1. Introdução
O conhecimento é o principal recurso de uma organização. Ao Engenheiro de
Produção cabe a tarefa de reunir informações sobre rotinas internas, das
práticas de produção, do relacionamento com clientes da organização e saber
como transformá-las em conhecimento relevante de modo sistemático, explícito,
confiável e acessível (BURNHAM et al, 2005).
Para tanto, a utilização de tecnologias que armazenem, explorem e disseminem o conhecimento
produzido e utilizado na empresa pode representar oportunidades de ações estratégicas em
marketing, produção e inovação, dentro do mercado onde estão
inseridas - competitividade - ou avançar em novos mercados (BURNHAM et al, 2005) (PENTEADO;
CARVALHO, 2009).
Entretanto, para que o engenheiro de produção possa usar as informações
extraídas é necessário que a ferramenta utilizada por ele seja de fácil manuseio
e, principalmente, apresente o resultado de forma legível e compreensível.
Dentro deste contexto, este trabalho tem a finalidade de avaliar a interface de uma das ferramentas mais
populares de exploração em dados, a ferramenta de mineração Weka, de
acordo com critérios de usabilidade. Para tanto, uma base de dados presente no pacote do próprio
programa será utilizada como forma de exemplo, a fim de indicar como o usuário poderá
identificar as funções e comandos e como os resultados aparecem para o usuário.
2. O Engenheiro de Produção e o conhecimento
Para Azarias, Matos e Scandelari (2009), as organizações se diferenciam pela competência
de utilizar da melhor forma toda informação que produz e recebe.
A gestão desta informação tem grande impacto nas atividades da
organização, podendo modificar completamente os objetivos antes estabelecidos. O Engenheiro de
Produção tem fundamental importância no reconhecimento e análise de
informações relevantes. Sua capacidade e habilidade de transformar os dados disponíveis
em informação e posteriormente em conhecimento de valor são determinantes na tomada de
decisão seja ela em nível estratégico, tático ou operacional (Azarias, Matos E
Scandelari, 2009).
Para seu auxílio, o Engenheiro de Produção conta com uma variedade de ferramentas que
exploram grandes volumes de dados em busca de padrões, que possam demonstrar tendências ou algo a
se evitar para as próximas ações da organização.
A descoberta de conhecimento em base de dados tem por objetivo dar auxílio à fase de tomada de
decisões por meio de reconhecimento de informações encobertas em um volume de dados.
Dentro do processo de descoberta do conhecimento a mineração de dados se destaca como a etapa
onde se faz o trabalho mais interessante (COSTA et. al. 2000).
Ferramentas de mineração de dados permitem ao usuário - aqui o engenheiro de
produção - reunir informações pertinentes aos processos internos e o ambiente
externo direcionando a estratégia e o processo de tomada de decisões (VIDAL E BISCAIA, 2008)
(PELLEGRINI, COLLAZOS E BARRETO, 2000).
Messi (2001) afirma que para a escolha de uma ferramenta de mineração de dados seja efetuada
com sucesso, critérios devem ser levados em consideração, tendo como base os objetivos da
utilização e, assim, poder minimizar ou até mesmo eliminar os impactos negativos da
escolha de uma ferramenta inadequada para um determinado objetivo.
3. O usuário e a usabilidade
Pessoas são diferentes, na forma de pensar, de agir, de entender o que se passa ao seu redor e isso
influencia no desenvolvimento de interfaces de sistemas informatizados. Para Nielsen (1993), Ponte e Silveira
(2008), um sistema pode ser considerado com grande potencial de usabilidade quando apresenta fácil
manuseio, é rapidamente aprendido e dificilmente desaprendido, não provoca erros operacionais,
oferece um alto grau de satisfação para seus usuários e resolve de forma eficiente as
tarefas para as quais foi projetado. Por isso, é importante durante a criação do sistema
definir quem o utilizará.
Para Facchine e Araujo (2010), a melhor forma de se avaliar o estado de usabilidade de um software
é observando as percepções do usuário.
Em 1993, Scapin e Bastien propuseram um conjunto de critérios que minimizariam as dúvidas sobre
o que é qualidade em software. Estes critérios serão descritos a seguir.
3.1 Convite
Uma interface convidativa é composta por títulos claros para as janelas e caixas de
diálogo; informações claras sobre o estado dos componentes do sistema;
informações sobre o preenchimento de um formulário, com os dados do usuário,
opções de ajuda claramente indicadas.
3.2 Legibilidade
Diz respeito à dificuldade ou facilidade na leitura das informações textuais. Tipo de
letra, espaçamento entre palavras, parágrafos bem definidos.
3.3 Agrupamento de Itens
O posicionamento, a ordenação, a organização e a forma como os objetos, imagens e
comandos são dispostos na tela são aspectos importantes para que o usuário possa ter uma
rápida compreensão de um programa.
3.4 Carga de Trabalho
Consiste no tempo que o usuário leva para obter a resposta que precisa.
3.5 Resposta Imediata
A rapidez na resposta é um fator importante para a satisfação e confiança do
usuário. A ausência ou demora de uma resposta pode gerar descontentamento e desconfiança
por parte do usuário.
3.6 Controle do Usuário
Em situações de processamento demorado a falta do controle do usuário sobre as
ações do sistema pode implicar em perda de tempo. O computador deve somente executar aquilo que
o usuário quer e quando ele solicitar e também pode interromper ou cancelar o processo.
3.7 Adaptabilidade
Existem diferentes tipos de usuários. Para que todos tenham direito a usabilidade, o sistema deve
apresentar em sua interface maneiras variadas de se realizar a tarefa, permitindo que o usuário adapte
à sua vontade ou necessidade.
3.8 Alerta de Erros
Diz respeito a todos os mecanismos que permitem evitar, reduzir e alertar sobre a ocorrência de erros e
que favoreçam sua correção.
3.9 Consistência
Os procedimentos, rótulos, comandos são mais facilmente reconhecidos, localizados e utilizados
quando seu formato, localização e nomenclatura seguem um padrão de uma tela ou
seção para outra.
3.10 Significado dos Códigos
Quando o usuário desconhece o significado do código ou denominação podem
levá-lo a interpretações equivocadas e por conseqüência cometer erros.
4. Metodologia
Neste trabalho foi avaliado o software de mineração de dados Weka. O
Weka tem a característica de ser relativamente fácil de usar, sem exigir especialidade
e ser gratuito. Foi elaborada uma lista de ações que o usuário deveria realizar
para processar uma base de dados contida no próprio software. A escolha da base de dados foi
aleatória, assim as ações tomadas podem ser seguidas para qualquer base de dados
utilizada. A cada procedimento que o usuário executava, desde o de abrir o programa até ler o
resultado final da mineração, foi observado o nível de dificuldade apresentado pela
interface na sua utilização e se as respostas dadas pelo software às
ações do usuário eram pertinentes, corretas e de fácil compreensão.
5. Resultado e discussões
5.1 Avaliação qualitativa da usabilidade da ferramenta de mineração de
dados
5.1.1 Convite
Com o programa aberto, a figura 1 ilustra a primeira interface gráfica apresentada ao usuário
do Weka. Neste critério de usabilidade os aspectos que foram observados foram os seguintes:
a) Identificação do usuário: o usuário insere dados pessoais antes de
começar o programa;
b) Modo de acesso: o usuário faz login, precisa digitar uma senha para entrar no programa;
c) Opção de ajuda: comando visível e de identificação fácil para
que o usuário possa acionar, caso necessite.

Figura 1: Tela inicial da ferramenta Weka
De acordo com a figura 1, os aspectos não são utilizados pelo sistema. Ao iniciar o programa,
nenhuma forma de acesso ao usuário é oferecida, ou seja, não deve fazer login
para poder operar.
5.1.2 Legibilidade
Com relação ao critério de legibilidade os aspectos que foram analisados são os
seguintes:
a) Tipo de letra: a fonte deve ser padronizada, possuir contraste com o fundo.
b) Espaçamento entre palavras: deve facilitar a leitura do usuário.
c) Parágrafos bem definidos: o usuário deve poder identificar o início e fim de uma
frase.
Este critério foi observado através da análise das interfaces gráfica ilustrada
na Figura 2.

Figura 2: Exemplo de legibilidade da ferramenta Weka
Na Figura 2 pode-se observar que a fonte utilizada pelo sistema permite uma leitura do texto, bem como o
espaçamento das palavras e a disposição dos parágrafos oferecem uma boa
compreensão do que está escrito.
5.1.3 Agrupamento de Itens
Os aspectos observados neste critério de usabilidade, na Figura 3, foram:
a) Listas de dados ordenadas: presença de menus compatíveis com a tarefa;
b) Grupos de itens relacionados com a atividade realizada: presença de barra de ferramentas.

Figura 3: Exemplo de agrupamento de itens da ferramenta Weka
Observando a Figura 3 nota-se que o sistema apresenta este critério. O usuário tem pleno
conhecimento de quais comandos poderá utilizar no momento, sendo que àqueles não
relacionados com atividade estão inativos.
5.1.4 Carga de Trabalho
Na Figura 4 foram avaliados os seguintes aspectos ligados à carga de trabalho:
a) Necessidade de ir e voltar às janelas: o usuário deve ter facilidade em executar suas
ações de entradas de dados e de comandos por meio de recursos agrupados e apresentados em uma
mesma tela.
b) Presença de informações úteis: fornecimento de informações
pertinentes, oportunas e limitada.

Figura 4: Exemplo de carga de trabalho da ferramenta Weka
A figura 4 mostra que o Weka apresenta as informações iniciais necessárias em
uma mesma tela.
5.1.5 Resposta Imediata
A Figura 5 ilustra a análise do seguinte aspecto:
a) Rapidez na resposta: cada ação do usuário deve ser correspondida por uma
reação do sistema, de forma imediata e perceptível, permitindo uma
contrarreação por parte do usuário.
Figura 5: Exemplo de resposta imediata da ferramenta Weka
Utilizando-se dos exemplos constantes nos pacotes do sistema constatou-se que este atende ao critério
de resposta imediata. O usuário ao clicar em um dos atributos (A), o sistema lhe fornecerá
rapidamente quais valores estão relacionados a este atributo (a); qual a natureza deste atributo, qual
a porcentagem de sua ocorrência, conforme mostrou a Figura 5.
5.1.6 Controle do Usuário
Para o critério de usabilidade controle do usuário os aspectos observados na figura 6 foram:
a) Sistema executa o que é solicitado pelo usuário: o usuário deve poder escolher a
forma como o sistema executará a função.
b) Possibilidade de interromper o processo: a interface deve conter a opção de parar a
execução.

Figura 6: Exemplo de controle de usuário da ferramenta Weka
Este critério é utilizado no Weka. Conforme a Figura 6, no sistema Weka o
usuário poderá optar por qual técnica de mineração de dados prefere que sua
base de dados seja explorada. Por “classify” (classificação), por
“cluster” (agrupamento) ou por “associate”
(associação). Clicando em “choose” o usuário pode escolher qual
algoritmo fará a exploração dos dados. O sistema possui ainda o comando
“start” e “stop” que permite ao usuário iniciar e interromper
o processo de mineração.
5.1.7 Adaptabilidade
A Figura 7 ilustra o aplicativo Weka. Neste critério o aspecto observado foi:
a) Realização da tarefa de maneira variada: diferentes maneiras de realizar a entrada de dados,
acionarem um comando e diferentes caminhos para se chegar a uma funcionalidade.

Figura 7: Exemplo de adaptabilidade da ferramenta Weka
O sistema atende ao aspecto observado. O Weka oferece formas de se importar um arquivo de uma pasta
“open file” ou de um endereço na internet “open url” e
“open db”.
5.1.8 Alerta de Erros
O aspecto observado na Figura 8 para este critério de usabilidade foi:
a) Alerta de erro: mensagem que avise o efeito da ação do usuário. Deve exigir alguma
ação, mesmo que seja para simplesmente fechar a caixa de mensagem.

Figura 8: Exemplo de alerta de erros da ferramenta Weka
Conforme Figura 8, o Weka alerta quando algo de errado aconteceu.
5.1.9 Consistência
Este critério de usabilidade foi avaliado, nas figuras 9 e 10, pelo seguinte aspecto:
a) Padrão na apresentação das interfaces: para que o usuário não considere
a tela como desorganizada, seu conteúdo deve estar bem localizado e seu layout deve ser bem definido.

Figura 9: Exemplo de consistência da ferramenta Weka
-----

Figura 10: Exemplo de consistência da ferramenta Weka
Com exceção de alguns comandos que correspondem com a atividade a ser executada, as telas do
Weka seguem o mesmo padrão visual como ilustrado nas figuras 9 e 10. Sendo assim,
este critério também é utilizado pelo sistema.
5.1.10 Significado dos códigos
Na Figura 11, o critério significado dos códigos foi observado pelo aspecto:
a) Interpretação dos códigos: o usuário precisa poder reconhecer a
informação apresentada.

Figura 11: Exemplo de significado dos códigos da ferramenta
Weka
A Figura 11 mostra os resultados da técnica de clusterização do Weka. Aqui
nota-se que o atendimento a este critério depende do nível de conhecimento do usuário. Um
usuário eventual encontra dificuldade para compreender o que está sendo apresentado.
5.2 Avaliação quantitativa da usabilidade da ferramenta de mineração de
dados
De acordo com o objetivo da mineração de dados a escolha da ferramenta apropriada para se obter
a resposta da forma mais confiável e precisa possível tem atenção especial, por
parte do engenheiro de produção.
Este trabalho procurou analisar um software de mineração de dados e verificar se os
critérios de usabilidade estabelecidos por Scapin e Bastien (1993) são atendidos.
De acordo com as características de usabilidade descritas na seção 3 um resumo dos
critérios utilizados ou não pelo sistema analisado é apresentado no quadro 1.
|
Critério de Usabilidade
|
Weka
|
|
Possui
|
Não possui
|
Possui parcialmente
|
|
Convite
|
|
X
|
|
|
Legibilidade
|
X
|
|
|
|
Agrupamento de ítens
|
X
|
|
|
|
Carga de trabalho
|
X
|
|
|
|
Resposta imediata
|
X
|
|
|
|
Controle do usuário
|
X
|
|
|
|
Adaptabilidade
|
X
|
|
|
|
Alerta de erros
|
X
|
|
|
|
Consistência
|
X
|
|
|
|
Significado dos códigos
|
|
|
X
|
Quadro 1: Weka e os critérios de usabilidade
Fonte: Autoria própria.
Constata-se que dos dez parâmetros estudados, oito estão presentes na interface do
Weka, um não é contemplado pela ferramenta e outro é relativamente empregado.
6. Conclusão
Por meio de ferramentas de mineração de dados é possível identificar que atitudes
são necessárias para a evolução da organização. O engenheiro de
produção é o principal interessado na correta utilização desta tecnologia,
já que suas atitudes comprometem todos os setores da organização. Assim, o conhecimento
não deve ser equivocado.
Com o objetivo de analisar uma ferramenta de mineração de dados com base em critérios de
usabilidade, este trabalho procurou apresentar de forma simplificada a importância que uma interface bem
construída possui na criação de um software para sua utilização
correta.
Esta característica influencia na compreensão do resultado e assim na utilização
da informação obtida.
Contudo, o resultado alcançado da análise do sistema de mineração de dados foi
considerado satisfatório, sua interface obedece à maior parte das regras de usabilidade.
Porém algumas observações são necessárias:
- a adoção do idioma inglês pode causar impacto negativo ao usuário que não
possuir pelo menos uma breve noção desta língua, podendo resultar em
desmotivação e desistência da utilização do sistema. Sua
disponibilização no idioma português pode representar um aumento na adoção
da ferramenta no Brasil.
- falta da opção Ajuda em seu menu. Entretanto, essa “falha” pode ser contornada
pela existência de manuais na internet que ensinam como operar essa ferramenta. No entanto, o
usuário terá de procurar esses manuais antes, tornando seu aprendizado mais demorado.
Excetuado estas observações concluiu-se que nem esta nem àquela comprometem de forma
preocupante a operação do sistema.
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