1. Introdução
A vitalidade econômica das empresas tem sido cada vez mais influenciada pela sua capacidade de
inovação (Yoshimura e Kondo, 1995). Corroborando, Possas (1989) afirma que o ambiente atual dos
negócios tem sido marcado pela redução drástica dos ciclos econômicos de
maturação dos empreendimentos e dos ciclos de vida dos produtos. A dinâmica do mercado
atual atesta, portanto, a premissa básica dos estudiosos do processo de inovação que o
consideram o principal dinamizador da atividade econômica capitalista.
No senso comum inovação é um processo que começa com uma ideia nova e termina com
um novo produto no mercado. Todavia, este conceito guarda significados que o tornou merecedor da
atenção de pensadores e pesquisadores conhecidos por suas contribuições para o
entendimento dos fundamentos da economia. Schumpeter (1988) afirma que, a inovação é um
conjunto de funções evolutivas que modificam métodos de produção, formas de
organização do trabalho e produzem novas mercadorias que geram, por sua vez, novos mercados.
Assim, para este autor, a inovação pressupõe a presença de um novo produto, um
novo método de produção, um novo mercado, uma nova fonte de fornecimento de
matéria-prima e uma nova forma de organização do trabalho.
Naturalmente que uma inovação nem sempre abarcará todas as dimensões citadas por
Schumpeter (1988). Os resultados de uma inovação poderão, algumas vezes, se traduzir em
apenas uma dimensão. Além disso, ela não necessita limitar-se ao produto ou ao processo.
Uma empresa poderá ser altamente inovadora sem fornecer um produto diferente ou superior ao de seus
concorrentes. Ela poderá simplesmente inovar na forma de gerir seus recursos ou, então, no seu
relacionamento com o mercado.
A amplitude e a profundidade do impacto da inovação sobre a economia, conforme descritas por
Schumpeter (1988) justificam a importância do tema e de seguir estudando-o. Mas não menos
importante do que a inovação é a temática da criatividade. Por estar
intrinsecamente relacionada à inovação tecnológica, a criatividade torna-se uma
habilidade crucial no desenvolvimento econômico de uma firma ou, até mesmo, de uma
nação.
Bono (2003) identifica dois elos que ligam criatividade à economia. Um destes elos presta apoio ao
processo produtivo, fazendo aquilo que se vinha fazendo, porém de outra maneira, podendo ser mais
simples ou mais econômico. Pelo outro elo, a criatividade poderá oferecer maior valor agregado ao
cliente, através de um novo produto, de uma modificação em um produto já
existente, de um novo processo de fabricação do produto ou de uma nova maneira de vender o mesmo
produto. Assim, percebe-se a presença e a importância da criatividade quando ela participa de um
processo que resulta na inserção, direta ou indiretamente, de um novo produto no mercado. Este
processo é o que, ordinariamente, se denomina inovação.
Criatividade, por si só, não é inovação, mas dela participa de maneira
indissociável. Simplificadamente se pode dizer que criatividade é geração de
ideias e inovação é a implementação das ideias de um modo a gerar
resultados práticos. O conceito de inovação, como se percebe, baseia-se principalmente
nos aspectos concretos dos seus resultados, como num novo produto ou na forma utilizada para produzi-lo.
Schumpeter (1982) observou que as ondas dos ciclos do desenvolvimento econômico resultavam da
combinação de inovações criadoras de setores líderes numa economia ou da
construção de novos paradigmas que passavam a impulsionar o crescimento rápido dessa
mesma economia. Assim, a inovação está conceitualmente associada aos seus impactos
econômicos. Criatividade, por sua vez, refere-se a um conjunto de habilidades humanas, de natureza
cognitiva, que participa ativamente de uma inovação; muito embora, e não raramente, seja
tratada equivocadamente como sinônimo de inovação.
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que teve por finalidade analisar os estímulos e
bloqueios à criatividade e, fatores que podem tornar ambientes organizacionais favoráveis a
processos de inovação. O estudo contempla uma revisão teórico-conceitual sobre a
criatividade no processo de inovação e as características de um ambiente de trabalho
favorável à criatividade, e mostra em um Modelo de Desenvolvimento de Produtos as fases em que
é utilizado o pensamento criativo. O restante do artigo está organizado da seguinte forma: as
seções 2 e 3 apresentam o referencial teórico-conceitual, a seção 4
apresenta a síntese e a seção 5 traz as conclusões do estudo.
2. Criatividade no Processo de Inovação
Criatividade é um fenômeno de natureza predominantemente cognitiva e a inovação
é um efeito da interação do processo mental - ou cognitivo - de geração de
novas idéias com o processo de implementação destas novas idéias, de forma a
produzir algo de valor mercadológico. Inovação pode ser caracterizada, portanto, como o
resultado do encontro entre o psíquico e o econômico. Desta maneira a inovação
necessita do esforço criativo para acontecer.
Ainda que a criatividade possa ser primariamente definida pelo senso comum, no campo teórico
não existe consenso. Sternberg (2008, p.399) refere que “pode haver tantas
definições estreitas de criatividade quantas pessoas que pensam sobre o tema”. Todavia,
das inúmeras abordagens e conceitos sobre o fenômeno, emerge o trabalho de Torrance (1974), cujas
concepções sobre criatividade estão alicerçadas em pesquisas empíricas
fundamentadas por meio de medidas, testes e avaliações.
Para Torrance (1966), a criatividade é o processo que torna a pessoa sensível a um problema,
levando-a buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das dificuldades, testando
estas hipóteses e comunicando os resultados. Assim, Torrance (1966) propõe um conceito de
criatividade associado à solução de problemas, mediada por funções
cognitivas que estão intimamente ligadas a uma espécie de pensamento diferenciado, não
exatamente associado à inteligência formal. Torrance inspirou-se também nas idéias
de Guilford (1959), um dos primeiros a sugerir algumas habilidades da pessoa criativa, tais como flexibilidade
e originalidade, e a propor um modelo de inteligência dentro do qual a habilidade seria uma
espécie de pensamento divergente. Partindo deste modelo, Torrance (1966) desenvolveu testes para
avaliar a criatividade onde o pensamento divergente permeava as principais características do
pensamento criativo.
Segundo Nakano e Weschler (2006), os testes de Torrance (1966) acabaram por se tornar os instrumentos mais
pesquisados e utilizados na avaliação da criatividade. Seus testes destinavam-se, originalmente,
a medir diversidade, quantidade e adequação de respostas a perguntas específicas. Eles
enfatizavam não só a qualidade das respostas para os problemas ou situações
apresentadas, mas o quanto a pessoa usou detalhes incomuns ou ricamente elaborados. A criatividade, assim
concebida, pôde ser caracterizada como uma habilidade de produzir um grande número de ideias
(fluência), que apresentem variabilidade (flexibilidade), estatisticamente pouco frequentes
(originalidade) e de uma forma rica e elaborada (elaboração).
Mas não tardou para Torrance (1966) apontar a existência de outros indicadores da criatividade,
aumentando as características criativas de quatro para quatorze. Estas novas características
são denominadas de expressão de emoção, fantasia, movimento,
combinação de idéias, extensão de limites, perspectiva incomum, perspectiva
interna, uso de contexto, analogias e títulos expressivos (Torrance e Safter, 1999).
A evolução da concepção de Torrance (1966) sobre a criatividade, suas
características e critérios de mensuração, sugere que ela envolve mais
operações mentais associadas à imaginação e a busca de alternativas
não convencionais, enquanto que a inteligência envolve o emprego do raciocínio
lógico formal e das inferências pré-estabelecidas. O mérito de Torrance (1966), no
entendimento de Weschler (1998), ficou por conta da criação de instrumentos de
avaliação da criatividade, demonstrando ser possível a medição desta
característica de maneira fidedigna e precisa, fazendo com que o fenômeno criativo saísse
do campo da subjetividade para ser compreendido de uma forma científica. E esta é uma
consistente justificativa para empregar as idéias de Torrance (1966) como guias orientadoras da busca
do conhecimento das relações existentes entre criatividade e inovação.
O pensamento criativo opera em diversas fases de um processo de inovação. No desenvolvimento de
um novo produto, aqui tomado como exemplo, a criatividade exerce um importante papel em, pelo menos, duas
fases do processo no Método proposto por Jung, Caten e Ribeiro (2010), ver Figura 1.

Figura 1. Método para desenvolvimento de produtos proposto por Jung,
Caten e Ribeiro (2010)
Na fase de - Conceptual Design (2) -, ver Figura 1, o uso da criatividade é fundamental
para a geração de novas ideias - Original Ideas (1.2) - porque o indivíduo
deve processar e correlacionar, a partir de suas habilidades cognitivas, os diversos inputs advindos
do ambiente, formulando novas combinações e construindo novos conceitos e
definições (Torrance e Safter, 1999; Mumford, 2000; Shanlley e Perry-Snith, 2001).
Essas operações do pensamento criativo associam-se àquelas envolvidas na subfase -
Synchronous, Functional, Structural and Morphological of Competing Products (1.1) - também
destinada ao atendimento dos requisitos à inovação, que refere Bellón (2003),
capazes de levar a formulações que conduzam a resultados práticos, a partir da habilidade
cognitiva de elaboração de idéias (Torrance, 1974).
Outra fase onde a criatividade assume um papel crucial no processo de desenvolvimento de produto é a
da - Convergence and Generate Alternatives Process (3) -. Nesta fase, o indivíduo
deve empregar habilidades cognitivas envolvidas na geração de alternativas incomuns, não
convencionais, para possibilitar a formulação de propostas técnicas originais. Ou seja,
soluções criativas são muitas vezes encontradas ao formarem-se novas
combinações de elementos e processos, o que requer a participação ativa do
pensamento divergente.
Enquanto que o pensamento convergente opera de acordo com os princípios da lógica, sequenciando
e organizando as informações e conferindo-lhes uma configuração, o pensamento
divergente representa o intuitivo que processa a quantidade total dos estímulos, fazendo uso da
imaginação nem sempre atrelada a situações ou padrões já conhecidos.
Na realidade, a concepção de um novo produto não emerge somente do fluxo de um tipo de
pensamento, seja ele convergente ou divergente, mas sim da interação das várias
habilidades cognitivas do indivíduo, do conhecimento técnico, sempre indispensável para
qualquer inovação e do ambiente de trabalho que avalia e estimula a produção
criativa.
A produção criativa de inovações não pode ser atribuída
exclusivamente a um conjunto de habilidades e traços da personalidade de um indivíduo, mas,
também, a influência de fatores sociais e culturais existentes no ambiente onde se encontra
inserido (Alencar e Fleith, 2003). Não basta um impulso interno para ser externalizada uma ideia
criativa porque o ambiente onde o indivíduo desenvolve suas atividades é determinante para que
isto ocorra e deve propiciar a liberdade de escolha e de ação, de forma a estimular o potencial
criativo. Amabile (2008) afirma que é mais fácil desenvolver a criatividade dos
indivíduos mudando as condições do ambiente, do que tentando fazê-los pensar de
modo criativo.
3. Características de um ambiente de trabalho favorável
à criatividade
Uma das contribuições ao estudo da criatividade, em especial, para a
identificação de fatores de bloqueio à criatividade foi proposta por Jung, Frank e Caten
(2010). O estudo teve a finalidade de investigar a existência e identificar os Fatores de Bloqueio
à Criatividade de pesquisadores pertencentes a um Polo de Inovação Tecnológica que
integra o Programa de Apoio aos Polos de Inovação da Secretaria da Ciência,
Inovação e Desenvolvimento Tecnológico do RS, ver Figura 2.
Jung, Frank e Caten (2010) afirmam que os resultados da pesquisa contribuíram, também, para o
entendimento de que quando determinados fatores são analisados de forma sistêmica podem
evidenciar um perfil organizacional como não favorável à criatividade. Estes autores
ressaltam que foi possível compreender que nem sempre o fato de uma instituição
“permitir” e “possuir” atividades voltadas à inovação caracteriza
a existência de um ambiente favorável à criatividade.
Corroborando, Amabile e Gryskiewicz (1989) sustentam esta percepção quando referem como
importantes estímulos à formação de um ambiente favorável à
criatividade: (i) o suporte organizacional - estímulo à criatividade, reconhecimento do
trabalho criativo, mecanismos para o desenvolvimento de novas ideias, planejamento e definição
de metas de trabalho. cultura voltada para a inovação; e (ii) desafios - tarefas ou
missões desafiantes que estimulam a expressão do potencial criador.

Figura 2. Fatores de bloqueio à criatividade de pesquisadores (Jung,
Frank e Caten, 2010)
O reconhecimento de que as habilidades associadas à criatividade podem ser desenvolvidas a partir de
estímulos do ambiente não é um fato novo, mas vem ganhando cada vez mais
repercussão e importância no ambiente acadêmico e corporativo. Amabile e Gryskiewicz (1989)
já haviam observado a intensificação de pesquisas sobre influências socioambientais
na criatividade. Para aqueles autores este fenômeno se justificava por tratar-se de uma
correção necessária, uma vez que os estudos realizados no passado focalizavam
predominantemente os aspectos relacionados às características de personalidade dos
indivíduos, nas suas habilidades cognitivas e no desenvolvimento de critérios para a
identificação de indivíduos criativos.
Mas como já havia salientado Alencar (1993) a criatividade necessita de condições
adequadas para poder se desenvolver. Estas condições são necessárias em quaisquer
ambientes: na família, na escola, no trabalho e na sociedade em geral. Mais adiante essa mesma autora
comenta que a criatividade envolve uma interação dinâmica entre elementos relativos
à pessoa - suas características de personalidade e habilidades cognitivas - e ao ambiente, como
o clima organizacional, normas culturais e as oportunidades para expressão de novas idéias
(Alencar, 1996).
Nos últimos anos têm sido verificadas iniciativas de governos de distintos países
destinadas à implementação de políticas que assegurem o desenvolvimento das
habilidades criativas. Bono (2003) cita o exemplo do governo de Cingapura que instituiu a criatividade como
parte da cultura do povo, incentivando-a desde as séries iniciais da escola.
A Finlândia também utiliza, como estratégia de governo, o incentivo à criatividade
através da ampliação do acesso à informação, considerada
indispensável para o desenvolvimento de habilidades criativas (Uusi-Videnoja, 2006).
No campo da educação também se constatam crescentes esforços para a pesquisa e
implementação de ambientes que promovam a criatividade nos diferentes níveis de ensino
(Castanho, 2000; Alencar, 2001, 2002; Tan, 2001; Strom e Strom, 2002; Alencar e Fleith, 2003).
No ambiente corporativo a preocupação com o assunto vem ganhando cada vez mais espaço,
fruto do reconhecimento de que a criatividade resulta mais das condições do ambiente
psicológico e social da empresa do que de características e predisposições
unicamente individuais. Uma vez que a organização contemporânea opera em uma economia cada
vez mais orientada para a inovação, é necessário que o gestor busque
incessantemente a implementação de um ambiente favorável à criatividade.
Faria e Alencar (1996) identificaram estímulos à criatividade no ambiente de trabalho. Estes
autores agruparam os fatores em diversas categorias, ver Figura 3.
|
Estímulos à Criatividade no Ambiente de
Trabalho
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(i) Suporte organizacional
|
Caracterizado pelo reconhecimento do trabalho criativo, por uma cultura
organizacional de inovação e pelo planejamento do trabalho com definição
de metas.
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(ii) Estrutura organizacional
|
Com poucos níveis hierárquicos, flexível e descentralizada.
|
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(iii) Suporte da chefia
|
Caracterizado pela receptividade a sugestões e respeito às
opiniões divergentes.
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(iv) Suporte do grupo de trabalho
|
Caracterizado por um relacionamento interpessoal guiado pela confiança
mútua, descontração e alegria.
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(v) Liberdade e autonomia
|
Possibilidade do indivíduo em poder tomar decisões e ter senso de
responsabilidade sobre seu próprio trabalho.
|
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(vi) Salário e benefícios
|
Adequados e compensadores às ideias inovadoras.
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(vii) Participação
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Caracterizada pela valorização da iniciativa e na solução
de problemas da organização.
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|
(viii) Ambiente físico
|
Adequado ergonomicamente, confortável.
|
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(ix) Comunicação
|
Caracterizada pelo fácil e rápido acesso a informações
internas e externas.
|
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(x) Recursos tecnológicos
|
Atualizados, adequados às necessidades do desenvolvimento de ideias criativas
e, materialização das inovações.
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(xi) Treinamento
|
Caracterizado pelo investimento em educação continuada externa, na
capacitação sempre que novos recursos são adquiridos e disponibilizados
internamente.
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(xii) Desafios
|
Propor e estabelecer diferentes graus de dificuldade que estimulem o indivíduo
a ousar e, dar importância aos desafios superados.
|
Figura 3. Estímulos à criatividade no ambiente de trabalho
(Faria e Alencar, 1996)
Faria e Alencar (1996) afirmam que seus resultados, de um modo geral, confirmam as descobertas realizadas por
outros pesquisadores, embora algumas diferenças tinham sido observadas entre este e os estudos
anteriores. Estes autores advertem sobre a existência e a profusão de manuais sobre como
tornar uma empresa criativa, sem embasamento em pesquisas empíricas. Esta
constatação se estende aos dias de hoje, porquanto permanecem ainda escassos os estudos
efetuados com o rigor metodológico requerido para tal fim. Este fenômeno contribui para ampliar a
distância entre o mundo acadêmico e o mercado.
Para ajudar a intensificar as conexões entre estes dois mundos, a Harvard Business School promoveu um
colóquio sobre criatividade organizacional (AMABILE, 2008), convidando líderes de empresa, cujo
sucesso depende fortemente da criatividade, e pesquisadores do tema, trabalhando em universidades
americanas. Ao final das apresentações dos trabalhos, Amabile (2008) reuniu as diversas
contribuições oferecidas durante o evento e sintetizou-as em um conjunto de
recomendações para gestores tornarem ambientes organizacionais favoráveis à
criatividade, ver Figura 4.
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Recomendações para Tornar Ambientes
Organizacionais
Favoráveis à Criatividade
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|
(i) Elaborar e fazer perguntas inspiradoras;
|
|
(ii) Combater o mito do inventor solitário;
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|
(iii) Cultivar a ideia de que “superstar” é aquele que
ajuda os outros a ter sucesso;
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|
(iv) Usar metáforas, analogias e histórias para ajudar as equipes a
conceituar juntas;
|
|
(v) Valorizar a diversidade;
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|
(vi) Receber pessoas com diferentes formações e experiências para
trabalhar em conjunto;
|
|
(vii) Incentivar as pessoas a obter experiências diversas;
|
|
(viii) Abrir a organização para colaboradores criativos externos;
|
|
(ix) Mapear as fases de criatividade de um processo e atente a suas diferentes
necessidades;
|
|
(x) Disponibilizar tempo e recursos suficientes para a exploração;
|
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(xi) Aceitar a inevitabilidade e utilidade da falha;
|
|
(xii) Criar segurança psicológica para maximizar o aprendizado pelo
fracasso;
|
|
(xiii) Reconhecer os diferentes tipos de falhas e como elas podem ser úteis;
|
|
(xiv) Criar mecanismos para a filtragem de boas ideias, eliminando projetos do tipo
“beco sem saída”;
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(xv) Motivar pelo desafio intelectual;
|
|
(xvi) Proteger as equipes de ponta de pressões comerciais;
|
|
(xvii) Limpar os caminhos de burocracia para ideias criativas;
|
|
(xviii) Deixar as pessoas fazer o seu “bom trabalho”;
|
|
(xix) Mostrar o propósito maior dos projetos, sempre que possível;
|
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(xx) Conceder independência, tanto quanto possível.
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Figura 4. Recomendações para tornar ambientes organizacionais
favoráveis à criatividade (AMABILE, 2008)
As recomendações propostas por Amabile (2008), Figura 4, possuem afinidades com os resultados
de pesquisas realizadas por Kelley e Caplan (1993). Estes autores já haviam verificado que entre os
fatores que mais estimulavam a criatividade estavam o estabelecimento de contatos com colegas que estimulavam
as iniciativas criativas dos outros e liberdade para se trabalhar em áreas interessantes e
desafiadoras.
Corroborando, Pinheiro (2002) afirma que o clima organizacional pode contribuir para a geração
de um ambiente favorável e facilitar a inovação. O autor diz que as atividades
desafiantes, participação nos trabalhos em equipe, poder e liberdade para tomada de
decisão, juntamente com um clima competitivo são fatores que favorecem à
inovação tecnológica.
4. Síntese
Com base em Galanakis (2006), Amabile (2008) e Jung, Frank e Caten (2010) foram identificados fatores
operacionais que podem estimular o pensamento criativo em processos de inovação de produtos, que
consistem em viabilizar: (i) um clima de liberdade e abertura organizacional, (ii) eficaz
trabalho em equipe, (iii) uso de uma abordagem sistemática à solução de
problemas, e (iv) a seleção e uso de um conjunto adequado de ferramentas para
geração de ideias. Galanakis (2006) considera que uma das mais importantes é estabelecer
um clima de liberdade e abertura, para evitar barreiras ao pensamento criativo, ajudando as pessoas a
desinibirem-se no momento de gerar e expressar suas ideias. Estes fatores quando integrados podem favorecer o
pensamento criativo e facilitar a obtenção de produtos inovadores (ver Figura 5).

Figura 5. Fatores operacionais que podem facilitar a obtenção de
produtos inovadores
A inovação deve permear todos os setores e atividades da empresa e não ficar restrita ao
setor de Engenharia, Pesquisa & Desenvolvimento e Marketing. No entanto, modelos organizacionais
baseados em uma estrutura vertical, onde as decisões “descem” da alta gerência, podem
dificultar a atividade criativa e, em consequência, limitar as possibilidades de inovar. O ambiente que
favorece a inovação dentro de uma empresa requer tolerar falhas, riscos e deixar fluir novas
ideias.
O desafio consiste em criar um ambiente que viabilize o desenvolvimento da criatividade de todos, e torne
aqueles que têm demonstrado serem criativos muito mais criativos. A empresa como um arranjo de recursos,
uma entidade social viva, deve ter a capacidade de evoluir, mudar e se transformar.
O desenvolvimento e estímulo à criatividade é o primeiro passo para se gerar produtos
inovadores. No entanto, a criatividade age como um mecanismo de geração de novas ideias e a
inovação como o processo sistêmico que desenvolve a ideia e a introduz no mercado como um
produto com valor econômico. Somente as boas ideias resultam em inovações, já
que um dos propósitos dos produtos inovadores é criar um monopólio temporário pela
mudança do paradigma conceitual.
O estado da arte atual do conhecimento sobre fatores de bloqueio e estímulo à criatividade,
indica a necessidade da construção de uma base teórica mais sistêmica sobre o
fenômeno criativo. Koberg e Bagnall (1974) já ressaltavam na década de 70, que o maior
obstáculo ao processo criativo está implícito no próprio indivíduo,
principalmente devido a convicção de que “eu não sou uma pessoa criativa”.
Corroborando com este modelo mental, as organizações em muitos casos criam rotinas, não
atribuem missões desafiadoras e geram tensão por meio de críticas a seus colaboradores.
Para contribuir à melhoria deste cenário, são propostas recomendações para
estimular a criatividade e tornar os ambientes organizacionais favoráveis à
inovação a partir da análise do referencial teórico-conceitual em um modelo
diagramático, ver Figura 6.

Figura 6. Recomendações para estimular a criatividade e tornar
ambientes
organizacionais favoráveis à inovação
5. Conclusões
Este artigo apresentou os resultados de uma pesquisa que teve por finalidade analisar os estímulos e
bloqueios à criatividade e fatores que podem tornar ambientes organizacionais favoráveis a
processos de inovação.
Foi realizada uma revisão teórico-conceitual sobre a criatividade no processo de
inovação e as características de um ambiente de trabalho favorável à
criatividade, e demonstradas em um Modelo de Desenvolvimento de Produtos as fases em que é utilizado o
pensamento criativo.
A síntese evidenciou que o desenvolvimento e estímulo à criatividade é o primeiro
passo para se gerar produtos inovadores. No entanto, a criatividade age como um mecanismo de
geração de novas ideias e a inovação como o processo sistêmico que
desenvolve a ideia e a introduz no mercado como um produto com valor econômico. Somente as boas
ideias resultam em inovações, já que um dos propósitos dos produtos inovadores
é criar um monopólio temporário pela mudança do paradigma conceitual.
Foi elaborado um modelo que apresenta recomendações para estimular a criatividade e tornar
ambientes organizacionais favoráveis à inovação de produtos.
Considera-se que o desafio na gestão estratégica de inovações consiste em criar
um ambiente organizacional que viabilize o desenvolvimento da criatividade de todos, e torne aqueles que
têm demonstrado serem criativos muito mais criativos. A empresa como um arranjo de recursos, uma
entidade social viva, deve ter a capacidade de evoluir, mudar e se transformar.
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