1. Introdução
Diante de um ambiente competitivo, com a existência de rápidas mudanças
tecnológicas, diminuição do ciclo de vida dos produtos e maior exigência dos
consumidores, verifica-se uma clara necessidade das empresas desenvolverem produtos inovadores em prazos
curtos de tempo e a custos viáveis. Este contexto é desafiador principalmente para as micros,
pequenas e médias empresas (MPMEs) que devido a fatores como, dificuldades de acesso aos meios de
financiamento, carências de recursos em engenharia e P&D e menor escala produtiva, normalmente,
possuem maiores dificuldades em relação às grandes empresas para obterem níveis
satisfatórios de desempenho e competitividade. A formação de redes de
cooperação de empresas, também denominadas de cluster, têm se configurado
como uma alternativa para MPMEs enfrentarem a concorrência não apenas em nível local, mas
também internacional.
Pesquisas nacionais e internacionais têm estudado profundamente este fenômeno (Porter, 1999;
Nadvi, 1999; Negri, 1999; Baptista, 2000; Lastres, Cassiolato, 2003; Karaev et. al. 2007; Mohannak, 2007; Bas
et. al. 2008; Oprime et. al. 2009). Estes estudos destacam o aproveitamento dos benefícios de
cooperações verticais na cadeia produtiva e nas relações com o mercado que os
clusters podem fornecer às MPMEs (Riis et. al. 2007).
Concernente ao exposto, o objetivo deste artigo consiste em caracterizar o cluster moveleiro da
região de Votuporanga, localizado no estado de São Paulo e apresentar os principais mecanismos
de inovação para o desenvolvimento de novos produtos pelas empresas que pertencem a esta
aglomeração. Esse objetivo deriva-se de uma questão que já há algum tempo
é debatida na literatura, que são as vantagens proporcionadas pelos clusters. Estas
estruturas possibilitam alianças entre empresas que, dentre outros aspectos, favorecem o
compartilhamento de conhecimento, a flexibilidade de produção em termos de volume e variedade,
reduções de custos de investimentos e de transação e o aumento da eficiência
operacional (Nadvi, 1999; Karaev et. al. 2007).
O objeto de estudo desta pesquisa justifica-se, pois, a indústria moveleira possui dinâmica
inovativa fortemente dependente das relações com fornecedores de máquinas e equipamentos,
da adoção de novos materiais e do aperfeiçoamento do projeto do produto
(design). Vale destacar ainda que esta indústria possui estrutura produtiva complexa, uma vez
que opera em diversos segmentos de mercado com estratégias competitivas que atendem concomitantemente a
diferentes segmentos de mercado, conforme observam os trabalhos de Campanhola (2008) e Geremia (2004).
O cluster industrial da região de Votuporanga- SP merece ser analisado, uma vez que ocupa a
primeira posição de maior pólo moveleiro em produção e exportador do
Sudeste e do Estado de São Paulo (Associação Industrial da Região de Votuporanga,
2010). Suzigan et. al. (2004) classificam este cluster, como um sistema local de
produção, tipicamente de vetor de desenvolvimento local. Essas considerações
também estimularam um estudo mais aprofundado que caracterize aspectos de inovação de
produtos neste importante cluster industrial brasileiro.
Inicialmente o artigo apresenta revisão teórica sobre o tema. Em seguida, aborda-se o
método de pesquisa empregado e, posteriormente, apresenta-se e discutem-se os resultados
empíricos obtidos. Por fim, são delineadas as considerações finais.
2. Revisão Teórica
Com o objetivo de elucidar os temas desta pesquisa, a revisão teórica foi dividida em dois
tópicos. O tema cluster é brevemente apresentado e discutido no tópico 2.1. Em
seguida, no tópico 2.2, aborda-se sucintamente características de inovação no
desenvolvimento de produtos em clusters industriais.
2.1 Clusters industriais
Fenômenos aglomerativos é tema de pesquisa em diversas áreas do conhecimento, presente
nas ciências econômicas, administração, sociologia e engenharia de
produção. Essas aglomerações, nas quais é comum observar a intensa
presença de micros, pequenas e médias empresas (MPMEs), são identificados principalmente
como clusters e arranjos produtivos locais. Nota-se também a ocorrência deste
fenômeno em diversos setores econômicos, tanto industrial, comercial, financeiro, como o de
prestação de serviços. Como exemplos, pode-se citar pólos da indústria
cerâmica, de móveis, calçados, alimentício, equipamentos agrícolas,
indústria têxtil, equipamentos médicos e de saúde.
Porter (1999) define clusters como um agrupamento geograficamente centralizado de empresas
interrelacionadas e instituições correlatas numa determinada área conectada por elementos
basais e complementares. Para Hoffmann et. al. (2004) os clusters são constituídos por
concentrações geográficas de empresas, especialmente de menor porte, setorialmente
especializadas. Casarotto Filho, Pires (2001), por sua vez conceituam o cluster como uma
vocação regional, constituidas por organizações fabricantes de produtos finais e
que recebem o suporte de instituições privadas e públicas.
São diversas as pesquisas que abordaram a relação entre aspectos sócio-cultural
da região e o desenvolvimento de clusters (Nadvi, 1996; Negri, 1999; Oliver, Porta, 2005).
Dentre essas, pode-se citar trabalhos sobre a relação entre desempenho e
cooperação entre pequenas e médias empresas (Karaev et. al. 2007; Oprime et. al. 2009), a
criação de inovações tecnológicas e sua difusão dentro dos
clusters (Mohannak, 2007; Mason, Castleman, 2008), o uso da tecnologia da informação e
aprimoramento da gestão do conhecimento em clusters (Hoffmann et. al. 2004; Mason,
Castleman, 2008) e, o papel dos clusters na inovação de produtos e processos
(Tristão et. al. 2011).
Outro conceito associado aos clusters é que a cooperação e aprendizagem
têm o potencial de gerar o incremento da capacidade inovativa endógenas, potencializando a
competitividade e o desenvolvimento local. Isto em razão da reunião de atores econômicos,
sociais e políticos, posicionados em um mesmo espaço, desenvolvendo atividades econômicas
correlatas em que há interdependência, articulação e vínculos consistentes
(Cassiolato, Lastres, 2003). Além disso, as formas de articulação e aprendizado
interativo entre agentes, tanto formais quanto informais (principalmente o tácito), são
reconhecidos como fundamentais na geração e difusão de conhecimento intra
cluster.
Essa amalgama ganhou novos contornos, no que se denomina Technopolis, que se constitui em três
zonas integradas, sendo uma zona industrial - abrangendo indústrias, locais de
distribuição e setores administrativos - uma zona constituída de universidades e centros
de pesquisa privados e públicos; e uma zona residencial, para os pesquisadores (Bortagaray, Tiffin,
2000).
As conexões empresariais advindas do cluster, tanto de forma vertical quanto horizontal tende
a produzirem a especialização produtiva, e, assim, agirem em prol do desenvolvimento social e
econômico da região em que o cluster está localizado. O cluster
também remete a ideia de cadeia produtiva, que, é o encadeamento em diversas etapas das muitas
atividades econômicas pelas quais passam e são transformados e transportados os vários
insumos e materiais (Miles, Snow, 1986; Mance, 1999; Porter, 1999). As cadeias produtivas são formadas
por sistemas produtivos que operam em diferentes ecossistemas ou sistemas naturais, além de diversas
instituições de apoio. De outro modo, o conceito pode ser expresso como um conjunto de
componentes interativos, incluindo os sistemas produtivos, fornecedores de insumos e serviços,
indústrias de processamento e transformação, agentes de distribuição e
comercialização, além de consumidores finais (Haguenauer et. al. 2001).
Portanto, vê-se que um cluster é uma expressão que designa muitos conceitos e
elementos, tais como a ideia de cadeia produtiva e redes de empresas, aspectos de interesse sociais e
econômicos, espaço geográfico, visão coletiva, inovação, aprendizado
e estratégia.
2.2 Inovação e Desenvolvimento de Produtos em Clusters
A inovação no desenvolvimento de novos produtos em clusters é aspecto que
têm sido foco de diversas pesquisas (Kuei-Hsien et. al. 2008; Oprime et. al. 2009). Está
implicito nesta definição que os relacionamentos em rede propiciam valor a cadeia de
operações, o que favorece a melhoria de ações pró-ativas no processo de
inovação, poroporcionando, por conseguinte, um ambiente estimulante para desenvolvimento
colaborativo de novos produtos (Kuei-Hsien et. al. 2008).
Oliver, Porta (2006) salientam que sem o aprimoramento das suas estratégias de atuação
em redes, as empresas tendem a terem limitações no uso dos recursos territoriais, se comparadas
às vantagens normalmente propiciadas pela participação nos clusters. Entende-se,
que a inovação, como um meio efetivo de criar essas riquezas, depende de uma estratégia
de mercado que aproveite os benefícios potenciais e de colaboração dos agentes que
participam do cluster e, com isso, devido ações coordenadas e conjuntas, usufruam de
melhor desempenho em suas atividades de desenvolvimento de novos produtos.
Dentre essas vantagens Karaev et. al. (2007) observam que o conhecimento tácito presente em um
cluster deve ter uma governança na geração de inovações e
consequentes implicações para os produtos que as empresas pertencentes a este desenvolvem.
No Brasil, o que se observa são barreiras para que de fato a tecnologia e a inovação
possam ser instrumento de competitividade, principalmente pelas pequenas e médias empresas pertencentes
a setores tradicionais da indústria (Hoffmann et. al. 2004, Oprime et. al. 2009). Nesse sentido, os
clusters se apresentam com uma possibilidade de apoio a inovação e
desenvolvimento de produtos, pois facilita na difusão do conhecimento aplicado entre empresas, o que
está também relacionado com as habilidades da área geográfica de produzir e
comercializar um fluxo de tecnologia inovadora e a sua transferência aos programas de desenvolvimento de
novos produtos (Hoffmann et. al. 2004).
3. Método de pesquisa
Para atingir os objetivos deste artigo, que é caracterizar o cluster moveleiro da
região de Votuporanga, SP e apresentar os principais mecanismos de inovação para o
desenvolvimento de novos produtos neste cluster, adotou-se a abordagem de pesquisa quantitativa, que
foi operacionalizada por meio de survey. Escolheu-seeste procedimento de pesquisa, pois, de acordo
com Freitas et. al. (2000) e Miguel, Ho (2010), ele é adequado quando se tem o interesse em produzir
descrições quantitativas de uma população e faz uso de um instrumento de pesquisa
predefinido, normalmente o questionário estruturado. Além disso, para esses autores o
método survey é apropriado quando o foco de interesse consiste em identificar “O
que está acontecendo” ou “Como e porque isso está acontecendo”.
- Pertencem à população pesquisada, as empresas que desenvolvem e fabricam
móveis do cluster da região de Votuporanga. De acordo com a Associação
Industrial da Região de Votuporanga (2010), a população é composta por 150
empresas. Extraiu-se uma amostra aleatória de 61 empresas.
- Considerando que para o tamanho da amostra utilizada e chegando a um erro máximo de 8,1% da
estimava populacional de uma proporção, entende-se que a amostra de 61 empresas é tida
como adequada.
Para se definir média e grande empresa, utilizou-se o critério do SEBRAE (Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística). De acordo com esses órgãos, na indústria, são classificadas
como micro empresas, aquelas com menos de 20 funcionários; pequenas, as que possuem de 20 a 99 e, por
fim, médias empresas aquelas que possuem de 100 a 499 empregados.
- Utilizou-se questionário fechado que foi encaminhado aos diretores e gerentes de diferentes
áreas funcionais das empresas participantes. O pesquisador aplicou pessoalmente o questionário
a cada empresa que participou desta pesquisa. O quadro 1 apresenta a área funcional/ departamento, a
qual pertencem os profissionais que responderam ao questionário estruturado.
|
Área da Empresa
|
Número de respondentes
|
|
Diretores e gerentes administrativos
|
27
|
|
Diretores e gerentes gerais
|
14
|
|
Diretores e gerentes comerciais ou de marketing
|
10
|
|
Gerentes de produção
|
04
|
|
Gerentes financeiros
|
02
|
|
Gerente de compra
|
02
|
|
Gerente de recursos humanos
|
01
|
|
Arquiteta
|
01
|
O quadro 2 apresenta síntese de questões que integraram o questionário estruturado
aplicado.
Quadro 2. Síntese das questões presentes no questionário
estruturado.
|
A1 Idade da empresa
|
|
A2 Produção anual em unidades fabricadas
|
|
A3 Porte da empresa
|
|
A4 Número de funcionários
|
|
A5 Mecanismos de gestão adotados
|
|
A6 Faturamento bruto anual
|
|
A7 Linha de produtos fabricada
|
|
A8 Número de registros de patentes
|
|
A9 Tipos de processos produtivos empregados
|
|
A10 Estilos de móveis produzidos
|
|
A11 Principais matérias-primas usadas na fabricação dos produtos
|
|
A12 Principais acessórios ou insumos usados na produção
|
|
A13 Origem das principais matérias-primas
|
|
A14 Segmentos de mercados atendidos
|
|
A15 Principais canais de comercialização
|
|
A16 Principais produtos destinados ao mercado externo
|
|
A17 Fontes de obtenção de conhecimento para o desenvolvimento de
produtos
|
|
A18 Registro de patentes dos produtos
|
|
A19 Mecanismos utilizados para a inovação
|
4. Resultados empíricos
Inicialmente, no tópico 4.1, caracteriza-se o cluster moveleiro de Votuporanga. Em seguida,
no tópico 4.2, são apresentadas e discutidas as características de inovação
no desenvolvimento de novos produtos das empresas presentes no cluster.
4.1 Caracterização do cluster moveleiro de Votuporanga
Conforme demonstra a tabela 1, o polo moveleiro da região de Votuporanga é constituído
basicamente de micro e pequenas empresas. Nota-se que aproximadamente 80% se encontram nestas
classificações, sendo que destas 34 são pequenas e 15 são microempresas.
Tabela 1 - Porte das empresas.
|
Número de Funcionários
A4
|
Frequência Absoluta
|
Frequência Acumulada
|
%
|
% Acumulada
|
|
19
|
15
|
15
|
24,59
|
24,59
|
|
20 até 99
|
34
|
49
|
55,74
|
80,33
|
|
100 até 499
|
12
|
61
|
19,67
|
100,00
|
|
500 ou mais
|
0
|
61
|
0,00
|
100,00
|
|
Total
|
61
|
61
|
100
|
100,00
|
É interessante observar que a grande maioria das empresas pertencentes ao cluster, cerca de
84% da amostra, possuem menos que 20 anos (tabela 2). Isto indica que as empresas moveleiras de
Votuporanga, SP são relativamente novas.
Tabela 2 - Idade das empresas.
|
Idade das Empresas / Anos A1
|
Frequência Absoluta
|
Frequência Acumulada
|
%
|
% Acumulada
|
|
0 a 10
|
24
|
24
|
39,34
|
39,34
|
|
11 a 20
|
27
|
51
|
44,26
|
83,61
|
|
21 a 30
|
3
|
54
|
4,92
|
88,52
|
|
31 a 40
|
4
|
58
|
6,56
|
95,08
|
|
41 a 50
|
3
|
61
|
4,92
|
100,00
|
|
Total
|
61
|
61
|
100
|
100,00
|
No que se refere ao tipo de gestão, é possível notar na tabela 3 que predominantemente
são do tipo familiar, o que corresponde a 65% das firmas estudadas. Há pequena porcentagem de
empresas com uma administração de sócios patronais, que essencialmente, são
realizados pelos seus dirigentes-proprietários (13%). Esses resultados de tipo de gestão
refletem o porte (maioria de micros e pequenas empresas) e a pouca idade das empresas que compõem o
cluster estudado.
Tabela 3 – Tipo de gestão presente nas empresas.
|
Gestão das Empresas A5
|
Frequência Aboluta
|
Frequência Acumulada
|
%
|
% Acumulada
|
|
Familiar
|
40
|
40
|
65,57
|
65,57
|
|
Patronal
|
13
|
53
|
21,31
|
86,68
|
|
Em transição
|
5
|
58
|
8,20
|
95,08
|
|
Familiar e Patronal
|
1
|
59
|
1,64
|
96,72
|
|
Familiar e Profissional
|
1
|
60
|
1,64
|
98,36
|
|
Profissional
|
1
|
61
|
1,64
|
100,00
|
|
Total
|
61
|
61
|
100
|
100,00
|
------
Figura.1 - Tipos de processos produtivos empregados.
[A9.a (Produção de móveis sob-encomenda/ sob-medida), A9.b
(Produção de móveis em série/ massa), A9.c (Produção de
móveis em lote), A9.d (Produção de partes em série/ massa), A9.e
(Produção de partes em lote), A9.f (Produção de partes sob-encomenda/ sob medida),
A9.g (Prestador de outros serviços produtivos para outros fabricantes sob- encomenda/ sob-medida), A9.h
(Prestador de outros serviços produtivos para outros fabricantes em série/ massa), A9.i
(Prestador de outros serviços produtivos para outros fabricantes em lote), A9.j (Fabricante de outros
insumos sob-encomenda/ sob-medida), A9.k (Fabricante de outros insumos em série/ massa), A9.l
(Fabricante de outros insumos em lote), A9.m (Reforma sob-encomenda/ sob medida), A9.n (Reforma em
série/ massa), A9.o (Reforma em lote).
Além da segmentação por nicho de mercado e por sistemas de
produção, a indústria moveleira também poder ser categorizada pelo estilo dos
móveis produzidos. Isso é ilustrado na figura 2, que apresenta os estilos dos móveis
produzidos pelas empresas analisadas. É possível observar que a maioria delas (52) desenvolve
estilos de móveis retilíneos, que demonstram mais linhas retas e planas. Quanto a
combinação do uso de material no processo produtivo, os móveis produzidos são
essencialmente de madeira, já que as indústrias sempre usam madeira de reflorestamento (41
empresas), especificamente o pinus e o eucalipto. A minoria das empresas empregam painéis de madeira
reconstituída (27 empresas). Ambas matérias-primas são adquiridas de terceiros por cerca
de 70% das empresas estudadas.
Figura.2 - Estilo dos produtos produzidos.
[A10.a (Móveis retilíneos), A10.b (Móveis torneados), A10.c
(Móveis coloniais), A10.d (Móveis rústicos), A10.e (Móveis planejados), A10.f
(Móveis modelados/ moldados), A10.g (Móveis modulados), A10.h (Móveis
contemporâneos), A10.i (Móveis comparativos), A10.j (Móveis personalizados), A10.k
(Móveis dobrados/ dobráveis/ tubos), A10.l (Móveis redondos)].
No que se refere a origem dos acessórios incorporados aos móveis produzidos e montados pelas
empresas, de uma forma geral 27 empresas adquirem 100% da região cluster e, em
relação às embalagens, 50 delas as compram de provedores locais. Máquinas e
equipamentos também são obtidos da própria região, cerca de 65% das empresas
mencionaram que obtêm os equipamentos fabris na própria região. Já os
produtos químicos são adquiridos outras regiões do Estado de São Paulo, o
mesmo ocorre com tecidos e espumas. Esses dados mostram certo grau de adensamento da micro cadeia
produtiva local, uma vez que boa parte dos insumos produtivos e componentes e matéria prima utilizada
no processo produtivo são obtidos na própria região do cluster.
Outro aspecto que foi analisado é o perfil do mercado atendido pelas empresas. Dentre as empresas
estudadas, 20 delas desenvolvem produtos que atendem aos segmentos de classe média e, 17 ao mercado de
classe popular. O restante foca ambos os mercados (24 firmas). Vale notar que as empresas não
demonstraram interesse em desenvolver produtos, produzir ou montar móveis para o mercado de luxo ou
diferenciado.
As empresas visam prioritariamente atender ao mercado nacional, visto que 44 firmas fornecem somente para o
mercado doméstico e, apenas 17 indústrias exportam os seu produtos para outros países. A
maior parte (60) operam e vendem seus produtos na Região Sudeste, especialmente no estado de São
Paulo. Das empresas que exportam, somente 4 possuem um índice maior que 10% do faturamento bruto anual
direcionado ao mercado externo. Estas exportam, sobretudo, para países da América do Sul.
Diante desses resultados é possível afirmar que o pólo moveleiro de Votuporanga possui
as características necessárias para se configurar como um cluster industrial, uma vez
que apresenta os seguintes elementos: densidade da micro cadeia produtiva; espaço geográfico
constituído sobretudo de micros e pequenas empresas, especializado no mercado de móveis,
acessórios e embalagens; e, ainda grande parte dos equipamentos produtivos utilizados são
fabricados e adquiridos na própria região do cluster.
4.2 Inovação no Desenvolvimento de Produtos no Cluster de
Votuporanga
Apresenta-se na tabela 4, panorama sobre o registro de patentes de produtos desenvolvidos pelas empresas do
cluster. Nota-se que a maior parte das empresas (64%) não fazem registro de patentes dos
produtos que desenvolvem. Observou-se nas conversas informais junto aos entrevistados ao longo da
aplicação do questionário que os principais motivos de não fazê-lo,
são as dificuldades de ordem “burocrática” e o alto custo envolvido com o processo
de solicitação de patentes.
Tabela 4. Registro de patentes dos produtos desenvolvidos.
|
Registro de Patentes dos Produtos Desenvolvidos A18
|
Frequência Absoluta
|
Frequência Acumulada
|
%
|
% Acumulada
|
|
Nenhum
|
39
|
39
|
63,93
|
63,93
|
|
Alguns
|
17
|
56
|
27,87
|
91,80
|
|
Muitos
|
0
|
56
|
0,00
|
91,80
|
|
Quase Todos
|
1
|
57
|
1,64
|
93,44
|
|
Todos
|
4
|
61
|
6,56
|
100,00
|
|
Total
|
61
|
61
|
100,00
|
100,00
|
É interessante notar que as empresas que apresentam maior preocupação em inovar
por meio do desenvolvimento de seus próprios produtos, são as que registram patentes para quase
todos ou todos esses projetos de novos produtos. Essas são as firmas de porte médio da amostra,
maior idade e que desenvolvem e fabricam produtos voltados para a classe média. Isto é, as
empresas maiores e já consolidadas no mercado e que buscam atingir mecados mais exigentes em termos de
diferenciação de produtos, são as mais propensas a requisitarem patentes para os produtos
que desenvolvem.
Apesar da maior parte dessas empresas não estarem preocupadas em patentear os seus produtos e
processos, notou-se, que todas elas demonstraram intenção em inovar de maneira incremental os
produtos que desenvolvem. Para isso, buscam prioritariamente introduzir máquinas e ferramentas para o
incremento da produtividade.
Algumas poucas empresas apresentaram preocupação em melhorar design e intoduzir novos
materiais (inovação de produto). Nenhuma expressou intenção em inserir
inovações do tipo radical em seus produtos e, tampouco, despender esforços significativos
de P&D para isto. A figura 3 ilustra esses resultados.
Figura 3. Mecanismos de inovação mais utilizados

A capacitação tecnológica e inovativa proveniente dos esforços de desenvolvimento
de novos produtos, pode ser obtida mediante a obtenção de conhecimentos internos ou externos
à empresa. A figura 4 apresenta panorma sobre como as empresas pesquisadas procuram obter esses
conhecimentos aplicados ao desenvolvimento de novos produtos.
Figura 4. Fontes de obtenção de conhecimento para o
desenvolvimento de produtos

A aquisição de capacitação inovativa e tecnológica para o desenvolvimento
de novos produtos, ocorre na maior parte das empresas por meio de esforços internos, ou seja, com pouca
parceria com agentes externos. Nota-se na figura 4 que a experiência prática constitui-se
no principal mecanismo que as empresas utilizam desenvolver tecnologias que são deseconhecidas para
elas. Notou-se, nesse sentido, que é fundamental a experiência e conhecimento dos seus
empreededores/dirigentes, que representam um importante elemento em termos de transferência de
tecnologia de projetos passados e capacitação para resolver problemas técnicos e com a
nova tecnologia.
De maneira geral, as empresas também não adotam mecanismos sistematizados para a
obtenção de informações para o desenvolvimento de produtos, como por exemplo a
realização de pesquisas formais de mercado. Isso ocorre, sobretudo, de maneira informal baseada
na experiência e intuição de seus empreendedores ou dirigentes. Grande parte das empresas
justificaram que o pouco uso de mecanismos de estruturados para a obtenção de
informações de mercado, deve-se, ao tipo de produto que desenvolvem e produzem, que demandam
apenas modificações incrementais nos projetos e cópias simples de produtos de outras
empresas.
Notou-se ainda que é quase inexistente a parceria entre as empresas do cluster com
universidades, centros e institutos de pesquisa, instituições de apoio e representativas para o
desenvolvimento conjunto de tecnologias e de produtos. Mesmo a integração de fornecedores e
clientes não é meio comumentemente utilizada para este fim. Além disso, não existe
na região estruturas provenientes da administração pública que fomentem a
coordenação, cooperação e interação entre empresas e os diversos
atores do entorno do cluster para o desenvolvimento conjunto de produtos e tecnologias.
5. Considerações Finais
Tendo em vista que o agrupamento via clusters tende a melhorar desempenho operacional das empresas
que o compõem, o objetivo desta pesquisa foi caracterizar o cluster moveleiro de Votuporanga e
também analisar esforços de inovação de produtos das empresas pertencentes a esta
aglomeração.
A ausência de que estruturas que fomentem a coordenação, cooperação e
interação entre as empresas pertencentes ao cluster de Votuporanga com diversos
atores de seu entorno, é fator negativo no que se refere as atividades de desenvolvimento de produtos e
inovação tecnológica. Isto fica claro quando se nota que a maior parte das empresas
desenvolvem projetos que visam principamente a inovação do tipo incremental e normalmente focada
em processos de produção. Mesmo pertencendo a um cluster, as empresas, em sua
maioria, têm deficiências estruturais, de carência de recursos e projetos de caráter
mais criativos e inovativos, que são aqueles que exigem grande quantidade de recursos, sobretudo, para
a realização de atividades de inovação do tipo radical.
Em grande parte dos casos, a geração dessas inovações é dependente do
papel de seus proprietários-dirigentes, que possuem o conhecimento técnico derivado de
experiências anteriores em desenvolvimento de produto e processo. A demasiada importância e
centralização que esses líderes exercem nas atividades de desenvolvimento, pode gerar
problemas futuros de competitividade, isso porque, este conhecimento tende a ser tácito, o que pode
afetar a competitividade futura dessas empresas.
Vale notar, no entanto, que as empresas que apresentam maior preocupação em inovar por meio do
desenvolvimento de seus próprios produtos são as de médio porte, que registram patentes
para quase todos os projetos de novos produtos, que correspondem às de porte médio, maior idade
e que desenvolvem e fabricam produtos diferenciados e voltados para a classe média. Porém,
representam apenas cerca de 12% da amostra pesquisada.
Segundo Fernandes, Côrtes, e Pinho (2004), os esforços em inovação em
clusters podem ser mensurados mediante a presença de pessoal com curso superior integrado ao
processo de P&D, de investimento em P&D, da relação com universidades e centros de
pesquisa, e da presença de departamento de P&D efetivamente estruturado na empresa. Esses elementos
não estão efetivamente presentes no cluster moveleiro de Votuporanga.
Portanto, conforme observado na presente pesquisa, a presença dos elemento que caracterizam os
clusters não é garantia de processo endógeno de inovação, que se
caracteriza como um ato de introduzir alguma coisa nova; envolvendo a geração,
adoção, implementação e incorporação de novas ideias e
práticas com o propósito de criar riqueza (Ehigie e Mcandrew, 2005).
Embora a inovação por meio de clusters industriais pode ser definida como uma
forma de aumento da competitividade das MPMEs por meio da exploração dos benefícios
gerados pelas estruturas locais e sinergias via correlações de relacionamento de
cooperação (Nadvi, 1999; Karaev et al, 2007), não se verificou a presença deste
fenômeno no presente caso, bem como, não se notou evidências de aplicações de
inovações do tipo radical de produtos ou esforços significativos em P&D na
aglomeração pesquisada.
Observou-se também que cluster de móveis de Votuporanga possui pouca propensão
a exportação, focado no mercado doméstico, e com o uso de materiais tradicionais; fatos
que caracterizam a sua pouca dinâmica inovadora. Contudo, é importante frisar que grande parte
das empresas que compõem o cluster são novas (84% possuem menos de 20 anos) e de micro
e pequeno porte. Há a expectativa, porém, de que com a maior maturidade dessas empresas, elas
passem a colaborar de maneira mais intensa entre si e, também, com agentes externos. E, com isso
adquiram maior capacidade inovadora.
Os resultados apresentados e discutidos neste artigo demonstram por um lado a relevância do
cluster moveleiro de Votuporanga (em termo de número de empresas, empregos, produtos
produzidos e potencial econômico no estado de São Paulo e também no Brasil). No entanto,
revelou-se, por outro lado, a pouca propensão em atuação conjunta entre elas para o
desenvolvimento conjunto de produtos e tecnologias, baixo dinamismo inovador e tecnológico e a
insuficiente articulação com instituições de pesquisa e entidades da
administração pública.
A partir desse diagnóstico inicial, sugere-se que pesquisas futuras investiguem possíveis
mecanismos que fomentem a coordenação interna entre as empresas do cluster de
Votuporanga, assim como, indiquem também mecanismos que estimulem a colaboração de
agentes externos Por fim, espera-se que os resultados desta pesquisa possam somar-se ao campo de conhecimento
de gestão da inovação e tecnologia, especialmente nas áreas de redes de
inovação e; incubadoras, clusters, polos e parques tecnológicos.
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Parte significativa das empresas atuam na fabricação de móveis para o
segmento residencial – 52 firmas. Fato que evidencia a especialização do cluster.
Destas, 30% produzem móveis considerados simples, tais como: camas de solteiro e de casal, criados
mudos e guarda-roupas.
É possível categorizar a indústria moveleira em outras tiplologias como
as classificações produtivas. Os tipos de processos produtivos utilizados nas empresas estudadas
podem ser vistos na figura 1. A maior parte das empresas adotam a produção em lote (53
empresas) para fabricar os seus produtos e, somente, 17 delas adotam a produção em série.
Diferentemente do que se esperava antes da realização desta pesquisa, são poucas as
empresas que desenvolvem e manufaturam produtos sob-encomenda ou sob-medida para seus clientes
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