1. Introdução
A competitividade é uma das principais razões para o aumento da variedade de produtos no
mercado (Menne e Rechs, 2002). A crescente competição entre as empresas no mercado automotivo
acelera não somente a corrida pelo aumento de qualidade e redução de custos, mas
também a renovação e redução do ciclo de vida dos produtos (Calviti, 2008).
Levando-se em consideração estes fatores, o desenvolvimento de novos produtos na
indústria automotiva vem crescendo em importância nas últimas décadas.
Existe ainda na indústria automotiva um outro fator que contribui para o aumento da importância
do desenvolvimento de novos produtos: a legislação de emissões de gases, que entraram em
vigor no país no final da década de 80. O PROCONVE (Programa de Controle da
Poluição do Ar por Veículos Automotores), foi instituído em 1986, com
implementação da chamada Fase 1 em 1988 para veículos leves e em 1989 para
veículos pesados (IBAMA, 2004). A partir de então, periodicamente, entra em vigor uma nova fase
com limites mais rigorosos, que afetam grande parte da cadeira de suprimentos da indústria automotiva,
principalmente os fabricantes de motores e seus fornecedores.
Nesse contexto, o presente trabalho busca diagnosticar a situação do atual processo de
desenvolvimento de produtos (PDP) de uma empresa fabricante de motores, a partir de um levantamento
bibliográfico e de dados coletados em campo. O trabalho tem como objetivo desenvolver uma proposta de
melhoria do PDP para a empresa estudada. Especificamente nesse artigo, o objetivo é diagnosticar a
empresa investigada, principal unidade de análise, com foco no processo de desenvolvimento de novos
produtos e na estrutura organizacional para, em seguida, propor melhorias para este processo. Também
tem o propósito de apresentar um levantamento de campo com nove empresas fornecedoras do setor
automotivo, com a finalidade de identificar as boas práticas de desenvolvimento de novos produtos. A
partir do referencial teórico, do diagnóstico realizado na empresa investigada e do levantamento
de campo, é estruturada então a proposta de melhoria para a empresa investigada.
2. Referencial teórico
Notadamente a partir dos anos 80 e 90, para muitas empresas, a sobrevivência no mercado passa a
depender da sua capacidade de aperfeiçoar o desenvolvimento de novos produtos, visando reduzir o tempo
de desenvolvimento, garantir a qualidade e diminuir o custo dos produtos (Clark e Fujimoto, 1991; Clausing,
1994). O desenvolvimento de novos produtos consiste em um conjunto de atividades por meio das quais busca-se
chegar às especificações de projeto do produto e de seu processo de
produção, a partir das necessidades do mercado e das possibilidades e restrições
tecnológicas, considerando ainda as estratégias competitivas e de produto da empresa, para que a
manufatura seja capaz de produzi-lo (Rozenfeld et al., 2006). Para atender a os requisitos
anteriores, as empresas, em geral, estruturam o desenvolvimento de produto como um processo de
negócios. Ainda segundo os autores supracitados, o PDP diversas especificidades quando comparado com
outros processos de negócio, sendo as principais:
- Elevado grau de incertezas e riscos das atividades e resultados;
- Decisões importantes devem ser tomadas no início do processo, quando as incertezas
são ainda maiores;
- Dificuldade de mudar as decisões iniciais;
- As atividades básicas seguem um ciclo iterativo do tipo: projetar-construir-testar-otimizar;
- Geração e manipulação de grande volume de informações;
- Informações e atividades provenientes de diversas fontes, áreas funcionais da
organização e da cadeira de suprimentos;
- Multiplicidade de requisitos a serem atendidos pelo processo, considerando todas as fases do ciclo de vida
do produto e requisitos de seus clientes.
Estas especificidades são geralmente válidas para quaisquer produtos (bens de consumo
duráveis e não duráveis) a serem desenvolvidos. No entanto, quando é analisado o
desenvolvimento de produtos no setor automotivo pode-se destacar ainda que o tempo necessário para se
completar cada ciclo projetar-construir-testar-otimizar é, em geral, alto. Os principais fatores que
influenciam esta característica são (Morgan e Liker, 2006; Calviti, 2008):
- Projetos de alta complexidade do ponto de vista técnico;
- Construção de protótipos que despende muito tempo, pois normalmente depende da
construção de ferramentas provisórias ou de baixo volume para então produzir as
peças;
- Otimização que normalmente requer um ciclo à parte que envolve: análise do
resultado de testes ou de falhas ocorridas durante os testes, determinação da causa raiz das
falhas, implementação de melhorias no projeto do produto, modificações de
ferramental e/ou planejamento do processo de produção, para só então produzir
uma nova versão do produto.
O PDP também envolve atividades de acompanhamento do produto após o lançamento para
verificar a sua eficácia e, assim, serem realizadas eventuais mudanças necessárias, a
serem incorporadas neste processo, incluindo as lições aprendidas ao alongo do ciclo de vida do
produto. Todas estas atividades necessitam ser gerenciadas, em uma estrutura organizacional, destacadas a
seguir.
2.1 Estrutura organizacional para o desenvolvimento de produtos
Nas últimas décadas têm ocorrido grandes alterações e desenvolvimento de
novas estruturas organizacionais. Na realidade, existe uma grande variedade de estruturas organizacionais, que
dependem das pessoas envolvidas, linha de produtos e filosofia gerencial da organização
(Kerzner, 2006). Nesse contexto, estão inseridos os projetos de desenvolvimento que, mesmo quando
são externos às organizações (e.g. joint ventures e parcerias),
são influenciados por por vários fatores na organização tais como (PMBOK, 2004):
sistema de gerenciamento de projetos, cultura organizacional, estilo da liderança e estrutura
organizacional. Basicamente, existem três tipos de estruturas organizacionais: funcional, matricial
(fraca, balanceada e forte) e por projetos (Clark e Fujimoto, 1991; PMBOK, 2004).
Na estrutura funcional os funcionários são agrupados por especialidade e possuem um superior
imediato bem definido. Nos projetos desenvolvidos em estruturas como esta, o escopo fica restrito aos limites
da função, passando de função para função. Na extremidade oposta
está a organização por projetos, onde os membros da equipe de projetos são
separados das atividades funcionais. Neste tipo de estrutura, os gerentes de projetos possuem grande autonomia
e os especialistas de cada função reportam diretamente para ele (PMBOK, 2004). As estruturas
matriciais são uma combinação de características das duas anteriores. Em uma
estrutura matricial existe uma divisão de autoridade, responsabilidade e obrigação entre
o time de projeto e as áreas funcionais (Cleland e Ireland, 2002). Existem poucas
organizações que usam somente um dos tipos de estrutura apresentados. A maioria das
organizações modernas envolve mais de uma, se não todas as estruturas mostradas.
Até mesmo uma organização funcional pode criar um time para desenvolver um projeto
específico (PMBOK, 2004).
2.2 A Sistemática do stage-gates para o PDP
O conceito da sistemática de stage-gates originou-se na NASA (National Aeronautics and
Space Administration) e foi popularizado por Cooper na década de 1990 (Silva, 2003), baseado em
experiências, sugestões e observações de um grande número de empresas e
organizações e no trabalho de Cooper e Kleinschmidt (1999). A sistemática consiste em um
modelo conceitual para estruturar o desenvolvimento de novos produtos como um processo subdividido em
estágios discretos e identificáveis, tipicamente, na quantidade de 4, 5 ou 6, intercalados por
pontos de decisão das atividades realizadas durante todo o desenvolvimento do produto. Cada um dos
estágios é desenvolvido para obter as informações para que o projeto possa
progredir para o estágio seguinte, antes passando pelos pontos de decisão denominados de
gates, que precedem cada estágio. Os gates servem como pontos de
verificação ou pontos de decisão se o projeto continua ou deve ser suspenso ou abortado
(Cooper, 1993). Os gates são pré-definidos e especificam um conjunto de atividades a
serem cumpridas para o estágio em análise, utilizando uma série de critérios ou
outputs. Geralmente, a avaliação nos gates é conduzida por gerentes
seniores ou por um comitê de projetos, um grupo de gerentes sêniores da organização.
O processo de avaliação de fases passou por três
gerações (Cooper, 1994):
- Primeira geração: foi desenvolvido pela NASA na década de 1960, este processo era
denominado PPP (Phased Project Planning). Ele separava o desenvolvimento de produtos em fases
discretas. Ao final de cada fase ocorriam revisões gerenciais, onde eram verificados se os
pré-requisitos haviam sido cumpridos, sem os quais o projeto não poderia continuar. Este era
um processo baseado em engenharia. Esta geração apresentava alguns problemas, pois as
revisões de fase eram demoradas e havia filas de projeto aguardando a revisão. Além
disso, muitas vezes, todo o projeto atrasava por que uma atividade não havia sido finalizada;
- Segunda geração: as principais evoluções em relação a
geração anterior foi que o processo passou a ser multifuncional com o envolvimento das
áreas de marketing e manufatura, as revisões tornaram-se mais abrangentes com envolvimento das
demais áreas e cobrindo todo o desenvolvimento do conceito ao lançamento. Esta
geração ainda apresentava alguns problemas, pois a passagem de fase ainda depende da
conclusão de todas as tarefas, e as fases não podem se sobrepor;
- Terceira geração: mantém os mesmos conceitos básicos, buscando resolver os
problemas existentes nas gerações anteriores. Esta geração é baseada em
quatro fundamentos de fluidez (adaptável com fases sobrepostas para aumentar a velocidade);
revisões flexíveis (possibilita decisões de continuidade condicionais, dependentes de
cada situação); foco (consideram métodos de priorização de todo o
portfolio e projetos, direcionando os recursos para os projetos mais importantes); e flexibilidade
(possibilita a cada projeto seu próprio sistema personalizado).
Esta terceira geração trouxe algumas
implicações importantes, tornando o sistema adaptável às necessidades
específicas de cada projeto, as tomadas de decisão tornaram-se mais complexas e ficou mais
difícil a divisão em fases. As revisões de fase são caracterizadas por três
elementos (Cooper, 1993): entregáveis ou produtos da fase, critérios ou requisitos de passagem e
os resultados da revisão.
2.3 Tipos de projetos de novos produtos
Os projetos de novos produtos são categorizados por Wheelwright e Clark (1992) de acordo com a
extensão de mudanças no projeto do produto ou do processo, em quatro categorias mostradas no
Quadro 1.

Quadro 1 – Classificação de projetos
conforme Wheelwright e Clark (1992).
É importante destacar no Quadro 1 os projetos do tipo "plataforma" e os
"derivativos". Conforme a literatura (Wheelwright e Clark, 1992; Rozenfeld et al., 2006),
os projetos derivativos, híbridos, ou de melhorias incluem mudanças incrementais no produto com
pouca ou nenhuma alteração de processo de produção, mudanças incrementais
de processo com pouca ou nenhuma alteração do produto, ou produtos que envolvem (pouca)
mudança de projeto e de processo. Os projetos plataforma representando uma nova solução
para os clientes, envolvem mudanças significativas tanto para o processo de fabricação
quanto para o produto, ou para ambos. Além desses dois tipos (plataforma e derivativos), existem os
projetos de ruptura ou radicais que podem estabelecer um novo núcleo de produtos e processos. Estes
podem criar uma nova categoria de produtos nos negócios da organização ou
encabeçar a entrada da organização em um novo negócio. Os projetos de parceria
representam um modo diferenciado de condução de projeto, e podem envolver extensas
alterações de produto ou processo de produção. Na verdade, qualquer projeto pode
ser conduzido utilizando-se de parceria, ou seja, a organização pode formar uma aliança
ou criar uma parceria com outra instituição para conduzir pesquisa ou desenvolvimento
avançado, para desenvolver um novo conceito de produto, ou simplesmente ampliar uma linha de produtos.
A categorização dos tipos de projeto, bem como o balanceamento entre os tipos são
aspectos importantes para a organização, principalmente na alocação dos recursos
existentes para desenvolvê-los.
3. Métodos e técnicas de pesquisa
O presente trabalho é de natureza empírica, caracterizado, predominantemente, como uma pesquisa
de campo. Este tipo de abordagem é particularmente indicado para pesquisas de caráter
exploratória e descritiva (Dane, 1990), como é a situação do presente trabalho. A
unidade de análise é o PDP, onde o contexto também é relevante, no sentido da
proposta de melhoria desse processo. A abordagem metodológica para a investigação
é de multi-método pois adota o estudo de caso, com base na literatura (YIN, 1994; Voss et al.,
2002) para a condução da pesquisa na empresa investigada, mas também apresenta
características de um levantamento tipo survey (não probalilístico e com amostra
reduzida não generalizável).
Sendo assim, a pesquisa de campo consiste de em duas partes. A primeira parte compreende a
realização de um diagnóstico na empresa investigada (principal unidade de
análise), com foco na estrutura organizacional e no PDP, cujas bases são estabelecidas no
referencial teórico anterior. Na segunda parte foi realizado um levantamento em empresas do setor de
autopeças (denominadas no trabalho de unidades análise secundárias), visando levantar
algumas características importantes e boas práticas adotadas no PDP destas empresas. As
técnicas de coleta de dados envolveram a realização de entrevistas semi-estruturadas e
análise documental de material disponível, principalmente relativo a principal unidade de
análise, descrita a seguir.
3.1. Caracterização da principal unidade de análise
A principal unidade de análise é uma empresa multinacional de origem norte-americana que
desenvolve e fabrica motores de ciclo Diesel no país. O faturamento anual da empresa (especificamente
na unidade brasileira) é de 790 milhões de dólares para um volume de
produção de 122.000 motores. Atualmente, a empresa conta 2.800 funcionários no Brasil e
na Argentina, distribuídos em 3 unidades, sendo duas no Brasil e uma na Argentina. Além do
acesso facilitado aos dados (um dos autores é colaborador da empresa), os critérios de
seleção dessa unidade envolvem, principalmente, a necessidade e oportunidade de melhoria no PDP
da empresa, além de esta ter relativa autonomia para desenvolvimento de novos produtos para o mercado
nacional e latino-americano, enquadrando-se em características relevantes estabelecidas por Dias e
Salerno (2009).
3.1.1. Coleta de dados na unidade principal de análise
A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas com profissionais de vários níveis
hierárquicos (alta e média gerência) que participam do trabalho de
estruturação do PDP e com integrantes dos times de desenvolvimento (engenheiros, técnicos
e líderes de projeto). No total foram realizadas dez reuniões sendo que quatro foram feitas com
um especialista sênior da área de escritório de projetos da engenharia que participou da
formatação do processo de desenvolvimento de produtos da empresa. A coleta de dados
também considerou uma análise documental, isto é, o acesso e uso de documentos que
não tiveram tratamento analítico (atas, manuais, registros, relatórios, etc.), visando
buscar evidências de utilização das práticas previstas no PDP. As demais
entrevistas foram realizadas com seis profissionais que atuam no desenvolvimento de produtos, sendo dois
coordenadores de programa, três líderes de projeto da engenharia e um gerente de plataforma de
projetos.
3.2. Caracterização das unidades de análise secundárias
As empresas analisadas no levantamento da segunda parte do trabalho foram selecionadas considerando diversos
critérios tais como: (i) sua presente posição como fornecedor de autopeças para as
montadoras de veículos; (ii) existência de um processo de desenvolvimento de novos produtos
estruturado, e (iii) acesso a empresa, por meio de profissionais que pudessem responder às
questões relacionadas ao desenvolvimento de seus produtos. Foram considerados, ainda, mais dois
critérios eliminatórios: (iv) fornecer diretamente para as montadoras, ou seja, serem
fornecedores de primeiro nível na cadeia de suprimentos automotiva (tier 1) e (v) desenvolver
e produzir o que as montadoras chamam de sistemas complexos (e.g. freios, suspensão, etc.). Com isso,
buscou-se garantir que não fosse selecionado um objeto de análise que desenvolvesse componentes
isolados e de baixa complexidade, portanto, diferenciados com relação a principal unidade de
análise investigada, fabricantes de motores. Nessas empresas foram identificadas pessoas que
participassem diretamente do PDP e que tivessem uma visão completa deste processo. Foram então
entrevistadas pessoas ligadas às áreas de engenharia do produto e gerenciamento de projetos.
3.2.1 Coleta de dados nas unidades de análise secundárias
Para a realização da coleta de dados, foi desenvolvido um roteiro de entrevistas, considerando
fatores preponderantes relativos à literatura e ao objetivo do presente trabalho, tais como: (i)
organização do processo de desenvolvimento do produto, (ii) modelo(s) de processo de
desenvolvimento utilizados, (iii) estrutura organizacional utilizada no desenvolvimento de produtos, e (iv)
formação dos times de desenvolvimento. Com isso buscou-se identificar nestas
organizações as principais características de seus processos de desenvolvimento de
produto e relaciona-las com os modelos de referência para o desenvolvimento de produtos e com as
estruturas organizacionais apresentadas na revisão bibliográfica.
Foram realizadas entrevistas utilizando-se de um roteiro de questões abertas, de características
semi-estruturadas, para levantar as características principais do PDP adotado pelas empresas
investigadas. Este tipo de roteiro permitiu que as respostas que dependem da experiência acumulada do
entrevistado fossem exploradas, pois não houve a delimitação de respostas, geralmente
caracterizada por um roteiro com questões fechadas. A partir dos dados coletadas, estes foram
compilados e analisados, conforme a estruturação do próprio roteiro, dividido em quatro
partes:
- Caracterização da empresa e dos projetos: seis questões direcionadas ao melhor
entendimento da empresa objeto de análise, buscando-se um entendimento sobre os tipos de projetos
realizados pela empresa, quantidade, valor médio e a existência de um processo estruturado para
a condução desses projetos;
- Estruturação do modelo do processo de desenvolvimento de produto: doze questões para
caracterizar o PDP adotado pela unidade de estudo identificando suas principais características;
- Organização para o desenvolvimento dos projetos: quatro questões abordaram a
estrutura organizacional voltada a condução dos projetos;
- Desempenho do processo: quatro questões que buscavam um melhor entendimento do desempenho e
indicadores do desenvolvimento de novos produtos.
Para ambas as partes da coleta de dados, estes foram analisados segundo a análise de conteúdo
das entrevistas. A partir dessa análise, apresenta-se a seguir os resultados de cada uma das partes da
pesquisa de campo, iniciando-se pelo diagnóstico do principal objeto de análise.
4. Diagnóstico da principal unidade de análise
Este tópico aborda o diagnóstico da empresa principal unidade de análise, onde
são caracterizados seus processos de desenvolvimento de produtos e estrutura organizacional.
4.1. Classificação dos tipos de projeto
A empresa adota uma classificação de projetos que considera a criação de um
produto novo ou a aplicação deste produto, sendo definidos basicamente nos seguintes tipos de
projetos:
- Projeto de motor básico: são projetos em que existe a criação de um novo
motor, ou seja, são desenvolvidos componentes básicos do produto tais como: sistema
estrutural, distribuição e sistema de combustível. Usualmente, estes projetos
são realizados sem a existência de um cliente específico, uma vez que eles visam um
mercado identificado pela empresa ou potenciais clientes;
- Projeto de aplicação: são os projetos que são desenvolvidos para aplicar um
produto básico existente em um veículo ou equipamento de um cliente. Os componentes criados
nestes projetos limitam-se à interface do motor com o veículo, tais como sistema de
acionamento auxiliar (alternador, compressor de ar condicionado e bomba hidráulica), suportes dos
componentes de acionamento auxiliar, suportes dos coxins e coletores;
- Projetos de aplicações especiais: são projetos que geralmente atendem ao segmento
fora de estrada, estacionário ou industrial, que tem seu motor básico já desenvolvido e
tempo de desenvolvimento das configurações de aplicação menor que seis meses ou
já as têm disponível. Estes projetos têm grande diversidade de
aplicações para um único cliente e flexibilidade de configurações.
A classificação de “projetos de aplicação” e
“aplicações especiais” utilizada pela empresa é similar a apresentada por
Miguel (2008), mesmo considerando a diferença de setor industrial entre as empresas e seus produtos.
Para o autor supracitado, o desenvolvimento de uma aplicação é, em geral, mais simples,
pois, geralmente, envolve o desenvolvimento de uma nova utilização para um produto já
desenvolvido e comercializado pela empresa.
Enquanto a empresa classifica seus projetos de acordo com o tipo de finalidade, ou seja, um novo motor ou uma
nova aplicação de um motor existente, a classificação proposta por Wheelwright e
Clark (1992), mostrada na Tabela 1, utiliza a extensão das alterações no projeto do
produto ou do processo. Comparando as definições dos tipos de projetos adotados pela empresa e
comparando-os com a literatura (Wheelwright e Clark, 1992), a Tabela 2 mostra a classificação
dos projetos adotada pela empresa. Outra informação colocada na última coluna da tabela
são os sistemas do motor que normalmente são desenvolvidos ou modificados em cada tipo de
projeto.
Quadro 2 - Comparação da
classificação dos projetos.
4.2. Avaliação da estrutura organizacional
A empresa adota diferentes estruturas organizacionais e lideranças para os projetos de motor
básico e aplicação, por considerar que eles possuem particularidades que merecem serem
tratadas de forma distinta. Os projetos de motor básico possuem equipes com menor envolvimento de
áreas funcionais, estando presentes as áreas de engenharia, mercado, manufatura e compras.
Entretanto, estes projetos requerem um aprofundamento técnico grande, pois podem estar envolvidos os
sistemas principais do motor. Já nos projetos de aplicação do produto, muitas
áreas funcionais participam do projeto. Existe um cliente definido com requisitos específicos
que necessitam ser cumpridos e uma cultura organizacional diversa. Muitas vezes este cliente possui um
processo de desenvolvimento próprio que precisa ser respeitado e as atividades sincronizadas entre as
duas organizações.
No projeto de motor básico, a liderança dos projetos de desenvolvimento dos produtos é
realizada pela diretoria de Engenharia de Produto através de uma área de
“Criação de Produto”, onde os chamados líderes de projeto coordenam o time
formado por representantes de outras áreas da organização, conforme mostrado na Figura 1
(a). Já nos projetos de aplicação do produto nos clientes, a liderança é
exercida pelo time de Gerenciamento de Programas que está subordinado a área de Vendas. Nestes
projetos, a área de Engenharia do Produto atua como parte integrante do time de projetos. A Figura 1(b)
mostra a estrutura organizacional para o desenvolvimento de projetos de aplicação do produto,
onde estão representadas as áreas de Gerenciamento de Programas e a participação
da diretoria de Engenharia do Produto como parte do time do projeto e sendo representada neste time por uma
das plataformas de projeto. Segundo Kerzner (2006), este tipo de estrutura organizacional pode ser utilizada
quando o projeto torna-se grande e o gerente de projetos, no caso específico denominado gerente de
programas, não é capaz de lidar com os aspectos de gerenciamento de projetos e técnicos
de engenharia. Neste caso, um líder de projeto da engenharia é designado para cada projeto, mas
permanecem ligados funcionalmente ao diretor da área. Pode-se notar a grande similaridade entre as
estrutura adotada pela empresa e a proposta por Kerzner (2006). Em ambos existe um líder de projeto na
área de engenharia que se torna responsável por integrar as demais funções
técnicas dentro de sua área.

(a) projetos de motor básico

(b) projetos de aplicação
Figura 1 - Estrutura organizacional adotada nos projetos.
4.3. Análise do PDP
A empresa, objeto de estudo, adota um modelo de referência para o PDP composto por oito fases e nove
gates (ilustrados na Figura 2). Este modelo conceitual é denominado de QVP (Plano de Qualidade
e Valor), com uma estrutura muito similar ao modelo stage-gate de Cooper (1993). Existe um
comitê que analisa os projetos ao final de cada fase e aprova ou rejeita a passagem para a
próxima fase, formado pelo presidente da empresa no Brasil e por todos os diretores, em reuniões
previamente agendadas realizadas mensalmente. Para esta ocasião existe um padrão de
apresentação contendo as informações consideradas necessárias e que devem
ser apresentadas na reunião. Os resultados da fase e a decisão sobre a continuidade do projeto
são registrados em um documento, denominado “contrato de gate”, que é
assinado pelo presidente e por todos os diretores.
No PDP, existem objetivos estabelecidos para cada fase, que são analisados na reunião do
comitê, onde é tomada a decisão da continuidade para a próxima fase, permanecer na
fase atual até a solução de alguma restrição ou finalização
de alguma atividade específica, ou ainda a suspensão ou cancelamento do projeto. A possibilidade
de cancelamento do projeto existe, mas segundo relato dos entrevistados, isto normalmente ocorre nas fases
iniciais de planejamento e investigação, que acontecem antes da aprovação do
projeto completo.
A Figura 2 mostra esquematicamente o processo de desenvolvimento de produtos adotado, sua divisão em
fases e a denominação de cada uma. A empresa denomina os projetos de desenvolvimento de novos
produtos de programas. O “V” mostrado na figura representa a forma como os requisitos do produto
são desdobrados. Inicialmente, estes requisitos são definidos para o produto e conforme o
planejamento avança ele é desdobrado em nível de sistema e depois em componente.
Já a verificação e validação do produto ocorrem nos níveis de
sistema e depois do produto completo, ou seja, a verificação pode ser iniciada com um sistema
separado, como uma análise de fluxo do sistema de arrefecimento, porém a validação
só estará finalizada quando for realizado o teste do motor completo com todos os seus
componentes.

Figura 2 - Modelo QVP.
As características do QVP foram então comparadas com as principais características da
terceira geração do processo de revisão de fases conforme Cooper (1994), com o objetivo
de identificar oportunidades de melhoria no processo de desenvolvimento de produtos adotado pela empresa. Os
resultados desta comparação são indicados no Quadro 3.
Quadro 3 - Comparação entre PDP de terceira
geração de Cooper (1994) e QVP.
Analisando-se cada um dos fundamentos pode-se notar que a sobreposição de fases é uma
prática já utilizada pela empresa, inclusive prevista no QVP. Outra característica que
já está consolidada na empresa são as revisões flexíveis de fase, onde
existe a possibilidade da aprovação condicional. Nestes casos, o projeto pode passar para a
próxima fase, porém e agendada uma revisão dos itens pendentes em uma próxima
reunião mensal do comitê de aprovação.
Entretanto, alguns resultados importantes podem ser extraídos desta comparação, quando os
itens “foco” e “flexibilidade” são analisados. O QVP indica a necessidade da
análise da interação entre os projetos, principalmente com foco na disponibilidade de
recursos, porém esta análise é realizada de forma não estruturada. Este ponto
identificar uma oportunidade de melhoria para o processo, pois se for estruturada uma forma de análise
do portfolio de projetos ela poderia trazer informações sobre a disponibilidade de
recursos e critérios de mercado, para a decisão de priorização dos projetos.
Já com relação ao último item, a possibilidade de personalização do
QVP de acordo com a necessidade de cada projeto não é prevista. As fases e atividades são
fixas e o processo não prevê alterações em sua estrutura. Novamente, identifica-se
outra oportunidade de melhoria para o processo, a criação de um modelo flexível
permitiria sua adequação a projetos menores ou para mercados em que os requisitos de uso dos
clientes são diferentes.
4.4. Comparação entre as práticas da unidade principal de análise
com a literatura
No presente trabalho, os métodos e técnicas propostos pela literatura são denominados de
“boas práticas” ou “práticas”. Rozenfeld et al. (2006) apresentam um
guia que sintetiza as melhores práticas existentes e serve como referência para melhoria do PDP.
A ideia básica, por trás dos conceitos apresentados pelos autores citados, é que o
conhecimento dessas práticas leva a uma avaliação da situação atual de uma
empresa e, consequentemente, a uma transformação de seu processo de desenvolvimento de produtos.
Para realização da comparação das práticas encontradas na literatura (por
exemplo em Rozenfeld et al., 2006; Ulrich e Eppinger, 2007), estas foram verificadas na unidade
principal de análise para determinar se estão em uso no seu PDP. O Quadro 4 apresenta o
resultado desta comparação. No referido quadro, a fase do PDP, segundo o modelo de
referência de Rozenfeld et al. (2006), é mostrada na primeira coluna. Porém, praticas que
envolvem um aou mais fazes são categorizadas em separado. As práticas da literatura são
colocadas na segunda coluna acompanhadas de uma descrição resumida. Na última coluna
é colocado um resultado sobre sua utilização ou não pela empresa e, em alguns
casos, um comentário sobre alguns aspectos comparativos.
Quadro 4 - Práticas da literatura e seu uso na unidade
principal de análise.
Fase do PDP
|
Método ou Prática ou método
|
Descrição
|
Evidência de Uso
|
|
Pré-desenvolvi-mento
|
Gerenciamento de Portfolio
|
Gerenciamento de portfolio de projetos é um processo de
decisão que envolve a seleção, priorização e acompanhamento de
projetos, visando a otimização da carteira de projetos
|
Em implantação
|
|
Planejamento de plataforma
|
Planejamento da plataforma de produto envolve gerenciamento da melhor
combinação entre diferenciação e comunização da arquitetura
do produto
|
Não utiliza
|
|
Desenvolvi-mento
|
CAD/CAE
|
Desenho assistido por computador e engenharia assistida por computador são
ferramentas computacionais que auxiliam a especificação do produto e cálculos e
simulações, visando a otimização do projeto de produtos
|
Sim
|
|
QFD (quality function deployment)
|
Desdobramento da função qualidade é uma metodologia que consiste
em um conjunto de passos e tabelas específicas que permitem a transformação das
necessidades dos clientes em especificações de projeto
|
Não utiliza
|
|
CAPP
|
Planejamento do processo assistido por computador são sistemas computacionais
que auxiliam na preparação da documentação dos planos de processo
|
Sim
|
|
DFM/DFA
|
Projeto para manufatura e montagem, métodos que levam em
consideração as funções, formas, materiais e processos para tornar a
manufatura e a montagem mais fáceis, minimizando custos
|
Não existe processo estruturado
|
|
DoE (design of experiments)
|
Planejamento de experimentos é uma área da estatística que
estuda técnicas que auxiliam no planejamento de experimentos (testes e ensaios), visando
economizar o uso dos recursos (o menor tamanho de amostras e testes) e o resultado mais preciso e
estatisticamente significativo
|
Sim
|
|
Engenharia simultânea
|
Desenvolvimento integrado e consecutivo do projeto de um produto e os processos
relacionados, incluindo manufatura e suporte
|
Sim (utilização interna e com fornecedores)
|
|
FMEA (failure mode and effects analysis)
|
Análise dos modos de falha e seus efeitos, é uma ferramenta que busca,
em princípio, evitar, por meio de análise das falhas potenciais e propostas de
ações de melhoria, que ocorram falhas no projeto do produto ou processo
|
Sim (para o projeto do produto e processo)
|
|
FTA (fault tree analysis)
|
Árvore de análise de falhas é um método de análise
de falhas, cuja análise inicia com um evento indesejável (falha), chamado de evento
topo, a partir do qual devem ser determinadas todas as maneiras de ocorrência deste evento de
topo
|
Não utiliza
|
|
GD&T (geometric dimensioning and tolerancing)
|
Tolerância dimensional e geométrica é uma ferramenta de
dimensionamento (cotação) que substitui o sistema cartesiano, passando a utilizar campos
de tolerância circulares
|
Sim
|
|
Método de Taguchi
|
É uma técnica estatística que tem por objetivo projetar produtos
cujo desempenho não seja afetado por condições ambientais fora do controle do
projetista, esses fatores são chamados de ruído
|
Sim
|
|
Pós-desenvolvi-mento
|
Planejamento do fim de vida do produto
|
Planejamento das estratégias de descontinuidade do produto no mercado,
reciclagem, reutilização, remanufatura, desmontagem e descarte
|
Sim
|
|
Uma ou mais fases
|
Revisão de fases/gates
|
É a avaliação sistemática do final de cada fase de um
projeto de desenvolvimento de produto
|
Sim
|
|
PDM (product data
management)
|
O gerenciamento dos dados do produto corresponde a sistemas de gerenciamento de dados
do produto baseados em ferramenta computacional que visa gerenciar todas as informações
e processos relativos ao ciclo de vida de um produto
|
Em implantação
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Gerenciamen-to de Projetos
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É a atividade de planejar e coordenar recursos e tarefas para atingir os
objetivos do projeto
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Sim
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Indicadores de desempenho
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Medidas que permitem medir o desempenho do desenvolvimento de um projeto ou processo
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Sim
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Como pode ser visto no Quadro 4, foram incluídas dezessete práticas identificadas na
literatura: duas ligadas ao pré-desenvolvimento, dez ao desenvolvimento do produto e do processo, uma
relativa ao pós-desenvolvimento e quatro que envolvem uma ou mais fases. Quanto a
utilização de cada uma pela unidade de análise principal, foram encontradas
evidências de utilização de onze dessas práticas. Outras ainda encontram-se em
implementação ou foram implementados recentemente, não sendo consideradas, portanto, como
no uso em regime.
Com relação às atividades de pré-desenvolvimento, estas não são
usadas na organização. Apesar de a principal unidade de análise dividir seus produtos e
projetos em plataformas, não existe um planejamento sistemático de plataformas quanto a
diferenciação ou comunização entre os produtos da mesma plataforma ou de outras.
Foi evidenciada apenas uma tentativa de utilização deste conceito, porém segundo as
evidências coletadas foi um caso isolado não havendo continuidade do trabalho. Uma outra
prática ainda encontra-se em implementação pela empresa, a gestão de
portfolio de projetos, que foi iniciada recentemente. Até o momento do desenvolvimento do
presente trabalho, havia sido realizado um inventário dos projetos, organizando e classificando os
produtos em motor básico, aplicação e aplicação especial, como descrito
anteriormente. Os projetos foram, então, priorizados pela direção da empresa de acordo
com critérios qualitativos de importância do cliente. No momento da realização do
trabalho foi encontrada uma iniciativa para definição de critérios quantitativos e
qualitativos de forma estruturada e existe uma proposta para seleção e priorização
dos projetos de acordo com estes critérios.
Na fase de desenvolvimento, o DFM/DFA (Design for Manufacturing and Assembly) existe como conceito
previsto no PDP. Apesar se serem identificadas encontradas pessoas treinadas para a sua
aplicação, não existe uma estruturação para o seu uso. O FTA (Fault
Three Analysis) não é aplicado na análise de falhas, para este fim existe uma
ferramenta específica implementada na empresa chamada COF8D (Comunicado de Falha 8 Disciplinas). Outro
ponto a ser citado é a aplicação do DoE no desenvolvimento de novos produtos. A empresa
utiliza esta prática apenas nos experimentos relativos à combustão. Esta prática
poderia ser aplicada em outras etapas do desenvolvimento de produtos, como o planejamento dos testes de
validação. O uso do QFD (Qualiy Function Deployment) não é realizado pela
empresa no desenvolvimento de novos produtos. O levantamento e desdobramento dos requisitos de mercado
são realizados de forma não estruturada. A utilização deste método pode ser
útil, principalmente nos projetos de motor básico, quando não existe um cliente definido
e a definição do produto é feita considerando os requisitos de mercado.
Dentre as práticas utilizadas pela empresa no pós-desenvolvimento, é importante destacar
que o planejamento de fim de vida do produto só é realizado quando existe um requisito
específico do cliente, quando não existe a exigência do cliente este planejamento
não é realizado.
Para práticas que estão presentes em uma ou mais fases do PDP, a implementação do
PDM (product data management) encontrava-se em estagio inicial. Foi escolhida e adquirida uma
ferramenta computacional e elaborado um cronograma de implementação. Durante o trabalho, foi
evidenciado que a base de dados para o sistema PDM ainda estava sendo criada.
Contata-se, portanto, que existe uma ênfase no uso de práticas associadas ao desenvolvimento
propriamente dito, métodos ou técnicas que podem ser consideradas tradicionais no setor
automotivo. Existe uma carência de práticas associadas ao pré-desenvolvimento e
também ao pós-desenvolvimento. Várias outras práticas ainda estão em
implementação, não proporcionando ainda resultados que permitam afirmar que encontram-se
em regime. Desse modo, observa-se uma série de oportunidades de melhoria para o PDP.
4.5. Levantamento de boas práticas do PDP
Como citado nos métodos de pesquisa do trabalho, a segunda parte da pesquisa de campo envolveu a
verificação de boas práticas conduzidas outras empresas do mesmo setor econômico,
sendo unidade de análise nessas empresas o PDP utilizado pelas empresas. De acordo com o estabelecido
nos objetivos deste levantamento, todas as empresas pesquisadas como unidades secundárias de
análise são do setor automotivo, especificamente, fabricantes de autopeças instalados no
Brasil e fornecedores diretos das montadoras de veículos, também, instaladas no país.
Primeiramente, são apresentadas as principais características das empresas considerando sua
origem, porte e setor de atuação. Foram obtidos resultados de nove empresas com origens
diferentes: três da Alemanha, quatro dos EUA, uma da França e uma brasileira. As empresas
pesquisadas possuem entre 200 e 12.000 funcionários em suas operações no Brasil,
caracterizando-se como média e grandes empresas. Como as empresas consideradas são fabricantes
de sistemas e não de produto isolado, este fato dificulta caracterizar o setor específico de
atuação da empresa. As atividades principais identificadas em conjunto com os entrevistados
foram as seguintes: cinco metal-mecânico, duas eletrônicas e duas de produção de
plásticos.
Algumas características das unidades secundárias de análise quanto a sua estrutura
organizacional são apresentadas na Tabela 1. Todas possuem um gerente ou coordenador de projetos com
dedicação parcial ou integral. Pela análise da Tabela 5, é possível
verificar que não existe uma relação entre a dedicação e o número de
projetos de cada coordenador, pois existem empresas em que o coordenador tem dedicação parcial e
coordena até 10 projetos. Este fato reforça as informações coletadas na pesquisa
de que a dedicação e o número de projetos de cada coordenador são definidos de
acordo com o tamanho e complexidade do projeto. Os coordenadores de projeto coordenam equipes de tamanhos
variados, de até 20 pessoas. Segundo os dados coletadas, o tamanho das equipes depende também do
tamanho e complexidade dos projetos. Na maioria das empresas os gerentes ou coordenadores de projeto
são nomeados a partir da aprovação dos projetos e apenas dois entrevistados declararam
que a nomeação ocorre desde a fase preliminar de projeto. Na unidade principal esta
nomeação ocorre a partir da aprovação interna do projeto.
Tabela 1 - Tempo de dedicação e número
de projetos por coordenador.

Três empresas possuem estrutura matricial forte, quatro possuem estrutura matricial fraca, uma estrutura
balanceada e uma estrutura essencialmente funcional. Não foram encontradas empresas com estrutura
organizacional por projetos. Também não foi identificada uma relação direta entre
o tipo de estrutura organizacional (funcional, matricial forte, balanceada e fraca) e o tempo de
dedicação do coordenador do projeto ao projeto como sugere o PMBOK (2004).
Já com relação ao desempenho do processo de desenvolvimento de produtos, segundo os
entrevistados, as principais dificuldades encontradas no desenvolvimento de novos produtos são:
- Excesso de documentos requeridos pelo processo (com três citações);
- Limitação de recursos para realização dos projetos (com três
citações);
- Prazos não adequados com as necessidades dos projetos (com duas citações).
Também foram mencionados como dificuldades, por uma citação: cultura organizacional,
adequação aos padrões corporativos, falta de treinamento, pouca influência do
gerente de projetos, existência de poucos gerentes de projeto e falta de visão de
portfolio de projetos.
Os principais pontos fortes do processo de desenvolvimento de novos produtos são:
- Visão clara do andamento dos projetos (com três citações);
- O PDP serve como guia para os projetos (com duas citações).
Foram citados ainda: visão conjunta dos projetos, padronização mundial, acesso
simultâneo, estruturação dos projetos, definição de responsável,
análise pelo comitê de aprovação e histórico.
Foi constatado que existe uma grande variação do nível de aderência dos projetos
(no sentido de o seguir estritamente) ao PDP e apenas três entrevistados declararam que todos os
projetos seguem fielmente este processo.
Conforme esperado, os indicadores mais utilizados pelas unidades secundárias de análise foram:
prazo para entregas (com nove citações), despesas do projeto e qualidade do produto (com sete
citações cada), e rentabilidade do projeto (com quatro citações). A unidade
principal de análise utiliza estes quatro indicadores de desempenho para os projetos, além
destes é utilizado o indicador de qualidade do produto.
Com base nos dados citados e nas anotações realizadas durante as entrevistas, estes foram
agrupados de acordo com a estruturação do questionário e, a partir deste agrupamento, as
respostas foram analisadas e os resultados comparados com as práticas adotadas na empresa fabricante de
motores Diesel. As principais diferenças encontradas são mostradas no Quadro 5.
Quadro 5 - Comparação das práticas de
mercado com as práticas da empresa estudada.
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Práticas de mercado
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Práticas da empresa fabricante de motores
diesel
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Diferenciação do processo de acordo com o tamanho do
projeto (flexibilidade)
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Não existe diferenciação ou
personalização do processo
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Utilização de ferramenta para análise das
necessidades de mercado
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A empresa não utiliza este tipo de ferramenta
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Existência de uma área da organização
responsável pelo gerenciamento do portfolio de projetos
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O gerenciamento de portfolio de projetos ainda é
embrionário
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Existem empresas que nomeiam os coordenadores de projeto desde a fase
de prospecção
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A nomeação do coordenador de projetos ocorre somente
após a aprovação interna do projeto
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A estrutura matricial forte
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É utilizada a estrutura matricial fraca
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Assim, estes dados foram base para a proposição de melhorias para o PDP da unidade de
análise principal deste estudo, cuja proposta é descrita a seguir.
5. Apresentação e discussão da proposta de
melhorias
Como já citado, um dos objetivos do presente trabalho é proposição de melhorias
para o PDP. Considerando o foco do trabalho na organização do processo e na estrutura
organizacional para o desenvolvimento de produtos, pode-se dizer que a maioria das oportunidades encontradas
diz respeito à organização do processo e somente duas oportunidades de melhoria foram
identificadas para estrutura organizacional. A Tabela 2 apresenta a distribuição das
oportunidades identificadas.
Tabela 2 - Número de oportunidades de melhoria
identificadas.
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Etapas do trabalho
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Número de oportunidades de melhoria identificadas
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Organização do processo
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Estrutura organizacional
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Revisão bibliográfica
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2
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Não identificada
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Análise de boas práticas na empresa
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6
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Não identificada
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Pesquisa de campo com as 9 empresas
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3
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2
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Algumas oportunidades foram destacadas em mais de uma etapa do trabalho e, portanto, são consideradas
somente uma vez na apresentação das propostas de melhoria; outras foram agrupadas por serem
complementares. Após a eliminação das redundâncias e agrupamento as oportunidades
de melhoria identificadas foram tabuladas e apresentadas no Quadro 6.
Foi estabelecido também o prazo para implementação das proposições de
melhoria. Algumas oportunidades de melhoria foram classificadas para implementação em curto
prazo (até 4 meses), médio prazo (4 a 8 meses) e longo prazo (8 a 12 meses). Outras ainda
não são planejadas para implementação. Durante a realização do
trabalho foi ainda possível acompanhar a implementação de algumas das práticas
definidas pela empresa para implementação em curto prazo. Para as práticas definidas para
implementação em médio prazo, somente foi possível acompanhar a
elaboração dos planos de implementação. Já para as oportunidades definidas
para implementação em longo prazo, não foi possível acompanhar os planos de
ação, pois eles ainda não haviam sido elaborados pela empresa.
Quadro 6 - Oportunidades de melhoria identificadas.

Quadro 7 - Situação da
implementação das oportunidades de melhoria identificadas.
6. Conclusões
Este trabalho consiste de uma pesquisa descritiva na qual são avaliadas a estruturação
do PDP e os aspectos da estrutura organizacional para o desenvolvimento de novos produtos. A análise da
literatura é complementada com a apresentação de um estudo de caso de uma empresa
fabricante de motores Diesel e com um levantamento realizado com outras empresas do setor automotivo, que
auxiliou na proposição de melhorias para a empresa em estudo.
A revisão bibliográfica mostrou a necessidade de evolução do PDP, na busca de
atender às Demandas crescentes para o desenvolvimento de novos produtos. No contexto de um fabricante
de motores Diesel, uma das origens principais para estas demandas corresponde as exigências ambientais.
Estas materializaram-se na indústria automotiva com o surgimento de legislações que
controlam a emissão de gases nos veículos, mas que agora evoluem para controle de ruído e
utilização de substâncias nocivas ao ambiente. Foi constatado para a empresa investigada
que, até o momento, a principal exigência ambiental que tem influenciado no aumento da
freqüência de desenvolvimento de novos produtos foi a legislação de emissões
de gases que tem mostrado uma evolução maior que o controle de ruído e substâncias
nocivas ao ambiente.
A investigação na principal unidade de análise mostrou como uma empresa fabricante de
motores Diesel busca se adequar a esta realidade modernizando seu processo de desenvolvimento de produtos e
sua estrutura organizacional. Analisou-se então o PDP da empresa a luz das práticas
identificadas na literatura, considerando ainda o levantamento realizado com outras empresas do segmento. A
partir do diagnóstico e desse levantamento, conclui-se que foi possível estabelecer
oportunidades de melhoria para o PDP, e algumas ações para minimizar estas
limitações. Ao longo da realização do trabalho foi possível acompanhar a
implementação dessas ações mas não foi possível mensurar o impacto
das práticas implementadas, devido à recente introdução e longo ciclo de
desenvolvimento dos produtos da principal unidade de análise, principalmente aquelas de médio e
longo prazos. Este acompanhamento futuro é uma possível continuidade do trabalho.
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