1. Introdução
O tema qualidade de vida (QV) é muito discutido tanto na linguagem cotidiana, como em pesquisas
científicas. Essa constatação é confirmada por Fleck et al. (2008) quando
argumenta que a última década presenciou o crescimento da produção
científica na área de QV e saúde, sem focar apenas a doença, mas os construtos
sociais e psicológicos envolvendo o bem-estar e a satisfação das pessoas.
O atual contexto empresarial está caracterizado pela maior atenção no capital humano no
ambiente de trabalho. Considerando que as pessoas passam uma parcela significativa de suas vidas em
organizações, pesquisadores e gestores crescentemente passaram a se preocupar com a qualidade de
vida no trabalho (QVT), principalmente no que se refere às condições do ambiente de
trabalho, buscando aumentar a satisfação e a motivação do trabalhador e com isso
refletir no aumento da produtividade.
A QVT é um tema que tem despertado o interesse por parte do empresariado brasileiro, provavelmente
pela possível ligação com a satisfação do empregado e consequentemente
perda ou aumento da produtividade que pode surgir desta associação. (FRANÇA; ZAIMA,
2002).
Embora haja um limite sutil entre as questões de trabalho e de vida na família e na comunidade,
ambos tratam de questões relacionadas a promover e assegurar a qualidade do bem-estar geral do ser
humano. Por isso, tão importante quanto às condições de vida das comunidades
são as práticas desenvolvidas pelas empresas, já que é nas empresas que o ser
humano desenvolve uma parte muito significativa de sua vida: o trabalho. (OLIVEIRA; FRANÇA, 2005).
Desenvolver e manter uma sensação de bem estar no trabalho não envolve apenas resultados
financeiros, envolve, ou deveria envolver questões de QV, bem como horas de trabalho, tempo com a
família, cargas de trabalho administráveis, controle de carreira e alguma sensação
de segurança no emprego. (COOPER, 2005).
Devido à maior conscientização dos trabalhadores, tem levado
reivindicações por um trabalho mais humano e compensador. Para que seja possível
trabalhar com o conhecimento das pessoas é necessário que estas estejam bem. Sendo
necessário verificar a QV dentro e fora das organizações, pois certamente o
funcionário que possui uma boa QV, desempenhará melhor as suas tarefas, produzindo mais e
contribuindo com novos conhecimentos.
A empresa deve preparar o melhor ambiente de trabalho, na busca de proporcionar aos seus funcionários
satisfação nas tarefas desenvolvidas. A QVT deve buscar atingir vários níveis,
proporcionando a saúde física, social e psicológica a seus funcionários, podendo
contar com auxílio de programas e ações em QVT.
Para que os programas e investimentos em promoção da saúde dos trabalhadores possam ser
fundamentados de forma que realmente atendam as necessidades dos funcionários, é importante que
os gestores avaliem e procure conhecer o estilo de vida, os hábitos, a satisfação, a QVT
e a QV geral de quem, todo o dia, participa ativamente do processo produtivo. (TIMOSSI, 2009).
As abordagens em torno do tema QV e QVT, vêm sendo tratadas em muitos estudos levando em
consideração a relação existente entre elas. Timossi (2009) evidencia que ambas
– QV e QVT – podem ser influenciadas por vários aspectos. O conhecimento dos fatores que
estão presentes na vida dos funcionários e que lhes causam certa insatisfação pode
fornecer subsídios para que a empresa possa agir de forma coerente na tomada de decisão,
contribuindo para que ocorra melhoria na vida, levando ao melhor desempenho dentro da
organização.
A importância em se estudar QV e QVT está em que a QVT não afeta apenas a
satisfação no trabalho, mas também satisfação em domínios da vida,
tais como vida familiar, vida lazer, vida social, vida financeira, e assim por diante. (SIRGY et al.,
2001).
Este estudo propõe a análise da QV e da QVT de funcionários da indústria de
laticínios no estado do Paraná, utilizando-se para verificar a relação existente
entre estas o modelo de regressão logística. O que se torna relevante pela necessidade em
mensurar a QV e a QVT, verificando através de números a existência de influência
entre estas variáveis.
2. Investigação quanto a QV e a QVT
A QV assume importância cada vez maior e está sendo foco de vários estudos, inclusive
voltados ao ambiente de trabalho. Timossi (2009) ressalta que mesmo a QV sendo um tema atual e muito
discutido, não existe um conceito único que seja capaz de abordar os vários fatores que
interferem ou a influenciam.
Martins (2005) relata que a QV não é apenas sinônimo de qualidade do ambiente, de
saúde física/mental, entre outros, mas trata-se de um conceito abstrato que deve refletir a
interação do homem com o seu meio, é a maneira pela qual o individuo interage com o mundo
externo, o que se dá através da sua individualidade e da sua subjetividade.
Neste contexto de QV, o trabalho é que vem ocupar um grande espaço na vida das pessoas, focadas
nesta ideia muitas organizações vêm desenvolvendo estratégias com objetivo de
estabelecer um equilíbrio entre a relação vida e o trabalho.
As concepções sobre o ser humano no ambiente de trabalho vêm sendo transformadas no
decorrer dos anos, o termo QVT é empregado e debatido por muitas empresas na busca de um diferencial.
Para Rodrigues (2008, p.76), “[...] a QVT tem sido uma preocupação do homem desde o
início de sua existência, às vezes apresentada com outros títulos, mas sempre
voltada para trazer satisfação e bem-estar ao trabalhador ao executar suas tarefas”.
Com o avanço e desenvolvimento industrial e as transformações ocorridas no trabalho, o
homem deixou de ser visto como uma máquina, numa concepção que se voltava apenas para a
produtividade, passando-se a um olhar em que a satisfação dos funcionários se reverte em
melhor desempenho e eficiência para o sucesso das empresas.
Entretanto, verifica-se que estas transformações no trabalho motivadas pela acirrada
concorrência entre as organizações exigem profissionais qualificados, aumentando a
produtividade com metas excessivas, o que vem prejudicado a saúde e a vida das pessoas. Shinyashiki
(2002) fala que viver somente para o trabalho, em um regime de competição eterna, está
custando um preço altíssimo, sendo chocante a quantidade de doenças que se contrai devido
a um estilo de vida que impossibilita o indivíduo de ser feliz.
O foco na QVT torna-se importante devido o trabalho ocupar um grande espaço na vida das pessoas. De
acordo com Conte (2003), a importância da QVT reside no fato de que as pessoas passam em ambiente de
trabalho mais de 8 horas por dia, durante pelo menos 35 anos de suas vidas.
Torna-se difícil para o indivíduo separar os problemas profissionais de sua vida pessoal, como
também inversamente. O trabalho conforme Martel e Dupuis (2006) ocupa os pensamentos, determina o
cronograma para o dia, fornece o acesso para o consumidor aos produtos e contribui para a identidade social.
Para Martel e Dupuis (2006), a QVT corresponde a uma condição experimentada pelo
indivíduo na busca dinâmica de seus objetivos hierarquicamente organizados, dentro dos
domínios de trabalho, onde a redução do espaço que separa o indivíduo a
partir destes objetivos é refletida por um impacto positivo na QV geral, no desempenho organizacional
e, consequentemente, no funcionamento global da sociedade.
A ideia da QVT é proporcionar um ambiente de trabalho saudável, clima organizacional
agradável, propício ao bem estar, satisfação e a motivação dos
colaboradores, fazendo com que se sintam valorizados.
Problemas decorrentes da falta tanto da QV como da QVT podem refletir negativamente na vida indivíduo,
seja no ambiente de trabalho ou nos seus momentos de tempo livre e lazer, resultando em uma má
produtividade, como também problemas de absenteísmo, rotatividade e saúde.
Conte (2003) ressalta que a meta principal do programa de QVT é a conciliação dos
interesses dos indivíduos e das organizações, ao melhorar a satisfação do
trabalhador, melhora-se a produtividade da empresa.
A abordagem em torno do tema QV e QVT vêm sendo tratada em muitos estudos levando em
consideração sua relação. O Quadro 1, a seguir, traz as colocações
de alguns pesquisadores sobre esta relação.
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Autores
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Citações
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Loscocco e Roschelle
(1991)
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Propuseram que a QV deve ser analisada como a resultante da composição
(vida social familiar + realidade do trabalho) e não separadamente.
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Grandjean (1998)
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Existem vários levantamentos que dão margem à hipótese
que há estreitos laços entre a QVT e a QV em geral.
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Danna e Griffing (1999)
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Salientam que o trabalho e a vida pessoal não são duas coisas
separadas, mas domínios inter-relacionados e entrelaçados um no outro.
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Nahas (2006)
|
Pelo menos duas realidades se interpõem no dia-a-dia e podem ser consideradas
no estudo da QV: a realidade da vida social familiar (incluindo o lazer) e a realidade do trabalho.
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Cooper (2005)
|
Discorre sobre a percepção que os gerentes têm sobre as muitas
horas de trabalho onde apresenta que 69% dos executivos relatam que estas horas prejudicam sua
saúde, 77% que afetam de forma adversa seu relacionamento com os filhos e 72% que prejudicam
seu relacionamento com seu parceiro.
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|
Vasconcelos (2008)
|
Apresentou estudos (DIEGUES, 2004; FRANÇA, 2006; ARANHA, 2007) e constatou que
subir na carreira é terrivelmente devastador à QV e à saúde de homens e
também de mulheres.
|
|
Timossi (2009)
|
Conclui que correlacionar QVT e QV estão de acordo com a premissa atual de
gestão de pessoas, pois possibilita avaliar a influência de qualquer critério de
QVT sobre a QV geral e também inversamente.
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Quadro 1 - Autores que defendem a ideia de relação entre QV e
QVT
Fonte: Adaptado de Timossi (2009).
Torna-se evidente a importância de se estudar estas duas variáveis (QV e QVT), para possibilitar
a empresa melhor direcionamento de suas estratégias em relação ao seu capital humano e a
melhora das condições de vida dos indivíduos na sociedade.
3. Metodologia
Neste estudo se investigou um período específico nos funcionários da indústria de
laticínio, onde foi analisado a QV e QVT através da regressão logística. Para
atender os objetivos desta pesquisa se utilizou do banco de dados da pesquisa realizada por Timossi (2009), em
empresas do ramo de laticínios localizadas no estado do Paraná, em que foi analisada a
relação entre a QV e QVT.
As empresas foram selecionadas por acessibilidade, optando por escolher mais de uma empresa, pois o objetivo
não é fazer o retrato de uma organização mais de um mesmo setor produtivo. Foram
escolhidas empresas classificadas como micro, pequena, média e grande. Fazendo parte da amostra os
níveis: diretores e gerência; colaboradores administrativos e setor produtivo (TIMOSSI, 2009).
Foram investigados ao todo 548 funcionários. Estes funcionários foram investigados
através da aplicação simultânea dos instrumentos: o WHOQOL -100 e o modelo de
Walton.
O WHOQOL–100 foi utilizado para avaliação da QV, trata-se de um instrumento elaborado
pela OMS, que questiona sobre como a pessoa tem se sentido em relação a sua QV, saúde, e
outras áreas afins. É composto por 100 questões, as quais são seccionadas em 24
grupos de quatro questões cada, que se denomina por ‘facetas’. Um determinado número
de facetas constituiu um domínio, o instrumento baseia-se em seis domínios. Estes seis
domínios são: físico; psicológico; nível de independência;
relações sociais, meio-ambiente e; espiritualidade / religião / crenças pessoais.
Para investigar a QVT, utilizou-se o modelo adaptado de Walton (1973), um dos modelos mais utilizados e
relevantes na avaliação da QVT. O modelo é constituído por oito dimensões
e/ou critérios, os quais abrangem aspectos básicos das situações no trabalho.
Os oito critérios são: compensação justa e adequada, condições de
trabalho, uso e desenvolvimento das capacidades pessoais, oportunidade de crescimento e segurança,
integração social na organização, cidadania, trabalho e espaço total de
vida e, relevância social do trabalho.
Walton (1973) não traz um questionário constituído, mas um conjunto de dimensões.
Timossi et al. (2009) elaboraram um questionário, baseado nas dimensões apresentados
por Walton para avaliarem a QVT dos funcionários, com uma linguagem mais propícia a qualquer
nível de escolaridade.
Para análise de dados, inicialmente foi realizada a análise descritiva dos domínios da
QV e dos critérios da QVT, em seguida se utilizou o teste independência para testar a
hipótese de que não há associação entre os domínios com a QVT e
entre os critérios com a QV.
Com os domínios que apresentaram uma associação significativa com a QVT e com os
critérios que apresentaram associação significativa com a QV, foi implementada a
análise de regressão logística. Para então identificar às variáveis
da QV que apresentam alguma relação com a QVT geral, e as variáveis da QVT que apresentam
alguma relação com a QV geral.
Na análise dos resultados obtidos na aplicação da regressão logística,
novamente a associação entre os domínios com a QVT, e entre os critérios com a QV
foi avaliada. As razões de chances entre os domínios com a QVT, e entre os critérios com
a QV foram estimadas e com auxílio dos testes Pearson, Deviance e Hosmer-Lemeshow, o modelo
foi avaliado.
A partir dos resultados obtidos desta análise foram orientados investimentos em QV e QVT considerando
os critérios e domínios.
4. Resultados e discussões
Com base nos resultados da pesquisa, recorreu-se primeiramente ao teste de independência qui-quadrado,
para examinar as associações entre estes seis domínios da QV com a QVT geral e, as
associações entre os oito critérios da QVT com a QV geral.
Os valores obtidos através do teste de independência envolvendo todas as 14 variáveis
encontram-se nas Tabelas 1 e 2. Foi possível verificar com um nível de significância
α ≤ 0,05, quais variáveis independentes possuem influência significativa em
relação às variáveis dependentes.
Na Tabela 1 são apresentados os resultados da análise do teste de independência aplicado
para os domínios da QV e QVT geral:
Tabela 1 - Domínios da QV com a QVT Geral
|
Domínios
|
Qui-quadrado
|
Valor de P
|
|
Físico
|
42,940
|
≤ 0,001
|
|
Psicológico
|
38,951
|
≤ 0,001
|
|
Nível de Independência
|
10,633
|
≤ 0,001
|
|
Relações Sociais
|
29,738
|
≤ 0,001
|
|
Meio Ambiente
|
43,675
|
≤ 0,001
|
|
Espiritualidade/crenças
|
3,603
|
0,058
|
Fonte: Autoria própria (2012).
Entre as seis variáveis (domínios) investigadas, cinco apresentaram dependência
significativa. Estas são as que o resultado da análise apresentou valor de p≤0,01 no
teste, portanto nestes casos, rejeita-se a independência entre as variáveis analisadas,
concluindo que há evidência suficiente para garantir a afirmação de que os
domínios de QV e a QVT geral são significativamente dependentes. Isso pode ser afirmado com no
mínimo 99,9% de confiança.
Conforme a Tabela 1, a única variável considerada independente de QVT foi o domínio
‘Espiritualidade’ (p=0,058), pois na análise teste de independência
apresentou valor de p maior que o nível de significância adotado, α=0,05.
É provável que o fato deste domínio não se apresentar significante, devido o
instrumento WHOQOL-100 apresentar apenas quatro questões referentes a este domínio.
Na Tabela 2, a seguir, são apresentados os resultados da análise do teste de
independência aplicado para os critérios da QVT e QV geral:
Tabela 2 - Critérios da QVT com a QV Geral
|
Critérios de QVT
|
Qui-quadrado
|
Valor de P
|
|
Comp. Justa e Adequada
|
19,910
|
≤ 0,01
|
|
Cond. Trabalho
|
10,622
|
≤ 0,01
|
|
Capacidades
|
41,645
|
≤ 0,01
|
|
Oportunidades
|
45,362
|
≤ 0,01
|
|
Integração Social
|
74,691
|
≤ 0,01
|
|
Constitucionalismo
|
44,928
|
≤ 0,01
|
|
Trabalho e Vida
|
12,773
|
≤ 0,01
|
|
Relevância Social
|
14,782
|
≤ 0,01
|
Fonte: Autoria própria (2012).
Entre as oito variáveis investigadas (critérios), todos os critérios apresentaram
dependência significativa, concluindo que há evidência suficiente para garantir a
afirmação de que os critérios de QVT e a QV geral são significativamente
dependentes.
Após a análise realizada com o teste de independência, será estimado o modelo de
regressão logística. Neste caso será trabalhado com a regressão logística
binária, pois a tabulação dos dados foi direcionada para esse encaminhamento.
Tabela 3 – Resultados da regressão logística multivariada
entre os critérios da QVT na satisfação com a QV geral
|
Preditor
|
Coeficiente
|
P
|
Razão de Chances
|
Intervalo de confiança 95%
|
|
Inferior
|
Superior
|
|
Constante
|
0,505488
|
0,349
|
-
|
-
|
-
|
|
Comp. Justa e Adequada
|
0,770681
|
0,307
|
2,16
|
0,49
|
9,48
|
|
Cond. Trabalho
|
-1,28588
|
0,071
|
0,28
|
0,07
|
1,12
|
|
Capacidades
|
0,790827
|
0,190
|
2,21
|
0,67
|
7,20
|
|
Oportunidades
|
2,64805
|
0,016
|
14,13
|
1,65
|
120,80
|
|
Integração Social
|
2,02273
|
0,003
|
7,56
|
2,03
|
28,09
|
|
Constitucionalismo
|
0,873157
|
0,177
|
2,39
|
0,67
|
8,50
|
|
Trabalho e Vida
|
0,401886
|
0,495
|
1,49
|
0,47
|
4,74
|
|
Relevância Social
|
0,289377
|
0,655
|
1,34
|
0,38
|
4,75
|
Fonte: Autoria própria (2012).
A partir dos resultados encontrados na construção do modelo logístico, verifica-se que o
modelo exclui algumas das variáveis devido ao nível de significância adotado, ou seja,
α ≤ 0,05. Portanto, as variáveis que se encontram acima do nível de significância
não poderão fazer parte do modelo logístico.
Buscando estimar o modelo multivariado, as variáveis a serem utilizadas serão: critério
4 e critério 5, sendo ‘oportunidade de crescimento e segurança’ e
‘integração social’, respectivamente. Pois os resultados apresentados na Tabela 3
apontam para uma associação significativa com a QV geral, portanto, há evidências
suficientes para afirmar que os critérios ‘oportunidade de crescimento e segurança’
e ‘integração social’ analisados influenciam significativamente a QV geral.
Estas variáveis significativas podem ser consideradas prioridades nas estratégias da empresa
para melhorar a QV dos funcionários desta indústria.
Outros testes estatísticos podem ser utilizados para se obter uma maior confiança no modelo
multivariado estimado. Para esta validação do modelo são utilizados os testes:
Pearson; Deviance e Hosmer-Lemeshow, conforme Tabela 4.
Tabela 4 - Teste de qualidade de ajuste dos dados
|
Testes avaliados
|
Valores do modelo - Critérios da QVT na satisfação com a QV
geral
|
|
Qui-quadrado
|
P
|
|
Pearson
|
67,8716
|
0,925
|
|
Deviance
|
46,4428
|
1,000
|
|
Hosmer-Lemeshow
|
2,2501
|
0,690
|
Fonte: Autoria própria (2012).
Verifica-se através dos testes estatísticos aplicados que os resultados apresentaram um ajuste
satisfatório em relação ao modelo logístico estimado. Portanto, há
evidência suficiente para afirmar que o modelo estimado realiza predições com ótima
confiança.
Assim, substituindo os coeficientes na equação de regressão logística, pelos
coeficientes estimados encontrados na Tabela 3, tem-se o modelo de regressão logística
relacionando a variável dependente QV geral com as variáveis independentes os critérios
‘oportunidade de crescimento e segurança’ e ‘integração social’
têm-se:

Onde:
crit 4 - caso satisfação com este critério 1, caso insatisfação zero.
crit 5 - caso satisfação com este critério 1, caso insatisfação zero.
Estimado o modelo de regressão logística e realizado os ajustes dos dados, é
possível exemplificar sua capacidade de predição probabilística.
Supondo que um funcionário da indústria pesquisada se apresente com satisfação
nos critérios considerados significativos no modelo estimado (oportunidade de crescimento e
integração social), é possível estimar a probabilidade que este funcionário
terá de desenvolver uma QV satisfatória.
Para isso, substituem-se na equação estimada de regressão logística os dados do
funcionário analisado. É possível verificar com este exemplo, que o funcionário
apresentando estas condições de satisfação com os critérios oportunidade de
crescimento e integração social, terá aproximadamente 99,44% de probabilidade em
desenvolver uma QV satisfatória.
Observando a razão de chances encontradas para o critério ‘oportunidade de crescimento e
segurança’. De acordo com o valor encontrado, sugere-se que investimentos neste critério
tendem a aumentar as chances, em média, de satisfação na QV em aproximadamente 14 vezes.
Isto significa que um funcionário desta indústria que considerar a oportunidade de carreira, o
desenvolvimento pessoal e a estabilidade no emprego como satisfatória tem aumentado aproximadamente 14
vezes a chance de ter QV geral satisfatória.
O intervalo de confiança gerado para este critério (oportunidade de crescimento e
segurança) apresentou valor muito expressivo, com limite inferior de 1,65 e como limite superior
120,80. Como se trata de um resultado amostral, a verdadeira razão de chances populacional pode assumir
qualquer valor entre 1,65 e 120,80.
Quanto à estabilidade no emprego, envolvida neste critério, à medida que cresce os
riscos de demissão, estabelece uma insegurança e avolumam as exigências daqueles que
permanecem empregados (LOURENÇO, 2008). Isto reflete não apenas na condição
financeira do desempregado, que pode abalar sua QV pela falta de recursos, mas também daqueles que
continuam no trabalho podendo afetar suas condições psicológicas pela maior
esforço exigido no trabalho.
O critério ‘integração social’ de acordo com a razão de chances
apresentada tendem a aumentar, em média, de satisfação na QV em 7,56 vezes. Vasconcelos
(2008) argumenta sobre este critério que é inconcebível as pessoas trabalharem em uma
empresa e não interagirem de maneira cordial, sinérgica e civilizada.
Na tabela 5, apresentam-se os resultados da regressão logística entre os domínios da QV
com a QVT geral.
Tabela 5 – Resultados da regressão logística multivariada
entre os domínios da QV na satisfação com a QVT geral
|
Preditor
|
Coeficiente
|
P
|
Razão de Chances
|
Intervalo de confiança 95%
|
|
Inferior
|
Superior
|
|
Constante
|
-2,97645
|
0,004
|
-
|
-
|
-
|
|
Físico
|
1,10365
|
0,000
|
3,02
|
1,71
|
5,33
|
|
Psicológico
|
1,08475
|
0,018
|
2,96
|
1,20
|
7,59
|
|
Nível de Independência
|
1,43954
|
0,124
|
4,22
|
0,68
|
26,36
|
|
Relações Sociais
|
0,574083
|
0,223
|
1,78
|
0,70
|
4,47
|
|
Meio Ambiente
|
0,992355
|
0,000
|
2,70
|
1,59
|
4,59
|
Fonte: Autoria própria (2012).
Para estimar o modelo de regressão logística multivariado, serão utilizadas as
variáveis independentes: domínio físico, psicológico e ambiente. Os
domínios nível de independência e relações sociais apresentaram valores
acima do nível de significância adotado (p ≤ 0,05) e por isso não
poderão fazer parte do modelo logístico.
Os domínios físico, psicológico e ambiente apresentaram associação
significativa com a QVT geral. Portanto, há evidências suficientes para afirmar que os
domínios analisados influenciam significativamente a QVT geral, podendo isso ser afirmado com no
mínimo 95% de confiança. Estes domínios podem ser considerados como prioridades nas
estratégias da empresa para melhorar a QVT dos funcionários.
Para a validação deste modelo estimado se utilizou os testes: Pearson; Deviance
e Hosmer-Lemeshow. Os resultados podem ser observados na Tabela 6, a seguir:
Tabela 6 - Teste de qualidade de ajuste dos dados
|
Testes avaliados
|
Valores do modelo - Domínios da QV na satisfação com a QVT geral
|
|
Qui-quadrado
|
P
|
|
Pearson
|
7,62835
|
0,908
|
|
Deviance
|
8,93002
|
0,836
|
|
Hosmer-Lemeshow
|
0,00031
|
0,986
|
Fonte: Autoria própria (2012).
Verifica-se que os dados se apresentaram com um ajuste satisfatório em relação ao modelo
logístico estimado. Portanto, há evidência suficiente para afirmar que o modelo estimado
realiza predições com ótima confiança.
Assim, substituindo os coeficientes na equação de regressão logística pelos
coeficientes estimados encontrados na Tabela 5, tem-se o modelo de regressão logística
relacionando a variável dependente QVT geral com as variáveis independentes (domínio
físico, psicológico e ambiente).

Onde:
dom 1 - caso satisfação com este critério 1, caso insatisfação zero.
dom 2 - caso satisfação com este critério 1, caso insatisfação zero.
dom 5 - caso satisfação com este critério 1, caso insatisfação zero.
Depois de estimado o modelo de regressão logística e realizado os ajustes dos
dados, é possível exemplificar sua capacidade de predição probabilística.
Supondo que um funcionário da indústria pesquisada se apresente com satisfação nos
domínios considerados é possível estimar a probabilidade que este funcionário
terá de desenvolver uma QVT satisfatória.
O resultado encontrado para um funcionário apresentando estas condições de
satisfação com os domínios físico, psicológico e ambiente, é de
aproximadamente 55,07% de probabilidade em desenvolver uma QVT satisfatória.
Apesar de o modelo apresentar uma qualidade de ajuste significativa, conforme resultados apresentados e
discutidos das Tabelas 5 e 6, a probabilidade estimada com o mesmo para os funcionários que apresentam
uma condição de satisfação nos domínios 1, 2 e 5, não é alta.
Nesse exemplo, no qual se obteve a probabilidade de 55,07% para um QVT satisfatória não
são consideradas as variáveis independentes (domínios) que apresentaram valor de
p acima do nível de significância adotado para a pesquisa. Porém, quando testado o
modelo considerando todos os domínios a probabilidade de se obter uma QVT satisfatória passou
para aproximadamente 90%.
Considera-se este acréscimo significante, portanto, conclui-se que mesmo os valores de p
apresentados na Tabela 5 indicando para que alguns domínios não sejam considerados no modelo
estimado, deve-se sim utilizá-los. Esta decisão está considerando Gujarati (2006) o qual
argumenta que os pesquisadores erroneamente descartam algumas variáveis por estarem com valor de
p acima do nível de significância adotado.
Quanto à razão de chances encontrada para os domínios físico, psicológico
e meio ambiente indicam uma percepção muito favorável do funcionário.
Investimentos nestes domínios tendem a aumentar as chances, em média, de
satisfação na QVT em aproximadamente três vezes.
5. Conclusão
O objetivo de identificar a existência de relações probabilísticas entre a QV e a
QVT de funcionários da indústria de laticínios através da regressão
logística, foi alcançado por meio da metodologia adotada.
Constatou-se com o teste de independência que os domínios de QV não são
independentes de QVT geral (exceto o domínio ‘espiritualidade’, pois este se apresentou
como independente). E que todos os critérios de QVT não são independentes de QV geral.
Os modelos estimados de regressão logística conseguiram demonstrar a probabilidade de um
funcionário desenvolver satisfação com a QV ou satisfação com a QVT, assim
como a razão de chance de influência de cada uma das variáveis (domínios e
critérios) na variável dependente (QV geral e QVT geral).
Pode-se verificar a regressão logística como uma ferramenta eficiente na busca de
ocorrência da satisfação dos funcionários, contribuindo para a tomada de
decisão pela gestão da empresa.
Os resultados encontrados sugerem que práticas de gestão podem ser adotadas, e estas trariam
impacto direto no sentimento de satisfação destes funcionários investigados. Tais
práticas devem estar ligadas aos melhores resultados encontrados, em relação aos
domínios e critérios apresentados como de maior influência.
Destacam-se alguns domínios e critérios nesta relação de influência, sendo
eles: domínio físico, domínio psicológico, domínio ambiente,
critério oportunidades de crescimento e segurança e o critério integração
social.
Ao realizar a regressão logística, verificou-se no modelo de influência na QV geral dos
funcionários que os critérios da QVT, ‘oportunidades de crescimento e
segurança’ e ‘integração social’, apresentaram-se como significativos.
Portanto estas variáveis podem ser consideradas como prioridades nas estratégias para melhoria
na QV destes funcionários.
O critério oportunidade de crescimento e segurança apresentou uma probabilidade de 99,44% em
desenvolver uma QV satisfatória. Confirma-se com estes resultados a influência que o trabalho
exerce sobre a QV dos funcionários.
A empresa poderá agir com investimentos em programas de QVT que visem à oportunidade de
crescimento e segurança no trabalho, pois se contatou sua influência na vida dos
funcionários, o que poderá refletir positivamente no ambiente de trabalho e nos retornos
almejados pela empresa. Assim, sugere-se às empresas programas com foco na oportunidade de
ascensão profissional, segurança ao funcionário em seu emprego e possibilidades amplas de
carreira.
Investimento na integração social também poderá ser positivo, ou seja, a empresa
poderá estar desenvolvendo programas de incentivos ao relacionamento com um ambiente de trabalho alegre
e descontraído.
Apresentaram-se os domínios físico, psicológico e meio ambiente como influente na QVT
dos funcionários, sendo importante para a indústria estudada também estar investindo em
programas de QV, com foco nestes três domínios, pois se constatou a influência que estes
domínios poderão gerar no ambiente de trabalho, refletindo na produtividade de seus
funcionários.
Logo, conclui-se que após os levantamentos para a QV geral e para a QVT geral, estes são
influenciados significativamente tanto em relação aos critérios de QVT, como em
relação aos domínios de QV, possuindo relações probabilísticas entre
estes. O que também mostrou grande valia na busca de melhorias para os funcionários da
indústria, podendo contribuir para impulsionar estabelecimento de programas de promoção
para QV e para QVT.
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