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A água pode agir sem o peixe.
Mas o peixe não pode agir sem a água.
(Tao-te Ching, XXXIV)
1 Introdução
A água é um recurso indispensável, essencial e fundamental à
manutenção da vida humana e de todos os ecossistemas. Com o atual modelo de desenvolvimento
sócio-econômico, as gerações futuras não terão uma qualidade de vida
paralela a que temos atualmente (BRAUN, 2001). Estanques a esses conceitos, durante muitos séculos, as
organizações utilizaram a água como se fosse um recurso inesgotável, tanto para
consumo humano como em atividades fabris e agrícolas. Mas não é mais
informação exclusiva de especialistas e pesquisadores que os recursos naturais, especialmente o
hídrico, estão se esgotando rapidamente, devido ao uso inadequado, falta de
conscientização humana, uma cultura social de consumismo exacerbado, do desperdício e da
falta de respeito ao próximo, e consequentemente, com a natureza. Nesse sentido, embora todos precisem
de água, isso não dá o direito ao ser humano de acessar toda a água que quiser
utilizar (SELBORNE, 2001).
O consumo irresponsável e inapropriado, se assim continuar, levará os seres humanos a
presenciarem situações inimagináveis no início do século XX, como a
escassez de água e a geração de novos conflitos sociais, superando as questões
políticas, religiosas e econômicas, que se destacaram no século passado. Como
corolário, observa-se atualmente, tsunamis, furações,
enchentes, aquecimento global, excesso de chuva e escassez de água em determinadas regiões, que
é conexão direta do progresso em todos os aspectos da nossa existência (SELBORNE, 2001).
Não obstante, axiomas relacionados à temática ambiental solidificam-se, em outras
palavras, somente a partir do envolvimento e comprometimento da sociedade, empresas e governos em torno da
questão ambiental, é que o conceito de sustentabilidade será posto em prática
(BELLEN, 2005), buscando-se construir um mundo melhor no aspecto social e ambiental, orientado por um
crescimento econômico sustentado por valores éticos.
Aderente a essa proposta, esta pesquisa visa responder a seguinte questão:
Como duas organizações universitárias lidam com o recurso natural mais precioso, o
recurso hídrico?
2. Referencial Teórico
2.1 Breve Reflexão sobre Gestão Ambiental em Universidades
As universidades podem ser comparadas com grandes edifícios, hospitais, mega hotéis, em termos
de geração de resíduos, consumo de água e energia, provocando impactos
significativos no meio ambiente (ALSHUWAIKHAT; ABUBAKAR, 2008). Segundo os autores, tal fato ocorre em
razão da dimensão, do grande fluxo de pessoas e veículos, e o grande consumo de materiais
para o desenvolvimento de suas atividades, podendo inclusive ser comparadas até com pequenas cidades.
Tauchen e Brandli (2006, p. 505) compartilham dos mesmos argumentos, destacando que as universidades,
além do desenvolvimento de diversas atividades de ensino, pesquisa, extensão, também
possuem restaurantes, alojamentos, centros de conveniência, precisando de “infra-estrutura
básica, redes de abastecimento de água e energia, redes de saneamento e coleta de águas
pluviais e vias de acesso”.
Semelhantes a outras organizações, como as industriais por exemplo, as universidades, durante
muito tempo, procuraram manter seus valores estáveis, porém, manter um equilíbrio entre
os objetivos tradicionais das universidades e demandas contemporâneas é vital para a
sustentabilidade social (MCINNIS, 1998). Essas constantes mudanças contextuais, ao longo das
últimas décadas têm influenciado a gestão das universidades (MIDDLEHURST; ELTON,
1992), refletindo diretamente no relacionamento sócio-ambiental. Apesar das
auspiciosas melhorias que a abertura da gestão para as inovações e para as modernas
teorias administrativas, seja no âmbito de qualquer dimensão da gestão, por exemplo, da
ambiental, no mundo existem apenas 140 universidades que estão comprometidas com o desenvolvimento
sustentável e políticas ambientais (DELGADO; VÉLEZ, 2005).
Nesse sentido, as organizações universitárias podem buscar o caminho do desenvolvimento
sustentável a partir de duas premissas: (1) a questão educacional, através da
formação e incentivo às pessoas na adoção da cultura voltada à
questão ambiental; (2) e na implementação de sistemas de gerenciamento ambiental nos
campi universitários, apresentando modelos e exemplos práticos de gestão ambiental
(TAUCHEN; BRANDLI, 2006).
Marcomim e Silva (2009) asseveram que é fundamental a integração entre ensino, pesquisa,
extensão e a gestão para a inserção da dimensão ambiental no seio da
universidade, deste modo, poderão refletir em mudanças efetivas nos conceitos, hábitos e
práticas em gestão nos diversos níveis, da reitoria à sala de aula. Portanto, a
efetiva implementação de práticas ambientais depende de forte apoio da gestão,
especialmente da gestão de pessoas. Assim, Daily e Huang (2001) destacaram que um desempenho ambiental
superior e efetivo necessita de práticas de recursos humanos que apóiem a
implementação e manutenção de sistemas de gerenciamento ambiental em todas as
etapas. Nesse contexto, Wehrmyer (1996) lanças luzes sobre a importância da área de
recursos humanos, principalmente, por meio de três vertentes: (1) apoiar o sistema de gestão
ambiental, por meio de treinamentos, comunicação e motivação dos
funcionários; (2) estimular mudanças organizacionais, incorporando a variável ambiental
nos valores da organização, desenvolvendo competências voltadas à gestão
ambiental, e agindo eticamente nas questões do meio ambiente; (3) integrar nas práticas de
recursos humanos, recrutamento e seleção, avaliação de desempenho,
remuneração e treinamento, a variável ambiental.
Indiscutivelmente, a constante mutação do ambiente estimula as organizações a
inserirem novos paradigmas no âmbito da gestão de pessoas como integração com a
gestão ambiental (JABBOUR; SANTOS; NAGANO, 2008) e a sustentabilidade organizacional (JABBOUR; SANTOS,
2008; RIMANOCZY; PEARSON, 2010), porém, apesar da gestão de recursos humanos ser uma
possível facilitadora para a inserção da dimensão ambiental no contexto
organizacional, esse nexo entre gestão de pessoas e gestão ambiental ainda é pouco
encontrado na prática.
Muitas vezes, as empresas incorporam essa dimensão, não através de uma mudança
efetiva em seus valores, mas apenas visando transmitir uma “imagem positiva” para seu
público, que nem sempre é verdadeira, buscando obter vantagens competitivas, que nem sempre
são sustentáveis. Entretanto, organizações públicas, especialmente as
instituições de ensino, precisam incorporar as inovações que elas mesmas pregam,
por meio das atividades de ensino, pesquisa e extensão, refutando a crença de que são uma
das poucas organizações que mantém seus valores estáveis, diante das
pressões políticas e sociais ao longo do século (MCINNIS, 1998). Essas
organizações exercem um importante papel na mudança sócio-econômica e no
desenvolvimento da sociedade, ajudando a criar novas organizações, disseminando valores
culturais e contribuindo para a formação e socialização pessoal (TÜRK, 2008).
Deste modo, as organizações universitárias devem primar pelo exemplo de modelo de
gerenciamento ambiental, sendo referência para as demais organizações, em outras palavras,
já que seu principal produto, se assim pode-se dizer, é a educação, suas
ações internas deveriam ser coerentes com a pragmática teórica.
2.2 Os Recursos Hídricos
A água é um bem comum a todos, essencial para o desenvolvimento humano, social e
econômico. Há tempos a água é considerada um recurso escasso e, mesmo em
regiões em que há pouco tempo era considerada como um recurso ilimitado, atualmente, apresenta
algumas dificuldades (SCARE; ZYLBERZSTAJN, 2007). Entretanto em razão da escassez, deixou de ser um bem
livre e tornou-se objeto de valoração econômica, sendo que seu uso já é
tarifado nas cidades e deverá ser taxado também nas zonas rurais (SANTOS, 2003). Por essas
dificuldades e por outras, nunca se falou tanto da questão ambiental, em reeducar a humanidade, e
apesar disso, a água potável do planeta continua diminuindo (DETONI; DONADONI, 2008).
Segundo Selborne (2001), a população que em 1999 era de 6 bilhões de pessoas, em
razão do crescimento demográfico, chegará de 7,9 a 9,1 bilhões de pessoas em 2025,
ano que segundo Martins (2003) faltará água para mais da metade da população do
planeta. Segundo o autor, três quartos da superfície da Terra são cobertos por água
e dos 1.386 milhões de Km³ de água apenas 2,5% desse total são de água doce,
sendo que 68,9% estão na forma de geleira, significando que apenas 0,3% de toda água da Terra
está acessível e pode ser utilizada para consumo.
Os recursos hídricos são limitados e exercem papel significativo no desenvolvimento
econômico e social do planeta (TUCCI, 2001). Neste sentido, Telles (2002) salienta que cerca de 70% da
água disponível é destinada ao aproveitamento agrícola, 20% para o consumo
industrial e menos de 10% é destinado para o abastecimento humano. Para cada kilo de frango são
necessários 20 litros de água; para cada tonelada de aço produzido é
necessário 2.000 litros de água e para um kilo de carne bovina é necessário 18.000
litros de água para suprir o animal até a carne estar pronta para o consumo; sendo
necessário também 1,6 milhões de litros de água para a produção de
uma tonelada de milho (MARTINS, 2003).
Agora, não é porque a água é um bem comum e ainda abundante em algumas
regiões, que poderá ser utilizada desordenadamente pelos seres humanos. Scare e Zylberzstajn
(2007) destacam que se o recurso não for escasso o suficiente, não existirá demanda por
direitos de propriedade, ou em outros termos, não haverá preocupação com o uso
ordenado se não houver nexo com outros valores, por exemplo, o dinheiro. A escassez dos recursos
hídricos deveria arder na consciência das pessoas da mesma forma como arderá no bolso, no
momento em que a água custará caro demais para ser paga e o capitalismo for norteado por uma
competitividade primária - a de manutenção (DETONI; DONADONI, 2008). Em outras palavras,
será necessário o surgimento de novas guerras, pessoas morrerem por tragédias ambientais
e regiões costeiras serem eliminadas do mapa, pelo aumento dos níveis dos oceanos, para o ser
humano criar consciência e respeito aos recursos naturais, especialmente a água, que é
fundamental para a vida de qualquer espécie?
Segundo North (1990 apud SCARE; ZYLBERZSTAJN, 2007), as instituições estabelecem as
regras do jogo e os limites para moldar o comportamento humano e a sua interação. Essas
mudanças institucionais determinam o modo como as sociedades evoluem (SCARE; ZYLBERZSTAJN, 2007). Neste
sentido, que papel as organizações universitárias estão exercendo, frente aos
desafios ambientais?
Martins (2003) destaca que pesquisas estão aflorando em centros de pesquisas e universidades
asseverando uma realidade preocupante. À luz desses argumentos, essas organizações,
além da realização de investigações e projetos de extensão,
são exemplos na utilização dos recursos hídricos? Tentando responder a essa
questão Detoni e Donadoni (2008) realizaram um levantamento junto a 403 estudantes de duas
Instituições de Ensino Superior Paranaense, constataram que a conscientização das
pessoas sobre a questão da escassez da água é pouca ou nenhuma, ou que mesmo existindo,
essa conscientização não estabelece a correspondente mudança de comportamento nos
hábitos cotidianos individuais. Segundo os autores, a maioria dos acadêmicos acreditam que a
água pode faltar em todo o planeta, mas há segurança e despreocupação
quanto ao tempo estimado para essa ocorrência e, enquanto isso, alguns hábitos
insustentáveis permanecem o mesmo em relação ao consumo.
3. Procedimentos Metodológicos
Para responder ao problema de pesquisa proposto, adotou-se uma abordagem qualitativa exploratória.
Exploratória no sentido de “descobrir idéias e soluções, na tentativa de
adquirir maior familiaridade com o fenômeno de estudo” (SELLTIZ et al., 1974) e
qualitativa, que segundo Godoy (1995, p. 63):
Quando estamos lidando com problemas pouco conhecidos e a pesquisa é de cunho exploratório,
este tipo de investigação parece ser o mais adequado. Quando o estudo é de caráter
descritivo e o que se busca é o entendimento do fenômeno como um todo, na sua complexidade,
é possível que uma análise qualitativa seja a mais indicada. Ainda quando a nossa
preocupação for a compreensão da teia de relações sociais e culturais que
se estabelecem no interior das organizações, o trabalho qualitativo pode oferecer interessantes
e relevantes dados. Nesse sentido, a opção pela metodologia qualitativa se faz após a
definição do problema e do estabelecimento dos objetivos da pesquisa que se quer realizar.
Para condução da pesquisa, utilizou-se como método o estudo de caso, que é uma
história de um fenômeno passado ou atual, elaborada a partir de múltiplas fontes de
provas, o qual pode incluir dados da observação direta, entrevistas sistemáticas, bem
como pesquisas em arquivos públicos e privados (VOSS; TSIKRIKTSIS; FROHLICH, 2002). Justifica-se adotar
este método já que “mediante um mergulho profundo e exaustivo em um objeto delimitado, o
estudo de caso possibilita a penetração em uma realidade social, não conseguida
plenamente por um levantamento amostral e avaliação exclusivamente quantitativa" (MARTINS,
2008, p.11).
Para a coleta de evidências, entrevistaram-se funcionários responsáveis pela
supervisão da área de manutenção (área que executa as
construções prediais, instalações elétricas e hidráulicas das
unidades), além da análise de documentos relacionados a projetos de extensão das duas
faculdades. As informações foram levantadas no mês de novembro de 2009.
Como é um estudo exploratório e o objetivo é levantar as nuances relacionada à
gestão dos recursos hídricos em duas unidades de uma Universidade Pública com sede no
Estado de São Paulo, utilizou-se o seguinte roteiro para atingir o objetivo proposto:
- Qual a origem da água utilizada na unidade (poço ou da rede municipal)? Existem sistemas para
captação de água alternativo?
- Qual a quantidade consumida mensalmente? Quantos pontos de saída existem?
- A unidade já enfrentou alguma dificuldade de racionamento ou escassez?
- Existem ações ou alguma iniciativa visando à redução do consumo ou
reaproveitamento de água?
- Existe algum tipo de monitoramento da qualidade da água?
- Existem treinamentos ou orientação visando à redução do consumo?
- Qual a participação da área de recursos humanos quanto à temática
ambiental?
- A unidade realiza projetos de extensão voltados à questão hídrica?
- Os efluentes dos laboratórios e sanitários são tratados?
- Nos banheiros existem dispositivos redutores nas torneiras para redução do consumo?
- Quais setores consomem mais água?
- Existe algum tratamento da água que é utilizada para lavagem dos recipientes utilizados nos
laboratórios? Qual o destino?
3.1 Breve Descrição das Organizações Pesquisadas
A Faculdade de ALFA, atualmente conta com cinco cursos de graduação:
Administração, Agronomia, Ciências Biológicas, Medicina Veterinária e
Zootecnia, 10 programas de pós-graduação, mestrado e doutorado, com 13 áreas de
concentração, além do Curso Profissionalizante de Técnico em Agropecuária.
Na estrutura física, além de laboratórios, biblioteca, setores administrativos etc.,
conta com uma fazenda de ensino, pesquisa e produção que perfaz 828,9 hectares de terras
agricultáveis.
A Faculdade de BETA, criada em 1967, atualmente conta com os cursos de graduação de Engenharia
Mecânica, Civil, Elétrica e de Produção e com quatro programas de
pós-graduação, nível mestrado, todos nas áreas de engenharia.
Essas duas faculdades são integrantes de uma Universidade Pública e estão localizadas no
Estado de São Paulo.
4. Resultados e Discussão
A Faculdade ALFA é abastecida por um poço artesiano de 400 metros de profundidade e os recursos
hídricos são extraídos por uma bomba que está localizada a 120 metros da
superfície. A água é destinada ao abastecimento das pessoas e animais em diversos setores
do campus, apesar de ser límpida, transparente e inodora não passa por nenhum tratamento ou
monitoramento, utilizada nos laboratórios, atividades agropecuárias, nas atividades de ensino,
pesquisa e diversas outras finalidades, e apesar dos vários locais de utilização,
não mensuram e desconhecem o total de pontos de saída de água.
Apesar da Faculdade ALFA ser abastecida apenas pelo poço, o consumo diário ultrapassa mais de 1
milhão e 200 mil litros de água e, atualmente, a organização não enfrenta
dificuldades em relação a esse bem comum, porém, já sofreu com a escassez em anos
anteriores. Nos laboratórios existem diversos destiladores antigos que consomem aproximadamente 60
litros de água por utilização e apenas recentemente foram instalados dispositivos visando
o reaproveitamento da água utilizada por esses aparelhos.
Na unidade universitária pesquisada existe um setor de esportes, que conta com quadras cimentadas e de
areia, ginásio coberto, dois campos de futebol, pista de corrida, piscinas, e não obstante a
causa ambiental uma cisterna foi construída com a finalidade de reaproveitar as águas oriundas
das piscinas para reutilização nos jardins e na limpeza.
Apesar de contar com cursos que diretamente ou indiretamente se relacionam com as pessoas
(administração), a fauna e flora (Zootecnia, Medicina Veterinária, Agronomia e
Ciências Biológicas) e uma grande estrutura administrativa, onde a área de recursos
humanos está inserida, na Faculdade ALFA não se desenvolve ações/programas visando
à conscientização ou à redução do consumo de água na
própria unidade no âmbito dos funcionários, ou seja, não existe nexo entre a teoria
e a prática. Segundo um entrevistado da unidade, o que falta “é uma
conscientização das pessoas em relação aos recursos naturais e que não
adiantaria a unidade criar mecanismos que visem à redução do consumo sem a
conscientização das pessoas”.
Destacam-se algumas ações administrativas realizadas visando à redução do
consumo, como a troca das torneiras convencionais por torneiras com temporizador em alguns prédios da
Faculdade ALFA e nas salas de aulas, porém apesar da iniciativa valorosa, o ideal seria a
instalação de torneiras com sensor, que libera água apenas com a iniciativa humana. Mas,
independentemente dos dispositivos, se não existir a conscientização humana, de nada
adiantará aparelhos visando à redução do consumo.
Nas atividades de extensão relacionada à temática água, identificou-se um projeto
relacionado ao solo e a água que visa transmitir técnicas de cartografia, mapear os recursos
hídricos e ocupação racional do solo, além da realização de
campanhas educativas utilizando-se de diversos meio de comunicação, como também, a
auspiciosa iniciativa da substituição de copos plásticos pelo uso de canecas
reutilizáveis no restaurante universitário.
O problema mais grave encontra-se em relação ao esgoto gerado em todas as dependências da
faculdade ALFA. No caso, a água utilizada para lavar os materiais/recipientes de laboratórios,
inclusive embalagens de produtos químicos visando atender a Legislação Federal (Lei no
9.974, de 6 de Junho de 2000), até anos anteriores era recambiada, através do sistema de
esgotos, diretamente para um rio próximo ao campus, sem nenhum tratamento específico para
reduzir o impacto. Porém, não estanques a essa problemática e aderentes às
melhorias no que tange ao meio ambiente, a direção da unidade estava em processo de
implementação de um projeto para o recambiamento dos efluentes da unidade para a
Estação de Tratamento de Esgoto Municipal, que está aproximadamente há 1.000
metros de distância da tubulação que transporta os dejetos da faculdade.
Na Faculdade BETA entrevistou-se um funcionário, responsável pela coordenação das
atividades de conservação e manutenção. Como na Faculdade ALFA, também na
BETA, os recursos hídricos são extraídos de um poço artesiano de aproximadamente
200 metros de profundidade. Não foi possível identificar a quantidade consumida pela unidade,
contudo segundo o funcionário entrevistado, existe um reservatório com capacidade para 320 mil
litros que pode abastecer a Faculdade BETA por no máximo dois dias. Em razão da grande
abundância de recursos hídricos, a Prefeitura Municipal em anos anteriores tentou viabilizar
junto à Faculdade BETA a captação da água da unidade para abastecer uma
população circunvizinha do campus, porém de acordo com o entrevistado, a Prefeitura
não quis se dispor e investir na manutenção no projeto. A grande dificuldade da Faculdade
BETA em anos anteriores não se relaciona-se à escassez de água, mas a falta devido a
picos elevados de consumo, em razão da insuficiência de capacidade do reservatório para
armazenamento.
Outro grande problema é o alto custo de manutenção das duas bombas, que consomem muita
energia e mensalmente precisam de reparos, pois operam na carga máxima de potência durante todo o
tempo para a retirada da água. Recentemente, as torneiras tradicionais de alguns departamentos e de
áreas comuns, como banheiros anexos à cantina, foram substituídas por torneiras com
temporizador, mas segundo o entrevistado, ocorreram diversos furtos. Ainda, o respondente coloca que falta uma
política central da Universidade a fim de desencadear ações de redução do
consumo da água/energia, como também dos recursos naturais e o principal problema enfrentado
é a falta de respeito e consciência das pessoas:
Algum tempo atrás sai da minha sala e vi uma água escorrendo pelo chão. Fui ver o que
estava acontecendo e observei uma mangueira ligada vazando, pois a funcionária que estava realizando o
serviço deixou-a ligada para molhar a planta e foi ao banheiro, fumou um cigarro, tomou café e
ficou conversando com outros funcionários.
Outra situação que até o ano de 2009 causava grandes impactos no meio ambiente, e em
2010 espera-se auspiciosas melhorias, refere-se à falta de tratamento de esgoto/efluentes da unidade.
Todos os resíduos líquidos da Faculdade BETA são direcionados para um reservatório
que está ligado diretamente à rede de esgoto municipal, porém a rede de esgoto municipal
desemboca direto num rio, sem nenhum tratamento. Além disso, o esgoto que é despejado na rede
municipal tem um custo financeiro para a Faculdade BETA, que corresponde aproximadamente a 60% do valor do
custo da água, que é medido pelo órgão municipal a partir da quantidade de
água extraída do poço. Um grupo de estudos da Faculdade BETA projetou um sistema para o
tratamento de todo esgoto da unidade e, inclusive, de um bairro vizinho, utilizando-se de um método
natural, sem adição de produtos químicos. A técnica consiste, sumariamente, na
utilização de plantas aquáticas que absorvem e filtram os resíduos que poluem a
água, permitindo reduzir o impacto ao meio ambiente.
Alguns docentes da Faculdade ALFA criaram, em 2008, o projeto de extensão relacionado à
sustentabilidade visando criar um modelo de ações ambientais para a Universidade. O projeto
ainda está na etapa do diagnóstico situacional, ou seja, no levantamento das questões
ambientais na Faculdade por meio da colaboração de alunos, docentes e funcionários, com o
objetivo de estabelecer ações visando à redução do impacto ambiental das
atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão dentro da Faculdade BETA.
À luz desses argumentos, como a organização universitária pode ser comparada a
pequenas cidades (ALSHUWAIKHAT; ABUBAKAR, 2008), torna-se necessário maiores investimentos na
temática ambiental, principalmente, no aspecto interno, a partir da gestão organizacional,
já que nas atividades de ensino, pesquisa e extensão nota-se a disseminação dos
valores relacionados à sustentabilidade e seus conceitos. Assim, a partir das premissas de Tauchen e
Brandli (2006), as duas organizações universitárias pesquisadas buscam mais o caminho do
desenvolvimento sustentável por meio do aspecto educacional, do que a efetiva
implementação de sistemas de gestão integrada de gerenciamento ambiental. Como
corolário, falta coesão entre a integração das atividades de ensino,
pesquisa, extensão e a gestão, conforme sugeriram Marcomim e Silva (2009), para refletir
transformações efetivas de conceitos, hábitos e práticas da política
organizacional até o nível operacional.
Essa efetiva transformação poderia ser mais facilmente atingida com a
participação efetiva da gestão de recursos humanos, através da
integração da dimensão ambiental em suas ações, o que coloca as
práticas encontradas nas organizações distantes dos argumentos de Daily e Huang (2001).
5. Considerações Finais
Como numa universidade seu principal foco é a condução de novas pesquisas, avanço
da fronteira científica e defesa dos valores mais fundamentais da humanidade, espera-se, principalmente
frente aos dilemas ambientais contemporâneos, que as unidades universitárias não somente
desenvolvam pesquisas e argumentos pró-gestão ambiental e utilização adequada de
recursos hídricos, mas que adote tais pressupostos em seu dia-a-dia. Como afirma Bellen (2005), com o
envolvimento de vários tipos de organizações, inclusive as universitárias,
conseguir-se-á colocar o conceito da sustentabilidade em prática.
Diante das evidências apresentadas nos dois casos aqui explorados, apresentam-se algumas
sugestões para aprimorar as atuais atividades de gestão ambiental em unidades
universitárias:
a) Criar programas de conscientização e respeito ao meio ambiente a partir do estabelecimento
de uma política ambiental central da universidade, estimulando as unidades no desenvolvimento de
ações envolvendo a comunidade estudantil, docentes e funcionários;
b) Atuar através da área de recursos humanos das Faculdades, conforme proposto por Wehrmyer
(1996) e Daily e Huang (2001), por meio do desenvolvimento de práticas de treinamento, estabelecendo
critérios ambientais como indicadores de desempenho e premiando ações individuais ou
coletivas dos funcionários, de setores ou departamentos;
c) Levantar os mais significativos elos de consumo de água e identificar alternativas
tecnológicas para gerenciar adequadamente os recursos hídricos;
e) Ampliar os projetos de extensão, como por exemplo, estabelecer parcerias com escolas de ensino
fundamental e médio, com o objetivo de conscientizar os estudantes para conservar os recursos naturais
e principalmente os hídricos;
f) Fortalecer os projetos de tratamento de esgoto nas unidades, visando reduzir o impacto ambiental e se
possível o reaproveitamento da água; vale ressaltar que em relação ao problema do
esgoto, já existem planejamento de ações nas unidades visando reduzir o impacto causado
pelo lançamento de efluentes.
Pode-se concluir que realmente a posse e geração de conhecimentos de ponta, na fronteira
tecnológica, não garantem que universidades adotem práticas adequadas de gestão
ambiental. Percebeu-se que iniciativas isoladas e fragmentadas das Faculdades ALFA e BETA não garantem
a sustentabilidade ambiental dos campus (ALSHUWAIKHAT; ABUBAKAR, 2008).
Sugere-se que pesquisas futuras avancem no âmbito acadêmico, principalmente, verificando duas
vertentes: (1) levantamentos a fim de verificar como as universidades brasileiras estão atuando frente
à dimensão ambiental, no aspecto de ensino, pesquisa e extensão; (2) estudos de casos a
fim de descobrir como nessas universidades a direção e a gestão de recursos humanos atuam
frente à dimensão ambiental.
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