1. Introdução
Este artigo pretende analisar o surgimento e a trajetória da Fisioterapia e suas
implicações no mercado de trabalho, com a finalidade de apresentar sugestões de premissas
para o projeto pedagógico deste curso dentro de uma perspectiva de incentivo ao empreendedorismo
considerando por meio do acréscimo de disciplinas desta área ao currículo.
Os cursos voltados para as áreas da ciência da saúde possuem em geral uma estrutura
curricular voltada para construção do perfil técnico profissional e o curso de
graduação em fisioterapia segue este mesmo formato.
A Fisioterapia é considerada uma profissão relativamente nova, se comparada a profissões
com grandes tradições como a medicina, o direito e a engenharia. Este profissional surge por uma
necessidade dos seus serviços na área terapêutica, que é a mais conhecida. Outras
áreas atuação deste profissional, como gestão, inovação de
técnicas e equipamentos começam a ser explorados neste século com o advento da
globalização.
O desenvolvimento das profissões no campo da saúde ocorreu de forma desordenada, sem levar em
consideração os conhecimentos científicos já disponíveis. Na década
de 1960 com desenvolvimento da multicausalidade, os fatores que mais eram abordados foram os que menos
poderiam sugerir alterações que comprometessem o sistema social e político. Os problemas
de saúde encontrados eram considerados um somatório de problemas individuais dos componentes da
população. A Fisioterapia fazendo parte da área de saúde também sofre
influência deste tipo de trabalho, buscando o tratamento exclusivamente para o individuo doente
(Giustina, 2007).
Entre os fatores contribuíram com o fortalecimento da Fisioterapia no Brasil, com o processo de
industrialização, vários trabalhadores lesados necessitaram de serviços
especializados para recuperação de quadros motores e o índice de acidentes de trabalho
era um dos maiores da América Latina o que favoreceu na criação de centros de
reabilitação. As próprias condições de saúde no país com a
ocorrência de um surto de poliomielite na década de 50 e com a consequente existência de
uma grande quantidade de indivíduos com sequelas motoras que necessitavam retornar a uma vida social
digna. A segunda grande guerra também corroborou para o desenvolvimento profissional, pois os pracinhas
na frente de combate necessitavam de uma prática reabilitadora para as sequelas físicas da
guerra (Rebellatto e Botomé, 1999).
Assim, em São Paulo no ano de 1951, surge o primeiro curso de Fisioterapia do Brasil patrocinado pelo
Centro de Estudos de Rafhael Barros que tinha como objetivo formar técnicos de Fisioterapia (Marques e
Sanches, 1994).
O parecer n. 388/63 do Conselho Federal de Educação define a ocupação de
fisioterapeuta e define os limites de seus trabalhos e de suas atividades. O fisioterapeuta é definido
como auxiliar médico compete realizar suas atividades de caráter terapêutico e restringe a
execução dessas tarefas à condição de serem desempenhadas sob a
orientação e responsabilidade do médico (Barros, 2008).
Enquanto isso no Rio de Janeiro foi fundada a ABBR, Associação Brasileira Beneficente de
Reabilitação, o centro de reabilitação foi inaugurado em cinco de agosto de 1954,
como um marco importante para profissionalização do fisioterapeuta. Em 1956 é criado o
primeiro curso superior de fisioterapia do Brasil (Figueroa apud Barros, 2008).
Em 13/10/1969, os ministros do Exercito, Marinha e Aeronáutica através de suas
atribuições definem a profissão de fisioterapeuta através do Decreto – Lei
n. 938.
Outro marco importante foi à criação dos Conselhos de Classe, o Conselho Federal de
Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), que ocorre em 17/12/1975 (Rebelatto e Botomé, 1999).
Nestes quarenta anos, a fisioterapia evoluiu muito, de uma profissão de saúde que nasce da
intenção de auxiliar o médico com atuação limitada, para uma
profissão autônoma com diversas possibilidades de atuação. Aos poucos esses
profissionais abriram novas perspectivas de trabalho e ganharam espaço, para além das clinicas e
hospitais de reabilitação, incluindo em seu campo de atuação atividades
desenvolvidas como na educação, política, indústrias, gestão, dentre
outras. Desta forma sua identidade profissional se fortalece, construindo um novo referencial profissional,
podendo oferecer inovações em diversas áreas, pautando-se na cientificidade e a busca
constante do reconhecimento profissional.
Dentro desta perspectiva foram vários os fatores que contribuíram para aumentar o planejamento
e a busca por inovações dentro da fisioterapia, dentre os quais podemos destacar o aumento da
exigência dos clientes, o trabalho centrado no atendimento e recuperação da saúde
em clínicas, hospitais e centros de reabilitação, o avanço do conhecimento
cientifico do corpo e da mente humana, a grande proliferação de novas técnicas
terapêuticas e o crescente número de profissionais que se formam a cada ano, superando a oferta
de emprego existente. (Borsatto, 2006).
Este artigo possui a seguinte estrutura, além desta introdução. A primeira
seção contém a revisão dos aspectos teóricos que nortearam esta pesquisa. O
segundo aborda a metodologia utilizada para obtenção dos dados. A terceira seção
trata o ensino de Fisioterapia numa perspectiva empreendedora. Será apresentada a analise do
currículo deste curso em uma instituição de ensino superior do município do Rio de
Janeiro, como também o seu projeto pedagógico. A partir das entrevistas realizadas com
fisioterapeutas, são analisadas as criticas e sugestões dos mesmos referentes às
dificuldades e facilidades encontradas no decorrer de suas carreiras de forma a sugerir deste modo um novo
projeto pedagógico com um perfil mais empreendedor e a inclusão de disciplinas ao
currículo que favoreçam esse processo. E, na última seção são
apresentadas as considerações finais.
2. Referencial Teórico
Para análise proposta neste artigo três são os conceitos fundamentais a serem abordados:
empreendedorismo, universidade empreendedora e empreendedorismo na área de saúde.
A educação é um dos fatores que podem contribuir com o desenvolvimento de um
país. È um instrumento que tem um papel fundamental na construção de um modelo
social, adequando a boa educação em todos os níveis, educando para a cidadania,
oferecendo uma boa formação acadêmica abrangente, multidisciplinar e generalista.
A universidade empreendedora além das atividades de ensino e pesquisa tem também um papel no
desenvolvimento econômico, por meio da criação de inovações e na
transferência de conhecimento e tecnologia (Etzkowitz et. al., 2000).
As universidades empreendedoras vêm com uma proposta de mudanças no perfil do aluno, buscando
preparar o profissional para o mercado de trabalho, podem ser entendidas como instituições em
que o conhecimento passa a estar ligado diretamente à economia e ao desenvolvimento. (Terra, 2001).
O grande desafio da maioria das instituições é a inserção do ensino do
empreendedorismo como parte de todos os cursos superiores oferecidos e como conteúdo de todas as
disciplinas e não só como uma disciplina isolada. As universidades encontram dificuldades para
iniciar o processo, como reunir educadores experientes e obter recursos necessários, fatos esses que
podem ser apontados como entraves para o inicio do processo (Martens e Freitas, 2008).
As universidades podem ampliar o papel tradicional de ensino e pesquisa, mais também devem desenvolver
outras ações, reorganizando as atividades desenvolvidas entre os atores indústria e
governo, facilitando a criação de mecanismos para transmitir conhecimento e tecnologia (Almeida,
2008).
O ensino do empreendedorismo durante muitos anos esteve ligado ao campo da administração, mas
esta visão se modificou, frente às necessidades encontradas por profissionais de diversos
seguimentos e a metodologia empregada para o desenvolvimento dessa competência envolve bem mais que a
aquisição de conhecimentos, mas o apreender a apreender, a ser, a fazer e principalmente a
conviver (Henrique e Junior, 2008).
A formação da personalidade empreendedora por meio da educação é
fundamental para a formação de empreendedores e para o desenvolvimento social de uma localidade.
A inserção de disciplinas com conteúdos empreendedores contribui para a
formação profissional e os tornarão aptos para abrir ou gerenciar um negócio, como
também incentivarão a busca de inovações dentro de suas áreas de
atuação, contribuindo para o crescimento profissional (Martens e Freitas, 2005).
A formação dos profissionais das áreas da saúde ainda hoje é muito voltada
para o estudo de conhecimentos técnicos e metodológicos e os cursos de Fisioterapia não
fogem deste contexto. A maioria dos cursos de graduação existente nesta área em suas
ementas não contempla conteúdos empreendedores, ou seja, esse conceito ainda é uma
novidade (Torres et.al., 2006).
A inclusão de temas relacionados ao empreendedorismo nos currículos surge como uma necessidade
de mudança no perfil dos alunos frente ao difícil mercado de trabalho encontrado no
século XXI, a cada ano o numero de universidades com cursos de fisioterapia só aumenta e como
consequência mais profissionais são lançados no mercado de trabalho, existem hoje no
Brasil mais de 500 cursos de graduação em Fisioterapia e a falta de experiência inicial,
somado a aglomeração das atividades desenvolvidas em áreas técnicas curativas
dificulta a colocação dos mesmos no mercado formal com carteira assinada, favorecendo a
iniciativas individuais seja montando o seu próprio negócio ou desenvolvendo atividades
domiciliares (Almeida, 2000).
Neste ambiente a universidade empreendedora tem o papel de modificar os paradigmas do ensino superior. O
maior desafio nestas instituições passa ser a inserção do empreendedorismo em
todos os cursos superiores oferecidos independente da área de conhecimento, estimulando a capacidade
empreendedora dos alunos, buscando o desenvolvimento de idéias inovadoras, geração de
novas fontes de emprego e renda conseqüentemente promovendo o desenvolvimento local (Martens e Freitas,
2008).
Entretanto para a formação empreendedora nos cursos de Fisioterapia ser conseguida alguns
estudos demonstram que é necessário abandonar formas até então utilizadas para
ensinar, inclusive as formas de avaliação e transformá-los em métodos não
convencionais. Segundo Rasheed (2000 apud Machado, 2005), os critérios pedagógicos para
uma metodologia empreendedora deveriam incluir: experimentação ativa, com exemplos de
fisioterapeutas empreendedores de sucesso; construção de habilidades, negociação,
liderança e pensamento criativo; exposição para a criação de
inovação tecnológica e o desenvolvimento de um novo produto. Estimular o aluno a
aproveitar novas oportunidades e planejar negócios, atributos poucos discutidos nas ciências da
saúde.
A Lei de Inovação no Brasil promulgada pelo Decreto Lei n. 10.973 de 2/12/2004 dispõe
sobre incentivos à inovação e a pesquisa cientifica e tecnológica no ambiente
produtivo. Também está orientada para a criação de ambientes propícios de
parcerias entre universidades, empresas e institutos tecnológicos, possibilitando ações
como encubações de empresas, criação de novos equipamentos e melhora dos recursos
humanos (Matias-Pereira e Kruglianskas, 2005).
O processo de inovação esta disseminado em todas as áreas inclusive nas áreas da
ciência da saúde, e essas inovações proporcionaram uma melhora na
manutenção a vida das pessoas, o que justifica o grande incentivo financeiro em termos mundiais.
Na fisioterapia o cenário foi transformador nesses quarenta anos. No inicio no exercício de suas
atividades esses profissionais utilizavam-se de equipamentos mecanoterápicos e termoelétricos.
Com a introdução de uma variedade de técnicas surgiram novos equipamentos com modelos
diversificados e com varias possibilidades de utilização (Guimaraes, 2004).
Entre os exemplos de equipamentos que contribuíram para a melhora dos tratamentos, pode ser citado o
uso de bolas confeccionadas de material plástico. Outro exemplo são os equipamentos
utilizados no conceito Pilates (Pires e Sá, 2005). Os respiradores usados nos centros de terapias
intensivas estão cada vez mais modernos, melhorando o manuseio clínico (Baptista et.
al., 2007). Em Neurologia os equipamentos colaboram diretamente no tratamento, facilitam a vida em
casa de muitas pessoas, a robótica é um desses exemplos na manutenção de
movimentos de pacientes com lesões mais graves.
3. Metodologia
Esta pesquisa foi desenvolvida através de estudos qualitativos e quantitativos visando à
análise de um estudo de caso. A revisão bibliográfica e documental abrange
publicações de artigos e livros, além de pesquisas em teses e dissertações.
O primeiro curso superior de Fisioterapia foi formado na ABBR e o mesmo encontra-se hoje em funcionamento em
uma Instituição de Ensino do Rio de Janeiro, por esta razão esta
instituição foi escolhida para análise do currículo e projeto pedagógico,
por ter o curso mais antigo de fisioterapia do Brasil. A analise das disciplinas do currículo
pedagógico deste curso foi realizada por meio de um estudo qualitativo que busca entender a
ênfase da formação do profissional a partir dos conhecimentos transmitidos e atividades de
práticas previstas.
Como este artigo também se propõe a sugerir premissas de um projeto pedagógico optou-se
por ouvir profissionais com diferentes perfis de atuação de forma a analisar aspectos que
poderiam ser incluídos nas sugestões de mudança curricular. Esta parte da pesquisa foi
realizada através de uma entrevista semi-estruturada cujos dados foram consolidados por
intermédio de técnicas quantitativas.
A amostra utilizada na pesquisa, 130 entrevistas, corresponde a 1% dos fisioterapeutas registrados COFFITO -
regional Rio de Janeiro e do Espírito Santo.
4. O ensino de fisioterapia em uma perspectiva empreendedora
A preocupação com o currículo esta presente desde que as instituições
educacionais foram criadas, organizando espaços destinados para transmitir aos mais jovens, de forma
sistemática os conhecimentos relevantes para a vida em sociedade. O currículo não se
constitui apenas nas oportunidades que a escola provê, mas no modo pelo qual o educando vive nessas
oportunidades, ampliando dessa forma a maneira de ver o mundo (Amorim, 2008).
A importância da inclusão de disciplinas no currículo de fisioterapia favorecerá
para um perfil mais empreendedor dos alunos, o currículo em vigor na maioria das universidades
está baseado em um formato técnico o que propicia que os alunos saiam prontos para desenvolver
atividades de atendimento terapêutico, pesquisa e docência, mas não os prepara para a
construção de um negocio ou para tomar a iniciativa em grandes incorporações.
O primeiro passo para esta mudança deve ocorrer no projeto pedagógico com perspectivas
empreendedoras em sua constituição. Suas propostas devem ir além de formar o aluno
tecnicamente na graduação e na pós-graduação.
O programa de disciplinas do curso deve privilegiar a reunião de informações sobre o
processo e desenvolvendo atitudes e valores adequando as características pessoais e empreendedoras e
analise de oportunidades e na viabilidade de um negocio, podem ser incluídas disciplinas como
administração hospitalar, plano de negócios, projetos inovadores, formação
de empresas, formação empreendedora I, formação empreendedora II,
inovação e tecnologias assistiva.
O Fisioterapeuta do futuro deve estar pronto às adversidades do mundo moderno, criativo e descolado
para desenvolver as habilidades adquiridas dentro das universidades, atendendo aos clientes, oferecendo novas
possibilidades de trabalho, modificando metodologias já conhecidas e gerenciando empresas ou oferecendo
liderança a equipes de trabalho e desenvolvendo projetos com bases e inovação
tecnológica.
4.1. O currículo pedagógico do curso de Fisioterapia
O projeto pedagógico é definido como um instrumento balizador para o fazer
universitário, expressam em seu conteúdo a prática pedagógica das
instituições e dos cursos dando direção à gestão e as atividades
educacionais (Cunha e Neto, 2005).
O projeto pedagógico do curso de Fisioterapia em análise preconiza que o ensino deve estar
galgado em dois alicerces: a graduação e a pós-graduação. Os dois elementos
devem conter disciplinas com caráter multidisciplinar e interdisciplinar, os dois com ampla
visão dos modelos pedagógicos, proporcionando aos seus discentes uma vasta visão de sua
formação acadêmica buscando atender as necessidades heterogêneas da sociedade.
Este curso tem como objetivo formar profissionais generalistas, capacitados para o exercício da
fisioterapia, suas disciplinas tem como foco aspectos biomecânicos e nos diferentes sistemas do corpo
humano, visando a promoção, a manutenção, a prevenção, o tratamento
e a reabilitação do paciente, sempre integrados aos sistemas de saúde, a pesquisa
cientifica e as questões sociais relacionados a qualidade de vida da população.
A análise do currículo desta Instituição de Ensino Superior indica que as
disciplinas que compõem o ciclo básico têm como finalidade preparar o aluno para
conteúdos mais específicos que serão necessários para a formação
técnica profissional. Neste momento, se o aluno fosse apresentado a conhecimentos empreendedores
possivelmente mudaria sua concepção de vida e sua formação ganharia um novo
significado, a formação empreendedora sendo oferecida no inicio da grade curricular corroboraria
para novas perspectivas e a visão do aluno poderia mudar em relação ao mercado de
trabalho, as mesmas se ampliam e possíveis oportunidades serão vislumbradas com mais
facilidades, como também abririam sua visão em relação aos conteúdos das
áreas clinicas e técnicas, fazendo com que o sonho vire realidade.
As disciplinas que fazem parte do ciclo com atividades clinicas poderiam ser mais bem aproveitadas a partir
da inserção dos conteúdos empreendedores no ciclo básico. A análise do
currículo evidencia que as disciplinas oferecidas neste curso não contemplam áreas que
preparem o aluno para situações adversas do cotidiano do fisioterapeuta, conteúdos que
valorizem a criatividade, iniciativa, o trabalho em grupo e o gerenciamento de um negócio.
4.2. A visão dos fisioterapeutas em relação ao mercado de trabalho e a
qualidade curricular
Os dados apresentados comprovam o grande numero de profissionais que se formam a cada ano e infelizmente
não existem vagas em empregos regulares para todos ficando boa parte desses profissionais desempregados
ou trabalhando em condições precárias, a alternativa mais comum pode ser o atendimento
domiciliar que por ser uma atividade incerta que provoca insegurança aos profissionais. Neste item
são analisados os resultados obtidos em quatro aspectos.
4.2.1 Características pessoais dos entrevistados
Os fisioterapeutas entrevistados apresentavam uma faixa de idade variando entre 24 e 54 anos, estando a
maioria entre 30 e 40 anos, o que permite inferir que os fisioterapeutas apresentam um perfil jovem de
trabalhadores, com muito potencial ainda a ser explorado.
Em relação ao gênero observa-se uma prevalência maior das mulheres (60%) em
relação aos homens (40%). Em sua maioria o estado civil encontrado é o solteiro (60%),
desquitados (10%) e casados (30%).
4.2.2. Formação Profissional
O nível de instrução dos entrevistados interfere diretamente, segundo eles, quanto
às oportunidades para emprego e melhores salários, pois o mercado seleciona os melhores
profissionais, mas os cursos oferecidos para aperfeiçoamento profissional são muito caros o que
dificulta o acesso a grande maioria dos recém-formados, este fato contribui para selecionar e afunilar
as oportunidades existentes.
Em relação à formação universitária 90% dos entrevistados deixam
claro que uma boa formação acadêmica facilita o processo de inserção no
mercado de trabalho, os mesmos acreditam que a boa formação dos professores e a grande
diversidade da grade curricular dentro do curso possibilitariam a formação de profissionais mais
preparados para as dificuldades do dia a dia do fisioterapeuta.
Dentre esses 90% entrevistados, os mesmos relatam que a escolha da universidade é o começo para
uma ascensão profissional, pois algumas empresas observam a universidade de origem do profissional a
ser contratado com a intenção de verificar a qualidade de formação. Os 10%
restantes não souberam opinar quanto à importância da formação
acadêmica universitária e se mostraram satisfeitos com o conteúdo recebido e relataram que
a escolha da universidade foi pautada no valor do investimento financeiro e a localidade onde a
instituição prestava o curso.
Dentre os entrevistados, conforme a Figura 1, 30% concluíram a graduação entre 1990 a
1995, sendo que os mesmos por apresentarem em média 20 anos de formados apresentam estabilidade
financeira e social, pois neste período existia uma carência muito grande de profissionais
facilitando sua inserção no mercado de trabalho.
Período de Formação

Fonte: Monteiro (2010)
Ainda na Figura 1, verifica-se 50% concluíram o curso entre 1996 a 2001. Este grupo optou por
desenvolver o potencial acadêmico. A formação de alunos na Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) favorece a continuidade da formação de centros de pesquisa em fisioterapia,
formando os primeiros mestres e doutores da área, sendo assim houve uma explosão de docentes que
não tinham muita experiência clinica e sim um vasto referencial teórico. Os 20% dos
entrevistados se formaram no período compreendido entre 2001 e 2008 e em sua maioria optaram por
atendimentos particulares, como autônomos.
A formação acadêmica dos profissionais entrevistados ocorreu em diversas
instituições de ensino conforme apresentado Figura 2.
Graduação

Fonte: Monteiro (2010)
Dentre os fisioterapeutas 90% apresentavam formação em cursos de especialização,
esses capacitam o profissional ao trabalho especifico em técnicas direcionadas, as áreas mais
procuradas são apresentadas na Figura 3: atendimento a adultos e crianças com problemas
neurológicos 29%; fisioterapia respiratória para o atendimento em UTI 19%; dermato-funcional
10%; RPG para atendimento a portadores de problemas de coluna 9%; Pilates para o tratamento a diversas
patologias baseados no condicionamento físico 9%; entre outras.
Especialidades

Fonte: Monteiro (2010)
A grade curricular segundo 80% dos fisioterapeutas preparou os mesmos para o perfil técnico
terapêutico, mas não contribuiu para um perfil criativo, inovador, preparando-o para diversidades
encontradas no contexto de trabalho. Já 20% se disseram despreparados até mesmo na área
técnica, já que nos estágios não tinham autonomia de atuação ficando
sempre sob supervisão, ao termino da graduação estavam inseguros.
O vinculo de trabalho entre os entrevistados, apresentado na Figura 4, dividiu-se entre 40% autônomos
sem vinculo empregatício, e 60% com vinculo empregatício, sendo estes 10 % celetistas, 10%
estatutário federal, 20% estatutário estadual, 20% municipal. Todos os profissionais relataram o
desejo de alcançar o emprego publico, pois acreditam ter desta forma estabilidade social e financeira.
Dentre os autônomos 20% disse ter almejado o sonho de construir um negocio próprio e não o
concretizaram por falta de oportunidade e devido a escassez de recursos financeiros para iniciar as
atividades.
Vinculo Empregaticio

Fonte: Monteiro (2010)
Nesta pesquisa os entrevistados foram questionados acerca da formação acadêmica, visando
saber se a formação oferecida a eles tivesse sido voltada para perspectivas empreendedoras,
corrobora para a formação de um profissional criativo e o estimulado desde cedo principalmente
para organizar e gerenciar o próprio negócio; se teria feito diferença quanto as suas
escolhas e todos acreditam que seriam de vital importância esses conhecimentos, pois seriam
profissionais mais descolados e vislumbrariam possibilidades além das oferecidas e seria mais
fácil enfrentar o mercado de trabalho tão competitivo.
O nível de atuação profissional dos entrevistados estava diretamente ligado à
formação acadêmica individual, 10% dos entrevistados tinham formação de
mestrado e ou doutorado e trabalhavam como pesquisadores e docentes, já a grande maioria 80% exerciam
atividades com especialistas autônomos com e sem vinculo empregatício, sendo que esses
profissionais tinham aptidões para o exercício da pratica clinica em diversas áreas e 10%
desenvolviam atividades como administrador.
Dentre os que realizavam atividade de administradores, destacamos que 60% como gestores de clinicas, podendo
estas estar ligadas a universidades ou ao setor privado e 40% gerentes de seu próprio negocio. Esse
grupo de profissionais quando perguntados a respeito de sua formação em gestão foram
unânimes em responder que a universidade em que estudaram não tinha oferecido nenhum auxilio
quanto à formação neste item, todos iniciaram através de atividades
empíricas e com tentativas de erros e acertos, e buscaram cursos de formação na
pós-graduação ou em outra formação acadêmica.
4.2.3. Características e o perfil empreendedor dos entrevistados
Os fisioterapeutas pesquisados foram perguntados se poderiam se considerar pessoas empreendedoras, 90%
não se consideram empreendedores e 10% se consideravam empreendedores (Figura 5).
Dentre os pesquisados que não se consideravam empreendedores (90%) não sabiam o que significava
ser um profissional empreendedor, todos acreditavam que essas características eram inerentes a
profissionais da área de administração, 10% relataram ter características
empreendedoras mais as mesmas são pouco exploradas.
Os fisioterapeutas entrevistados (70%) apresentavam características empreendedoras, mas os mesmos
não sabiam como identificá-las, alguns profissionais de forma inata desenvolviam um potencial
criativo e inovador como um diferencial para viver, e em qualquer área de atuação os
mesmos iriam aplicá-las mesmos sem reconhecê-las, já outros 30% onde as
características eram pouco desenvolvidas apresentavam persistência e vontade de trabalhar, esses
profissionais poderiam ser treinados e estimulados que a resposta seria positiva quanto ao desenvolvimento das
potencialidades empreendedoras.
Pelos relatos dos entrevistados é possível constatar que 70% dos fisioterapeutas mesmo sem
saber o real significado de ser empreendedor empreendiam, visualizavam oportunidades, principalmente no
gerenciamento com pacientes particulares, mas quando se tratava de uma atividade concreta, não tinham
competência para o planejamento do negócio e apresentavam dificuldades para calcular o risco e
muitas vezes desistiam do sonho, achando que os mesmos eram impossíveis.
Os 40% dos fisioterapeutas que apresentavam empreendimentos estabelecidos descreveram que fatores como a
escolha da localidade, e da especialidade, favorecem o sucesso de seus empreendimentos, outro relato diz
respeito que as ofertas de serviço muitas vezes não pressupõem a abertura de um negocio,
as oportunidades percebidas podem envolver parcerias com empresas, academias e hospitais, dentre outros.
Esses mesmos fisioterapeutas ao abrirem os seus empreendimentos não fizeram de uso de nenhum recurso
de planejamento para orientar sobre o tipo de negócio que realizariam, agiram com
intuição ao decidirem pelo tipo de empreendimento.
O grupo de fisioterapeutas que atuam como autônomos (30%) também se utiliza de
estratégias empreendedoras para o desenvolvimento de suas atividades profissionais, uma vez que, o
fisioterapeuta que trabalha como autônomo, precisa se especializar e planejar e organizar seus
horários e a parte financeira para que consiga com isso ascensão profissional.
Foi perguntado aos fisioterapeutas se os mesmos teriam sugestões quanto melhorias para a grade
curricular e para o futuro dos fisioterapeutas, os mesmas encontram-se descritas a baixo:
- 40% dos entrevistados diz que a inclusão na grade curricular disciplinas voltadas para
administração, gestão e planejamento econômico;
- 20% Pós – graduação voltada especificamente para administração e
negócios para fisioterapeutas;
- 10% Ter um critério mais rígido no vestibular, selecionando mais os alunos para a
graduação;
- 20% Estimular atitudes empreendedoras na graduação;
- Disciplinas voltadas para políticas publicas estimulando o aluno a brigar por seus direitos e ter
condições de criar o sindicato de classe;
- Trabalhar com os alunos as adversidades encontradas nos centros de reabilitação, como falta
de equipamentos e pessoal;
- 10% Oferecer aos alunos estágios remunerados e convênios com grandes hospitais e empresas,
possibilitando o ingresso a residências;
- Aprimoramento e pesquisa voltada para a biotecnologia e criação de novos equipamentos em
fisioterapia;
- Criar mecanismos para criação de empresas de alunos dentro da universidade que possam
prestar serviços terceirizados;
- Melhorar o nível dos professores, proporcionando melhor qualidade de ensino;
Em face da pesquisa realizada elaborou-se um novo pressuposto para o projeto pedagógico do curso de
fisioterapia:
“O projeto pedagógico do curso de fisioterapia deveria enfatizar o desenvolvimento de um
potencial para explorar o mercado de trabalho, formando um profissional com atitude, comportamento
empreendedor e habilidades que permitam a formação de um profissional empreendedor, criativo e
capaz de se adaptar as mudanças ocorridas na sociedade”.
As sugestões frente ao novo currículo contemplam a inclusão de disciplinas com perfil
empreendedor como, por exemplo:
- Atitudes empreendedoras I
- Atitudes empreendedoras II
- Contexto empresarial
- Administração hospitalar
- Plano de negócios
- Projetos inovadores e biotecnologia
Estas disciplinas poderiam ser distribuídas no decorrer do curso, e a faculdade deveria criar
mecanismos para estimular a criação de projetos baseados nestas disciplinas durante o curso. As
disciplinas podem ocorrer de forma presencial e a distancia. Em seguida é destacado o objetivo de cada
disciplina na formação do fisioterapeuta empreendedor.
As disciplinas intituladas Atitudes Empreendedoras I e II formariam as características comportamentais
e psicológicas do empreendedor, destacando a criatividade, perseverança, inovação,
iniciativa, otimismo, flexibilidade, liderança, liderança, planejamento, agressividade, saber
trabalhar em equipe, etc.
A disciplina voltada para o Contexto Empresarial traria para o fisioterapeuta uma visão de
logística empresarial, com uma visão integrada com as demais áreas empresariais,
oferecendo noções de logística, diferencial competitivo, parcerias empresariais,
compreender a estrutura empresarial brasileira de um negocio e entender o conjunto de leis que regem um
negocio.
A disciplina Administração Hospitalar promove ao aluno condições do saber em
administração e gerenciamento a grandes complexos hospitalares, o que promove ao fisioterapeuta
a capacidade de gerencial de empreendimentos como hospitais, clinicas.
A disciplina de Plano de Negocio ajudaria ao fisioterapeuta a desenvolver passo a passo todas as
possibilidades e viabilidade para um negocio, estabelecendo metas e observando os entraves possíveis
através de um planejamento de todas as etapas.
A disciplina voltada para Projetos inovadores em biotecnologia faria ver ao profissional principalmente
através da pesquisa, a criação de inovações em fisioterapia, gerando renda
e melhorando a capacidade dos atendimentos oferecidos.
5. Considerações Finais
Esta pesquisa pode ser considerada uma das pioneiras em relação a análise do perfil do
fisioterapeuta empreendedor tendo em vista sua formação profissional, pois, nesta área
todos os trabalhos até o momento descrevem novos empreendimentos ou possibilidades através do
uso do plano de negocio para montar ou organizar uma empresa, mas nenhum descreveu o perfil do fisioterapeuta
em relação a uma perspectiva empreendedora baseados em sua formação
acadêmica.
As inovações tecnológicas ajudam muito para esta mudança no perfil profissional,
se o fisioterapeuta não se adequar a essas mudanças, não terá lugar no mercado de
trabalho. O empreendedorismo aparece de diversas formas para o fisioterapeuta, mas não se verifica
preocupação com a sua formação.
Observam-se através das entrevistas realizadas que os fisioterapeutas assim que se formam buscam a
segurança do emprego publico ou empregos com carteira assinada e só em ultimo caso esses
fisioterapeutas formam uma empresa. Essa opção ocorre na maioria das vezes quando o mesmo
encontra-se desempregado e não como uma ação de empreendedorismo por oportunidade. Como
estes profissionais não são capacitados a gerenciar essas empresas muitas morrem ao final do
segundo ano de vida.
Desta forma o ensino do empreendedorismo seria o diferencial para esses alunos tornando-os mais descolados e
criativos frente às adversidades do mundo moderno e ao mercado de trabalho. Por conseguinte, são
sugeridas mudanças no projeto pedagógico de uma instituição de ensino superior e
são propostas inclusões de algumas disciplinas que podem em curto prazo recolocar os
profissionais fisioterapeutas em uma condição mais competitiva.
Acredita-se que o trabalho tenha contribuído para uma discussão de como estão os
egressos das universidades nesta área e como estão conseguindo desenvolver os potenciais
apreendidos e que possa servir de parâmetro para que os futuros egressos possam ter um sucesso maior no
desenvolvimento de suas atividades.
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