1. Introdução
A transferência de tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano das
organizações, sejam elas, de pequeno, médio ou grande porte, o que faz aumentar de
maneira considerável estudos sobre esse processo. Surgem, assim, variados modelos desenvolvidos por
fornecedores e/ou entidades para a transferência de conhecimento cujas pesquisas tornam óbvio que
as empresas preferem recorrer a parceiros para gerar inovação, como afirmam Olazaran et
al. (2009).
Do ponto de vista estratégico, pode-se dizer que essa passagem de tecnologia vem favorecendo muitas
empresas, o que, de certa forma, torna-as mais competitivas para atuar no cenário globalizado. Tal
expectativa está baseada na capacidade de criar e inovar, mantendo assim as empresas ativas no mercado.
Porém, segundo Jagoda et al. (2009), a maioria das pequenas e médias empresas
(PME´s) usa a transferência de tecnologia como estratégia-chave para reduzir suas despesas
com pesquisa e desenvolvimento, e para responder rapidamente às mudanças no cenário
competitivo. No entanto, Tambunan (2007) alerta que, nesses casos, as pequenas e médias empresas devem
ter alguma competência industrial e serem capazes de absorver a tecnologia ou o conhecimento
transferidos.
Segundo Tambunan (2007) embora haja um grande corpo de literatura sobre a transferência de tecnologia,
não existem muitos trabalhos, especialmente estudos empíricos, de como esse processo funciona
nas PME´s, principalmente em países em desenvolvimento. Diante deste aspecto, até mesmo
para que se possa definir do que se trata o processo de transferência de tecnologia, no presente artigo
serão abordados, inicialmente, os principais conceitos desse tema, buscando caracterizar o processo de
transferência de tecnologia. Pretende-se contribuir com o entendimento geral desse processo, deixando
evidente sua importância para as organizações e entidades que atuam no desenvolvimento de
tecnologia.
Após essa etapa, serão demonstrados alguns modelos de transferência de tecnologia,
procurando mostrar por meio deles como se dá esse processo e o que é necessário para a
sua transmissão, já que conforme Takahashi (2005) a quantidade de capacidade tecnológica
transferida depende em particular do modelo escolhido. Percebe-se, assim, a importância da escolha
adequada do modelo de TT (Transferência de Tecnologia). Para isso é necessário conhecer de
forma detalhada o modelo que está sendo proposto por uma entidade e/ou fornecedor, de modo que este
possa trazer contribuições consideráveis para o negócio, permitindo a fácil
incorporação por parte do receptor.
Em seguida, o próximo item apresentado está relacionado às principais
características dos modelos abordados nesta pesquisa, cujo objetivo é verificar os pontos de
destaques dos métodos e suas etapas. Nesse sentido, procura-se saber se existe um modelo padrão
que possa ser aplicado e escolhido pelas organizações, principalmente no que diz respeito
às características dos modelos apresentados, pois, segundo Braga (2009), é preciso
selecionar a forma e o mecanismo apropriado da transferência da tecnologia para que possa se estabelecer
formas adequadas para medir o seu sucesso.
Por fim, nas considerações finais, são apresentados os resultados obtidos com este
estudo, procurado, inclusive, responder à indagação que incentivou o desenvolvimento
deste trabalho, ou seja: Quais os modelos de transferências de tecnologia mais relevantes desenvolvidos
nos últimos 10 anos, suas principais características, pontos comuns e dissimilaridades.
2. Caracterização do processo de transferência de
tecnologia
Antes de caracterizar o termo transferência de tecnologia, é preciso deixar claro que este
é um método utilizado por muitas organizações, no processo de transferência
de know-how, independentemente do porte ou setor da economia que nas quais elas se inserem. Aqui uma
entidade desenvolve e fornece a tecnologia, por meio de sua comercialização, e a outra, mais
especificamente as empresas, absorvem e utilizam a tecnologia transferida; Via de regra, “o que se
transfere é o how-to-do (o como fazer), a capacidade de sua reprodução e uso em
situações determinadas, nem sempre (ou quase nunca) são transferidos os conhecimentos
científicos que geraram a tecnologia” (Miranda, Simeão, 2004). Takahashi (2005) completa
com a definição de know-how ao dizer que: “a capacidade operacional consiste nas
habilidades e informações necessárias para operacionalizar, manter e consertar a
tecnologia, isto é know-how”, e finaliza afirmando que esse know-how pode ser
obtido, principalmente, por meio de treinamento e de suporte técnico do fornecedor.
Neste sentido, pode-se destacar a contribuição de Al-Ghailani e Moor (1995 apud Takahashi,
Sacomano, 2002), que caracterizam transferência de tecnologia como um processo pelo qual o conhecimento
tecnológico passa de uma fonte para um recebedor, o que leva a crer que para esse processo funcionar,
deve existir uma troca de interesses entre duas entidades, onde uma desenvolve e comercializa, e a outra
adquire e implanta; ainda neste estudo, Takahashi e Sacomano (2002) junto à pesquisa de outros autores,
dizem que:
“a transferência é reconhecida como um processo complexo que engloba a
identificação da tecnologia a ser transferida, a seleção dos modos
(joint ventures, cooperação de pesquisa, fusões, licenciamento, etc.) e
mecanismos de transferência (treinamento, seminários, software, informações
técnicas quanto ao uso e à manutenção da tecnologia, intercâmbio de
profissionais, etc.) e a completa implementação e absorção da
tecnologia”.
Uma outra abordagem que conceitua a transferência de tecnologia é pontuada por Prysthon e
Schmidt (2002) na qual asseveram que a transferência de tecnologia é sobretudo a
absorção de um modus operandi; completam ainda dizendo que: “a verdadeira
transferência de tecnologia ocorre quando o receptor absorve o conjunto de conhecimento que lhe permite
inovar”. Outros pesquisadores também foram bastante enfáticos ao apontar que a
transferência de tecnologia é o processo de transferência de descobertas científicas
de uma organização para outra com a finalidade de desenvolvimento e
comercialização, conforme apontado por Póvoa e Rapini (2010). Já Etzkowitz, Gupta
e Kemelgor (2010) consideram que a transferência de tecnologia é um papel híbrido, que
incorpora elementos da ciência e de negócio em seu projeto profissional, fazendo a ponte entre a
invenção e a criação de novas atividades econômicas. Na literatura
acadêmica, o termo transferência de tecnologia refere-se principalmente ao movimento de
know-how técnico, conhecimento, ou tecnologia de uma organização para outra
(Bozeman, 2000 apud Harman, 2010).
Para Takahashi e Sacomano (2002):
“O termo transferência de tecnologia pode ser definido como um processo entre duas
entidades sociais, em que o conhecimento tecnológico é adquirido, desenvolvido,
utilizado e melhorado por meio da transferência de um ou mais componentes de tecnologia, seja
ele o próprio processo ou parte dele, com o intuito de se implementar um processo, um elemento
de um produto, o próprio produto ou uma metodologia”.
Para Rogers (2001), a transferência é o movimento da tecnologia através de um canal de
comunicação entre um indivíduo e uma organização, passando de um para
outro, e ainda, aponta que a inovação tecnológica é totalmente transferida quando
há uma comercialização de um produto que é vendido ao mercado. Neste caso, duas
são as condições mínimas para que ocorra uma efetiva transferência de
tecnologia: o transferidor precisa estar disposto a transferir e o receptor precisa ter
condições de absorver o conhecimento transferido (Takahashi, 2005).
Fica evidente nessas abordagens que a transferência de tecnologia pode contribuir para que as empresas
se tornem cada vez mais competitivas, estimulando a sua capacidade criativa e de inovação,
despertando, inclusive, investimentos em P&D (Pesquisa & Desenvolvimento). Em alguns países,
nota-se até mesmo a iniciativa e apoio do Governo para estimular as organizações a
desenvolverem novas pesquisas, de acordo com sua área de atuação, para que venham a
ganhar vantagens competitivas.
3. Metodologia
Levando-se em conta os objetivos e as características propostas por este trabalho, decidiu-se por
utilizar como método central uma pesquisa qualitativa por meio de documentação indireta
ou, mais precisamente, por meio de pesquisa bibliográfica conforme Marconi e Lakatos (2010) e Nakano
(2012). Como consequência utilizou-se como base da revisão da literatura a
contribuição de vários autores, dentre os quais se destacam Szulanski, (2000); Sung e
Gibson (2000); Rogers (2000); Takahashi e Sacomano (2002); Jarzemskis et al.(2008); Ivarsson e Gorschek
(2009); Choi (2009); Jagoda et al. (2010) e Elpida et al.(2010)., todos essenciais para a
apresentação dos modelos abordados neste trabalho.
Quanto à seleção dos modelos procurou-se levar em consideração os
padrões de transferência de tecnologia desenvolvidos no período de 2000 a 2010
(período de escolha dos pesquisadores), dentre os quais foram selecionados os 9 mais relevantes com
base no número de citações que cada um tem na literatura que trata do tema.
4. Apresentação dos modelos de transferência de
tecnologia
Entender o processo de transferência de tecnologia é fundamental para quem está
interessado em utilizar algum conhecimento que tenha sido desenvolvido por outra entidade. Isso porque,
dependendo do que está sendo adquirido e/ou transferido, pode-se necessitar de alguns ajustes,
principalmente quando se trata de transferência de processos, estando assim, a empresa recebedora,
disposta a utilizar o modelo escolhido de maneira plena para que obtenha os melhores resultados.
Com base na possível diversidade de modelos de transferência de tecnologia, serão
apresentados neste trabalho os mais relevantes deles visando contribuir com o entendimento e com a escolha do
modelo segundo os autores aqui abordados. No quadro 1 estão listados alguns dos modelos apresentados
e/ou propostos entre 2000 e 2010, e que foram selecionados para fazer parte deste estudo.
Quadro 1 – Modelos abordados no período de 2000 a 2010
selecionados por este trabalho.
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ANO
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MODELOS SELECIONADOS
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2000
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Modelo 1 de Szulanski
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2000
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Modelo 2 de Sung e Gibson
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2000
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Modelo 3 de Rogers
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2002
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Modelo 4 de Takahashi e Sacomano
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2006
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Modelo 5 de Ivarsson e Gorschek
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2008
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Modelo 6 de Jarzemskis
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2009
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Modelo 7 de Choi
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2010
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Modelo 8 de Jagoda
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| 2010 |
Modelo 9 de Elpida et al |
Modelo 1 (Szulanski, 2000)
O primeiro modelo abordado neste estudo é o apresentado por Szulanski (2000), em que o autor acredita
que a visão de processo permite uma análise mais detalhada da evolução das etapas
de transferência, considerando inclusive as dificuldades encontradas no processo; e completa dizendo que
o modelo permite identificar essas diferentes fases durante a transferência de tecnologia. Deste modo, o
autor apresenta o seu modelo, conforme a figura 1.

Figura 1 – O processo de transferência de conhecimento –
Szulanski (2000)
Percebe-se que este modelo traz quatro estágios (iniciação, implementação,
rampa de saída e integração), considerados no processo de transferência de
conhecimento. A proposta do modelo em questão é fazer com que seja acompanhado de perto cada um
dos estágios para que a empresa não venha a ter problemas no futuro. Nele pode-se a qualquer
momento tomar uma decisão para corrigir algo que possa impactar no sucesso do mesmo.
Conforme Szulanski (2000) em seu modelo são destacadas quatro etapas necessárias para que o
processo de transferência de conhecimento seja concluído. Suas principais características
são:
- Iniciação – a dificuldade neste início é identificar oportunidades para
a transferência. Complementa Szulanski (2000) dizendo que quando existe uma oportunidade de
transferência, é como formar uma semente, para então utilizar-se deste processo. Neste
sentido é preciso saber lidar com as diferenças encontradas dentro da
organização, reduzir as incertezas e mostrar que a fonte de transferência de
conhecimento é respeitável, mas para isso é necessário decidir se a busca desta
oportunidade continua , tornando-a viável.
- Implementação – Após a decisão da transferência de conhecimento, a
atenção se desloca para a troca de informação entre a fonte fornecedora e o
destinatário. Nesta fase, segundo Szulanski (2000), serão estabelecidos os laços entre
os membros da fonte e o destinatário, levando em consideração o fluxo de
informação e os recursos que normalmente aumentam no pico desta fase. Ainda nesta etapa, a
implementação depende de quão desafiadora é a ponte de comunicação
entre o doador da tecnologia e o seu donatário, levando em consideração do
preenchimento da lacuna técnica deste último.
- Rampa de saída – pode-se considerar que o próximo item é um escape para
correção da rota antes da integração. Segundo Szulanski (2000) a rampa de
saída oferece uma janela de oportunidade para corrigir problemas inesperados do dia-a-dia, pois uma
vez que o beneficiário começa a usar o conhecimento, é possível que tenha alguns
problemas.
- Integração – é nesta etapa que será analisado se o desempenho
está sendo satisfatório. Em caso positivo, esse conhecimento passa a ser rotineiro,
tornando-se padrão; caso contrário, ao serem encontradas dificuldades nesse processo, pode
acarretar o abandono dessa nova prática.
Modelo 2 (Sung e Gibson, 2000)
No segundo modelo, apresentado por Sung e Gibson (2000), os autores consideram que a transferência de
tecnologia e de conhecimento, assim como a sua aplicação e difusão, são a chave
para a prosperidade econômica sustentável na emergente economia global do século 21. Sendo
assim, eles propõem o seguinte modelo, conforme figura 2.

Figura 2 – Os quatro níveis de conhecimento e transferência de tecnologia
segundo Sung e Gibson (2000)
Inicialmente esse modelo foi proposto por Gibson e Slimor nos anos 90, porém com o passar dos anos o
modelo sofreu alguns ajustes e é tratado aqui por Sung e Gibson (2000) e no qual levam-se em conta
quatro níveis essenciais para se transferir tecnologia e conhecimento, conforme segue:
- Nível 1 (criação) – É nesse nível no qual são elaboradas
as pesquisas para a criação e desenvolvimento do conhecimento e/ou tecnologia,. Segundo Sung e
Gibson (2000), os resultados são anunciados por meio de publicações de pesquisa,
DVD´s, teleconferências, notícias, e outros meios.
- Nível 2 (compartilhamento) – Neste estágio o conhecimento desenvolvido na etapa
anterior é compartilhado com terceiros, por meio da transferência desse conhecimento para uma
outra entidade. O sucesso do compartilhamento ocorre quando o conhecimento e a tecnologia são
transferidos por meio de pessoas, respeitando os limites funcionais ou organizacionais, e são aceitos
e compreendidos pelos usuários.
- Nível 3 (implementação) – Na etapa de implementação coloca-se em
prática o conhecimento desenvolvido, e neste item são feitos alguns testes para validar a sua
eficiência. Segundo Sung e Gibson (2000), para que o sucesso ocorra, os usuários do
conhecimento e da tecnologia, devem ser os recursos necessários para implementá-la,
completando ainda ao dizerem que esse processo pode ocorrer dentro da organização em termos de
fabricação, processos, serviços ou melhores práticas.
- Nível 4 (comercialização) – após as três etapas que antecedem a
comercialização, esse é o momento de “vender” o conhecimento e/ou
tecnologia que foi desenvolvida, fazendo com que pessoas e entidades busquem adquirir esse conhecimento.
Segundo Sung e Gibson (2000), o sucesso é medido a partir do retorno do investimento (ROI) ou da sua
participação no mercado agregada pela tecnologia ou conhecimento transferidos..
Modelo 3
O modelo 3 é proposto por Rogers et al. (2000), no qual os autores afirmam que um modelo linear do
processo de inovação e desenvolvimento pode não levar em conta os fatores externos
ambientais, tais como a demanda do mercado ou mudanças regulatórias, que podem influenciar no
processo de inovação tecnológica. Para tanto os autores sugerem o modelo sumarizado na
figura 3 como forma de validar a eficácia da transferência de tecnologia.

Figura 3 – Processo de transferência de tecnologia a partir de uma
pesquisa desenvolvida em universidade – Rogers et al. (2000)
Na abordagem de Rogers et al. (2000), os autores destacam como característica principal a
importância de se fazer investimentos para criar e/ou desenvolver novas invenções que
possam gerar ganhos no futuro. Ainda nesse sentido, mostram o quanto isso é essencial para o
desenvolvimento de uma organização, principalmente quando se trata de direitos autorais e do seu
retorno financeiro por meio do uso das patentes e da transferência de tecnologia. Sendo assim são
considerados seis estágio para que seja implementado esse processo: o número de
divulgações da invenção, o número de pedidos de patente depositados, o
número de licenças para uso e execução da tecnologia, o número de
licenças cedidas para ganhos de rendimentos com tecnologia, o número de licenças para
ganhos e direitos autorais e o número de empresas dispostas a iniciar e utilizar a tecnologia
desenvolvida (baseado em uma tecnologia licenciada pelo escritório da universidade de licenciamento de
tecnologia).
Modelo 4
O modelo conceitual proposto por Takahashi e Sacomano (2002) trata dos elementos essenciais para o sucesso da
transferência de tecnologia, bem como, os seus fatores de sucesso, conforme figura 4. Neste modelo os
autores ressaltam o objeto de estudo do seu trabalho que é analisar os fatores e as
relações que afetam o sucesso da tecnologia transferida.
O modelo de Takahashi e Sacomano (2002) foi elaborado para representar a estrutura teórica a fim de
estudar o sucesso de projetos de transferência de tecnologia em empresas do setor farmacêutico.
Nesse sentido os autores acreditam que o sucesso da transferência de tecnologia é definido pelo
grau em que a empresa recebedora pode aumentar seu domínio tecnológico e/ou seu desempenho por
meio da tecnologia importada (Takahashi, Sacomano, 2002).

Figura 4 – Modelo conceitual – Adaptado de Takahashi &
Sacomano (2002).
Em 2005, Takahashi voltou a abordar o modelo conceitual em um de seus artigos, cujo tema diz respeito
à transferência de conhecimento tecnológico, no qual são abordados os elementos
tratados no modelo apresentado na figura 4 (Takahashi, 2005). As principais características do modelo
conceitual de Takahashi e Sacomano (2002) dizem respeito ao sucesso da tecnologia transferida e os fatores de
sucesso. Nesse sentido, destacam-se os seguintes pontos:
- Capacidades tecnológicas – se referem à habilidade de compreender, utilizar, adaptar e
desenvolver tecnologia, (Wong,1995 apud Takahashi, Sacomano, 2002). Nesta fase, consideram-se algumas etapas
para absorção da tecnologia,: domínio de operar a tecnologia, domínio de manter,
domínio de reparar, domínio de modificar, domínio de co-desenvolver um produto e/ou
serviço e domínio de inovar.
- Desempenho alcançado com a tecnologia transferida –este item diz respeito aos resultados e/ou
objetivos alcançados com a tecnologia transferida, na qual o melhoramento tecnológico é
um dos fatores determinantes no aumento da produtividade do mercado, da qualidade e da competitividade
(Takahashi, Sacomano, 2002).
- Capacidade de absorção – conforme Cohen & Levinthal (1990 apud Takahashi,
Sacomano, 2002), consideram capacidade de absorção como a habilidade de a empresa reconhecer o
valor de um novo conhecimento, assimila-lo e aplica-lo para fins comerciais.
- Capacidades gerenciais – que compreendem uma série de habilidades, conhecimentos e
experiências que uma pessoa deve ter para desempenhar certas funções gerenciais de
maneira eficaz (Takahashi, Sacomano, 2002).
- Modos de transferência da tecnologia – Conforme Takahashi e Sacomano, (2002), os diferentes
modos de transferência auxiliam a empresa recebedora da tecnologia a aprender e a desenvolver novos
conhecimentos, habilidades e capacidades tecnológicas.
Modelo 5
O próximo modelo o é o apresentado por Gorschek et al. (2006 apud Ivarsson, Gorschek, 2009), no
qual os autores relatam a existência de vários modelos de transferência de tecnologia em
engenharia de software e sugerem um modelo geral para transferir tecnologia, conforme mostra a figura 5.

Figura 5 – Processo de transferência de tecnologia –
Adaptado de Gorschek et al. (2006 apud Ivarsson, Gorschek, 2009).
Para Ivarsson e Gorschek (2009), o primeiro passo de seu modelo é a inovação, pois
é onde a ideia nasce e uma tecnologia é desenvolvida. Após, a tecnologia é testada
e avaliada em diferentes configurações, de um laboratório para a indústria,
utilizando diferentes tipos de métodos de pesquisa. O segundo é a validação
estática da tecnologia, a qual envolve, muitas vezes, a experimentação para investigar os
conceitos básicos da tecnologia, a fim de resolver os problemas. Aqui é feito um teste em
projetos de produção, antes da criação da tecnologia. Passando esse
estágio, dado os resultados da validação estática, volta-se para o passo da
inovação e aperfeiçoamento da ideia, ou então, passa-se adiante, para a
validação dinâmica, buscando desta forma, testar a ideia em um cenário da vida
real. A validação dinâmica é realizada em estudos de caso em qualquer projeto real
de software, ou em projeto-piloto destinados a menores avaliações da tecnologia em
questão. A última etapa do processo de transferência de tecnologia é
liberá-la para utilização, sendo bastante útil, de acordo com sua amplitude,
mostrar que está pronta para ser usada.
Modelo 6
No modelo apresentado por Jarzemskis et al. (2008) destacam-se o papel e a iniciativa do governo da
Lituânia para com o desenvolvimento das pequenas e médias empresas (PME´s), principalmente
no que se refere à inovação e à transferência de tecnologia. Segundo o
autor, não existia à época da proposta, na Lituânia, uma interação
entre a academia e as empresas, o que de certa forma dificultava o processo de crescimentos das PME´s,
necessitando assim mais intervenção do governo para incentivar esse processo (Figura 5).
Este modelo proposto por Jarzemskis et al. (2008) tratam da importância e/ou do papel do governo para
com o desenvolvimento das empresas de pequeno e médio portes, mais especificamente na Lituânia.
Nesse sentido, destaca-se nas etapas do modelo abordado pelos autores, a conexão entre as incubadoras
criadas nas universidades e as PME´s, incentivando que tenham uma interação entre si.
Diante disso, o objetivo básico da incubadora de empresas é um estímulo de fundar novas
empresas e a criação de um ambiente de consultoria de apoio com oportunidades de
“sobrevivência” e desenvolvimento de novas empresas. O outro passo diz respeito a
investimentos em abertura de novos laboratórios de pesquisas e também no que diz respeito aos
parques científicos.

Figura 6 – Inovação e modelo de transferência de
tecnologia da Lituânia – Adaptado de Jarzemskis et al. (2008).
Modelo 7
Um novo modelo de transferência de tecnologia traz vantagens competitivas para um país, afirma
Choi (2009), e acrescenta dizendo que cada vez mais o uso da tecnologia está associado à
capacidade de gerar inovação. Para tanto, o papel da população é de suma
importância, até mesmo para absorver as novas tecnologias e incorporá-las no processo de
produção, no qual o seu sucesso depende da facilidade que as pessoas têm para assimilar,
adaptar, modificar e gerar novas tecnologias. Quando à transferência de tecnologia é bem
sucedida, produz um grande impacto sobre o avanço de uma nação. É o que mostra
Choi (2009) no seu modelo de transferência de tecnologia, conforme a figura 7.
Nesse modelo, Choi (2009) faz uma comparação entre a transferência de tecnologia e uma
árvore em crescimento: a copa da árvore é o processo de transferência de
tecnologia, que só vai acontecer e render frutos (inovações) se houver
sustentação no tronco da árvore (a qualidade de capital humano disponível). Para
tanto, é preciso que haja fertilização (por meio de educação e treinamento
do capital humano) e iluminação do sol (planos de desenvolvimento).

Figura 7 – Modelo de mudança de transferência de tecnologia
– Adaptado de Choi (2009).
Modelo 8
O modelo stage-gate proposto por Jagoda et al. (2010) parte da premissa de que no cenário
atual a transferência de tecnologia é uma parte importante da estratégia de
negócios da empresa, afirmando que “as empresas estão cada vez mais dependentes da
transferência de tecnologia para lidar com a complexidade da melhoria dos produtos, com as
exigências dos clientes e com o aumento da pressão competitiva”.
Sendo assim, Jagoda et al. (2010) apresentam o modelo ilustrado na figura 8:

Figura 8 – “Stage-gate” modelo internacional de
transferência de tecnologia – Adaptado de Jagoda et al. (2010).
É bastante evidente que o modelo internacional de transferência de tecnologia de Jagoda et al.
(2010), denominado “stage-gate”, é muito detalhado e segue várias etapas
durante o seu processo de desenvolvimento, passando por estágios e portas, cada qual com uma
contribuição específica em cada uma das três etapas do processo, a saber:
iniciação, planejamento e execução e avaliação. Segundo Lonseth et
al. (2009) o modelo “stage-gate” foi inicialmente abordado por Cooper (2001) e após sofrer
algumas adaptações, foi apresentado por Jagoda e Ramanathan (2003, 2005) e novamente por Jagoda
et al. (2010) tendo como característica principal as três etapas macros já descritas.
Além disso, possui vários subitens considerados como estágios e portões, conforme
ilustra a figura 8.
Modelo 9
O modelo de Elpida et al (2010) baseia-se no processo de spin-off de tecnologia, no qual empresas
são criadas para comercializar a tecnologia desenvolvida em centros de pesquisa e/ou universidades
(Pirnay et al., 2003 apud Elpida et al., 2010). Nesse modelo devem existir um Ambiente Operacional, uma
Ação Central Empreendedora (desenvolvida no contexto da cultura organizacional existente) e uma
Estrutura de Suporte (Figura 9).

Figura 9 – Modelo Cadeia de Spin-Off – Adaptado Elpida et
al. (2010).
Com a combinação desses três eixos principais (operacional, estrutural e de
ação) é que se torna possível realizar a difusão da tecnologia desenvolvida
em centros de pesquisa e desenvolvimento e/ou universidades, numa cadeia de spin-off. No ambiente
operacional devem ser identificadas:
- As necessidades de mercado – a adequação dos novos conceitos gerados nos centros de
pesquisa e/ou universidades às necessidades do mercado consumidor é considerada um fator
crítico para o sucesso do spin-off;
- A disponibilidade de capital humano – o papel desempenhado pelo capital humano no processo de
spin-off é considerado fundamental, uma vez que a experiência e as habilidades inventivas
são fatores críticos em qualquer equipe de desenvolvimento;
- As políticas governamentais – o incentivo ao surgimento de incubadoras, escritórios de
transferência de tecnologia, centros de empreendedorismo, entre outras formas, deve ser estabelecido
por políticas governamentais, a fim de conectar financiamentos à pesquisa a resultados que
reportem ao empreendedorismo;
- Uma estrutura regulatória – regulamentações incentivando o spin-off em
diversos âmbitos (local, regional, nacional e até mesmo global) devem ser estabelecidas. Isso
envolve a definições de taxas e subsídios que permitam o surgimento de novos
negócios provenientes do processo de spin-off.
A estrutura de suporte ao spin-off o modelo prevê a existência de fontes de capital e
instituições ponte. Além disso, a ação central empreendedora caracteriza-se
por três estágios: o desenvolvimento do conceito de nova tecnologia, o desenvolvimento do
conceito de negócio, e a captação de recursos, próprios ou de terceiros,
5. Critérios estabelecidos para fazer a
comparação entre os modelos
As principais características dos modelos apresentados, elencadas no Quadro 2, permitem que seja feita
a comparação entre estes. A forma utilizada para fazer essa comparação leva em
conta as etapas propostas em cada modelo, o objetivo principal de cada um deles, o método de TT, o
processo e as etapas que cada um deles utiliza na sua abordagem.
As características relacionadas têm como foco facilitar a comparação entre os
modelos apresentados. Neste sentido, nota-se que cada qual tem a sua originalidade, porém algumas das
características acabam se assemelhando inclusive no que diz respeito ao objetivo, pois alguns dos
modelos abordados têm como foco principal o fator inovação, seja por meio das pessoas,
processos ou no desenvolvimento de novas tecnologias. Ressalte-se, ainda, que foi tratado também o
estágio inicial, que de certa forma poderá esclarecer do que se originou o desenvolvimento do
modelo de transferência de tecnologia exposto pelos autores considerados.
Quadro 2 – Características básicas dos modelos de TT
Para fazer a comparação entre os modelos apresentados, são também levados em
consideração os seguintes elementos identificados como integrantes de um procedimento para a
transferência de tecnologia (Quadro 3):
- Tipo de transferência de tecnologia – se o modelo favorece as transferências do tipo
Spin-off (a tecnologia é desenvolvida por uma organização federal e
transferida ao setor privado) ou Spin-on (se refere às tecnologias viáveis
comercialmente, desenvolvidas por organizações privadas, mas com potencial
aplicação em organizações privadas) ou Dual-use (co-desenvolvimento da
tecnologia por uma organização pública e privada), conforme proposto por Braga (2009);
- Forma de transferência de tecnologia – identificar qual forma de transferência é
a mais adequada para cada modelo: Passiva (o receptor da tecnologia pesquisa a tecnologia mais adequada, por
meio do contato com quem desenvolveu a tecnologia, examinando seus resultados de Pesquisa &
Desenvolvimento (P&D), Semi-ativa (auxilia o receptor da tecnologia a identificar a melhor tecnologia
disponível para aplicá-la ao seu negócio, e é nesse caso que entra o apoio do
agente de transferência de tecnologia) ou Ativa (uma pessoa, ou um grupo, possui responsabilidade de
verificar as possibilidades de utilização de uma determinada tecnologia e se ela está
apta a atender às necessidades de mercado), conforme definido por Braga (2009);
- Modo de transferência de tecnologia – perceber qual modo de TT cada modelo propõe:
Licenciamento; Cooperação em Pesquisa; Turnkey; Joint-venture; ou Investimento Estrangeiro,
conforme sugerido por Takahashi (2005);
- Mecanismo de transferência de tecnologia – apontar qual é o mecanismo de TT sugerido
(ou percebido) em cada modelo: Treinamento; Seminários; Informações Técnicas;
Intercâmbio de Profissionais; Softwares (Takahashi, Sacomano, 2002).
A comparação dos modelos se dá então por meio dos critérios apresentados
na proposta de procedimentos para a transferência de tecnologia e das características de cada
modelo, o que permite identificar, segundo esses fatores, quais modelos seguem a mesma linha e/ou abordagem,
podendo-se inclusive classifica-los quando ao tipo de TT, forma de TT, modo de TT e mecanismo de TT (Quadro
4).
Quadro 3 – Elementos dos procedimentos de TT

No que se refere ao tipo de TT, os modelos 1, 2, 3, 4, 7 e 8 preconizam as transferências do tipo
Spin-on, diferentemente dos modelos 5 (Dual-use) e 6 e 9 (Spin-off).
A forma de TT ativa é a adotada na maioria dos modelos estudados (1, 2, 3, 6, 8 e 9); os modelos 5 e 7
adotam a forma passiva e o modelo 4 preconiza a TT semi-ativa. Em termos de modo de TT, prevalece a
Cooperação em Pesquisa, encontrada nos modelos 2, 4, 5, 7 e 8. O modelo 1 sugere que a TT se
dê pelo modo Turnkey; o modelo 3 preconiza o Licenciamento e o modelo 6 propõe a
ocorrência de Joint-ventures (algo também percebido no modelo 9). E o mecanismo de TT mais
utilizado dentre os modelos estudados é o de Treinamentos (modelos 1, 4, 7, 8 e 9). O repasse de
Informações Técnicas é percebido nos modelos 2 e 3, e parcialmente no 9; e os
Seminários são a forma preconizada pelos modelos 5 e 6.
Quadro 4 – Classificação dos modelos de
transferência de tecnologia segundo proposta de procedimentos apresentada.

Diante do exposto pode-se propor um procedimento referenciado para a transferência de tecnologia que
considere as características comuns mais presentes nos modelos estudados. Assim, esse procedimento
referenciado envolveria uma TT do tipo spin-on, realizada de forma ativa, por meio de
cooperação de pesquisa utilizando-se de mecanismos de treinamento para efetivá-la, como
sumariza a figura 10.

Figura 10. Proposta de modelo referenciado de transferência de
tecnologia
6. Considerações finais
O processo de TT é fundamental para qualquer tipo de organização, principalmente aquelas
que buscam a inovação de seus processos, produtos ou serviços. Sendo assim, a
utilização de um modelo de transferência de tecnologia, pode viabilizar esse processo de
modo que a empresa se sinta mais confortável ao utiliza-lo. No entanto, é necessário
escolher o modelo que melhor atenda às expectativas e características da empresa, levando-se em
conta as particularidades existentes em cada um dos modelos apresentados. Por isso, o conhecimento da
estrutura e das minudências de cada um são de importância relevante para quem decida
avalia-los para implementação. Esse foi o foco central deste trabalho.
Quanto à utilização dos modelos analisados, percebe-se que alguns são mais
fáceis de implantar devido à quantidade de etapas para transferir conhecimento e/ou tecnologia,
enquanto outros, devido a sua complexidade, tornam-se de mais difícil aplicação,
porém sem colocar em risco a eficácia do processo de transferência de tecnologia, desde
que sejam adequadamente implantados.
Finalmente, a análise e comparação dos padrões de transferência de
tecnologia estudados neste artigo permitiu identificar um procedimento referenciado pelo que aqui se
expôs e que pode evidenciar as características mais presentes nas avaliações
feitas. Esse processo referenciado envolveria uma transferência de tecnologia predominantemente do tipo
spin-on, alcançada de forma ativa, através da cooperação de pesquisa por
meio de mecanismos de treinamento para implementá-la.
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