1. Introdução
Diferentes sistemas capitalistas criam ambientes institucionais divergentes, afetando as estratégias
organizacionais na produção, inovação, na cooperação com outras
empresas e nas relações com os públicos interno e externo. Da mesma forma as
estratégias relacionadas a ações socioambientais têm sofrido
variações entre os sistemas político-econômicos. Embora o surgimento do tema no
meio empresarial date do período industrial, pode-se afirmar que a Responsabilidade Social Corporativa
na sua forma atual esteja associada à globalização econômica, com o fim
último de garantir o equilíbrio entre os benefícios financeiros e os custos sociais da
abertura de mercado (GJÖLBERG, 2009).
As exigências internas dominadas pela especulação e manipulação financeira
que reforçam a competitividade, a flexibilidade e a informatização das
organizações se debatem com pressões externas e reivindicações sociais,
jurídicas, ambientais, sindicais cada vez mais intensas, que afloram a discussão das
consequências nocivas à população, forçando as empresas a considerarem em
sua gestão e em seus discursos as demandas sociais (GAULEJAC, 2007). A observância das
questões socioambientais tornar-se-ia fonte de vantagem competitiva a partir da compreensão de
que a redução do consumo advogado pelo ambientalismo inicial poderia ser substituída pela
transformação dos padrões de consumo, com a criação do “consumidor
verde” (PORTILHO, 2005; SCHIFFMAN & KANUK, 2000).
A ampliação da visão de que a consciência nas escolhas individuais de consumo pode
gerar consequências positivas e negativas no bem-estar coletivo também tem contribuído
para o debate das estratégias socialmente responsáveis das corporações. Esse
entendimento decorre do interesse dos consumidores nas questões sociais e ecológicas, compondo o
contexto das relações de troca da nova ordem econômica (ROMEIRO, 2006).
Diante desses desafios o marketing se transformou para ampliar sua aplicação em trocas
intangíveis com o Marketing Social e incorporou a orientação Societal, sob a
preocupação com as implicações das atividades organizacionais para o consumidor e
a sociedade no longo prazo (KOTLER & ARMSTRONG, 2003).
Percebe-se que visibilidade da preocupação social cria um impasse para diferentes atores. Para
o Estado, formular políticas públicas ou legislação que regule o processo de troca
entre consumidores e corporações e fiscalizar a atuação das empresas e do Terceiro
Setor adeptos de questões sócio-ambientais. Para as empresas garantir a satisfação
imediata de necessidades e desejos dos consumidores ou investir em estratégias de marketing que
favoreçam as demandas sociais no longo prazo (MAIGNAN & FERRELL, 2004; VAALAND, HEIDE &
GRONHAUG, 2008). Se por um lado a atuação de marketing na área social enfrenta desafios
devido à sua origem de mercado de suas metodologias e técnicas, por outro se instala o conflito
do indivíduo (consumidor) ou agente transformador e comprometido (cidadão) que exige das
empresas ética, transparência e responsabilidade com o público (AUTIO et al.,
2009; BHATTACHARYA & SEN, 2004; BEKIN et al., 2007; PORTILHO, 2005; ROMEIRO, 2006; SERPA &
FOURNEAU, 2007; SZMIGIN et al., 2009).
Questões como essas têm influenciado o desenvolvimento do marketing para um esforço
integrado de prover benefícios ao consumidor pela escolha de um produto ou serviço e
lucratividade às organizações, em conjunto com posturas mais conscientes enquanto se
dissemina valores de produção, compra, consumo e descarte adequados ao bem estar de todos ao
longo do tempo (VAALAND, HEIDE & GRONHAUG, 2008).
Assim, resgatar e esclarecer as abordagens sociais no marketing e a partir de uma perspectiva crítica
identificar as dimensões materialmente condicionantes pelas quais se manifestam, implica na
reflexão sobre o discurso e a prática dos consumidores nesse contexto. O levantamento dessas
considerações motiva este trabalho, cujo objetivo é identificar padrões de consumo
e atitudes sócio-ambientalmente responsáveis dos consumidores da cidade de
Divinópolis/MG, Brasil, bem como verificar os elementos determinantes desses padrões.
2. Referencial Teórico
2.1 Evolução da Questão Social em Marketing
O resgate da evolução dos conceitos de marketing com enfoque às novas
características e conteúdo em diferentes aplicações teóricas permite
explicar a origem do interesse com questões sociais e ecológicas norteadoras deste estudo.
Entre as inúmeras definições propostas para o tema, segundo Kotler e Keller (2006, p. 4)
o Marketing consiste na
identificação e satisfação das necessidades humanas e sociais, (...)
é um processo social pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam
por meio da criação, da oferta e da livre troca de produtos e serviços de valor com
os outros.
De acordo com a American Marketing Association (AMA, 2007) é “a atividade, o conjunto
de instituições e processos de criação, comunicação, entrega e troca
de ofertas que têm valor para os consumidores, clientes, parceiros e sociedade em geral”. A AMA
oferece um quadro de desenvolvimento que reconhece o marketing contemporâneo como um processo social e
societal, com foco nas necessidades do consumidor como uma forma de criação de valor e de troca
(DANN, 2010).
O Chartered Institute of Marketers (CIM, 2005) concebe marketing como “o processo de
gestão responsável pela identificação, antecipação e
satisfação das necessidades do cliente rentável”. Na visão de Dann (2010), o
instituto britânico tem sido influente no desenvolvimento da disciplina no quadro social, tendo como
requisito fundamental que as intervenções devem começar com o consumidor-alvo, sem
desprezar os mecanismos que asseguram a sobrevivência da organização no longo prazo.
No âmbito da administração de marketing, as necessidades eram inicialmente satisfeitas
por meio da troca de algo de valor, de forma que a eficácia da atividade dependia do mercado transmitir
informações sobre seus desejos e necessidades (GABRIEL & LANG, 2008). Na sequência, as
técnicas mercadológicas se ampliaram, bem como a preocupação empresarial com
diversas partes interessadas, visão menos funcional e mais interativa entre os setores e atores da
empresa, explorada pela abordagem européia (VAALAND, HEIDE & GRONHAUG, 2008).
O conceito de marketing relativo a um conjunto de estratégias para a comercialização de
bens e serviços estendeu-se a outras fronteiras a partir de 1969 com o artigo de Kotler e Levy
intitulado Broadening the Concept of Marketing, aplicando-se a diferentes atividades de troca de
organizações sem fins lucrativos, entidades públicas e representantes dos interesses da
sociedade (ROMEIRO, 2006). A concepção dominante da teoria em marketing como sinônimo de
decepção, exploração e motor impulsionador do consumo excessivo e do materialismo
passou a incluir ideias e práticas apoiadas pela natureza das relações humanas,
importância das redes e valor do cliente (HASTINGS & SAREN, 2003; VAALAND, HEIDE & GRONHAUG,
2008).
Conforme Hastings & Saren (2003), a resistência à abrangência do construto na
década de 60 era liderada pelos apologistas com o objetivo de manter a comercialização
bem definida dentro da empresa, enquanto os reconstrucionistas tentavam ampliar o foco (macromarketing). Esses
autores assim delinearam as três vertentes do pensamento em marketing sob a perspectiva de Arnold &
Fischer (1996): (i) os apologistas carregam o tradicionalismo do marketing, resguardando seu domínio
limitado à empresa, ao crescimento da economia; (ii) os profissionais de marketing social buscam
transformar o poder do marketing para o bem social; (iii) os reconstrucionistas são críticos do
conceito, dos processos de marketing e dos seus resultados.
Nos anos 70 propagavam-se discussões teóricas muito importantes na perspectiva do consumidor,
com a abordagem da “satisfação”. Desde então, a atenção dos
profissionais e acadêmicos do campo volta-se para o combate da valorização do consumo de
forma espúria, que provocam reações negativas às ações
mercadológicas. Além disso, as corporações têm se empenhado em demonstrar
à população que objetivos econômicos e de vendas não antecipam a premissa de
satisfação do consumidor e promoção do bem-estar coletivo. A adoção
de ideias e práticas dessa natureza evita o descrédito dos consumidores sob a
percepção de que as organizações lucrativas empregam estratégias de
marketing para criar hábitos e não para melhorar a condição de vida humana
(BHATTACHARYA & SEN, 2004). É o ponto de partida para esclarecer a preocupação
socioambiental da iniciativa privada, a distinção do que realmente é necessário e
benéfico socialmente, a tomada de decisões conscientes de consumo e a lida de consumidores e
corporações com a acirrada competição de mercado.
2.2 Marketing Social Corporativo
As empresas começam a repensar seus processos de gestão e seus valores quando identificam que a
oferta de bens e serviços é insuficiente para atender as necessidades humanas diante dos
problemas que afetam a sociedade. Propõe-se uma nova forma de marketing, em que os esforços
corporativos resultem de um planejamento socioambiental complexo e contínuo, com previsão de
retorno para todos os envolvidos (ADKINS, 2005).
O cerne das iniciativas de marketing social está nas organizações estatais, introduzido
na academia em 1971, por Kotler e Zaltman, para a promoção de causa, ideia ou comportamento sob
o uso do arcabouço teórico de marketing comercial (ANDREASEN, 2003, PEATTIE & PEATTIE,
2003).
Marketing social engloba interações horizontais que envolvem “produtos”
intangíveis para estimular atitudes e comportamentos humanos novos e duradouros, tendo como
característica central a troca voluntária, que não deve ser consumada em termos
monetários, mas na mudança de valores e comportamentos, podendo-se utilizar seus mecanismos em
qualquer tipo de organização, pública ou privada, lucrativa ou não (ANDREASEN,
2003, DANN, 2010; KOTLER & ROBERTO, 1992; PEATTIE & PEATTIE, 2003; WOODS, 2007). O construto caminha
para a identificação coletiva das necessidades de mudança social via processos
dialógicos e livre negociação de comportamentos favoráveis ao bem-estar comum
(ANDREASEN, 2003; PEATTIE & PEATTIE, 2003).
O interesse de associação das organizações a causas de forma consistente e
planejada revelam uma ênfase em atividades sociais que beneficiem a sociedade e a si mesmas no longo
prazo, proposta do Marketing Social Corporativo ou Societal (ADKINS, 2005). As técnicas de pesquisa,
preferência e tendências, tornam-se importantes para obter informações detalhadas
sobre o mercado-alvo e a preocupação se direciona também para outros atores (KOTLER &
ARMSTRONG, 2003; MAIGNAN & FERRELL, 2004).
O marketing social corporativo pressupõe que “a organização entregue valor
superior aos clientes, de maneira que o bem-estar do consumidor e da sociedade seja mantido ou melhorado
(...)” (KOTLER & ARMSTRONG, 2003, p. 14-15), sem desprezar os objetivos organizacionais de
lucratividade (BHATTACHARYA & SEN, 2004). Segundo os autores “a orientação de
marketing pura gera possíveis conflitos entre os desejos do consumidor em curto prazo e seu bem-estar
em longo prazo”. Essa dimensão tem como premissa três fatores para a política de
mercado: lucros da empresa, desejos do consumidor e interesses da sociedade (KOTLER & ARMSTRONG, 2003,
ZENONE, 2006).
O desenvolvimento da dimensão verde do marketing tem origem nessas pressões dos grupos da
sociedade civil e do seguimento público para utilização dos recursos,
produção, comercialização e descarte de matéria de forma
responsável, em protesto aos problemas de poluição gerados pelas grandes
indústrias e a favor da conservação de energia, tornando-se nos finais do século
XX fonte de vantagem competitiva (ARAÚJO, MOREIRA & ASSIS, 2004; CARRIERI, SILVA & PIMENTEL,
2009; LAGES & VARGAS NETO, 2002).
Dann (2010), Bhattacharya & Sen (2004) enfatizam que as ações sociais executadas
através de processos que consideram valores éticos, de respeito humano, comunitário e
ambiental, em consonância com a produção inovadora de bens por meio do desenvolvimento
tecnológico, asseguram o sucesso nos negócios. As organizações precisam
demonstrar continuamente a legitimidade de suas ações, em conformidade com as mudanças
nos limites e nas normas sociais, bem como sobreviverem em ambientes complexos e politizados, fatores que
estimulam a incorporação da dimensão ética, social e ambiental para ganhos de
imagem e respeito pelos públicos com os quais interagem (HOOGHIEMSTRA, 2000; CIM, 2005; RUPP et
al., 2006).
Para Hastings & Saren (2003) a maior contribuição do marketing social é preencher as
lacunas entre o setor empresarial e o bem-estar público, como auxílio à
definição de problemas através da análise de marketing de forma desapaixonada e
realista e ao mapeamento de soluções.
2.3 Comportamento do Consumidor Consciente
As razões e os objetivos para práticas socioambientais responsáveis são numerosas
não havendo um acordo sobre as estratégias de consumo adequadas (MOISANDER, 2007). As atividades
relacionadas com o consumo consciente incluem a compra de mercadorias associadas ao comércio justo e
ambientalmente corretas, ou a não compra e o boicote de produtos de empresas que não atendem a
certos requisitos legais e sociais (SZMIGIN et al., 2009).
O consumo consciente, ético, responsável, saudável ou verde surge da
conjugação de três fatores: o ambientalismo público da década de 70, a
infusão da preocupação ambiental no setor empresarial nos anos 80, a
preocupação da população com o impacto social dos estilos de vida e consumo a
partir de 1990 (PORTILHO, 2005). A sociedade sustentável ganha visibilidade pelo reconhecimento de
ações individuais conscientes como estratégia para a solução de problemas
ambientais e mudanças tecnológicas (SZMIGIN et al., 2009).
Autio et al. (2009), Bekin et al. (2007) questionam as declarações de
entidades políticas e econômicas sobre os consumidores como agentes econômicos soberanos na
promoção do desenvolvimento sustentável, com capacidade para influenciar a cultura de
consumo. Os autores contestam o discurso individualista em que os consumidores são atores de mercado
influentes com poder de compra para gerar uma mudança coletiva e que, na prática, nem sempre
consideram os impactos ambientais públicos do consumo privado.
Em uma cultura de demográfica heterogeneidade e cada vez individualizada, está mais aparente a
necessidade de se enfrentar as consequências das escolhas dos consumidores (OZCAGLAR-TOULOUSE, SHAW
& SHIU, 2006; PORTNEY, 2008). Bekin et al. (2007) encontraram práticas surpreendentes em
prol do consumo responsável em comunidades do Reino Unido como vegetarianismo, diluição
de produtos de limpeza em água, uso de vinagre e jornais velhos para limpeza de vidros,
produção de alimentos para consumo próprio com participação coletiva,
reciclagem, reaproveitamento das sobras de alimentos para esterco na horta, entre outros. Tais práticas
incentivam as experiências socioambientais nas atividades de consumo, a reflexividade para
mudanças de valores e atitudes e a discussão do assunto entre os diversos setores (PORTILHO,
2005).
Um ponto a ser destacado é que a grande maioria das pesquisas sobre o tema tem sido conduzida nos
países desenvolvidos, e que poucos estudos comparativos foram realizados. Um desses estudos (BELK,
DEVINNEY & ECKHARDT, 2005) identificou que tanto em países ricos como em mais pobres da Europa,
América do Norte e na Austrália o nível de conhecimento sobre produtos e empresas no que
se refere a questões ambientais e condições de trabalho é relativamente baixo.
Já a pesquisa de Mostafa (2007) apresenta uma preocupação ambiental elevada entre os
consumidores egípcios que contradiz pesquisas realizadas no Ocidente, bem como o argumento de que
nações em desenvolvimento estão menos atentas às questões
ecológicas.
O Instituto Akatu é uma organização do terceiro setor que vê nas atitudes e nos
comportamentos individuais a possibilidade de transformação do coletivo para o bem-estar social.
A organização observou que a conjuntura econômica recessiva no período da pesquisa
de 2004 “Consumidores conscientes: o que pensam e como agem” forçava os brasileiros a
adotarem atitudes responsáveis no consumo, enquanto na pesquisa realizada em 2006 “Como e por que
os brasileiros praticam o consumo consciente?” a expansão da renda já estimulava as
compras.
Resultados recentes (ROMEIRO, 2006; AUTIO et al. 2009; GONÇALVES-DIAS et al., 2009;
SERPA & FOURNEAU, 2007; XAVIER, SANTOS & MARTINS, 2007) revelam que as atitudes e práticas dos
indivíduos para a promoção de um comportamento consciente de consumo se mostram
incipientes, principalmente no Brasil. Há também controvérsias quanto ao relativo
desinteresse dos consumidores em ações coletivas organizadas para protestar contra atividades
antiéticas, condutas ilegais e manipulação da opinião pública, para exigir
direitos ou para defender o consumo responsável (SERPA & FOURNEAU, 2007) e a relação
positiva entre o exercício social corporativo e o comportamento do consumidor (MAGALHÃES &
DAMACENA, 2007).
O fato é que a simples consciência sócio-ambiental não é aspecto
determinante para um comportamento de compra consciente de forma consistente (LAGES & VARGAS NETO, 2002).
O peso de outras variáveis de influência é decisivo, com destaque para o preço,
qualidade e a conveniência dos produtos. Além disso, existe grande incerteza nas
informações relativas às empresas no que se refere a práticas
sócio-ambientais, visto que a avaliação destas qualidades envolve julgamentos de
difícil valor (MOISANDER, 2007). Portanto, possuir intenções de consumo consciente ou
atitudes positivas com relação ao tema não é garantia de que o indivíduo
irá realmente se comportar de acordo com essas premissas numa situação real de compra
(BELK, DEVINNEY & ECKHARDT, 2005; CARRIGAN & ATTALA, 2001).
Diversas são as barreiras entre as ações de marketing social corporativo e as
mudanças efetivas de atitudes e comportamento pelos consumidores, com destaque para a falta de
informação, condições econômicas e situacionais (falta de tempo), e
até mesmo o desempenho dos produtos em termos de qualidade percebida (SZMIGIN et al., 2009).
Alguns estudos têm utilizado a Teoria da Ação Planejada para melhor compreensão do
consumo ético (NEWHOLM & SHAW, 2007). Essa teoria propõe que as intenções
comportamentais são explicadas por atitudes e normas subjetivas, que podem constituir também
barreiras para que o comportamento desejado seja realmente efetivado.
Quanto à conduta corporativa, os trabalhos de Magalhães & Damacena (2007), Romeiro (2006),
Serpa & Fourneau (2007) apontaram uma relação positiva nas ações realizadas
por empresas socialmente responsáveis sobre o comportamento de compra dos consumidores, em
consonância com os achados de Bhattacharya & Sen (2004), Brown & Dacin (1997), Carrigan &
Attala (2001), Mohr, Webb & Harris (2001). Os resultados do estudo de Xavier, Santos e Martins (2007)
não apontaram esses fatores como diferenciais no ato da compra, embora os entrevistados esperem uma
conduta ética das empresas.
3. Metodologia
Para cumprir o objetivo do estudo de identificar padrões de atitudes sócio-ambientalmente
responsáveis dos consumidores da cidade de Divinópolis/MG e os elementos determinantes dessas
atitudes, recorreu-se à fundamentação teórica dos trabalhos do Instituto Akatu
(2005, 2007), Gonçalves-Dias et al. (2009) e Romeiro (2006).
Nos estudos empíricos pesquisados, constatou-se um distanciamento entre a prática de consumo e
o discurso apresentado pelos consumidores com relação a atitudes sócio-ambientalmente
corretas. Questões ambientais e sociais ainda não ganharam destaque significativo entre as
preocupações cotidianas; é perceptível a compra de produtos reciclados,
orgânicos ou verdes somente se não causarem forte impacto financeiro; mantém-se um
ceticismo quanto à qualidade de produtos a granel; e o esforço em abrir mão do conforto
ou da praticidade, de embalagens nocivas em prol da preservação ambiental parece mínimo.
A posição de consumidor consciente mostra-se mais presente na adoção da
reciclagem, na redução de energia e desperdício de água e alimentos. Por outro
lado, é incomum o reconhecimento dos brasileiros que ações de compra, consumo e descarte
afetam o ambiente local e global, transferindo as responsabilidades sociais e de preservação
ecológica para instituições públicas e privadas.
Nesta pesquisa os padrões de consumo consciente foram agrupados em duas dimensões: atitude
e comportamento de compra e consumo, que envolve variáveis associadas a experiências e
processos cognitivos para se posicionar e agir sobre o consumo; preocupação com o ambiente e
o bem-estar comum, que abrange as variáveis relacionadas ao cuidado com o espaço
compartilhado por grupos de indivíduos e de proteção dos direitos dos consumidores,
cobrança dos deveres e engajamento na prática social. Este conjunto traz uma variedade de
medidas amparadas pela literatura como preditoras do consumo consciente.
Na primeira grande dimensão, atitude e comportamento de compra e consumo, investiga-se como
uma pessoa age, pensa ou sente em relação a produtos, empresas, e questões
ecológicas ou sociais conforme seu estilo de vida e fatores situacionais. Examinam-se as crenças
relativas a benefícios emocionais de atos socialmente responsáveis, a absorção de
informações sobre o exercício social de organizações, a experiência
com produtos “verdes”, o cuidado com recursos naturais, a atenção ao processo de
produção e distribuição de bens e serviços.
O grupo preocupação com o ambiente e o bem-estar comum visa compreender a
crença nos valores que regem o comportamento público; o grau de confiança e apoio a
instituições públicas para a conservação dos espaços comuns e do
meio ambiente; e a contribuição individual para a preservação da cidade onde
residem. Busca-se ainda evidenciar diversos tipos de mobilização (política,
econômica, educacional, ambiental) em prol do bem estar da coletividade; o que o consumidor valoriza no
exercício social e se desempenha atividades que contribuam para a qualidade de vida de vizinhos,
amigos, familiares e concidadãos.

Figura 1. Variáveis Relacionadas ao Consumo Consciente dos
Divinopolitanos
Fonte: Adaptado de Gonçalves-Dias et al. (2009), Instituto Akatu (2005, 2007) e Romeiro
(2006).
Depois de identificadas, as dimensões foram desdobradas em afirmações para que os
respondentes pudessem avaliá-las em uma escala de concordância de seis pontos assumida como
intervalar. Os estudos anteriormente citados embasaram o questionário e seguindo a abordagem
quantitativa (HAIR JR. et al., 2005), este foi aprovado após testes com 12 indivíduos
de mesmo perfil dos respondentes, maiores de 18 anos e economicamente ativos.
A técnica de amostragem utilizada foi de natureza não-probabilística, por
conveniência e bola de neve, que apesar de limitar as generalizações em termos
estatísticos rigorosos não comprometeu as análises desejadas.
Adotou-se o método survey para identificar e produzir estatísticas sobre atitudes e
eventos manifestos na população estudada, configurando-se em um dos métodos que melhor
caracteriza a pesquisa quantitativa (HAIR JR. et al., 2005). Cabe destacar o caráter
exploratório desta pesquisa, uma vez que a investigação das práticas de consumo
permitiu entender a consciência que o consumidor possui de seus atos sobre si, a sociedade, a economia e
o meio ambiente, bem como explicar parte da tendência à absorção de condutas
sócio-ambientalmente responsáveis desses moradores e apreender padrões de consumo
consciente, sem resultados ainda conclusivos.
O questionário, basicamente estruturado, possui 15 questões divididas em dois blocos: o
primeiro bloco com 3 afirmativas e o segundo bloco com 35 afirmativas relativas ao construto. Foram empregadas
uma escala de seis pontos, representados por números para avaliação do serviço
público municipal (0,1,2,3,4,5 – péssimo a ótimo) e uma escala de
concordância de seis pontos (discordo totalmente, discordo, discordo parcialmente, concordo
parcialmente, concordo e concordo totalmente) para obtenção do posicionamento de cada
entrevistado diante das 35 afirmativas. Adicionalmente, foram coletados dados demográficos como idade,
sexo, renda, moradia, escolaridade, estado civil, entre outros. A coleta de dados foi realizada entre novembro
e dezembro de 2009, com 114 consumidores de diferentes bairros da cidade de Divinópolis/MG, maiores de
18 anos e economicamente ativos, assim considerados por possuírem poder de compra.
Procedeu-se à análise multivariada dos dados, processados no programa de Statistics Package
for the Social Sciences – SPSS for Windows 15.0 (Pacote Estatístico para as Ciências
Sociais). Para diversificação do enfoque na análise dos dados e exame das
relações de dependência e independência das variáveis adotaram-se as
técnicas de análise fatorial, análise de conglomerados (cluster) e
análise discriminante (HAIR JR. et al., 2005).
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