1. Introdução
É de conhecimento geral, que o esporte no Brasil, mais especificamente o futebol, obtém
melhores resultados dentro do que fora das competições. De igual forma, pode-se afirmar que
grande parte dos clubes futebolísticos brasileiros encontram-se em uma situação
financeira precária, possuindo um histórico de endividamento significativo. Isto pode-se dever,
entre outras coisas, ao cenário que domina a modalidade há alguns anos no país, como
desorganização, instabilidade, falta de planejamento, entre outros. De igual forma, percebe-se
que um dos principais fatores que colaboram para esta realidade é o próprio amadorismo, por
parte dos dirigentes, na forma de administrar e gerir as entidades futebolísticas. Falta de
qualificação e comprometimento, sobreposições de funções,
além de conhecimentos e processos não institucionalizados, fazem parte desta realidade. Segundo
Klein in Cobra (2008, p. 216): “Com estrutura e legislação envelhecidas,
administrações amadoras e ao sabor dos diversos ventos políticos, o esporte no Brasil
está deveras distante da realidade dos países mais avançados nessa área”.
Neste contexto, a aprendizagem organizacional assume uma importância significativa, visto a
possibilidade de um fluxo eficiente de trabalho e ações dentro dos objetivos e metas da
organização esportiva.
No início da década de 90, a multinacional italiana Empresa Alimentícia Parmalat inicia
um trabalho de investimento no futebol brasileiro junto ao Esporte Clube Juventude da cidade de Caxias do Sul
- RS, através de um modelo de co-gestão. Como resultado, a empresa obteve conquistas
significativas de mercado, possibilitando, ainda, inúmeros títulos nacionais e internacionais ao
clube caxiense.
Contudo, pode-se afirmar que um dos fatores de sucesso deste processo caracterizou-se, também, pela
transmissão, de forma inédita, de conhecimento por parte da empresa investidora ao seu
patrocinado, ocasionando, em última instância, uma aprendizagem organizacional por parte do
clube.
O presente artigo tem como objetivo analisar a aprendizagem organizacional ocorrida na co-gestão
Empresa Alimentícia Parmalat e Esporte Clube Juventude, a partir do modelo framework (4I) de
Crossan et. al. (1999). Assim, a partir de entrevistas junto aos profissionais responsáveis pelo
referido processo, bem como revisão bibliográfica, e observação
não-participante, verificou-se o desenvolvimento da aprendizagem organizacional no que tange os
estágios de intuição, interpretação, integração e
institucionalização na referida parceria.
Tendo em vista que o Brasil sediará, entre os anos de 2013 e 2016, os maiores eventos esportivos
em nível mundial como Copa das Confederações, Copa do Mundo FIFA e os Jogos
Olímpicos e Para-Olímpicos, o esporte brasileiro apresenta-se com grande potencial de
oportunidades e investimentos. Analisar casos de sucesso nesta indústria, os quais segundo Cardia
(2004), são extremamente excassos no país, pode contribuir para os desenvolvimento de eficientes
estratégias por parte das organiações envolvidas no processo.
2. A co-gestão como equilíbrio de poderes nas
organizações
No início do século XX, com o crescente desenvolvimento industrial, as
organizações iniciaram a busca por novas técnicas gerenciais, objetivando atingir maiores
índices de produção. De acordo com Caballero, Carvalho (1998), nesta época, a
preocupação em relação aos recursos humanos assumiu proporções
significativas dentro da empresa, visto a procura por um comprometimento maior dos empregados com as metas
estabelecidas pela organização. Por outro lado, percebeu-se o desejo dos empregados em uma
participação mais efetiva nas decisões das empresas, negociando, assim, seus direitos e
deveres.
Neste contexto, surge a co-gestão como uma técnica capaz de atender tanto as necessidades das
organizações empresariais, quanto as de seus empregados. A co-gestão desenvolveu-se
rapidamente em quase todos os países da Europa, mas foi na República Federal da Alemanha que se
percebeu um maior desenvolvimento dessa técnica gerencial.
Para Niedenhoff (1991), não existe uma definição amplamente aceita do termo. Muitas
vezes, é usado com sentidos diferentes, e, não raro, com traços ideológicos
implícitos.
De acordo com Tragtenberg (1989, p.42), a co-gestão: “É entendida oficialmente como o
equilíbrio de poderes, tendo em vista o bom funcionamento da empresa”.
No sentido mais literal, co-gestão significa que o empregador apenas pode implantar medidas dentro da
empresa, quando os representantes dos empregados estiverem de acordo. Na verdade, a co-gestão comporta
a co-decisão (as duas partes têm o mesmo direito), assim como participação, isto
é, direitos de ambas as partes nos lucros, no aumento de patrimônio, entre outros.
Para Caballero, Carvalho (1998), a co-gestão deve ser diferenciada da cooperação, pois
esta técnica consiste somente em pedir uma determinada explicação, aconselhamento ou
opinião aos empregados ou seus representantes, quando diante da implantação de medidas
específicas.
Segundo Niedenhoff (1991), inclui-se na co-gestão direitos escalonados como acesso a elementos
informativos e documentos (como planos, por exemplo), ser ouvido, debater, se aperfeiçoar no
aprendizado, fiscalizar, consultar, apresentar sugestões, bem como reclamar. De igual forma, tem-se
ainda direitos de aprovação, contestação e veto.
Para se alcançar os resultados esperados com a co-gestão, é preciso que as partes
envolvidas estejam de comum acordo com a aplicação desse processo. Essa
predisposição deve dar-se tanto em nível de empregadores quanto de empregados,
além da existência de uma estrutura favorável a sua implantação.
A co-gestão, apesar de ter sido criada com o objetivo básico de integrar empregadores e
empregados para o alcance das metas das organizações, com o decorrer do tempo, passou a ser
desenvolvida em outros segmentos e com outras funções. Recentemente, um dos setores que optaram,
ainda que timidamente, pela aplicação dessa técnica, foi a área esportiva
(Caballero, Carvalho, 1998).
A importância da técnica co-gestão no esporte reside no fato de que, praticamente nenhuma
decisão do processo que envolve um determinado investimento (patrocínio, apoio, foenecimento,
licenciamento, entre outros) seja tomada de forma isolada, mas sim, em conjunto, obedecendo às metas
pré-estabelecidas para o alcance dos objetivos propostos.
Para a empresa que investe no esporte como estratégia promocional e/ou mercadológica, a
implantação da co-gestão esportiva apresenta-se fundamental, visto a oportunidade
de participar ativamente, e de forma integrada, das decisões a serem tomadas no processo.
Nas organizações ligadas ao esporte, isto é, clubes, equipes, atletas,
federações e confederações, entre outros, a importância da
implantação desta técnica reside no fato de poder interagir de maneira mais
próxima com os investidores, adquirindo know-how significativo, e colaborando, de forma
decisiva, para a conquista dos objetivos de seu co-gestor.
3. Aprendizagem Organizacional
Competividade, atualmente, é uma busca constante das organizações. Para isto, é
imprescindível, entre outras coisas, processos ágeis e eficientes, acompanhando as mais variadas
tendências do mercado. De acordo com Bontis et. al. (2002, p. 437): “A intensa concorrência
global tem resultado em um ambiente de negócios cada vez mais complexo e imprevisível, onde os
mercados podem transformar-se quase que instantaneamente”.
Neste cenário, o conhecimento apresenta-se, cada vez mais, como uma vantagem competitiva. É
possível afirmar que o conhecimento é consequência de um processo de aprendizagem
organizacional pois, segundo Crossan et. al. (1999, p. 522): “Esta pode ser concebida como principal
meio de obter a renovação estratégica de uma empresa”.
No entanto, que para a renovação ser estratégica, é necessário entender
que esta deve dar-se em toda a empresa, e não apenas no individuo ou grupo. Deve-se reconhecer, que a
organização opera em um sistema aberto, em vez de um foco exclusivamente interno (Crossan et.
al., idem).
Os mesmos autores explicam que a aprendizagem organizacional se desenvolve no modelo dos 4I, isto é,
intuição, interpretação, integração e
institucionalização, sendo nos planos individual, grupal e organizacional.
A intuição é o início do processo de aprendizagem. Nesta, estão envolvidos
percepção de similares e diferenças, requerendo exeriências e reconhecendo
padrões do passado. Tem como característica ser espontâneo e tático. (Rodrigues,
Marques, 2007). É possível afirmar que a intuição é um processo
exclusivamente individual, com o reconhecimento do padrão subconciente. Este (subconciente), é
fundamental para a compreensão de como as pessoas vêm para discernir e compreender algo novo,
para a qual não havia nenhuma explicação (Crossan et. al. 1999).
No que diz respeito ao segundo I, isto é, interpretação, a sua base consiste em
explicar, por meio de palavras, ao mesmo individuo (auto-explicação), bem como junto ao grupo.
Aqui apresentam-se os mapas cognitivos, proporcionando a oportunidade de visualizar e agir de uma forma
diversa do padrão estabelecido. Deve-se levar em consideração, neste caso
específico, a qualidade na informação. É um processo individual, possível
de ocorrer em grupo. Para os autores, interpretar é uma atividade social que cria e aprimora a
linguagem comum, clarifica as imagens e cria um sentido compartilhado e compreensão.
É na integração, terceiro I, que se dá a ligação dos planos grupal
e organizacional. Implica o compartilhamento da compreensão e da ação coordenada pelos
membros de um grupo. O foco é na ação coletiva e, principalmente, no diálogo
(Rodrigues, Marques, 2007). Neste caso, o processo do diálogo, tenta transmitir tanto a mensagem como
uma profundidade média interligada (Crossan et. al. 1999).
A institucionalização, ou seja, o quarto e último I, é o processo de assegurar
que as ações rotinizadas ocorram. Existe a definição das tarefas,
ações são especificadas e os mecanismos organizacionais são postos em
prática para garantir que determinadas ações ocorram (Crossan, Berdrow, 2003). O
objetivo, neste caso, é a retenção do aprendizado dos indivíduos e dos grupos, em
detrimento do simples aprendizado individual ou grupal. Procura-se, assim, quando da saída das pessoas
da organização, que estas não levem consigo tudo o que aprenderam. A meta,
então, é embutir o aprendizado das pessoas e dos grupos em sistemas, estruturas, procedimentos e
estratégias (Rodrigues, Marques, 2007).
O aprendizado organizacional é caracterizado como um processo dinâmico, desenvolvido ao longo do
tempo em diferentes níveis. Pode dar-se nois sentidos, isto é, do indivíduo para a
organização e da organização para o indivíduo. De igual forma, é
simultâneo, visto que ao mesmo tempo em que as pessoas assimilam novas idéias e
ações, as transferindo para os grupos e a organização
(institucionalização), este know how, em contrapartida, segue em direção
aos grupos e aos indivíduos novamente. Assim, quando as pessoas transferem para os grupos e a
organização, é possivel afirmar que são envolvidos os processos de
interpretação e integração, neste caso denominado feed forward. Quando o
conhecimento já aprendido pela organização e, consequentemente institucionalizado, vai de
encontro aos grupos e indivíduos, percebe-se o envolvimento de institucionalização e
intuição, denominado feedback. (Rodrigues, Marques, idem).
Por fim, é possível perceber que para uma organização aprender, deve-se levar em
conta os processos de transmissão de conhecimento constante entre indivíduos, grupos e
organização nesta ordem, ou diretamente contrária.
4. A co-gestão Empresa Alimentícia Parmalat e Esporte Clube
Juventude
A utilização do esporte como estratégia promocional acompanhou a Empresa
Alimentícia Parmalat desde sua fundação, no ano de 1962, na cidade de Parma, na
Reggio-Emília, Itália. Fórmula-1, ski, beisebol, voleibol, futebol, foram algumas das
modalidade de investimento por parte da multinacional.
Segundo o executivo da multinacional Barili (1995), o objetivo desta estratégia caracterizou-se por
tentar posicionar o principal produto de empresa, isto é, o leite, com a qualidade de vida representada
pelo esporte.
Apesar de estar presente no mercado brasileiro desde o final da década de 70, é no ano de 1989,
que a empresa inicia um significativo investimento para conquista do mercado nacional no segmento
laticínio. E, a partir de um processo de expansão de suas operações de
produção, a multinacional italiana adquire, no ano de 1992, o maior laticínio do Estado
do Rio Grande do Sul, isto é, a Lacesa. Procurando amenizar o impacto de sua entrada em um mercado com
grandes barreiras culturais, a Empresa Alimentícia Parmalat inicia um de investimento no esporte
através de uma parceria junto ao clube de futebol profissional da região, isto é, o
Esporte Clube Juventude, da cidade de Caxias do Sul. Para administrar este investimento, a estratégia
escolhida foi a co-gestão.
Durante o período do referido contrato, isto é, de 1993 a 2000, tanto a multinacional italiana
quanto o clube caxiense obtiveram resultados extremamente significativos.
De acordo com Eduardo Andrade, Gerente de Produto de Leite da Empresa Alimentícia Parmalat, em
entrevista pessoal, afirmou que, a partir do desenvolvimento da co-gestão, pesquisas apontaram que a
empresa começou a ser vista como sendo de alta qualidade, moderna, jovem e inovadora. De igual forma,
segundo José Carlos Brunoro, Diretor de Esportes da Holding Parmalat, em entrevista ao autor do
trabalho, afirmou que a co-gestão proporcionou um retorno de U$ 1,00 investido para U$ 4,00 de
visibilidade (mídia espontânea).
No que fiz respeito ao faturamento da empresa, pode-se perceber um aumento significativo da Empresa
Alimentícia Parmalat durante o período que compreendeu seu investimento no esporte. Segundo
Serra (2008), no início da expansão de seus negócios e, consequentemente o planejamento
do desenvolvimento da estratégia de investimento no esporte, o faturamento da empresa era de 34
milhões de reais. Em 2000, ano do término do contrato, e após 7 anos da
implantação do processo, o faturamento da Empresa Alimentícia Parmalat alcançou
1,9 bilhões de reais. Sabe-se, no entanto, que não pode-se creditar o sucesso da empresa
única e exclusivamente ao seu investimento no esporte. Isto seria contradizer a teoria
mercadológica. No entanto, pode-se afirmar que o esporte contribuiu, e muito, para uma maior
promoção institucional da organização.
Já para o Esporte Clube Juventude, os resultados da co-gestão apresentaram-se extremamente
vantajosos. Durante a vigência do contrato, foram mais de 5 títulos, entre estaduais, nacionais e
até mesmo internacionais (Campeonato do Estado do Rio Grande do Sul, Copa Parmalat, Campeonato
Brasileiro da Série “B”, Copa do Brasil, entre outros).
No entanto, apesar de receber uma verba significativa de patrocínio, aliado a
locação de jogadores de alto nível, não era apenas quando tratava-se de aspectos
financeiros que o Esporte Clube Juventude podia usufruir das vantagens da parceria junto à Empresa
Alimentícia Parmalat. Quando o clube planejava uma nova estratégia, independentemente da
área (estrutural, mercadológica, ggestão de recursos humanos, financeira, etc), este
poderia solicitar uma assessoria aos profissionais da multinacional. Ou seja, a empresa além dos
compromissos financeiros e técnicos, ficou comprometida em auxiliar o clube na transmissão de
know how na área de gestão e processos administrativos, informações de
mercado, técnicas de negociação, entre outros. Pode-se afirmar, ser este um dos pontos
primordiais para o sucesso da referida parceria.
5 O framework dos 4I no processo de co-gestão entre a Empresa
Alimentícia Parmalat e o Esporte Clube Juventude
No que diz respeito à aprendizagem organizacional por parte do Esporte Clube Juventude, a partir do
processo de co-gestão junto à Empresa Alimentícia Parmalat, foi possível observar
o framework dos 4I, isto é, intuição, interpretação,
integração e institucionalização nos planos individual, grupal e organizacional.
5.1 Intuição: os primeiros contatos para a co-gestão
A intuição, a qual caracteriza-se por requerer experiência, ser espontâneo e
tático, foi determinante para o início do processo de co-gestão. Isto pode ser percebido
junto aos profissionais do Esporte Clube Juventude bem como da Empresa Alimentícia Parmalat.
Segundo Michelin (1994), os primeiros passos para a implantação da co-gestão deram-se no
mês de setembro de 1992. Celso Empinotti, então Vice-Presidente Administrativo-Financeiro do
clube, encontrou-se por acaso com Adílio Di Domenico, representante da Empresa Alimentícia
Parmalat, para a Região Sul do Brasil. Deste encontro, surgiu a idéia de uma possível
parceria de sucesso. Celso Empinotti, por iniciativa e idéia própria, demonstrou a
intenção de iniciar um processo de parceria junto à multinacional italiana.
De igual forma, a escolha, por parte da Empresa Alimentícia Parmalat, do Esporte Clube Juventude para
desenvolver seu processo de co-gestão no sul do país, partiu da figura de seu dirigente
máximo na área esportiva, isto é, José Carlos Brunoro.
Na época, o Diretor de Esportes de Holding Parmalat, e responsável pela escolha do co-gestor,
em entrevista pessoal, explicou a não escolha dos principais clubes futebolísticos do Estado do
Rio Grande do Sul, isto é, Grêmio Futebol Porto-Alegrense e Esporte Clube Internacional para
iniciar uma parceria: “Nós nunca havíamos trabalhado com torcidas polarizadas. No Rio
Grande do Sul, percebíamos que as pessoas ou torciam para o Grêmio ou torciam para o
Internacional. Então sentimos que poderia haver um problema”.
Assim, e apesar de existir outros clubes futebolísticos no estado, o dirigente José Carlos
Brunoro optou pelo Esporte Clube Juventude, descrevendo o fato assim em Caballero, Carvalho (1998, p.38):
“Através de visitas ao clube, senti que havia uma boa estrutura, uma diretoria aberta a nova
idéias, além do nome que poderiamos desfrutar, ou seja, Juventude-Parmalat. Não teria
nome melhor em termos de marketing”.
De acordo com Michelin (1994), apesar de não haver ocorrido análises minuciosas tanto por parte
dos diretores da multinacional, quanto por parte do clube da cidade de Caxias do Sul, já existia uma
pré-disposição para a parceria.
Isto pode-se dever ao know how e conhecimentos prévios (memória) da empresa no que diz
respeito ao investimento no esporte, somado a experiência e intuição, de sua figura
máxima no esporte no Brasil, Jose Carlos Brunoro. De igual forma, as vantagens percebidas pelos
dirigentes do clube caxiense, a partir da co-gestão iniciada um ano antes entre a Empresa
Alimentícia Parmalat e o clube de futebol profissional Sociedade Esportiva Palmeiras, da cidade de
São Paulo, foi um fator determinante para o interesse do Esporte Clube Juventude no processo.
Desta forma, mês de maio de 1993, é firmado o contrato de co-gestão entre a Empresa
Alimentícia Parmalat e o Esporte Clube Juventude.
5.2 Interpretação: análise do co-gestor
A implantação da co-gestão esportiva entre o Esporte Clube Juventude e a Empresa
Alimentícia Parmalat obedeceu determinadas etapas dentro de um planejamento estratégico de
três anos.
Primeiramente, houve um diagnóstico da situação do clube. Era necessário conhecer
a realidade que envolvia o parceiro (pontos fortes e pontos fracos).
Assim, foi enviado, à Empresa Alimentícia Parmalat, por parte dos dirigentes do clube, um
dossiê completo sobre o Esporte Clube Juventude, desde o seu patrimônio, estrutura organizacional,
quadro funcional, entre outros aspectos.
De igual forma, o Esporte Clube Juventude aproveitou este momento para conhecer as características e
possíveis procedimentos da empresa em relação à sua participação no
processo de co-gestão. Este trabalho foi realizado pelos diretores do clube.
Segundo Caballero, Carvalho (1998), a análise iniciou na primeira quinzena de julho e estendeu-se por
praticamente todo o segundo semestre de 1993. Nesta primeira avaliação, a empresa teve
condições de detectar alguns processos que poderiam influenciar diretamente nos resultados
obtidos pela co-gestão. Procurou adaptá-los de modo que pudessem satisfazer as necessidades de
ambas as partes. José Carlos Brunoro, Diretor de Esportes de Holding Parmalat, assumiu, durante
três meses, já com a aprovação da diretoria do clube caxiense, a
administração de esportes do Esporte Clube Juventude.
O interesse em detectar os prováveis problemas neste processo partiu também do próprio
clube. Assim, no início de agosto de 1993, começa a trabalhar no Esporte Clube Juventude o
Ex-Coordenador Geral da Câmara de Indústria de Caxias do Sul, Alvino Brugalli, com o objetivo de
realizar uma auditoria completa do clube, analisando as três principais áreas do clube, isto
é, a pessoal, financeira e patrimonial.
Alvino Brugalli, em entrevista pessoal, explica o objetivo do trabalho: “Fui contratado pelo clube para
apresentar para a Parmalat a situação real do clube”.
Segundo Caballero, Carvalho (1998), em um trabalho estipulado para um período de seis meses, foram
levantados mais de 23 relatórios referentes as áreas contatadas. Estes foram enviados tanto para
a diretoria do clube quanto para a diretoria da empresa. E foi com base nestes relatórios, que a
multinacional italiana planejou as estratégias para melhorar significativamente os processos
desenvolvidos até então.
José Carlos Brunoro em entrevista pessoal, exemplifica a análise de um destes
relatórios: “Quando fizemos o diagnóstico, percebemos algumas deficiências. Entre
elas, a amostragem na área administrativa e financeira”.
De igual forma, Caballero, Carvalho (1998) ressaltam que, na época, o Esporte Clube Juventude
possuía, além de problemas financeiros, sobreposição de funções,
devido a sua organização simplificada.
Edizio Santin, Supervisor Administrativo do clube, declarou em entrevista pessoal, que o clube vivia em um
clima administrativo onde: “Os funcionários que ali estavam, desenvolviam tudo o que aparecia
pela frente. Trabalhavam no clube entre cinco e oito profissionais e estes desempenhavam todas as
funções administrativas do clube”.
Esta sobreposição de funções ocorria também junto aos departamentos
esportivos do clube. Segundo o Supervisor do Departamento de Futebol Profissional, Renato Tomasini em
entrevista pessoal, afirmou que: “Naquela época, além dos Departamentos de Futebol
Profissional e Futebol Amador localizarem-se na mesma sala, os profissionais realizavam outras
funções que não haviam sido previamente estabelecidas”.
Contudo, apesar das mudanças pretendidas, segundo Caballero, Carvalho (1998, p.50): “Os
dirigentes do departamento de Futebol que já vinham atuando no clube, antes da
implantação do processo, não perderiam seus cargos”.
É possível observar, neste momento, a interpretação da realidade e o objetivo de
reconhecimento dos processos e procedimentos adotados por ambas as partes.
5.3 Integração: a transferência de know how
O segundo semestre de 1993 não serviu apenas para empresa e o clube conhecerem-se e adaptarem-se
às características da co-gestão. Ao mesmo tempo em que realizava-se o diagnóstico
(interpretação), algumas modificações em nível organizacional iniciaram.
Dentre elas, reuniões entre a Diretoria de Esportes da multinacional e os profissionais do clube,
transmitindo know how, experiências, com vistas ao fortalecimento da equipe de trabalho. Neste
aspecto, estava incluso melhorias nos procedimentos, criação de um processo de controle,
entre outros aspectos.
O próprio José Carlos Brunoro, em entrevista pessoal afirmou “Procuramos organizar o
clube para a parceria”.
Após a análise e interpretação da realidade que envolvia o clube, tendo sido
trabalhado de forma individual pelos diretores de ambas as organizações, era necessário
integrar os procedimentos adotados junto aos demais departamentos do clube.
Segundo José Carlos Brunoro, para o ano de 1994, definiu-se que seriam estruturadas equipes de
trabalho, visando melhorar as áreas administrativas, patrimonial e principalmente técnica do
clube.
Na área administrativa, iniciou-se uma reformulação interna, com base nos resultados
obtidos através do diagnóstico.
Assim, reduziu-se as antigas doze vice-presidências para um total de cinco: patrimônio,
administrativo-financeiro, futebol profissional e futebol amador, além dos Conselho Deliberativo,
Consultivo e Fiscal.
5.4 Institucionalização: procedimento para alcançe dos objetivos
Durante os 7 anos do contrato de co-gestão, foi possível perceber mudanças
significativas na forma de conduzir os processos dentro clube, principalmente nos departamentos de
patrimônio, administrativo-financeiro, futebol profissional e futebol amador. A gestão
profissional transmitida pelos profissionais da empresa multinacional durante o contrato de co-gestão,
mesmo que não específica na área do esporte, foi aprendida e institucionalizada na
organização esportiva.
De acordo com Caballero, Carvalho (1998), a melhor organização dos departamentos do clube foi
certamente uma das principais vantagens obtidas pelo Esporte Clube Juventude dentro do processo de
co-gestão. Colocando em ação o planejamento realizado pela Empresa Alimentícia
Parmalat, o Esporte Clube Juventude atingiu um nível de profissionalização significativo,
com a definição de funções e contratação de profissionais
especializados para cada área. A reformulação organizacional levou os departamentos a
reavaliarem praticamente todas as suas ações, tornando-se setores ágis e eficientes.
Ainda segundo os autores, houve melhoria nos serviços contábeis e controle das cadeiras,
fiscalização do quadro social no tocante aos casos de irregularidade nos dependentes, entre
outros.
Contudo, a partir de uma reformulação no planejamento de marketing e
promoção da multinacional italiana, a mesma suspende, no ano de 2000, seu investimento no
esporte, encerrando, assim, a sua co-gestão junto ao clube caxiense.
A partir de 2001, o Esporte Clube Juventude começa a alternar bons e maus momentos. Em 2007, no
entanto, após uma péssima campanha, acaba rebaixado para a Série B do Campeonato
Brasileiro. Em 2010, o clube é mais uma vez rebaixado, desta vez, para a Série C.
Pode-se afirmar que como causas principais para este declínio, a não mais entrada de verbas
significativas de patrocínios, o qual obrigou ao clube a uma redução significativa de
investimentos, bem como a suspensão da locação de jogadores de alto nível em suas
equipes profissionais. No entanto, observa-se que o clube não se preparou adequadamente para o
fim do processo de co-gestão. Durante os últimos anos de contrato, a multinacional italiana deu
sinais claros de sua intenção encerrar a parceria, redirecionando seus investimentos para outras
estratégias promocionais (publicidade, merchandising, promoção de vendas, etc).
Assim, segundo Caballero, Carvalho (1998), cabia ao clube caxiense buscar fontes de renda alternativas ao
processo de co-gestão, não se tornando dependente única e exclusivamente dos processos e
das verbas enviadas pela mutinacional, ponto este, inclusive, acordado na assinatura do contrato no ano de
1992.
Durante o vigência do contrato, a empresa transmitiu, entre outras coisas, conhecimentos a respeito de
captação de patrocinadores, negociações de contrato, etc. Contudo, após o
encerramento da co-gestão, observou-se que o clube teve inúmeras dificuldades de concretizar
parocínios, e nos que alcançou sucesso, os valores foram inferiores a real necessidade do
clube.
Pode-se perceber, assim, que apesar da transmisão de conhecimento por parte da empresa, em processos
específicos não houve uma plena institucionalização da aprendizagem
organizacional.
6. Considerações Finais
Analisando a co-gestão esportiva desenvolvida pela Empresa Alimentícia Parmalat, junto ao
Esporte Clube Juventude, pode-se afirmar que tanto a multinacional italiana, quanto o clube caxiense obtiveram
resultados extremamente significativos durante a vigência do contrato. A primeira, tornando-se
líder de mercado em seu segmento, posicionando seus produtos a partir dos valores do esporte, e o
clube, conquistando títulos inéditos até então em sua história.
Porém, percebe-se que o resultado obtido por ambas as partes apenas foi possível visto as
características do próprio projeto, isto é, o desenvolvimento de um processo de
co-gestão.
No que diz respeito ao framework (4I) da aprendizagem organizacional, foi possível observar
que a intuição foi determinante no início dos contatos entre as partes, isto é, a
empresa, através de seu know how e experiência de investimento no esporte, procurou um
clube com menor risco de rejeição, com uma estrutura adequada e aberta para um processo de
co-gestão. Por outro lado, o clube, sem nenhum conhecimento prévio da empresa, se
pré-dispos a uma parceria nos moldes de uma co-gestão. De igual forma, percebeu-se o grande
interesse e preocupação de ambas as partes em interpretar a realidade a partir da
transmissão de informações.
Quanto à integração, é possível afirmar que, durante a vigência do
contrato, houve uma disposição total por parte da empresa e do clube em assimilar e desenvolver
o aprendizado para o alcançe dos objetivos propostos. Para isto, basta analisar as mudanças
ocorridas nas funções e departamentos do clube.
Quanto à institucionalização da aprendizagem organizacional, verificou-se uma
gestão profissional, por parte do clube, no que diz respeito a adoção de uma nova
postura, rotinas e procedimentos. Contudo, apesar do sucesso alcançado durante a parceria, não
foi possível perceber a institucionalização desta aprendizagem, pois o know how,
e consequentemente os procedimentos adotados, foram desenvolvidos apenas durante a vigência do contrato.
De igual forma, apesar do aprendizado nos individuos que constituiam a diretoria do clube, após o
encerramento da parceria e mudanças no corpo diretivo, os processos modificaram-se significativamente.
Foi possível perceber também, a aprendizagem organizacional nos planos individual, grupal e
organizacional.
Por fim, é possível afirmar que a co-gestão pode se apresentar como uma
estratégias eficiente para se desenvolver a aprendizagem organizacional na indústria esportiva,
transmitindo know how, melhorando processos, para uma maior profissionalização neste
segmento.
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