1. Introdução
Se por muitas décadas as organizações direcionaram suas atenções para se
focarem no produto e mercado, a partir da década de 90, elas começaram a adotar
estratégias com foco no Cliente. Vários fenômenos contribuíram para esta
decisão estratégica, dentre eles os avanços tecnológicos. Porém, desde o
início do Século XXI os recursos tecnológicos reduziram seus espaços como
diferenciais competitivos para se converterem em commodities. Este cenário fez emergir novos
paradigmas de gestão, onde o processo administrativo foi direcionado para melhor atender às
expectativas de clientes, ampliando-lhes as decisões e remodelando suas percepções. A
dicotomia expectativa versus percepção passou a ser o alicerce para a compreensão da
satisfação de clientes inseridos em um mercado globalizado com extremas opções
competitivas.
Dentre os diversos setores econômicos existente, o setor varejista foi um dos que sofreu grande impacto
desta nova ordem mundial. No setor varejista o cliente representa a sobrevivência, a
manutenção e o crescimento da organização, seja ela, responsável por
comercializar bens e/ou prestar serviços demandados pela sociedade. Desta forma, atender as
expectativas de clientes mais exigentes tornou-se sinônimo de longevidade competitiva. A busca da
satisfação de clientes constituiu-se em área estratégica de negócio mais
relevante e em permanente monitoramento.
O tema é apaixonante e desafiador para as áreas estratégicas de negócios. No
entanto, as investigações precisam de aperfeiçoamento, pois os estudos têm enfocado
pesquisas dentro de interpretações estruturais e lineares. Urge que busque ampliar essa
questão. Razões pelas quais se buscou realizou uma pesquisa que permitisse a
comparação de diversas ferramentas ou técnicas de se compreender este fenômeno de
forma ou na ótica sistêmica. Assim, objetivou-se identificar pontos positivos e pontos
críticos que requeiram medidas corretivas dos procedimentos de interpretações estruturais
e lineares.
A concepção deste processo representa um desafio, pelo caráter subjetivo,
mutatório, de complexa mensuração, na medida em que a percepção e
necessidades dos clientes mudam rapidamente. Seguir tais mudanças requer acompanhamento contínuo
das variáveis estudadas, que compõem o conjunto de percepções, frente ao ambiente,
produtos e serviços. Dentre possíveis aplicações da abordagem e análise,
proposto neste estudo, está o diagnóstico de necessidades de capacitação e
desenvolvimento do corpo funcional, haja vista que no setor supermercadista, o serviço tem papel
fundamental na formação de conceito e imagem da organização, refletindo na
percepção de satisfação dos clientes.
O tema foi examinado, através da combinação metodológica de pesquisa
exploratória; estudo de caso; pesquisa descritiva com corte transversal; amostragem
probabilística aleatória simples, com análise quantitativa e
qualitativa (MALHOTRA, 2001; MATAR, 2001). Na coleta de dados utilizou-se técnica de
entrevista pessoal estruturada, não disfarçada, com questões abertas e fechadas, aplicada
a 379 consumidores de um supermercado em Santa Catarina.
Na fundamentação teórica empregaram-se: os preceitos de Kotler (1998), quanto à
satisfação e insatisfação dos Clientes; o Modelo dos 5 GAP´s de
Parasuraman, Berry e Zeithaml (1988) e Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996), para análise de
divergências das expectativas de serviços esperados e percebidos; análise do
Pacote de Serviços de Fitzsimmons, para o enquadre das categorias estudadas, o Diagrama de
Venn-Euler (LIPSCHUTZ, 1972), com a teoria dos Conjuntos, estabelecendo relação
entre as variáveis e, a partir do modelo da equação estrutural, o estudo sugere
a criação de um índice de satisfação do Cliente, baseado na
diferença relativa entre as expectativas desejadas e as adequadas, nas categorias estudadas. O
levantamento dos dados da pesquisa foi realizado durante o primeiro semestre de 2010 e coletados no interior
do estabelecimento estudado, respeitando-se todos os procedimentos metodológicos e éticos que
uma pesquisa dessa natureza exige.
2. Referencial Teórico
Detectar, analisar, e interpretar níveis de satisfação dos Clientes, constitui-se em
desafios crescentes. Haja vista, que a satisfação do cliente é subjetiva, dinâmica
e de caráter mutatório, tornando complexa sua mensuração. Para a
compreensão do tema, a literatura oferece conceitos operacionais e suas variáveis adjacentes,
que permeiam tal ambiente.
Por definição, Kotler (1998, p. 53-54) defende que:
”a satisfação é função do desempenho percebido e das
expectativas. Se o desempenho ficar longe das expectativas, o consumidor estará insatisfeito.
Se o desempenho atender às expectativas, o consumidor estará satisfeito e se
excedê-las estará altamente satisfeito ou encantado”. O referido autor enfatiza
ainda, que a busca é pela “(...) alta satisfação, porque clientes apenas
satisfeitos estarão dispostos a mudar quando surgir uma melhor oferta” (KOTLER, 1998, p.
54).
Já, Lewis e Littler (2001, p. 269) asseveram que os clientes “(...) estão
crescentemente conscientes das ofertas alternativas, em relação aos serviços e
às organizações fornecedoras, e também dos padrões crescentes dos
serviços. Consequentemente, suas expectativas crescem e eles tornam-se mais críticos à
qualidade dos serviços recebidos. Por isso, é necessário criar, conforme defende
Kotler (1998, p. 27) que “serviços surpreendentes fundamentado na visão da empresa em
relação ao consumidor e ao mercado”.
Ampliando estes preceitos, Lewis e Littler (2001, p. 270) salientam que:
“a lealdade do consumidor decorre de sua satisfação. Cuidar dos consumidores
atuais possibilita gerar mais negócios e levar à atração de novos
consumidores em decorrência da comunicação positiva boca a boca. A
retenção do cliente é mais eficaz em termos de custo do que a tentativa de atrair
novos clientes”.
Outros estudos sobre níveis de satisfação de clientes mostram que, “(...)
enquanto os consumidores ficam insatisfeitos com uma em quatro compras, menos de 5% deles
reclamarão, embora recomende que não é aconselhável utilizar nível
de reclamação como parâmetro de medida de satisfação” (KOTLER, 1998,
p. 54). Acrescenta o supramencionado estudioso das organizações, que empresas expoentes realizam
levantamentos periódicos, objetivando a mensuração direta do nível de
satisfação dos seus clientes. Para isso, ele propõe cinco níveis de
mensuração: muito satisfeito; satisfeito; indiferentes; insatisfeitos ou muito insatisfeitos
em relação a vários aspectos de desempenho da empresa. Esta mesma escala pode trazer
em um extremo o nível completamente satisfeito e no outro extremo completamente
insatisfeito.
A satisfação do cliente redunda no sucesso da organização como um todo. Sobre
este aspecto Kotler (1998, p. 55-56), sublinha a importância da interação entre
departamento, e coordenação das várias atividades que se constituem em
administração dos processos-núcleos do negócio. Dentre outros, incluem o
processo de serviços aos clientes: “Todas as atividades envolvidas na facilidade de acesso
dos clientes às pessoas adequadas dentro da empresa para receberem serviços rápidos e
satisfatórios, respostas às dúvidas e soluções de problemas. Isso
porque, o cliente cada vez mais informado de seu real poder como agente de compra percebe os efeitos das
reclamações”. Por seu turno, as empresas “(...) descobrem que é
necessária uma verdadeira revolução interna nos seus procedimentos e processos para
assumir, de fato, a valorização do cliente como um príncipe e uma filosofia de
trabalho” (KOTLER, 1988, p. 56).
Dentro deste mesmo raciocínio, Donadão (1984, p. 468-471) argumenta que, embora seja
intenção das organizações elegerem o cliente como sua principal razão de
ser, o grande desafio é a implementação de ações que levem à sua
efetividade. Ressalta que áreas críticas, que denomina área de fronteira, podem
tornar-se pontos críticos, ou seja, distanciam o discurso, a intenção e a prática.
Tese semelhante é realçada por Parasuraman, Berry e Zeithaml (1988) e Zeithaml, Berry e
Parasuraman (1996) no Modelo dos 5 GAP’s.
Para Degen (1989, p. 132-133):
“Um cliente satisfeito é um multiplicador de referências positivas, indicando
nosso estabelecimento para outros potenciais clientes”. Ele salienta ainda que “A
principal razão do fracasso de muitos negócios foi à falta de conhecimento, por
parte do empreendedor, sobre o que realmente queriam os seus clientes. Não adianta imaginar um
negócio e esperar que agrade aos clientes; é preciso ter certeza, e esta só se
consegue, conhecendo bem os clientes e as suas necessidades”.
Atingir a satisfação dos clientes requer a identificação de suas necessidades.
Por definição todo negócio deve atender às necessidades de consumidores, mediante
oferta de algum produto ou serviço, pelo qual eles estão dispostos a pagar. Portanto a
fórmula mais direta para identificar oportunidades de negócios é procurar necessidades
que não estão sendo satisfeitas e desenvolver produtos ou serviços para
satisfazê-las, a um custo que os consumidores estejam dispostos a pagar (DEGEN, 1989, p. 22).
Sendo assim, a compreensão das necessidades dos clientes, através de pesquisas de comportamento
do consumidor, permite a organização atender requisitos que contribuem na
satisfação e fidelização dos clientes. Dentro deste raciocínio, Lewis e
Litler (2001, p. 189) ressaltam que para isso ser atingido:
“(...) é necessário o comprometimento de sua administração e a
criação de uma cultura apropriada. A cultura organizacional pode exigir mudanças
destinadas a influenciar a orientação dos funcionários em relação
à empresa e de todas as pessoas da empresa em relação aos consumidores”.
2.1 Modelo de Critério de Avaliação de Serviços
O Modelo de critérios de avaliação de serviços foi idealizado e popularizado por
Fitzsimmons e Fitzsimmons. Eles apregoam que a matriz que concentra as expectativas dos clientes, pode ser
estruturada dentro de critérios de avaliação do pacote de serviços
disponibilizados pelas empresas aos consumidores. Eles asseveram que o pacote de serviços refere-se ao
“(...) conjunto de mercadorias e serviços que são fornecidos em um ambiente”
(FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2000, p. 45). Este modelo é fonte balizadora da análise
dos dados da presente pesquisa (Quadro 1).
|
Variáveis
|
Significado
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Exemplo
|
|
Instalações de Apoio
|
Recursos Físicos
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Aparência do Prédio, Jardins, etc.
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Bens Facilitadores
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Aquilo que o consumidor comprou ou adquiriu
|
Variedade, Qualidade, Preço, Ofertas, ex.: Sabonetes, carnes, etc.
|
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Serviços Explícitos
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É o próprio serviço
|
Cortesia, Rapidez no atendimento, aconselhamento correto, etc.
|
|
Serviços Implícitos
|
É a parte do serviço que possibilita benefícios
psicológicos
|
Segurança, ambiente agradável, etc.
|
Quadro 01 - Fatores relacionados ao Nível de
Satisfação do Cliente.
Fonte: Adaptada de Fitzsimmons; Fitzsimmons (2000, p. 45 - 47).
Os elementos da matriz são complementares entre si e percebidos pelos clientes, de forma conjunta.
Assim os clientes formam julgamentos do pacote de serviços, que inferem em sua percepção
e expectativa, graus de satisfação, acarretando fator significante para análise
sistêmica.
2.2 O Modelo dos 5 GAP’s
O Modelo de 5 GAP’s aborda as expectativas esperadas e percebidas dos clientes sobre os serviços
disponibilizados pelas organizações. O referido modelo foi formatado por Parasuraman, Berry e
Zeithaml (1988); Parasuraman, Berry e Zeithaml (1991) e Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996) como uma
ferramenta desenvolvida para avaliar os níveis de expectativas e de percepções dos
consumidores e propõe identificar “(...) divergências que existem dentro da empresa e
entre a empresa e o cliente e que resultam em má qualidade de serviços”
(PARASURAMAN; BERRY; ZEITHAML, 1988, p. 48). A Figura 01 permite visualizar o referido modelo. O referido
modelo contempla os seguintes eventos na ótica de Martins e Laugeni (1998):
GAP 1: Divergência entre a expectativa do cliente e o que a empresa ou o
prestador do serviço entendeu como sendo a expectativa do cliente.
Motivo: Má investigação das necessidades do cliente e
comunicação deficiente com o cliente e dentro da empresa.
GAP 2: Divergência entre o entendimento da empresa e as
especificações que elabora para atender o cliente.
Motivo: Falta de compromisso com a qualidade; falta de metodologia no
estabelecimento de especificações e dificuldade em perceber se é possível, a
execução do serviço.
GAP 3: Divergência entre as especificações elaboradas e o
serviço gerado.
Motivo: Falta de conhecimento para realizar o serviço; falta de
trabalho em times e problemas de relacionamento e de motivação.
GAP 4: Divergência entre o serviço gerado e a
comunicação externa ao cliente
Motivo: Desconhecimento quanto ao andamento dos trabalhos; falta no controle
das operações; comunicações inadequadas e motivação para
exagerar a realidade.
GAP 5: Divergência entre o serviço esperado e o serviço
fornecido.
Nas palavras de Lewis e Littler (2001, p. 189), isto ocorre, pois “as expectativas dos consumidores
são razoáveis, mas variam, dependendo das circunstâncias e da experiência, e
surgirão no decorrer do tempo. Além disso, os consumidores têm zonas de tolerância,
que é a diferença entre as expectativas desejadas e as adequadas”. A somatória
destas razões leva ao resultado final, que é o GAP 5. A
somatória destas razões leva ao resultado final, que corresponde ao GAP
5.

Figura 01: Modelo dos 5 GAP´s de Zeithami, Parasuraman e Berry
(1988).
Fonte: Adaptado de Fitzsimmons; Fitzsimmons (2000)
Para o Aperfeiçoamento da Qualidade nos Serviços, Martins e Laugeni (1998)
propõem um Check List, onde relaciona cincoitens básicos, que devem ser verificados
para o aperfeiçoamento da melhoria. Cada item é examinado, corrigido, alinhado e implementando,
através do processo de melhoria contínua, fundamentado no Ciclo de Qualidade de
Deming, representado pelas seguintes fases; Plan à Do à Check
à Act, que correspondem à:
- Item 1: A percepção dos clientes é a de que os serviços
atendem e superam as expectativas?
- Item 2: A empresa entende precisamente as necessidades do cliente?
- Item 3: Há procedimentos padronizados e implantados para a geração
do serviço ao cliente?
- Item 4: Os serviços fornecidos atendem ou superam o esperado?
- Item 5: O cliente recebe informações claras e precisas sobre o
serviço?
Em qualquer desses itens, deve-se corrigir eventuais problemas para a implementação do ciclo de
melhoria.
2.3 O Modelo de Equação Estrutural
De acordo com Greatorex (apud LEWIS; LITTLER, 2001, p. 204), os Modelos de Equações Estruturais
“(...)reúnem os métodos de pesquisa de maneira holística. Os relacionamentos
hipotéticos entre as variáveis são representados em uma rede de caminhos causais e
funcionais, (...)os procedimentos de cálculo envolvem a estimativa empírica dos relacionamentos
entre as variáveis latentes e a estimativa especifica conjunta destes relacionamentos”.
Deste modo, o uso da equação estrutural neste estudo, tem o propósito de estimar o
GAP 5: Divergência entre o serviço esperado e o serviço
fornecido, em relação ao desejo da empresa, objetivando verificar a diferença relativa
entre as expectativas desejadas e as adequadas, nas categorias estudadas, distribuídos
proporcionalmente pelo número de Clientes, usuários da organização,
subtraídos da meta aspirada por ambos, que é 100% de satisfação. Assim, o
índice foi obtido pela fórmula:
GAP = 100% - [ (E(%) + B(%) ) – (S(%) + R(%) + P(%) )
]
Onde:
E(%) = Freqüência Relativa ao Conceito
Excelente
B(%) = Freqüência Relativa ao Conceito
Bom
S(%) = Freqüência Relativa ao Conceito
Satisfatório
R(%) = Freqüência Relativa ao Conceito
Ruim
P(%) = Freqüência Relativa ao Conceito
Péssimo
100% = Representam a Meta da Empresa e Cliente (Satisfação
Máxima)
Numa fórmula reduzida:
Em que:
S = Freqüência Relativa de
Clientes Satisfeitos
I = Freqüência Relativa de
Clientes Insatisfeitos
A amplitude do GAP (hiato) varia numa escala de 0% a 200%. Considerando-se a hipótese de
inexistência do hiato, ou seja, GAP = 0%, todos os Clientes estariam altamente satisfeitos ou
encantados. Por outro lado, um GAP = 100%, indica que 50% dos Clientes, estariam satisfeitos e a outra
metade, insatisfeitos. Considerando-se, 100% < GAP 200%, indica que existem mais clientes insatisfeitos do que satisfeitos.
Admite-se que a diminuição do GAP pode reduzir possíveis
reclamações e fidelizar o cliente, ou seja, aumenta a expectativa de recompra de produtos. Logo,
quanto menor o GAP, maior a resposta positiva dos clientes em relação à empresa.
A partir do Modelo dos 5 GAP´s e do Modelo de Equação estrutural foi
possível se propõe-se uma forma para mensurar o nível de satisfação do
Cliente, conhecendo-se a diferença relativa entre as expectativas desejadas e as adequadas, e com isso,
tomar medidas corretivas no sentido de reverter e minimizar o hiato existente.
2.4 Modelo Proposto para Abordagem Sistêmica
O Modelo de 5 GAP’s e o Modelo de Equação Estrutural são relevantes para estudos
de satisfação de clientes. Sem discordar da relevância dos supramencionados modelos, mas
com o intuito de contribuir com a academia, decidiu-se formatar um modelo que ampliasse análise dos
clientes, oferecendo-se assim um modelo alternativo e simbiótico dos referidos modelo, denominado
Modelo para Abordagem Sistêmica da satisfação de clientes.
Na fase exploratória do estudo foram identificadas em fontes secundárias, algumas pesquisas de
satisfação de clientes. Os estudos contemplam uma análise reducionista, na medida em que,
atribuem resultados de satisfação/insatisfação aos componentes pesquisados, de
forma compartimentada, não os integrando ou correlacionando-os. A partir daí, buscou-se uma nova
perspectiva de análise holística, por se entender que a percepção de
satisfação ou insatisfação do cliente e sua inferência, entre o esperado ou
antecedente e o oferecido ou conseqüente, ocorre num ambiente complexo de interações e
associações. Para tanto, empregou-se a tese de Kotler (1998) quanto ao entendimento de
satisfação/insatisfação, através dos cinco níveis de
mensuração: muito satisfeito ou excelente; satisfeito ou bom; indiferentes
ou satisfatório; insatisfeitos ou ruim; e, muito insatisfeitos ou
péssimos para se entender a relação de desempenho da empresa.
Na análise dos resultados e complemento às proposições de Kotler (1988),
utilizaram-se dois pilares teóricos, quais sejam: o Modelo dos 5 GAP´s, isto é,
aquele que aponta divergência entre o serviço esperado e o serviço fornecido, e o
Diagrama de Venn-Euler com a Teoria dos Conjuntos que na concepção de Lipschutz (1972,
p. 35) “(...) é um meio simples e instrutivo de ilustrar as relações existentes
entre conjunto”.
Por esta razão esse modo interpretativo do comportamento dos clientes é permite uma
visão sistêmica dos resultados da pesquisa. A visão sistêmica reduz hiatos do
comportamento do consumidor, pois faz os ajustes dos extremos do Modelo Estrutural com o cruzamento dos 5
GAP’s de forma quantitativa e qualitativa.
3. Procedimentos Metodológicos
Os procedimentos metodológicos adotados foram à combinação múltipla de
métodos e técnicas, como: Pesquisa exploratória, quenas palavras de Malhotra
(2001, p. 106), “têm por objetivo o aprofundamento do tema para fornecer critérios de
compreensão”. A estrutura metodológica do estudo pode ser visualizada na Figura 02.

Figura 02: Métodos de Processamento e Análise dos Dados
Coletados
Fonte: Elaborado pelos Autores (2009)
A pesquisa caracteriza-se como Estudo de Caso, pois, nas palavras de Mattar (2001, p. 22),
objetivou, “gerar hipóteses e não verificá-las, além de possibilitar a
ampliação dos conhecimentos sobre o problema em estudo”. Por sua vez, Pesquisa
Descritiva, como preceitua Malhotra (2001, p. 148), trata-se de pesquisa conclusiva, que objetivou
“(...) a descrição de algo, normalmente características ou
funções do mercado, como, (...) as percepções dos consumidores com
relação à empresa e seus produtos”.
O estudo adotou aconcepção de corte transversal no qual, dentro das palavras de
Richardson (2007, p. 148) são aqueles estudos em que “(...) os dados são coletados em
um ponto no tempo, com base numa amostra selecionada para descrever uma população, nesse
determinado tempo”. A amostra caracterizou-secomo probabilística aleatória
simples, sobre o fator populacional dacidade. A análise foi feita, tanto sob o aspecto
qualitativo quanto sob a ótica quantitativa.
Vale destacar que a análise quantitativa, na visão de Richardson (2007, p.70),
“caracteriza-se pelo emprego da quantificação tanto das modalidades de coleta de
informações, quanto no tratamento delas, estimando-se assim, porcentagens de
satisfação das variáveis inquiridas”, e, assevera ainda que
aanálise qualitativa “pode ser caracterizada como
a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais
apresentadas pelos entrevistados, constituindo desta forma, análise de percepções
dos consumidores relativamente à sua satisfação” (RICHARDSON, 2007, p. 71).
As entrevistas ocorreram entre os dias 23 de março e 09 de abril de 2009, nos períodos
matutinos 43%, vespertinos 51,5% e noturnos 5,5%. As coletas de dados foram feitas somente no interior da loja
e de forma aleatória nos vários setores estudados, objetivando-se mesclar os
públicos-alvos. A população do estudo foi estimada em 29.674 clientes. O Nível de
Confiança adotado na pesquisa foi de 95%, isto é, desvio padrão correspondente a (z)
igual a 1,96. Já a Margem de Erro de estimação ficou em 5%, sendo que clientes
satisfeitos (P) e clientes Insatisfeitos (Q) correspondem 50%. A Amostra foi de 379 clientes.
É relevante destacar que se utilizou um instrumento de coleta de dados misto, isto é, com
perguntas fechadas e abertas, contendo 43 perguntas fechadas. Assim, o total de dados coletados foi de 379
questionários vezes 43 perguntas, totalizando 16.297 respostas. Além disso, obteve-se 517
citações espontâneas, complementando, ou seja, 16.814 respostas.
4. Apresentação e análise dos dados
Os dados são inicialmente analisados por setores-chave do supermercado e cruzados para se ter
informações conjuntas com o mínimo de viés sobre o Modelo Estrutural e o Modelo
dos 5 GAP’s, visando demonstrar a relevância do modelo sistêmico sobre a
satisfação dos clientes sobre ambiente, produtos e serviços. Os setores foram divididos
em: açougue, padaria, hortifruti, frente de caixa ou check out e lanchonete.
4.1 Setor Açougue
Dentre as análises neste departamento, verificou-se que a variável fila apresentou um
índice de 56,7% de aprovação ou satisfação. E os restantes 43,25%
sinalizaram esta questão como péssimo ou gerador de grande insatisfação. Já
a variável atendimento do açougue apresentou um índice de 89,3% de
aprovação ou de clientes satisfeitos. Em relação às variáveis
limpeza e higiene do açougue o índice de aprovação de 91,2% de clientes
satisfeitos e, somente, 8,8% dos respondentes está insatisfeito. Por sua vez, a variável
correspondente a variedade de produtos apresentou um índice de 90,9% de aprovação. Assim,
o setor açougue apresentou um índice médio de 82,0% de aprovação ou de
declaração de satisfação dos respondentes. Estes dados são
destacados na Figura 03 (Anexo 01).

Figura 03: Setor Açougue
Fonte: Dados Primários (2009)
4.2 Setor Padaria
Em relação ao setor da padaria existente no supermercado estudado, a variável fila de
compra na padaria apresentou um índice de 73,9% de aprovação ou de
satisfação, enquanto que 26,12% sinalizaram esta questão como péssimo ou de
insatisfação. Sobre a cortesia e atendimento dos funcionários neste setor foi obtido um
índice de satisfação na casa dos 92,1% de aprovação. Já, as
variáveis limpeza e higiene deste setor atingiram o percentual de 92,7% de satisfação.
Quanto à variedade de produtos o índice percentual de aprovação atingiu 91,0% de
aprovação dos clientes. Deste modo, o setor padaria atingiu um índice médio de
87,4% de satisfação ou aprovação, ou em outras palavras, um índice de
insatisfação na casa dos 12,6%. Todos os resultados descritos podem ser visualizados na Figura
04 (Anexo 02).

Figura 04: Setor Padaria
Fonte: Dados Primários (2009)
4.3 Setor de Hortifruti
Da mesma forma que nos setores supramencionados, a comercialização de hortaliças e
frutas foi devidamente avaliada. Os dados apontaram que cortesia e atendimento atingiram o índice de
satisfação de 96,0%. A limpeza e Higiene no setor ficaram na casa dos 94,2% de respondentes que
se declararam satisfeitos com esses quesitos. Por sua vez, a variedade de produtos disponibilizados no setor
de hortifruti apresentou um índice de 93,6% de aprovação ou satisfação dos
clientes. Na média o resultado de satisfação ou aprovação no setor
hortifruti oscilou na casa de 92,4% de aprovação. A Figura 05 (Anexo 03) revela os dados deste
setor.

Figura 05: Setor Horti Fruti
Fonte: Dados Primários (2009)
4.4 Frente de Caixa ou Check outs
Outra preocupação que se teve no estudo foi o de analisar a satisfação dos
clientes sobre as operações de frente de caixa ou check outs. Averiguou-se a
satisfação dos clientes sobre as filas dos caixas e obteve-se um índice percentual de
satisfação, apenas de 56,7% de aprovação, isto é, 43,3% apontaram
insatisfação com a questão espera na fila de caixa. A quantidade de caixas para o
atendimento dos clientes também foi analisada e de forma semelhante ao check out apresentou um
índice percentual de satisfação de apenas 47,0% de aprovação, isto, mais da
metade dos clientes estão insatisfeitos com o número de caixas existentes no supermercado
estudado (53,0%).

Figura 06: Setor Frente de Caixa ou Check Out
Fonte: Dados Primários (2009).
A presteza e atenção no atendimento dos funcionários que operam nas caixas do
supermercado complementam a análise deste setor com um índice de aprovação de
90,0%. Sobre a limpeza e higienização deste ambiente os clientes satisfeitos ficaram na casa de
96,3%. A média deste setor oscilou no índice de 72,5% de aprovação, ou sob outra
ótica, 27,5% de clientes insatisfeitos. Veja Figura 06 (Anexo 04).
4.5 Lanchonete
A lanchonete do supermercado foi o outro setor analisado. A variável fila de espera para atendimento
apresentou um índice percentual de 74,3% de aprovação ou de satisfação dos
seus clientes, porém, 25,7% por cento afirmaram que este fator é insatisfatório.
Já a presteza no atendimento dos funcionários atingiu um índice de 79,5% de
aprovação ou satisfação dos clientes. No entanto, 20,5% sinalizaram como
insatisfatórios estes tipo de atendimento. Por sua vez, as variáveis limpeza e higiene no
espaço físico da lanchonete apresentaram um índice percentual de 78,7% de
aprovação ou de satisfação, caracterizando 21,3% de clientes insatisfeitos.
Já a variável variedade de produtos disponibilizados na lanchonete apresentou um índice
de 77,1% de satisfação dos clientes. Veja a Figura 07 (Anexo 05).

Figura 07: Setor Lanchonete
Fonte: Dados Primários (2009).
Sendo assim, o conjunto de variáveis analisadas neste setor apresentou um índice médio
de aprovação ou satisfação dos clientes na casa de 77,4% de
aprovação, em outras palavras, isto corresponde a 22,6% de clientes insatisfação
sobre o atendimento geral na lanchonete, como pode ser visualizado na Figura 08 (Anexo 06).

Figura 08: Todos os Setores Estudados
Fonte: Dados Primários (2009).
4.6 Enfoques Estrutural e de 5 GAP’s
Na Categoria Ambiente foram analisados os quesitos: higiene e conforto, estacionamento e
localização. Encontrou-se um GAP de 5,8%, que sugere um nível de alta
satisfação dos Clientes, ou Clientes encantados (Figura 09).

Figura 09: Satisfação dos Clientes em
relação ao Ambiente (Instalações de Apoio)
Fonte: Dados Primários (2009).
Na categoria Serviços, cuja análise contemplou: entrega das compras, atendimento dos caixas,
percepção da fila, atendimento demais setores, higiene e limpeza, quantidade de caixas,
condições de pagamento e horário de atendimento, obteve um GAP de 62,3%, o que
indica nível de clientes satisfeitos, embora no quesito quantidade de caixas, o GAP
atingiu 106% o que sinaliza que há mais Clientes insatisfeitos que satisfeitos, eis
um ponto de restrição a ser considerado pelos tomadores de decisão (Figura 10).

Figura 10: Satisfação dos Clientes: Variáveis da
Categoria Serviços
Fonte: Dados Primários (2009).
Na Categoria Produtos, os itens analisados foram: preços, ofertas, qualidade, facilidade de encontrar
e variedade oferecida. Nesta categoria o GAP foi de 16,9%, indicando um nível de
mensuração como de Clientes Satisfeitos (Figura 11).

Figura 11: Satisfação dos Clientes
Fonte: Dados Primários (2009).
Fazendo-se um paralelo entre análise linear e análise sistêmica constante no Quadro 02 e
na Figura 06, observa-se que a análise linear mostra que 85,8% dos clientes estão satisfeitos
com o ambiente, produtos e serviços ofertados.
|
Clientes Satisfeitos
|
Variáveis
|
Clientes Insatisfeitos
|
GAP 5
[1 - (a - b)]
|
|
Freqüência
|
Freqüência
|
|
Relativa (a)
|
Absoluta
|
Relativa (b)
|
Absoluta
|
|
97,1%
|
368
|
Ambiente
|
2,9%
|
11
|
5,8%
|
|
91,6%
|
347
|
Produtos
|
8,4%
|
32
|
16,9%
|
|
68,9%
|
261
|
Serviços
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31,1%
|
118
|
62,3%
|
|
85,8%
|
325
|
Média
|
14,2%
|
54
|
28,3%
|
Quadro 02: Distribuição da Amostra de
Satisfação e o GAP 5
Fonte: Dados Primários (2009).
A Figura 12 permite a visualização gráfica dos dados supramencionados.
Figura 12: Satisfação e 5 GAP dos Clientes do
Supermercado
Fonte: Dados Primários (2009).
Por sua vez, na análise sistêmica, 65,2% dos Clientes manifestam Satisfação,
(média simples das variáveis em ambos os casos). Há um desvio de 20,6%, mostrados no
Diagrama de Venn-Euler (Figura 13).

Figura 13: Diagrama de Venn-Euler – Satisfação dos
Clientes por categoria.
Fonte: Dados Primários (2009).
Vale acrescentar que a metodologia utilizada permitiu compreender o comportamento dos consumidores do
supermercado estudado no Estado de Santa Catarina, permitindo supor que esta metodologia seja uma ferramenta
interessante de ser adotada em outras organizações supermercadistas, bem como em outros
segmentos econômicos que tenha um fluxo de clientes elevado. Haja vista que se pode admitir que a
amostra precise ser representativa para se ter sucesso neste tipo de averiguação
científica.
5 Conclusões
A construção de um índice que possibilita a análise quantitativa do
GAP5, proposta neste estudo, permite dizer que, os resultados alcançados pela
organização pesquisada apresentam resultados positivos de Satisfação dos Clientes,
embora Kotler (1998) enfatize, a importância da busca pela alta satisfação do
Cliente e pelo seu encantamento, já que, “[...] clientes apenas satisfeitos,
estarão dispostos a mudar quando surgir uma melhor oferta”. Pressupõe-se que quanto
menor o Gap, maior a expectativa de recompra dos Clientes, logo, maior a resposta positiva com
relação à Empresa (fidelização), decorrente da redução de
reclamações.
A diferença ocorrida entre, análise linear e sistêmica, em 20,6%, menor neste
último, se justifica porque contempla a visão orgânica das percepções de
satisfação/insatisfação dos Clientes, ou seja, satisfação positiva
ou satisfação negativa, no conjunto das categorias abordadas. Tal diferença sugere que,
pequenos eventos produzidos, seja operacional ou estratégico, em cenários diversos, podem
interferir em diferentes graus, na percepção dos Clientes.
Os objetivos propostos para a pesquisa foram cumpridos em todas as suas etapas, sendo que seu escopo foi a de
gerar, disponibilizar e converter informações aplicáveis no contexto organizacional,
objetivando melhorias contínuas.
Portanto, entende-se que a contribuição desta pesquisa reside na metodologia adotada,
através do esforço de adaptação dos construtos teóricos de diferentes
áreas do conhecimento e a integração destes paradigmas.
Ressalta-se, ainda que, iniciativas no sentido de aprofundar a metodologia proposta, como a
criação de um índice mediano no setor, e mesmo, em outras áreas, seria de grande
valia, de modo que, possa refletir o mais próximo possível, a percepção de
satisfação do Cliente.
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