1. Introdução
O desenvolvimento das práticas produtivas na agricultura mundial deu-se com a revolução
produtiva da década de 50. Desde então, com seu desenvolvimento o agronegócio se tornou
setor de relevante importância, pois o mesmo concentra entre seus agentes variáveis
estratégicas para alguns setores da economia.
A uva nos últimos anos consolidou-se como uma fruta de importância econômica para o
Brasil, e conseqüentemente para o estado de São Paulo, que é o segundo maior produtor de
uvas do país. Em 2008, de acordo com dados do IBGE, São Paulo produziu 193,5 mil toneladas de
uvas, perdendo somente para o Rio Grande do Sul com uma produção de 776,9 mil toneladas. De 2000
a 2008, esta fruta mostrou um incremento no valor da produção, de $ 54 milhões para $
171,5 milhões de dólares, apresentando um crescimento de cerca 315% em 8 anos. A cadeia
produtiva da uva fina contribuiu para as exportações brasileiras, em 2008, com uma
participação financeira de aproximadamente 28% do total das frutas exportadas no Brasil, (IBRAF,
2009).
A aplicação do arcabouço teórico da Economia dos Custos de
Transação (ECT) em conjunto com a Nova Economia das Instituições (NEI) Está
confuso...), permite avaliar a competitividade sistemas produtivos, por meio de aspectos relacionados
às transações existentes nos mesmos. A governança de um Sistema Agroindustrial
pode variar de acordo com o produto em análise, com as estratégias individuais de relacionamento
entre os atores econômicos, as mudanças do ambiente institucional, às
características das transações dentre outros fatores. A minimização dos
custos de transação é o vetor que orienta a escolha do mecanismo de governança
mais apropriado, tornando o custo da transação e suas especificidades à unidade de
análise prioritária de um sistema produtivo.
Considerando a produção vitícola na região noroeste de São Paulo, a
questão proposta para este trabalho é: as instituições presentes facilitam as
transações entre os produtores e os atacadistas? Para responder a essa pergunta a pesquisa, tem
como objetivo identificar como as relações entre produtores e atacadistas podem afetar as
transações, sob a ótica da ECT e da NEI.
2. Metodologia
A orientação metodológica adotada para este estudo é o da pesquisa indutiva com
emprego da abordagem qualitativa, mediante utilização de pesquisa documental e pesquisa de
campo. Os dados foram coletados de forma direta e indireta, desenvolvendo-se o levantamento secundário
com o auxílio de pesquisa de caráter documental e bibliográfica e o levantamento
primário mediante a aplicação de questionário (VIEIRA, ZOUAIN, 2004; BRYMAN, 1989;
VERGARA, 2006). As entrevistas foram realizadas, primeiramente, com agentes potenciais diretamente
envolvidos na dinâmica local do sistema produtivo da uva de mesa da região noroeste de São
Paulo, utilizando a observação para obter informações relevantes sobre o setor.
Foram entrevistados 50 produtores de uva da região noroeste de São Paulo, 7 atacadistas, 3
varejistas e as instituições (governamentais, financeiras e apoiadoras ) identificadas no sistema
produtivo.
2.1 Economia Institucional
As palavras crescimento e desenvolvimento econômico possuem diferentes significados ou são
sinônimas dependendo da vertente econômica que se usa para analisar algum fato ou fenômeno.
Para a vertente conhecida como mainstrean ou a teoria ortodoxa, crescimento e desenvolvimento
não possuem diferenças conceituais, ao passo que para a abordagem das instituições
há grande diferença entre ambas. Neste escopo é possível visualizar mais de uma
forma de crescimento dependendo do padrão de crescimento capitalista (CONCEIÇÃO, 2002).
As instituições atuam como ligação entre crescimento e desenvolvimento para que o
processo de crescimento seja duradouro e sustentado. O arranjo institucional é que permite a
ocorrência de mudanças estruturais importantes para a conformação de novas formas
de crescimento. Exemplificando, as instituições são importantes pois são elas que
facilitam ou promovem as inovações tecnológicas, a organização das firmas,
o processo de trabalho, as políticas macroeconômicas e o padrão de competitividade
(CONCEIÇÃO, 2002).
Ademais, as instituições de acordo com North (1994) surgem em determinado tempo e espaço
e sendo assim, tornam eixos centrais na escolha de estratégias das empresas as quais por sua vez afetam
nas expectativas e a tomada de decisão dos agentes. Isso aparentemente se parece com a
tradição neoclássica, mas na realidade, os institucionalistas não se baseiam no
agente maximizador e na busca contínua do equilíbrio ótimo.
A abordagem institucionalista possui pressupostos metodológicos básicos que se diferenciam do
mainstrean, quais sejam: a idéias do processo, da incorporação das
questões históricas que se chamam também de path dependence, destaque na
mudança institucional, ou seja, alterações tecnológicas, sociais e
econômica. Estes pressupostos são o que distingue a corrente institucionalista da
neoclássica.
Tendo em vista essa breve introdução a cerca da teoria institucionalista, a próxima
seção mostrará um dos principais teóricos existente dentro da corrente velho
institucionalista.
2.2 Abordagem Institucionalista de John Commons
John Commons é uma referência importante quando se trata de institucionalismo e, além
disso, de acordo com Conceição (2002) foi fundamental para o surgimento da Nova Economia
Institucional (NEI) que possui como expoente Douglas North.
No artigo Economía Institucional (2003) de Commons, consta o que é a economia
institucional e no que ele se baseia para montar a sua abordagem. Portanto, o que será exposto aqui
terá base neste texto dele.
Commons (2003) aponta a dificuldade de se definir o que são as instituições dentro do
escopo econômico. Dependendo do contexto, pode significar o marco legal, o comportamento dos agentes
econômicos, a ação do conjunto no lugar do indivíduo.

Figura 1 - Esquema teórico de Commons (2003)
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Commons
De acordo com a Figura 1, a definição de instituição para este teórico se
baseia na ação coletiva, ou seja, a ação que pode controlar, ampliar e liberar o
comportamento do agente. Essa ação coletiva considera os costumes, a família, a empresa,
associação comercial, o sindicato e o Estado.
A ação coletiva, ou seja, as instituições são regidas por um
princípio que é o controle, a liberação em maior ou menor grau do individuo
perante o coletivo. Conseqüentemente isso resulta em perda ou ganho para as partes envolvidas na
transação, isso na linguagem de Commons (2003) é o crédito e a dívida.
A propriedade incorpórea para este autor esta relacionada quando se transacionam direitos de
propriedade, por isso o uso das palavras divida e crédito. A primeira esta relacionada com algo que
deve ser cumprido, ao passo que a segunda é o direito originado da criação do dever.
Em outra direção, quando se trata da propriedade intangível, o foco esta no
comportamento dos agentes que podem ter suas ações limitadas como exemplificado na
relação empregado e empregador. Ambos têm liberdade de ação, mas a liberdade
de um pode ser a perda de outro. Isto quer dizer que, ambos apesar de serem livres podem ter suas
atuações limitadas. O empregador pode admitir ou demitir o empregado quando for conveniente e
este pode trabalhar ou não trabalhar. Dessa forma observa-se o princípio da ação
coletiva que pode controlar e ampliar a ação em maior ou menor grau.
As ações coletivas em alguns casos são mais eficientes que ações do Estado
conforme Commons (2003), como por exemplo uma empresa de investimentos, sindicatos, associação
patronal ou comercial. Isto acontece, pois, estas organizações, podem também criar regras
e tem mais facilidade ou agilidade para o cumprimento das normas estabelecidas.
Considera que o ponto principal da existência das organizações estabelecerem o que pode
ou o que não pode ser feito ou os direitos e os não diretos é o principio da escassez, da
eficiência e do que pode acontecer no futuro. Por isso, os comportamentos dos agentes precisam ser
regulados por regras que minimizem problemas nas transações.
A questão do comportamento dos indivíduos pode ser analisada por três grandes
áreas do conhecimento, quais sejam, a economia clássica, o direito e a economia institucional.
Commons (2003) afirma baseado em David Hume que o ponto em comum dessas áreas é o principio da
escassez e o conflito de interesses. A partir disso, Hume fala em ética dos negócios, que para
Commons foi o principio da abordagem institucionalista.
A ética da negociação abarca as questões do conflito de interesses, da escassez,
das regras de comportamento, as quais nascem em virtude do interesse associado a escassez. Dentro de cada
área, a sanção pode ser visualizada de uma forma, para o direito, os agentes estão
submetidos a penas, na economia, são as mesmas regras, mas as sanções são de cunho
econômico, ou seja, refletem nos lucros, e por fim para a economia institucional trata dos valores
relativos e da eficiência desses tipos de sanções.
Com relação as transações, Commons (2003) a divide em três grandes tipos,
as transações de negociação, de administração e de racionamento. Nas
palavras de Commons “los participantes en cada una de ellas son controlados y liberados por las
reglas de funcionamiento del tipo particular de interés moral, económico ou político en
cuestión” (COMMONS, 2003, p.6).
A transação de negociação é semelhante ao mecanismo de mercado de
organização da interação dos agentes, ou seja, os melhores vendedores e
compradores interagem. Neste tipo de transação há possibilidade de ter quatro tipos de
conflitos de interesse, são eles: competição, discriminação, poder
econômico e regras de funcionamento.
O primeiro conflito esta relacionado com a disputa entre compradores e compradores e vendedores e vendedores
e por isso, cabe aos tribunais definirem as regras dessa transação para que a torne menos
desleal.
O conflito do tipo discriminação esta ligado as oportunidades dos agentes de escolherem com
quem desejam transacionar, dessa forma, as instituições aparecem para elaborar regras para
coordenar a interação. Mas as regras podem ser razoáveis ou não para a
coletividade. Com relação ao poder econômico, ele ligado ao poder de barganha nas
negociações. E por fim, as regras de funcionamento, as quais podem ser tendenciosas e por isso
gerar conflito.
A transação denominada administração, é considerada por Commons (2003) as
que produzem riquezas. A relação ocorre por meio de uma hierarquia, na qual tem um superior e um
inferior e baseada na eficiência. Exemplo dessa transação é uma
transação entre um presidente de uma empresa com seu gerente, este deve obedecer as ordens de
seu superior para que não haja conflito.
O terceiro tipo de transação é denominado de racionamento e também apresenta-se
sob uma hierarquia. A relação também acontece entre duas partes, mas a diferença
esta no escopo do agente. Neste tipo de transação o agente superior é coletivo ao passo
que os inferiores são os indivíduos. Exemplos dessa transação são: o poder
legislativo de um país e decretos de ditaduras.
Associado a cada uma desses três tipos de transação, estão as dimensões das
mesmas, quais sejam: a atuação, a ilusão e a abstenção. A primeira é
a capacidade que um agente tem de influenciar sobre outro ou sobre a natureza, a segunda esta relacionada com
a percepção dos indivíduos, “la elusión es su ejercicio en una
dirección y no en la seguinete dirección disponible”(COMMONS, 2003, p.8). Por fim,
a abstenção “es el ejercicio, no del poder total - excepto en una crisis- sino de um
grado limitado del posible poder moral, físico o económico personal”(COMMONS, 2003,
p.8). De maneira geral, a atuação é a atuação real ao passo que a
ilusão é a atuação alternativa que pode ser evitada ou não.
Associada as dimensões das transações, estão os tipos de relações
sociais implícitas nas ações dos indivíduos. Elas podem ser de três tipos,
conforme Commons (2003): relações de conflito, de dependência e de ordem.
As relações de conflito tem origem no conceito de escassez pois os indivíduos movidos
pelo seu interesse agem de forma a maximizá-lo. Espera-se dos agentes que comportem-se fazendo trocas
de direitos de propriedade sem que haja perdas para alguma das partes. Mas em função do
interesse e da escassez o equilíbrio pode não ocorrer como se espera.
As relações de dependência e de ordem se baseiam nos princípios de escassez,
eficiência, visão de futuro, mas ligados também com conceitos que regulam a
ação coletiva que ao mesmo tempo libera e controla o comportamento. As partes envolvidas em uma
transação, o que por sua vez pode ser um conflito de interesses, dependem umas das outras para a
transferência de propriedade ou de consumo.
Dessa forma, as regras de funcionamento não são harmoniosas conforme as hipóteses do
direito natural e do equilíbrio mecânico das escolas clássicas. Então, é a
partir do conflito de interesses que se criam as regras (COMMONS, 2003).
Commons (2003) diz que a economia institucional não se separa da escola clássica, e sim foca no
futuro, ou seja, a teoria não estuda a produção das mercadorias ou o controle
físico das mesmas, e sim o controle legal das mercadorias e do trabalho.
2.3 Teoria dos Custos de Transação
A economia dos custos de transação (ECT) estuda como parceiros em uma transação
protegem-se dos riscos associados às relações de troca (AZEVEDO, 1996). A
redução dos riscos implica a redução dos custos de transação.
Os custos de transação foram definidos como custos ex-ante de preparar, negociar e
salvaguardar um acordo, bem como os custos ex-post dos ajustamentos e adaptações quando
a execução de um contrato é afetada por falhas, erros, omissões e
alterações inesperadas. Em suma, são os custos de conduzir o sistema econômico
(WILLIAMSON, 1993, apud ZYLBERSZTAJN, 1995). Para Commons (2003), a unidade básica de
análise econômica entre diferentes agentes é a transação.
Com base nas teorias abordadas por Willamson os atributos das transações são organizados
em dimensões distintas: especificidades dos ativos, freqüência e incerteza. Devemos
identificar também os pressupostos comportamentais, pois afetam de forma direta e indireta os custos
transacionais.
Ativos específicos, em uma transação, não podem ser usados de forma alternativa
aquela para tal finalidade foi desenvolvidos, a não ser com perdas de valor (Azevedo, 1996). Assim, os
riscos relacionados à este investimento, aliado a pressupostos como, oportunismo e incompletude
contratual, geram sensíveis custos de transação.
Assim, quanto maior o investimento em ativos específicos envolvido em uma transação,
maiores seriam os riscos e os problemas de adaptação, ou seja, relevantes custos de
transação. Para Williamson (1985), a existência ou não de salva-guardas
contratuais, os pressupostos comportamentais (racionalidade limitada e oportunismo) e a incerteza de
continuidade da relação deve ser analisada frente a este atributo. Com isto, à
especificidade do ativo como atributo relevante para a análise da transação só faz
sentido em conjunto com os pressupostos comportamentais e na presença de incerteza.
Na literatura, um dos aspectos relevantes para análise da incerteza é o informacional. A
assimetria apresenta a falta de reconhecimento de quais informações são relevantes para o
desenho de um contrato como fatores geradores de incertezas (AZEVEDO, 1996).
A freqüência torna-se um atributo a ser analisado na escolha de uma transação, pois
a repetição de uma espécie de transação é um dos elementos
relevantes para se determinar a estrutura de governança adequada para atomização dos
custos. Williamson (1985) utiliza duas classificações para determinar como se comporta a
freqüência em uma transação, sendo, recorrentes ou ocasionais e desenvolve modelos de
governança combinando a especificidade do ativo e a freqüência.
A compreensão da ECT passa pela aceitação dos pressupostos comportamentais,
racionalidade limitada e oportunismo. Pode-se afirmar que o ponto de partida para a existência de custos
de transação é o reconhecimento de que os agentes econômicos são racionais
– porém limitadamente – e oportunistas.
A racionalidade limitada, para Williamson (1996) entende-se como um comportamento com o qual os
indivíduos não conseguem desenvolver de forma plena a sua capacidade cognitiva, deixando a
desejar em algumas situações por essa limitação. Ou seja, a racionalidade limitada
refere-se ao comportamento que pretende ser racional, mas consegue sê-lo apenas de forma limitada devido
à condição de competência cognitiva limitada de receber, estocar, recuperar e
processar a informação. Todos os contratos complexos são inevitavelmente incompletos
devido à racionalidade limitada
O oportunismo pode ser definido como a busca do auto-interesse com avidez (WILLIAMSON, 1985). De forma
genérica, oportunismo relaciona-se com a informação, quer seja sobre a sua
disponibilidade, quer seja pelo seu formato (a informação pode ser distorcida ou não).
Assim, oportunismo e assimetria informacional caminham juntos.
A Figura 2 traz a forma com a qual estas variáveis se inter-relacionam de modo a induzir formas de
governança que viabilizem a redução de custos de transação. Desta forma, as
características básicas da transação determinam um formato contratual que, sob um
determinado ambiente institucional e comportamento dos agentes, induz a estrutura de governança mais
apropriada.

Figura 2 Esquema da Indução das Formas de
Governança
Fonte: Zylbersztajn, 1995.
3. Análise e discussão dos Dados
Com a realização das pesquisa, identificou-se que o sistema produtivo da uva de mesa da
região noroeste de SP possui cerca de 943 hectares de uva platandos, distribuidos em 22 municipios onde
as cidades de Jales, Urania e Palmeira do Oeste concentram as maiores áreas destinadas a viticultura da
região de noroeste de SP.
Os produtores entrevistados relatam que as informações referentes às tecnicas de
produção da uva de mesa foram adquiridas por meio do relacionamento com seus vizinhos
(produtores das redondezas) em cerca de 90% das vezes.
Para os produtores presentes no sistema produtivo da uva de mesa da região do noroeste SP, a uva
representa cerca de 55% de sua renda, mostrando relevante importância da atividade para o sustento de
suas familias.
Em se tratando da mão-de-obra na viticultura da região noroeste de SP, esta pode ser
caracterizada como familiar seja ela desenvolvida pelo proprietário da terra, ou ainda pelo
“meeiro”, modalidade de parceria muito freqüente na região, que também utiliza
sua família como fonte de mão-de-obra (SOUZA at all, 2009).
Estas familias que se dedicam ao cultivo da uva habitam a região, em média, há 37 anos e
a grande marioria , aproximadamente 80% das familias, é oriunda da região de Jales ou do
noroeste paulista.
A pesquisa identificou que dos produtores inseridos na viticultura, 97% encontram-se na atividade a há
mais de 10 anos, corroborando para a idéia de que existe uma tradição regional para a
realização da atividade e que os produtores inseridos na atividade possuem relevante
experiência no trato com a uva, em virtude de seu tempo na atividade. Tal fato pode sugerir
relações de reciprocidade este estes agentes no sentido da consolidação do
desenvolvimento da atividade.
No que se refere ao nível de educação formal, medido neste estudo pelo grau de
escolaridade, verifica-se que aproximadamente 70% dos produtores possuem o primeiro grau completo e 27%
possuem o segundo grau completo. Nesta direção Andrietta (2004) constata, também, que o
grau de escolaridade dos trabalhadores rurais da fruticultura do Estado de São Paulo é o ensino
fundamental e, para Arruda et all, (2005) este fator teria pouca influência na produtividade da
atividade, uma vez que as atividades realizadas são simples, mas exigindo alto grau de
especialização. A Figura 3 mostra o grau de escolaridade dos produtores de uva da região
noroeste de SP.

Figura 3 Nível de escolaridade dos produtores de uva da
região noroeste de SP
Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados da pesquisa de campo.
Do ponto de vista da governança do sistema, o baixo nível de escolaridade dos produtores pode
implicar em um aumento do grau de incerteza nas transações, uma vez que os agentes poderiam ter
mais dificuldades na análise das informações disponíveis sobre a
transação (SOUZA, 2009).
Os atacadistas que transacionam com os produtores da região noroeste de São Paulo estão
situados em sua maioria na CEAGESP (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) que
desde 1969 é referência nacional no abastecimento de alimentos. Estes atacadistas estão em
média, 20 anos na atividade. Os atacadistas trabalham com um numero expressivo de produtores de todas
as regiões produtivas de uva do país. Em virtude de trabalharem com uma grande variedade de
frutas e de fornecedores de uva de várias regiões do país, não foi identificado
à existência de algum tipo de “dependência produtiva” por parte dos
atacadistas, para com produtores da região. A pesquisa identificou que a uva de mesa representa de 3% a
5% do faturamento desta empresas, exceto nos meses de dezembro e janeiro onde a demanda aumenta impulsionada
pelas festas de fim de ano.
Na região foi identificada e figura do “mateiro”, que possui a função de
fazer a intermediação da comercialização entre produtores e atacadistas, o mesmo
possui vínculo com atacadistas com o intuito de buscar qualidade e as quantidades necessárias
para a realização da transação, além de manter um relacionamento de
proximidade com o produtor.
A pesquisa buscou aprofundamento na transação entre produtor e atacadista/CEAGESP em virtude de
sua relevancia para o sistema produtivo, pois cerca de 70% das transações que envolvem estes
respectivos agentes.
O produto transacionado é a uva de mesa fina in natura, que é vendida em grandes
quantidades, em caixas retornáveis, plásticas ou de madeira, embaladas em caixas de
papelão ou em cumbucas, que armazenam 5 kg de uva.
Na busca pela identificação dos atributos relevantes que servem de incentivo para a
ocorrência da transação, pode-se observar que para a realização da
transação um dos atributos colocados como importante é a confiança entre os atores
envolvidos na transação, em virtude de várias perdas ocasionadas pelo não
cumprimento de compromissos firmados. A qualidade do produto aparece em segundo lugar, seguido pelo
preço e pelo prazo de entrega.
Quando analisados os aspectos que se referem à qualidade da uva transacionada, foram identificados os
mesmos atributos em quase todas as transações. Segundo os entrevistados as bagas devem possuir
um tamanho padrão e uniforme, doçura ou grau brix que informa o teor de
açúcar da uva. Para a identificação destes atributos, tanto produtores pequenos
como os de maior tamanho, não são utilizados equipamentos, a avaliação é
feita com base em suas experiências.
Quanto ao agente coordenador das transações, o atacadista/CEAGESP é quem define o
preço a ser pago pela uva transacionada. Os produtores entregam seu produto sem saber quanto vai ser
pago e em alguns casos quando o pagamento referente a esta transação será efetuado. Os
atacadistas/CEAGESP detém as informações sobre o preço final pago pela uva, as
perdas com transporte e as referentes a comercialização.
Não existem contratos formais assegurando a transação. E por meio da pesquisa podemos
perceber que não existem indícios de que se pretenda elaborar contratos para reger tais
transações, o que confere relevante instabilidade na transação.
Na ECT, as especificidades dos ativos são variáveis importantes a serem estudadas em uma
transação. Ao identificar as categorias de especificidade de ativos existentes nas
transações, quando analisada sobe ponto de vista dos produtores, existem especificidades de
ativos físicos, de lugar, de marca, de ativos humanos e especificidade temporal. A Firura 4, apresenta
a especificidade dos ativos na transação.

Figura 4 Especificidades dos ativos envolvidos na
transação
Fonte: elaborado pelo autor com base na pesquisa de campo.
Pode-se observar, na Figura 4, que as especificidades temporais e de lugar são as que tem a maior
representatividade no sistema produtivo da uva de mesa da região noroeste de SP. Estas especificidades
são importantes em virtude da uva ser um produto com um prazo curto para sua
comercialização e em virtude da dificuldade do produtor em transacionar seu produto fora de sua
propriedade.
A especificidade de ativos humanos está presente, mesmo com o baixo nível de
formação educacional podemos perceber que a força de trabalho relacionada a viticultura
da região possuem relevante aprendizado referente ao manejo da uva, que em muitos casos foi adquirido
de seus familiares, e existem cada vez menos parceiros dispostos a executar a tarefa, pois os mesmos devem
absorver os riscos juntamente com o produtor (SOUZA, 2009).
A espeficificidade dos ativos quando analisada sobe o ponto de vista dos atacadistas/CEAGESP, foi
identificada apenas em seu aspecto temporal, pois em determinado período do ano a região
noroeste de SP é a unica que apresenta relevante produção de uva de mesa.
Quanto à freqüência da transação pode-se verificar que a as
transações entre os agentes é recorrente e baseadas em relações de
confiança e fidelidade na transação. Os agentes tendem a manter relações
comerciais constantes, este comportamento pode ser visto com proteção a possíveis
“calotes”, pois com o tempo os agentes tendem a se sentir inibidos de ter um comportamento que
afete sua reputação.
Para a transação, foram constatadas a presença de incertezas na análise, estas
apresentam-se apenas, de forma relevante, para os produtores. Isso pode ser explicado em virtude dos
produtores possuírem poucas informações referentes as transações nos demais
elos do sistema produtivo e não serem estipulados preços e prazos no ato da
transação, sendo a entrega do produto realizada sem garantias formais aos produtores. (este
é um problema que afeta todas as commodities; a capacidade de formar preços depende da
habilidade em diferenciar o produto, o que alteraria as características das transações!)
A pesquisa identificou a existência de uma cooperativa de produtores na região, da qual um
reduzido número de produtores participa. Quanto a sua função para com seus cooperados,
enquanto alguns produtores consideram tal Instituição importante na intermediação
das transações, a maioria dos produtores acredita que a mesma não cumpre seu papel.
Não foi identificada nenhuma parceria formal entre cooperativa e produtores para a
comercialização da produção.
Em geral, os produtores da região noroeste paulista vendem toda sua produção no Estado
de São Paulo. Grande parte desta produção é direcionada ao CEAGESP, a partir do
qual é direcionada para outras regiões do Brasil.
4. Considerações Finais
A análise dos dados demostra que a viticultura contribui de forma relevante para a economia da
região pesquisada, por representar para o pequeno produtor rural uma alternativa de
ocupação e geração de renda.
A pesquisa constatou que a estrutura de governança utilizada no sistema produtivo é hibrida,
com garantias fracas, pois foi identificado relevante nível de risco, notado apenas pela ótica
dos produtores. Além do risco, a especificidade do ativo também tem maior relevância para
o produtor que para o atacadista, já que a uva vendida é padrão e não possui
nenhum diferencial se comparada com outras uvas. Porém, mesmo neste cenário, não foram
identificados contratos para a uva transacionada na região.
As garantias da transação são representadas, em alguns casos, no relacionamento entre
produtor e “mateiros”(representates dos atacadistas presentes na região). Outro fator que
corrobora para a inibição do comportamento oportunístico do atacadista é a
frequência da transação, pois grande parte dos produtores presentes no sistema produtivo
transacionam com o mesmo grupo de atacadistas a mais de uma década.
A não utilização de contratos formais na realização das
transações leva o sistema produtivo a necessitar de um ambiente institucional bem estruturado e
que de forma sustentável tente prover mecanismos que salvaguardem estas transações como
para prover subsídios para que os produtores possam desenvolver competências no intuito de
diminuir o impacto da racionalidade limitada e diminuir os custos associados a transação.
As instituições presentes na região de noroeste de SP podem ser agrupadas em três
categorias que são: fomento, ensino e pesquisa e governamentais. As instituições de
fomento referem-se aos Bancos Nossa Caixa e Banco do Brasil, que trabalham na região com as linhas de
crédito concedidas pelo FEAP e PRONAF, respectivamente. Essas instituições estimulam a
produção da fruta na região com as linhas de financiamentos disponíveis para
investimento, custeio, cota-parte e comercialização, sendo o Pronaf Banco do Brasil mais
utilizado.
As instituições que fazem parte do grupo instituições de ensino e pesquisa
são: Embrapa Uva e Vinho, Escola Agrícola de Jales, Fatec - Jales, Unesp - Ilha Solteira. Esse
grupo tem apresentado maiores resultados no desenvolvimento de tecnologias de produção, ou seja,
cultivares sem sementes, adaptações ao clima, técnicas de manejo, bem como o controle de
pragas com destaque para a Embrapa e Unesp-Ilha Solteira.
Entre as instituições governamentais estão: Secretaria Municipal de Agricultura e
Abastecimento, CATI, SENAR, SEBRAE, CEAGESP, Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento. Esse grupo de instituições presta apoio e incentivos ao desenvolvimento rural da
região, entre as quais se pode mencionar a viticultura.
A CATI, do grupo instituições governamentais, disponibiliza agrônomos com a
função de visitar os produtores e ajudá-los no aspecto técnico da
produção para que melhorem a produtividade. Mas existe um conflito entre o que os
agrônomos indicam como melhor prática e o costume que prevalece no modo de produzir.
O receio dos produtores em relação ao crédito e à atuação dos
agrônomos da CATI converge com a teoria de Commons (2003) quando se fala da ação coletiva
e das preferências individuais como instituição informal que limita a própria
ação do produtor.
Apesar deste panorama aparentemente positivo para a produção de uva de mesa na região de
noroeste de SP em virtude da existência de diversas instituições, as entrevistas mostraram
que existe um espaço vago entre as ações das instituições e os produtores,
principalmente dos viticultores, o que dificulta a promoção da atividade viticola, levando os
mesmos a exibir insegurança com relação à continuidade de suas atividades.
De modo geral, a política para a região produtora de uva de mesa deveria estimular a
governança local privada e pública, com iniciativas coletivas dos protagonistas locais
direcionadas a injetar no sistema formas mais avançadas de capacitação técnica e o
elemento tecnológico como estratégia competitiva. Aliada a isso, a disseminação de
informações para os produtores quanto às formas produtivas e políticas
disponíveis nas instituições que os cercam.
Conforme Commons (2003) ações do Estado podem não ser tão eficientes quanto de
empresas. Aplicando essa idéia na produção de uva de mesa da região noroeste de
SP, depreende-se que, o Estado já esta presente na região representado pelas
instituições descritas. Se faz necessário uma instituição oriunda dos
produtores para coordenar a atividade, como é o caso da Cooperativa Agrícola Mista dos
Produtores da Região de Jales Ltda, mas que se encontra enfraquecida financeiramente e perdeu
credibilidade entre os produtores da região.
Estudos relatam a dificuldade de união dos produtores e que isso compromete a atividade. Silva et
all (2008) estudando a produção de uva em Jundiaí, fala da necessidade de
incentivar e fortalecer a cooperação entre os produtores e as organizações locais
para promover a viticultura.
Corroborando com o trabalho de Silva et all (2008b) notou-se que os produtores da região
não são dispostos a trabalhar de forma associada ou cooperada apesar de reconhecerem as
melhorias que podem ser proporcionadas principalmente no que diz respeito aos preços de insumos que
poderiam ser menores caso fosse adotado a compra em conjunto. Neste sentido, a ação das empresas
inovadoras não é disseminada e os efeitos da aglomeração são incipientes.
E para que haja uma ligação eficiente na troca de informações, a cooperativa
poderia ter estreitas relações com a CATI, pois tem mais facilidade de acesso as outras
instituições vinculadas a produção. Dessa forma, o centro institucional da
região seria formado pela CATI e Cooperativa, de tal forma que essa dupla seja mais eficiente para
trocar informações entre si e repassá-las aos produtores.
Bibliografia
AZEVEDO, P.F., Integração Vertical e Barganha. Tese (Doutorado em Economia) -
Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade. São
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