interior de organizações e
instituições. Pelo “uso da imaginação e dos símbolos”
proporcionado pelas metáforas (TAKEUCHI; NONAKA, 2008), é possível afirmar: as ideias
são as matérias-primas que constituem a substância essencial para a
inovação, diferenciação, e vantagem competitiva; encontram-se internamente, no
capital humano das organizações; precisam de ferramentas apropriadas para que possam ser
extraídas e convertidas de sua forma tácita para explícita; podendo então ser
usufruídas pela coletividade.
Aprendizagem e Conversão do Conhecimento
Baseados na distinção entre conhecimento tácito e explícito feita por Polanyi
(1996), Nonaka e Takeuchi (1997) desenvolveram a teoria da criação do conhecimento
organizacional pela interação dinâmica entre os dois tipos de experiência, que geram
quatro modos de conversão do conhecimento.
Com base nos autores acima citados, tem-se a espiral da criação do conhecimento como
“núcleo” de uma conversão que se desenvolve de forma contínua por suas
interações. Na socialização, parte-se do conhecimento tácito para
tácito, caracterizando as trocas entre indivíduos; na externalização, parte-se do
tácito para o explícito, ou seja, do indivíduo para o grupo; pela
combinação se dá a conversão de explícito para explícito, podendo
ser caracterizado também como partindo do grupo e chegando à organização; e pela
internalização o conhecimento passa de explícito para tácito, ou seja, da
organização para o indivíduo.
Trata-se da conversão do conhecimento, ciclo também denominado como modelo, espiral ou processo
SECI, e que está no núcleo do processo de criação do conhecimento (NONAKA;
TAKEUCHI, 1997; TAKEUCHI; NONAKA, 2008). Constata-se que as contribuições destes autores viraram
referência internacional nos estudos sobre criação do conhecimento, pois oferecem a
visualização do processo, e sua aplicação nas organizações.
Analisando-se a espiral, constata-se que ela traz conceitos relacionados às interações
sociais, à gestão do capital humano, ao compartilhamento do conhecimento, à aprendizagem.
Pesquisas sinalizam que aprendizagem e inovação são processos que caminham juntos, sendo
recomendável estabelecer a cultura de aprendizagem contínua dentro das
organizações, como elemento gerador de inovações. De acordo com Yeung (1999 apud
DASGUPTA; GUPTA, 2009, p. 207), quanto maior a capacidade de aprendizagem de uma empresa, maior é o
nível de competitividade, inovação e sucesso na introdução de novos
produtos. Igual sentido é oferecido por Bukowitz e Williams (2002, p. 146), para quem a aprendizagem se
faz importante para a organização pois “é o passo de transição entre
a aplicação de ideias e a geração de ideias novas”.
Autores mais empíricos, como Peter Senge (1999, p 214), também consideram que “nunca foi
tão necessário quanto agora implementar o aprendizado em grupo nas
organizações”. Para o autor, o aprendizado individual é até certo ponto
irrelevante, sendo mais importante o aprendizado em grupo.
Cabe ressaltar, porém, que “o conhecimento só é criado por indivíduos. Sem
indivíduos, uma organização não pode criar conhecimento”. (NONAKA; TAKEUCHI,
1997, p. 280), sendo adequada ao presente estudo a seguinte ponderação:
[...] É muito importante, portanto, que a organização apoie e estimule as atividades
criadoras de conhecimento dos indivíduos ou que proporcione os contextos apropriados para elas. A
criação do conhecimento organizacional deve ser entendida como um processo que
‘organizacionalmente’ amplifica o conhecimento criado pelos indivíduos e o cristaliza no
nível do grupo através do diálogo, discussão, compartilhar de experiência,
fazer sentido ou comunidade de prática. (TAKEUCHI; NONAKA, 2008, p. 25, grifo dos autores)
Abordagens teóricas referentes à criação do conhecimento, inovação,
aprendizagem, motivação, existem disponíveis na literatura. O desafio é o de saber
aplicar sistematicamente o conhecimento científico no contexto prático e dinâmico das
organizações, buscando-se o desenvolvimento institucional, individual e social.
A Ferramenta de Captação de Ideias e Aprendizagem
A ferramenta denominada pela APO (YOUNG, 2010) como learning and idea capture é listada como
de base não tecnológica, não dependendo das tecnologias da informação para
ser utilizada. Porém, vale a pena ressaltar que pode ser otimizada quando apoiada em tecnologias, como
foi o caso da empresa pesquisada, que apoiou os procedimento dentro de ambiente virtual colaborativo tipo
wiki.
Segundo Young (2010, p. 13-15), a utilização da ferramenta de captação de ideias
e aprendizagem permite aquisições de forma contínua e sistemática, aproveitando as
contribuições coletivas ou individuais. Ou seja, a participação é
inclusiva, considerando que cada indivíduo trabalha e aprende de um modo e rítimo que lhe
são peculiares. Especifica, ainda: permite a avaliação por pares, a
apreciação entre os envolvidos, promove acertividade na tomada de decisões, maior
velocidade e aplicabilidade das ideias, integração das ferramentas tecnológicas pessoais
e corporativas, além de oferecer formato simples de documentação e registro das ideias.
Evidencia que o processo de explicitação das ideias pela escrita auxilia na
organização do conhecimento, promovendo ainda mais conhecimento.
Young (2010) recomenda a disponibilização de várias maneiras de captação
das ideias, seja por intermédio de ferramentas pessoais, como bloco de notas, assistentes digitais,
email, banco de dados, blogs, câmeras, vídeos, scanners; ou coletivas,
como por intermédio das comunidades de prática, redes sociais, fóruns de
discussão, intranet corporativa, wikis, chat, áudio e
vídeo-conferência.
De acordo com o manual da APO (YOUNG, 2010, p. 13), “o problema não é a falta de novas
aprendizagens e ideias, mas o fato de não capturarmos essas aprendizagens e ideias – e
sistematicamente fazermos nada com elas”.
A fim de responder ao “como” lançar a técnica – grifos nossos - buscado por
esta pesquisa, faz-se necessário considerar o referencial oferecido por Aspinwall e Wong (2004), que
sinalizam a importância do alinhamento das iniciativas de gestão do conhecimento com as
estratégias e objetivos da organização, tornando processos e métodos mais
efetivos, integrados, e incorporados à cultura organizacional, com avaliações
contínuas sobre implementações e resultados. Enfatizam ainda a importância de
iniciativas de gestão do conhecimento estarem apoiadas em bases teóricas bem fundamentadas, que
ofereçam estrutura, direcionamento e um modelo a ser seguido.
Organizações Intensivas em Conhecimento
O mercado globalizado, competitivo e exigente, conduz as empresas a uma busca constante por
informações de valor que possam melhorar produtos e serviços existentes. As
organizações intensivas em conhecimento passaram a depender do conhecimento tácito e
explícito de seus colaboradores, clientes, e parceiros comerciais, como principais ativos para o seu
desempenho de mercado.
De acordo com Makani e Marche (2012), o termo Organização Intensiva em Conhecimento (OIC) foi
apresentado pela primeira vez por Starbuck, em 1992, que o atribuiu a um tipo distinto de
organização, evidenciando, porém, a inexistência de um consenso universalmente
aceito sobre o que diferenciaria uma OIC. Por meio de revisão da literatura, os autores apontam como
uma das características comumente aceitas a concepção de que o conhecimento é
fundamental naquelas organizações, sendo a chave para o sucesso e para o fator de
diferenciação.
Por meio de pesquisa de levantamento feita com profissionais de gestão do conhecimento vinculados a
quatro associações de classe em diferentes países, Makani e Marche (2012) verificaram que
empresas de desenvolvimento de software foram comumente apontadas como OICs. Identificaram como principais
associações caracterizadoras de OIC as organizações que produzem e vendem
conhecimento, que são credenciadas por organismo auto-regulamentado; e que reúnem colaboradores
com habilidades cognitivas, responsáveis por tomadas de decisões, e que se utilizam de novos
conhecimentos para resolver problemas complexos. Os estudos ressaltaram que os trabalhadores de OICs
são direcionados para inovações, sendo muito importante o gerenciamento das necessidades
de cada unidade de negócios, de seus processos, práticas, e de suas efetivas atividades.
A comunicação eficiente se tornou um fator determinante na gestão do conhecimento em
OICs, efetivando ações, aproximando as unidades de negócios, viabilizando os fluxos de
informação, geração de ideias, inovação, e compartilhamento de boas
práticas. A busca por meios sistêmicos e processuais, que sejam eficientes e ágeis para
proporcionar vias de acesso à base de conhecimento é a maneira pela qual as empresas
estão oportunamente investindo tempo e dinheiro para encurtar o tempo de resposta na
obtenção de resultados.
Na Sociedade do conhecimento atual, uma das mudanças mais importantes é observada
através da alteração do foco que antes era pela mão de obra - numa
organização de produção Taylorista, e que hoje é centralizada no
cérebro de obra (VYGOTSKY, 2007), considerando o conhecimento como o maior insumo da
produção de um bem.
Informação, descentralização, colaboração, passaram a fazer parte
da pauta da administração, na tentativa de reduzir o sentimento de poder e posse sobre o
conhecimento, e valorizar o crescimento conjunto como parte integrante do sucesso das
organizações. A filosofia do ganha-ganha passou a ser estratégia obrigatória para
equipes intensivas em conhecimento e focadas em resultado.
A velocidade das mudanças, a globalização, interatividade e conectividade virtual
levaram as empresas a descentralizarem suas operações, fomentando células de
negócios autônomos e permitindo que filiais em diferentes localidades pudessem prosperar como
unidades independentes.
Essa realidade trouxe um novo modelo de administração, com valores diferentes dos anteriormente
considerados, focados não unicamente no processo produtivo e fabril, mas, sobretudo no conhecimento e
no valor gerado pela informação, independente de onde ela esteja.
Fatos passados como a formação de blocos econômicos (Comunidade Econômica Europeia,
Mercosul), a consolidação de potências tecnológicas, a globalização
dos diferentes mercados financeiros, conduzem a uma nova orientação econômica, com fortes
influências sobre o mercado local. Toda essa realidade trouxe consigo uma preocupação
forte com a tecnologia e consequente redução das distâncias proporcionada por ela.
Segundo Tofler (1990) “Economistas redescobrem a obra de Joseph Schumpeter, que falava da
destruição criadora como necessária ao progresso [...]”. Apesar de ter afirmado
isto há mais de duas décadas, percebe-se a contemporaneidade do enunciado.
Em organizações focadas no conhecimento, o real valor dos produtos está no conhecimento
incorporado. Diante deste cenário, os desafios residem em um conjunto de necessidades novas, e em um
novo modelo de gestão baseado na conectividade, integração, simultaneidade,
compartilhamento, reuso, cooperação e horizontalidade, incentivando a captação de
ideias inovadoras.
Cientes dos novos paradigmas da sociedade do conhecimento, o “como” – grifos nossos –
passou a fazer parte dos principais desafios das organizações: como tratar bases de conhecimento
em locais diferentes? como proporcionar ambiente criativo e que facilite a troca de experiências entre
pessoas separadas geograficamente? como implementar metodologias de gestão do conhecimento em
cenários onde as pessoas se encontram distantes umas das outras? como conquistar o efetivo envolvimento
dos colaboradores?
3. Procedimentos metodológicos
Esta pesquisa tem como procedimento metodológico a abordagem qualitativa, interpretativa, com estudo
de caso em empresa de grande porte, identificada como intensiva em conhecimento, localizada em um dos parques
tecnológicos do Estado de Santa Catarina.
Como técnicas de coleta de dados, além de revisão da literatura, foram utilizadas fontes
documentais e entrevista semiestruturada com um dos gerentes da organização, sendo ele um dos
responsáveis pela implantação da ferramenta de captação de ideias e
aprendizagem, foco desta pesquisa.
As análises são de cunho interpretativo, considerando-se as informações coletadas
em campo e verificadas à luz do referencial teórico sobre criação do conhecimento.
As investigações foram conduzidas no sentido de responder à indagação sobre
como a empresa lançou a técnica de captação de ideias e aprendizagem para que
conseguisse o efetivo envolvimento dos colaboradores. Em adição, buscou-se verificar como a
técnica foi utilizada, seu alinhamento com as estratégias gerais da organização,
além de seus principais resultados.
4. Contexto do estudo de caso
A empresa Alfa Tecnologia é uma organização de grande porte situada em um dos parques
tecnológicos de Santa Catarina, sendo identificada como de base tecnológica e intensiva em
conhecimento, de acordo com a literatura já referenciada neste estudo. Reúne colaboradores com
significativo nível de instrução acadêmica, oferecendo-lhes política de
capacitação constante em função dos projetos, produtos e serviços
inovativos que criam e mantêm no segmento de mercado.
Entrevista semiestruturada foi realizada no terceiro trimestre de 2012 com um dos gerentes da
organização, aqui identificado como gestor Alfa, que retratou o crescimento acelerado da
empresa, e a necessidade de contratação de consultoria especializada há alguns anos,
passando a planejar estrategicamente suas ações. Missão e visão foram revistos,
análises de forças, fraquezas, ameaças e oportunidades geraram os mapeamentos
estratégicos, dando novos direcionamentos à gestão e novas iniciativas.
Um dos pontos críticos identificados foi a falha na comunicação interna. Muitas vezes um
grupo de pessoas começava a encaminhar determinadas ações num ponto, enquanto um outro
grupo já estava fazendo a mesma coisa, apenas de maneira diferente. Ainda um terceiro estava fazendo
algo que ia de encontro com o que já vinha sendo feito, como apontado pelo entrevistado.
Uma das providencias tomadas para reverter o quadro acima foi a implementação da ferramenta de
colaboração virtual tipo Wiki, que serviria tanto para informar, quanto integrar
colaboradores e promover o compartilhamento do conhecimento. A ferramenta foi muito bem estruturada na
empresa, armazenando praticamente todos os processos e documentos corporativos das unidades de negócios
nos repositórios correspondentes, sendo estes facilmente acessáveis.
Segundo o gestor Alfa, passou-se a enxergar objetivamente a ‘espiral do conhecimento’
ocorrendo em processos de explicitação, compartilhamento e internalização de
conhecimentos. Ele considera que, em termos de gestão do conhecimento, a ferramenta tipo wiki
foi uma das melhores já implantadas na empresa, tendo em vista que oferece o ambiente necessário
para incorporar outras ferramentas e iniciativas.
Apresentação e Análise dos Resultados
Por intermédio das informações apresentadas pelo gestor Alfa, constatou-se que a empresa
soube utilizar o feedback de seu capital de clientes que sinalizava para a necessidade de constante
retrabalho por parte de suas equipes de desenvolvedores, fazendo com que perdessem agilidade, proatividade e
tivessem que lidar com a insatisfação dos clientes.
Para resolver o problema, optaram por lançar um programa de captação de ideias junto aos
seus colaboradores, por entender que eram eles que estavam vivenciando as dificuldades, podendo ser capazes de
entrever soluções. O gestor Alfa enfatiza que a empresa buscou criar o ambiente favorável
para que as pessoas pudessem trazer as sugestões relacionadas à inovação,
declarando que ‘a empresa vive disso’. O passo-a-passo do programa foi cuidadosamente
formalizado, elegendo-se as lideranças que dariam o suporte, acompanhamento, incentivo e
avaliações necessárias, constituindo-se um comitê multidisciplinar.
Contrataram nova consultoria que os auxiliou no desenvolvimento e implantação do programa, que
foi incorporado e apoiado pelos recursos de compartilhamento da ferramenta wiki já
implementada na organização. Perceberam que a criação do ambiente motivador era um
de seus principais desafios, visto que não adiantaria todo o planejamento, todas as ações
e tecnologias sem o envolvimento das pessoas. Os passos seguintes, segundo o entrevistado, foram lançar
o programa em grande estilo, em evento organizado fora da organização, e ‘vestir a
empresa’ com a identidade visual relacionada, a fim de fomentar identificação,
comprometimento, incentivo à participação dos colaboradores.
Segundo o gestor Alfa, a participação foi maciça entre os colaboradores, com centenas de
ideias selecionadas, entre as quais cerca de oito já haviam sido implementadas até aquele
momento da entrevista, quatro meses após o encerramento da iniciativa.
Os benefícios que surgem da maior proximidade entre o conhecimento acadêmico e as
práticas de mercado foram verificados durante a entrevista com o referido gestor, que declarou:
‘a gente enxerga a espiral do conhecimento rodando aqui’. Procurou-se, então,
aplicar a teoria dos quatro modos de conversão do conhecimento de Nonaka e Takeuchi ao presente estudo
de caso, representando a forma como esta espiral do conhecimento se desenvolveu no programa de
captação de ideias adotado pela empresa pesquisada, conforme figura 1:
Figura 1- Processo SECI aplicado ao programa de Captacao de Ideias da empresa
Alfa

Fonte: Adaptado pelos autores, com base em adaptação de
Nonaka e Takeuchi (1995, apud TAKEUCHI; NONAKA, 2008)
Pela análise da figura acima é possível deduzir que o uso da ferramenta de captura de
ideias utilizada com os colaboradores leva à criação do conhecimento pela
conversão do conhecimento. Quando solicitado a identificar a fase de gestão do conhecimento que
a ferramenta atende na empresa, o entrevistado apontou a alternativa: ‘identificação e
criação do conhecimento’, confirmando ter compreensão sobre o alinhamento da
técnica à fase de gestão do conhecimento correspondente.
Quando questionado sobre o grau de maturidade da empresa em gestão do conhecimento, o entrevistado
declarou considerar que a empresa possui boas práticas em uma série de questões
relacionadas a GC. Considera que falta, efetivamente, formalizar os processos e possuir consciência de
que se está desenvolvendo práticas de Gestão do Conhecimento.
Diante da alta complexidade dos produtos, serviços, processos e práticas existentes na
organização, contar com a criatividade, capacidade, motivação, envolvimento e
compartilhamento dos colaboradores se mostrou uma questão crucial na criação do
conhecimento. A gestão dos recursos intangíveis deve ser compreendida em sua complexidade, com
ações contínuas e sistemáticas, ferramental adequado, liderança
motivacional, criação de ambiente propício, e atenção às demais
particularidades de cada grupo e contexto.
5. Conclusão
O estudo de caso realizado em empresa de grande porte de um dos parques tecnológicos de Santa
Catarina, caracterizada como intensiva em conhecimento, levou à conclusão de que a ferramenta de
captação de ideias foi bem implementada, de forma estruturada, e obedecendo a um planejamento
traçado pelos gestores.
Conforme recomendado na literatura por Aspinwall e Wong (2004), verificou-se que a ferramenta estava alinhada
aos objetivos estratégicos da organização, estando diretamente relacionada à
criação do conhecimento e inovação. Por meio de entrevista com um de seus
gestores, constatou-se que os implementadores da ferramenta possuíam clara compreensão sobre
este alinhamento, e sobre o processo de conversão do conhecimento. O entrevistado demonstrou
conhecimento de processos de gestão do conhecimento, evidenciando o valor da
fundamentação teórica em iniciativas de GC.
Apurou-se que a empresa havia passado por processo de reformulação estratégica em anos
recentes, possuindo maior compreensão de sua missão, visão e valores. Soube identificar
seus problemas de comunicação interna e utilizar o feedback de seu capital de clientes
na identificação de problemas, transformando-os em oportunidades de crescimento e
inovação. Neste sentido, verificou-se a manifestação do que Cooper et. al. (2002)
denominaram “aproveitar a energia criativa” por meio de efetivas ações e processos.
Conforme caracterizado por Young (2010), a ferramenta de captação de ideias permitiu: obter
aquisições de forma sistemática; contar com contribuições individuais e
coletivas; avaliação por pares; apreciação de todos os envolvidos; velocidade e
aplicabilidade das ideias; integração de ferramentas tecnológicas pessoais e
corporativas; formato simples de documentação e registro das ideias; e aprendizagem pela
explicitação, organização e criação de novos conhecimentos.
Durante a entrevista, o gerente manifestou o mesmo tipo de questionamento levantado nesta pesquisa, sobre
como lançar a ferramenta, e como obter o envolvimento dos colaboradores. Esta preocupação
levou os gestores da iniciativa a “vestir a empresa”, a lançar o programa utilizando-se de
estratégias de Marketing interno e de Marketing de Incentivos, buscando o
envolvimento dos colaboradores. A empresa buscou apoio profissional para o desenvolvimento,
implementação e lançamento da ferramenta. As lideranças que fariam o
acompanhamento, avaliações e incentivos ao programa foram formalmente identificadas, o que
sugere a importância do papel dos líderes. Entende-se, portanto, que houve o planejamento
adequado, o alinhamento, compreensão clara de objetivos, sendo nomeadas as lideranças de apoio,
e oferecido o ambiente motivacional e tecnológico necessários.
Relacionando os dados com o que preconizam Sternberg e Lubart (1996), constata-se que o desempenho criativo
foi gerado pela combinação de recursos como inteligência (capacidades dos colaboradores),
conhecimento (que foi compartilhado pela organização), estilos de pensamento e personalidade
(perfil orientado para inovações em OICs, e colaboradores familiarizados com ferramentas
apoiadas em tecnologia), bem como motivação e criação de ambiente propício
(esforços integrados da organização).
Foi possível entrever, ainda, pela espiral do conhecimento com base em Nonaka e Takeuchi (1997), que a
empresa ofereceu o contexto apropriado para a aprendizagem, pelos processos de conversão baseados em
externalização e internalização de conhecimentos.
Dominar a tecnologia, possuir os recursos tangíveis, reunir colaboradores super capacitados, possuir
os processos explicitados, preparar lideranças e ações motivacionais, fazem parte de um
contexto tipicamente encontrado em organizações do conhecimento. O cerne da questão,
porém, reside na gestão complexa e integradora de todo este conhecimento, de forma alinhada com
os objetivos e direcionadores organizacionais, em ambientes em contínua transformação.
Avalia-se que a pesquisa respondeu ao questionamento inicial, alcançou os objetivos traçados,
além de contribuir para a melhor compreensão sobre como ocorre a utilização de uma
ferramenta de criação do conhecimento no contexto de uma grande organização
intensiva em conhecimento.
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