1. Introdução
A sociedade contemporânea tem atribuído importância crescente ao conhecimento. Tapscott
(1997) e Stewart (1998) utilizam-se de termos tais como ‘Sociedade da Informação’ e
‘Era do Conhecimento’ para denotar a relevância desse recurso no cotidiano de todos os
personagens envolvidos na nova estruturação social edificada nas últimas décadas.
Entre todos os personagens envolvidos, as empresas assumem um papel significativo nessa sociedade uma vez que
estão inseridas num ambiente turbulento e de mudanças rápidas e drásticas.
Especificamente em relação à indústria do software, o conhecimento é um dos
recursos fundamentais para que as empresas nela inseridas possam continuar a oferecer produtos e
serviços diferenciados e capazes de agregar valor aos clientes e aos seus negócios. O
conhecimento como recurso valioso às empresas recebeu grande impulso a partir do advento da
visão baseada no conhecimento (KBV – knowledge based view) proposta por Eisenhardt e
Santos (2002).
Assim, buscando melhor explorar os conhecimentos enquanto recursos passíveis de viabilizar maior
competitividade às empresas, a gestão dessas organizações desenvolveu um conjunto
de processos para lidar com o gerenciamento do conhecimento visando assim aproveitar-se dele como
possível fator alavancador da eficácia organizacional. Além das práticas de
gestão do conhecimento desenvolvidas, também observa-se a utilização de tecnologia
de informação e comunicação. As práticas de gestão do conhecimento e
as novas tecnologias da informação e comunicação buscam capacitar a empresa a ser
eficaz na consecução de seus objetivos.
Este artigo buscou identificar se as práticas e ferramentas de gestão do conhecimento
utilizadas em empresas atuantes na indústria de software no Brasil têm influência na
eficácia organizacional destas empresas. Para tanto, uma pesquisa de campo foi levada a cabo junto a 15
empresas de porte médio ou grande, atuantes nessa indústria específica.
2. Referencial Teórico
2.1 Gestão do Conhecimento
O estudo da gestão do conhecimento por parte de pesquisadores da ciência da
Administração ganhou grande impulso nas últimas três décadas. Davenport e
Prusak (1999) discorrem que a aplicação do conhecimento possa gerar retornos crescentes e novas
perspectivas para as organizações, principalmente na medida em que os ativos do conhecimento
aumentam com o seu uso. Drucker (2001, p. 10) afirma que “a empresa típica será baseada no
conhecimento e que principalmente as grandes empresas não têm muita escolha quanto a se
converterem em organizações baseadas em conhecimento.”.
A gestão do conhecimento é uma especialidade da Administração que consiste em
aplicar um conjunto de técnicas desta área de conhecimentos para gerir o conhecimento como um
dos recursos utilizados pelos colaboradores da empresa no seu cotidiano, conforme Santos et al
(2001). Para Pillania (2009), a gestão do conhecimento é um processo sistemático,
organizado, explícito, deliberado e contínuo de criar, disseminar, aplicar, renovar e atualizar
o conhecimento para alcançar os objetivos organizacionais. Para Dalkir (2005), gestão do
conhecimento é a:
Coordenação deliberada e sistemática de pessoas, tecnologias, processos e estrutura
da empresa na busca da criação de valor através do recurso do conhecimento e
inovação. Essa coordenação é realizada através da
criação, compartilhamento e aplicação do conhecimento como por meio de
alimentação de valiosas lições aprendidas e das melhores práticas
dentro da memória corporativa, fomentando continuamente a aprendizagem organizacional. (DALKIR,
2005, p. 3).
Segundo Teece (2000), a gestão do conhecimento é a base para a construção de
vantagens competitivas. Para Leitch e Rosen (2001), entender e aperfeiçoar os processos ligados
à gestão do conhecimento pode possibilitar à empresa vantagens competitivas,
independentemente do segmento de mercado em que atue. De forma complementar, Andone (2009) argumenta que a
compreensão do sistema de gestão do conhecimento nas empresas seja o fator-chave do sucesso da
empresa. Assim, Zack (1999) sustenta que a gestão do conhecimento deva ser ponto central da
gestão estratégica da empresa, uma vez que trata de recursos baseados no conhecimento e em
habilidades valiosas, inimitáveis e únicas.
Green (2006) apresenta uma postura mais pragmática em relação à gestão do
conhecimento ao indicar que esta deva estar voltada ao contexto dos negócios da empresa devendo ser,
portanto desenvolvida em função deles. Nesse sentido, Buzokowitz e Williams (2002) discorrem que
a gestão do conhecimento consista no esforço de se utilizar este recurso como forma de conseguir
melhores resultados para a empresa e seus stakeholders, principalmente por meio da prospecção
dos conhecimentos existentes interna ou externamente. Segundo Robinson et. al. (2005), a
gestão do conhecimento pode transformar os conhecimentos de uma empresa em ativos voltados à
viabilização de um crescimento continuado e sustentável.
Segundo Eisenhardt e Santos (2002), a gestão de conhecimentos na empresa ganha importância na
medida em que a codificação do conhecimento se torne real, ou seja, quando o conhecimento possa
ser mais facilmente comunicado e entendido pelas pessoas. Os autores exploram a importância da
knowledge based view (visão baseada no conhecimento), ao considerarem o conhecimento como um
recurso estratégico à empresa.
No caso específico de empresas pertencentes à indústria de software, cuja uma das
premissas básicas de existência é a própria geração e
disseminação de conhecimento, a importância das atividades de gestão do
conhecimento parece ser ainda mais evidenciada. Para Robinson et. al. (2005), a gestão do
conhecimento deve ser encarada como viabilizadora da transformação de conhecimentos em ativos
voltados à viabilização de um crescimento continuado e sustentável. Mas, para
tanto, o sucesso de uma gestão do conhecimento eficaz provém da correta
estruturação de práticas e de ferramentas de tecnologia que suportem sua
evolução (ZAIM et. al. 2007). Song (2001) argumenta que, por meio da utilização de
práticas e iniciativas de gestão do conhecimento amparadas por ferramentas de tecnologia da
informação e comunicação, as empresas de tecnologia da informação
analisadas em pesquisa de campo efetuada em seu estudo, aumentaram sua eficácia.
2.2 Práticas e Ferramentas Voltadas à Gestão do Conhecimento
A gestão do conhecimento nas empresas é desempenhada a partir de um conjunto de práticas
e ferramentas voltadas para essa finalidade. Bishop et al (2008) asseveram que tais iniciativas podem
ter um impacto positivo na competitividade das empresas. Em estudo realizado por Sharma et. al. (2007) junto
à empresa de uso intensivo de tecnologia com destacado crescimento no mercado, verificou-se que
práticas e iniciativas de gestão do conhecimento contribuíram decisivamente nos
resultados financeiros da empresa.Kunyioshi e Santos (2007) apresentam práticas e iniciativas de
gestão de conhecimento segregadas de acordo com diferentes dimensões organizacionais
(estratégia, estrutura, pessoas e cultura organizacional, tecnologia e processos), conforme Quadro 1:

Quadro 1 – Dimensões organizacionais e as práticas e iniciativas de
gestão do conhecimento
Fonte: Kuniyoshi e Santos (2007).
Outra faceta da gestão do conhecimento praticada nas empresas é suportada pelas ferramentas de
tecnologia da informação e comunicação voltadas para esta finalidade. Tais
ferramentas suportam a gestão do conhecimento desenvolvida nas empresas Na visão de Stankosky e
Baldanza (2000), tais ferramentas constituem um dos pilares básicos de sustentação da
gestão do conhecimento desenvolvida nas empresas. Kalvan (2008) corrobora tal pensamento ao indicar que
a utilização de tais ferramentas é atualmente um dos principais desafios enfrentados
pelas empresas globais na gestão do conhecimento desenvolvida em suas organizações.
Segundo Wild e Greggs (2008), essas ferramentas têm ainda o potencial de aumentar o desempenho das
atividades voltadas à gestão do conhecimento.
A relevância dessas ferramentas nesse contexto de gestão do conhecimento é enfatizada
também por Grimaldi et. al. (2008), bem como Agnihotri e Troutt (2009), ao argumentarem que elas devam
ser utilizadas com o intento final de melhorar os resultados da empresa. Já para Mohamed (2008), as
ferramentas constituem, na verdade, um fator crítico de sucesso para qualquer iniciativa de
gestão do conhecimento.
Kuniyoshi e Santos (2007) expõem ferramentas, técnicas e tecnologias que podem oferecer
importantes benefícios às empresas que buscam melhor gerir seus conhecimentos, conforme
evidenciado no Quadro 2 a seguir:
|
Fase de criação e captura do conhecimento
|
Fase de compartilhamento e disseminação do conhecimento
|
Fases de aquisição e aplicação do
conhecimento
|
|
Criação de conteúdo
- Ferramentas de autoria
- Modelos
- Anotações
- Data mining (mineração de dados)
- Perfil de experts (especialistas)
- Blogs (diário eletrônico baseado em tecnologia web)
Gestão de conteúdo
- Definir metadados
- Classificação
- Arquivamento
- Gestão do conhecimento pessoal
|
Comunicação e tecnologias colaborativas
- Telefone
- Fax
- Videoconferência
- Salas de bate-papo
- Mensagem instantânea
- Telefonia por internet
- E-mail
- Fóruns de discussão
- Groupware (também conhecido como software colaborativo)
- Wikis (enciclopédia aberta baseada em tecnologia web)
- Workflow (gerenciamento de fluxo de trabalho)
Tecnologias de redes
- Intranets
- Extranets
- Servidores web, navegadores
- Repositórios de conhecimento (lições aprendidas e melhores práticas)
- Portal corporativo
|
E-learning tecnologias
- CBT (treinamento baseado em computadores)
- WBT (treinamento baseado em tecnologia web)
- EPSS (sistema eletrônico de apoio ao desempenho)
Inteligência artificial
- Sistemas especializados
- DSS (sistema de suporte à tomada de decisão)
- Customização – personalização
- Tecnologias push/pull
- Sistema recomendador que compara coleções de dados entre si e sugere uma lista de
recomendações)
- Visualização
- Mapas do conhecimento
- Agentes de inteligência
- Sistema de taxonomia automatizado
- Análises de textos-sumarização
|
Quadro 2 – Principais ferramentas, tecnologias e técnicas de
gestão do conhecimento
Fonte: adaptado de Dalkir (2005, apud Kuniyoshi e Santos, 2007).
2.3 A Eficácia Organizacional como vantagem competitiva
A eficácia organizacional é um importante aspecto a ser considerado ao se analisar a capacidade
de obtenção de sucesso por parte das empresas. Na visão de Altschuld e Zheng (1995) a
eficácia organizacional é tida como um dos maiores objetivos da gestão corporativa,
apresentando-se como um tema central no estudo da teoria e da prática das organizações
contemporâneas. Isso porque no atual contexto de competitividade acirrada e turbulência de
mercados as empresas são pressionadas a identificar fatores que contribuam para um desempenho elevado,
conforme Gomes (2001). Segundo Quijano (2000), a empresa baseia-se então em indicadores que possam ser
capazes de orientá-las rumo ao sucesso. Assim, a partir da análise de indicadores de
eficácia organizacional é possível compreender o grau de atendimento dos objetivos da
empresa.
Daft (1999) define eficácia organizacional como a quantidade de recursos utilizados para a
execução dos objetivos organizacionais. Robbins e Coulter (2002) expõem uma visão
mais ampliada, na qual a eficácia organizacional refere-se ao atendimento dos objetivos estabelecidos
pela organização, considerando-se a manutenção de seu sistema interno face
à consequente adaptação ao ambiente externo. De forma similar, Ramos (1996) observa que a
eficácia organizacional se dá em função do grau de funcionamento ótimo da
empresa, podendo ser mensurada por sua capacidade de manter seus elementos internos como um sistema social
coeso, além da capacidade de interagir adequadamente com o ambiente externo.
Não há consenso entre os autores que estudam o tema eficácia organizacional acerca de um
modelo ou instrumento definitivo que possa efetivamente mensurar a eficácia da empresa. O Quadro 3
expõe os principais indicadores de eficácia organizacional de acordo com a visão de
diferentes autores.
|
Autores
|
Indicadores de eficácia organizacional
|
|
Yuchtman e Seashore (1967)
|
Alcance dos objetivos, produtividade, coesão. Moral, adaptabilidade, lucro, sucesso na
aquisição de recursos escassos e de valor, controle sobre o meio ambiente
informação e comunicação, crescimento.
|
|
Likert (1971)
|
Qualidade da mão-de-obra, satisfação, absenteísmo, rotatividade,
crescimento, lucro, produtividade, confiança/interesse, motivação. Lealdade,
desempenho, comunicação interna e objetivos alcançados.
|
|
Argyris (1975)
|
Objetivos, manutenção da estrutura, adaptação ao ambiente,
produção, satisfação, absenteísmo, rotatividade.
|
|
Steers (1975)
|
Adaptabilidade, produtividade, satisfação, rentabilidade, aquisição de
recursos, ausência de conflitos, controle, desenvolvimento, eficiência,
retenção de empregados, crescimento, integração, comunicação
aberta, supervisão.
|
|
Bennis (1976)
|
Adaptabilidade, objetivos, percepção da identidade, capacidade de
realização, crescimento, lucro.
|
|
Scott (1983)
|
Produtividade, eficiência, objetivos, satisfação, absenteísmo,
rotatividade, crescimento, lucro, moral, coesão, flexibilidade, adaptabilidade e
aquisição de recursos.
|
|
Katz e Kahn (1987)
|
Eficiência potencial e real, lucro, sobrevivência, crescimento, objetivos
alcançados, satisfação, rotatividade e absenteísmo.
|
|
Nadler (1994)
|
Necessidades dos clientes, exigências e oportunidades do ambiente, informação,
trabalho, pessoas e tecnologia, produtividade.
|
|
Porter (1996)
|
Produtividade, redução de defeitos, redução de prazos,
motivação, redução de desperdícios, utilização
eficiente de equipamentos, técnicas gerenciais.
|
|
Elorduy (1998)
|
Produtividade, melhoria dos relacionamentos, desenvolvimento dos indivíduos,
motivação.
|
|
Daft (1999)
|
Quantidade de insumos, capital e pessoal utilizado, objetivos, produção,
satisfação, rotatividade, absenteísmo.
|
|
Pounder (2002)
|
Estabilidade, gestão da informação e comunicação, desenvolvimento
de recursos humanos, coesão e moral, crescimento e aquisição de recursos,
adaptabilidade e flexibilidade, produtividade e eficiência, planejamento e
definição de objetivos, qualidade, satisfação dos interesses dos
stakeholders
|
Quadro 3 – Indicadores de eficácia organizacional
Fonte: autores da obra.
Morin et. al. (1994) propõem um modelo no qual os indicadores de eficácia organizacional
estão segregados em quatro dimensões, a saber: dimensão econômica, dimensão
social, dimensão sistêmica e dimensão política.
3. Metodologia da Pesquisa
Este é um estudo descritivo de natureza quantitativa que considera como método de pesquisa o
levantamento de informações junto às empresas atuantes na indústria de software no
Brasil, conforme classificação indicada por Hair Jr. et al (2005) e Yin (2005). Para
tanto, faz uso de levantamento de dados primários por meio da aplicação de
questionários estruturados junto aos profissionais de empresas atuantes nessa indústria
específica.
A amostra da pesquisa de campo foi selecionada a partir de critérios de conveniência e
acessibilidade para a coleta de dados. Foram pesquisadas 15 empresas atuantes na indústria de software
do Brasil de médio ou grande porte, com destacada relevância em seus segmentos de
atuação. A amostra selecionada não tem caráter probabilístico uma vez que a
técnica de amostragem a ser empregada é por acessibilidade e conveniência, conforme
Sampieri et. al. (2006). O questionário eletrônico estruturado foi aplicado junto a 319
colaboradores das empresas pesquisadas, sendo 67 com cargo ou função de gestão e 252 com
cargo ou função técnica.
Ao final da fase de coleta, os registros existentes na base de dados foram transformados em planilha
eletrônica para posterior exportação aos aplicativos Statistical Package for The
Social Sciences e Partial Least Squares Path Modeling, visando o tratamento mais refinado dos
dados coletados na pesquisa de campo. A técnica de tratamento e análise dos dados utilizada foi
a Modelagem de Equações Estruturais, de modo a viabilizar o entendimento das
relações entre as variáveis latentes formativas (práticas e ferramentas voltadas
à gestão do conhecimento) e a variável latente reflexiva (eficácia
organizacional).
As 46 práticas de gestão do conhecimento pesquisadas, distribuídas em
cinco diferentes dimensões, são apresentadas abaixo:
- Dimensão estratégia (PA) – Estratégia declarada de gestão do
conhecimento; Políticas declaradas de gestão do conhecimento; Gestão da
inovação; Gestão por competências; Comunicação corporativa da
gestão do conhecimento; Benchmarking de conhecimentos.
- Dimensão estrutura (PB) – Centros de inovação; Call center/help
desk/suporte online; Chief of Knowledge Management ou Certified Knowledge Manager;
Centro de competências; Área interna ou departamento específico para a gestão
do conhecimento; Redes de especialistas; Espaços e situações dedicadas à
socialização de conhecimentos.
- Dimensão pessoas/cultura organizacional (PC) – Mapeamento de competências;
Mapeamento de conhecimentos; Planos de carreira; Sistema de reconhecimento e recompensa por
gestão do conhecimento; Coaching para formação de líderes
voltados à gestão do conhecimento; Mentoring para a formação
de líderes voltados à gestão do conhecimento; Repositório de
lições aprendidas; Repositório de melhores práticas; Comunidades de
prática; Educação corporativa; Treinamentos presenciais com instrutores;
Multiplicadores de conhecimentos; Story telling.
- Dimensão processos (PD) – Mapeamento de processos; Sistema de
avaliação de processos de conhecimento; Patentes; Propriedade intelectual.
- Dimensão tecnologia (PE) – Banco de conhecimentos; Gestão de
conteúdos; Aplicações específicas para busca de conhecimentos;
Inteligência competitiva; Business inteligence; Wikis internas, blogs internos ou
twitters internos; Páginas amarelas internas; Portal corporativo; Biblioteca
corporativa/repositório de documentos; Reuniões e conferências virtuais;
Treinamentos virtuais com a presença de instrutores online; E-learning; Universidade corporativa;
Sumarização de conhecimentos; Inventários de conhecimentos; Ontologia ou taxonomia.
As 38 ferramentas de tecnologia da informação e comunicação voltadas à
gestão do conhecimento pesquisadas, segregadas em seis diferentes dimensões, são expostas
a seguir:
- Dimensão criação de conteúdo (FA) – Autoria; Modelos;
Anotações; Data mining; Perfil de especialistas; Blogs.
- Dimensão gestão de conteúdo (FB) – Definição de
metadados; Classificação de conteúdos; Arquivamento de conteúdos;
Gestão de conhecimento pessoal.
- Dimensão comunicação e tecnologias colaborativas (FC) – Telefone
fixo; Telefone móvel; Telefone via internet; Videoconferência; Salas de bate-papo;
Mensagens instantâneas; E-mail; Fóruns de discussão; Groupware; Wikis;
Workflow.
- Dimensão tecnologias de rede (FD) – Intranets; Extranets; Servidores web e
navegadores; Repositório de conhecimentos; Portal corporativo da empresa ou de área
específica.
- Dimensão e-learning (FE) – Treinamento baseado em computadores;
Treinamento baseado em tecnologia web; Sistema eletrônico de apoio ao desempenho.
- Dimensão inteligência artificial (FF) – Sistemas especializados; DSS
(sistema de suporte à tomada de decisão);
Customização/personalização; Sistema recomendador;
Visualização; Mapas de conhecimento; Agentes de inteligência; Sistema de taxonomia
automatizado; Análise de conteúdos.
Os 15 indicadores de eficácia organizacional pesquisados foram dispostos em quatro diferentes
dimensões, a saber:
- Dimensão econômica (EA) – Alcance dos objetivos; Produtividade;
Lucro/rentabilidade; Eficiência operacional; Desenvolvimento/crescimento da empresa.
- Dimensão social (EB) – Coesão; Ambiente organizacional; Aumento do moral;
Absenteísmo; Rotatividade; Motivação/satisfação; Desenvolvimento de
recursos humanos.
- Dimensão sistêmica (EC) – Adaptabilidade; Estabilidade.
- Dimensão política (ED) – Controle.
4. Apresentação e Análise dos Resultados
O tratamento e validação das variáveis latentes formativas (práticas e
ferramentas de gestão do conhecimento) e da variável latente reflexiva (eficácia
organizacional) foram segregados em dois modelos, a saber:
- Modelo de mensuração, que envolve as práticas de gestão do conhecimento, as
ferramentas de tecnologia da informação e comunicação e os indicadores de
eficácia organizacional.
- Modelo estrutural, que envolve as relações existentes as variáveis latentes
formativas e a variável latente reflexiva.
Assim, os resultados a seguir são apresentados segmentados em práticas e ferramentas voltadas
à gestão do conhecimento e suas influências na eficácia organizacional das empresas
pesquisadas.
4.1. Influência das Práticas de Gestão do Conhecimento na Eficácia
Organizacional
As cinco dimensões das práticas de gestão do conhecimento foram analisadas na pesquisa
campo. Cada dimensão apresenta, a partir da soma de suas práticas componentes, um determinado
grau de representatividade na eficácia organizacional da empresa. A Figura 1 apresenta a
influência encontrada em cada dimensão das práticas de gestão do conhecimento.

Figura 1 – Resultados da influência das práticas
de gestão do conhecimento na eficácia organizacional.
Fonte: autores da obra.
As dimensões de práticas de gestão do conhecimento apresentaram-se na seguinte ordem:
- Dimensão estratégia (PA), com peso fatorial 14,027
- Dimensão tecnologia (PE), com peso fatorial 13,865
- Dimensão estrutura (PB), com peso fatorial 12,449
- Dimensão pessoas/cultura organizacional (PC), com peso fatorial 11,185
- Dimensão processos (PD), com peso fatorial 8,414
4.2. Influência das Ferramentas Voltadas à Gestão do Conhecimento na
Eficácia Organizacional
Os resultados das seis dimensões das ferramentas de tecnologia da informação e
comunicação voltadas à gestão do conhecimento analisadas na pesquisa campo
são comentados a seguir. Cada dimensão expressa, a partir da soma de suas respectivas
ferramentas, um determinado grau de representatividade na eficácia organizacional da empresa. A Figura
2 apresenta a influência encontrada em cada dimensão das ferramentas voltadas à
gestão do conhecimento.

Figura 2 - Resultados da influência das ferramentas voltadas à
gestão
do conhecimento na eficácia organizacional.
Fonte: autores da obra.
A indicação de cada dimensão, ou seja, a contribuição das respectivas
ferramentas pertencentes à uma determinada dimensão, busca indicar o grau de intensidade da
influência das ferramentas na eficácia organizacional. As dimensões de ferramentas de
tecnologia da informação e comunicação empregadas na gestão do conhecimento
apresentaram-se na seguinte ordem:
- Dimensão inteligência artificial (FF), com peso fatorial 11,786
- Dimensão criação de conteúdo (FA), com peso fatorial 10,477
- Dimensão tecnologias de rede (FD), com peso fatorial 10,227
- Dimensão comunicação e tecnologias colaborativas (FC), com peso fatorial 8,484
- Dimensão gestão de conteúdo (FB), com peso fatorial 5,270
- Dimensão e-learning (FE), com peso fatorial 5,147
4.3. Indicadores de Eficácia Organizacional Verificados na Pesquisa
A Tabela 1 exibe os indicadores de eficácia organizacional dispostos em ordem decrescente a partir da
nota média averiguada na pesquisa de campo.
Tabela 1 – Ranking dos indicadores de eficácia organizacional
|
Indicadores de eficácia organizacional
|
Nota mais
indicada
|
Frequência da nota mais indicada
|
Percentual da nota mais indicada
|
Nota média
|
|
Primeiro segmento
EA. Produtividade
EA. Eficiência
EA. Lucro e rentabilidade
EA. Desenvolvimento e crescimento
Segundo segmento
EA. Objetivos corporativos
ED. Controle
EB. Desenvolvimento das pessoas
EB. Ambiente organizacional
Terceiro segmento
EC. Adaptabilidade
EC. Motivação e satisfação
EB. Coesão e harmonia
EC. Estabilidade
Quarto segmento
EC. Moral
EC. Absenteísmo
EC. Rotatividade
|
4
3
3
3
3
3
3
3
3
2
2
2
2
2
2
|
115
114
115
113
130
145
139
112
105
105
95
113
125
119
126
|
36,10%
35,70%
36,10%
35,40%
40,80%
45,50%
43,60%
35,10%
32,90%
32,90%
29,80%
35,40%
39,20%
37,30%
39,50%
|
3,63
3,56
3,46
3,38
3,32
3,18
3,04
2,98
2,75
2,57
2,48
2,47
2,29
2,15
2,14
|
Fonte: autores da obra.
Após o ordenamento decrescente dos resultados, os fatores de eficácia organicacional foram
segregados em quatro segmentos a partir do estabelecimento dos quartis da distribuição. Esse
agrupamento buscou evidenciar quais foram os indicadores de eficácia organizacional mais utilizados
pelas empresas analisadas na pesquisa de campo. Há de ser ressaltado que todos os quatro indicadores
mais verificados pertencem à dimensão econômica (EA), enquanto que os três
indicadores menos verificados pertencem à dimensão social (EB) de eficácia
organizacional.
4.4. Comparação das Influências das Práticas e das Ferramentas de
Gestão do Conhecimento na Eficácia Organizacional
Após a exposição das práticas e ferramentas de gestão do conhecimento, bem
como dos indicadores de eficácia organizacional mais verificados na pesquisa de campo, o estudo
efetuado elabora um comparativo da influência das práticas e da influência das ferramentas
na eficácia organizacional das empresas.
Para validação dos
resultados encontrados, duas estatísticas foram efetuadas (peso fatorial e t de student) de modo a
comprovar a influência das práticas de gestão do conhecimento e das ferramentas de
tecnologia da informação e comunicação na eficácia organizacional das
empresas analisadas na pesquisa de campo.
Tanto as práticas de gestão do conhecimento (com peso fatorial 0,375), quanto as ferramentas de
tecnologia de informação e comunicação (com peso fatorial 0,220) apresentaram
valores estatisticamente significativos. Assim sendo, ambas as variáveis influenciam na eficácia
organizacional das empresas analisadas. Não obstante, cabe ressaltar que as práticas de
gestão do conhecimento têm maior influência na eficácia organizacional do que as
ferramentas de tecnologia da informação e comunicação.
Em relação ao teste t de student, também as práticas de gestão do
conhecimento (4,838) e as ferramentas de tecnologia de informação e comunicação
(2,242) apresentaram valores estatisticamente significativos. Ou seja, as duas variáveis influenciam na
eficácia organizacional das empresas analisadas. Deve-se evidenciar que, novamente, as práticas
de gestão do conhecimento têm maior influência na eficácia organizacional do que as
ferramentas de tecnologia da informação e comunicação.
5. Considerações Finais
Em determinadas indústrias que têm seu negócio alicerçado na criatividade e
inovação, a oferta de produtos e serviços que satisfaçam seus clientes é o
fator de sucesso corporativo, pois pode estabelecer diferenciais competitivos de longo prazo. É o caso
específico da indústria de software, que continuamente busca tornar-se cada vez mais eficaz por
meio da gestão de um recurso fundamental à evolução do negócio software em
si, o conhecimento.
Por sua vez, a gestão do conhecimento baseia-se em práticas e processos estruturados que visam
melhor gerir o recurso conhecimento. Associadas às práticas, também verificam-se
ferramentas de tecnologia da informação e comunicação que viabilizam os processos
de gestão do conhecimento. A partir dos desafios impostos às empresas por esse novo contexto
corporativo, o presente estudo buscou verificar e apontar se as práticas e as ferramentas voltadas
à gestão do conhecimento influenciam a eficácia organizacional dessas empresas da
indústria de software do Brasil.
As 46 práticas de gestão do conhecimento estudadas foram segregadas em cinco diferentes
dimensões. A partir da pesquisa de campo, as dimensões se dispuseram da seguinte maneira:
dimensão estratégia, dimensão tecnologia, dimensão estrutura, dimensão
pessoas/cultura organizacional e, por fim, dimensão processos.
Já em relação às 38 ferramentas de tecnologia da informação e
comunicação empregadas na gestão do conhecimento das empresas pesquisadas, as seis
diferentes dimensões analisadas se distribuíram conforme segue: dimensão
inteligência artificial, dimensão criação de conteúdo, dimensão
tecnologias de rede, dimensão comunicação e tecnologias colaborativas, dimensão
gestão de conteúdo e, em último lugar, dimensão e-learning.
No que se refere aos 15 fatores de eficácia organizacional analisados junto às empresas
prospectadas, obteve-se o seguinte resultado quanto aos mais impactados: produtividade, eficiência,
lucro/rentabilidade e desenvolvimento/crescimento. Já os fatores de eficácia menos
impactados foram: moral, absentismo e rotatividade.
Por fim, a pesquisa de campo pôde verificar a influência das práticas e ferramentas
voltadas à gestão do conhecimento encontradas nos indicadores de eficácia organizacional
estudados. Um resultado importante a ser frisado é que tanto as práticas quanto as ferramentas
voltadas à gestão do conhecimento influenciam na eficácia organizacional da empresa,
segundo os respondentes da pesquisa. Entretanto, observou-se que as práticas de gestão do
conhecimento têm maior influência na eficácia organizacional do que as ferramentas de
tecnologia da informação e comunicação voltadas a essa finalidade. Ou seja, as
práticas de gestão do conhecimento contribuem de forma mais direta para a eficácia
organizacional, conforme a opinião dos indivíduos pesquisados.
Assim, o estudo ora apresentado sinaliza para a real possibilidade da gestão do conhecimento, por meio
de suas práticas e ferramentas específicas, contribuir para a eficácia organizacional da
empresa. Tal assertiva pode estabelecer um novo olhar das empresas para com a gestão do conhecimento,
passando a observá-la como um instrumento viabilizador de melhores resultados para as
organizações. Ou seja, as organizações devem tratar o conhecimento efetivamente
como um recurso e, a partir dessa premissa, devem estabelecer a gestão desse conhecimento de forma a
incrementar a eficácia organizacional.
Uma vez que a amostra da pesquisa de campo não tem caráter probabilístico, o estudo
apresenta como limitação a impossibilidade de extensão dos resultados encontrados a todas
as empresas da indústria de software. Não obstante, sob o aspecto pragmático da
gestão do conhecimento nas empresas, os resultados ora expostos podem ser considerados como indicativos
aos gestores corporativos. Já sob o enfoque acadêmico, o presente estudo pode subsidiar futuras
pesquisas extensivas ou complementares a esta, visando assim a evolução da compreensão da
gestão do conhecimento nas empresas, notadamente em relação às influências
desta no desempenho do negócio como um todo.
6. Referências
Agnihotri, R. A.; Troutt, M. D. (2009); “The effective use of technology in personal knowledge
management: a framework of skills, tools and user context”, Online Information Review, 33(2),
329-342.
Altschuld, J.; Zheng, H. (1995); “Assessing the effectiveness of research organizations: an examination
of multiple approaches”, Evaluation Review, 19(2), 197-216.
Andone, I. I. (2009); “Measuring the performance of corporate knowledge management
systems”.Informatica Economicã, 13(4), 24-31.
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