1. Introdução
As universidades estão alicerçadas no tripé ensino-pesquisa-extensão,
caracterizando-se no meio pelo qual elas interagem com a sociedade. Basicamente, é por
intermédio da disseminação das pesquisas que elas compartilham os conhecimentos gerados
pelos seus pesquisadores por toda a sociedade. (CRUZ, 2005, p. 2)
A natureza das atividades da Universidade moderna tem sua origem na Universidade de Berlim, criada em 1810,
como uma instituição voltada para o Ensino Superior, tendo como função primordial
a pesquisa, desenvolvida em todos os campos do conhecimento. (SAMPAIO, 2000, p. 2). Essas
considerações embasam o que se desenvolveu dentro das Universidades neste período. No
Brasil, nas instituições privadas, a opção pelo ensino voltado ao mercado de
trabalho é nítida; já nas instituições públicas o viés da
pesquisa se mostra de maneira mais evidente, refletindo o modelo implantado ao longo do século XX.
Recentemente o Governo Brasileiro tem aumentado o investimento no ensino superior, por meio da
ampliação de vagas, como é o caso do Programa de Apoio a Planos de
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) e pelo Programa Universidade
para Todos (PROUNI). Órgãos de fomento, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPQ) e a Fundação Araucária, destinam recursos
para o desenvolvimento de pesquisas básicas e aplicadas. Por outro lado, por exemplo, o Governo do
Estado do Paraná institucionalizou o Programa Universidade sem Fronteiras, que visa fomentar com aporte
de recursos para custeio, capital e bolsas projetos de extensão.
No que tange ao ensino, a gestão estratégica das universidades públicas pode
traçar planos de expansão em número de cursos ou de vagas por curso, além do
crescimento dos cursos a distância. Quanto à pesquisa e à extensão, porém, a
gestão das universidades deve fomentar o desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão por
meio de incentivos ou motivando os docentes. No entanto, pouco se sabe sobre os motivos que levam os
pesquisadores a desenvolverem suas pesquisas e seus projetos de extensão. Focando especificamente na
pesquisa, especula-se que alguns optem por desenvolver suas pesquisas pela demanda da sociedade por novos
conhecimentos ou aprimoramento do conhecimento existente, pela própria ‘sede’ de
conhecimento, ou ainda apenas para cumprir exigências impostas pela própria universidade ou pelo
governo, no caso de instituições públicas.
Esses mesmos motivos que levam os pesquisadores a desenvolverem suas pesquisas poderão influenciar na
forma como os mesmos irão compartilhar o conhecimento gerado. Se o motivo para se desenvolver a
pesquisa é atender alguma demanda social, o conhecimento gerado será disseminado de forma a
cumprir esse objetivo. Mas, se o motivo é apenas a redução da carga horária em
sala de aula, então o compartilhamento do conhecimento pode ficar restrito apenas ao cumprimento das
exigências das regras que regulam esta redução, ou até mesmo nem existir
compartilhamento. Nesse caso, acaba-se por influenciar também a motivação de
pesquisadores preocupados principalmente com ganhos financeiros e pouco comprometidos em gerar alternativas
aos problemas enfrentados pela sociedade ou à expansão das fronteiras do conhecimento. A
relação entre os motivos para realizar pesquisas e o compartilhamento do conhecimento ainda
é apenas suposição que precisa ser testada em futuros estudos, mas Schenkel (2008, p. 8
– nosso grifo) já dá indícios desta relação quando afirma que:
Considerado como maior estímulo e fornecedor de recursos para o desenvolvimento de pesquisas
científicas e para despesas com publicações foram destacados os editais internos pelos
entrevistados com 50% das respostas, sendo também apontado em 66,66% como grande estimulador do
compartilhamento científico.
Portanto, antes de se buscar estudar a forma como os pesquisadores das universidades compartilham os
conhecimentos gerados por meio de seus estudos, é interessante conhecer quais os motivos que os levam a
desenvolver esses estudos. Diante disso, a questão que norteará este artigo pode ser descrita
como: Quais fatores motivam os docentes a desenvolverem suas pesquisas? Portanto, o objetivo
do estudo é o de identificar quais os principais motivadores para a realização das
pesquisas pelos docentes. A justificativa do desenvolvimento deste estudo é por conta do entendimento
de que o ambiente onde são desenvolvidas as pesquisas científicas no Brasil, especificamente no
caso das universidades, apresenta peculiaridades ainda não suficientemente conhecidas.
Portanto, trata-se de um estudo exploratório, do tipo levantamento (survey), com coleta de
dados por meio de questionário disponibilizado eletronicamente online, cujas respostas se
deram por adesão voluntária. A coleta de dados foi realizada junto aos pesquisadores da
Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná – UNICENTRO, universidade pública estadual
com campi nas cidades de Guarapuava e Irati. Os dados são analisados, dentro do paradigma
positivista, individualmente e agrupados pela análise fatorial exploratória e com a
utilização de testes estatísticos para verificação da representatividade da
amostra, da confiabilidade da escala, entre outros.
O estudo se justifica pela necessidade de se conhecer os motivos que levam os pesquisadores a desenvolverem
seus estudos, como forma de contribuir com informações que possibilitem o fomento das pesquisas
em universidades, dentro da perspectiva do desenvolvimento institucional equanimemente nos seu tripé
ensino-pesquisa-extensão.
Este artigo está dividido em cinco partes, sendo a primeira esta introdução. A segunda
trata do referencial teórico, destacando-se a discussão em torno da geração de
conhecimento na universidade, o seu compartilhamento e os motivadores para que isso ocorra. A terceira parte
descreve os aspectos metodológicos, a quarta aborda a coleta e análise estatística dos
dados e, na última, são tecidas as considerações finais.
2. Referencial teórico
O compartilhamento do conhecimento inicialmente era tratado como transferência de tecnologia, como se
pode observar na definição de Roman e Puett Jr. (1983 apud FERREIRA JUNIOR, 2007, p.
83), é o “processo de coleta, documentação e disseminação, com
sucesso, da informação técnica e científica a um recebedor, através de
certos mecanismos, formais e informais, passivos e ativos.”
O processo de transferência de tecnologia, mais relacionado à transferência de
conhecimento, “tem existido desde os primeiros passos dados pelos homens na face da terra.”
(CLETO, 1996, p. 81). Inicialmente, de forma rudimentar, pela imitação, gestos e
comunicação verbal de procedimentos para caçar, para fazer fogo, para proteger-se de
animais e intempéries, visando capacitar outros indivíduos para essas tarefas. (FERREIRA JUNIOR,
2007, p. 81). Nesses primeiros passos, a compreensão desse processo era ainda rudimentar e instaurou-se
por meio de diversas formas do desenvolvimento cognitivo e da própria compreensão da
memória e da transmissão de experiências anteriores, positivas e negativas, aos seus
descendentes.
Após esses primeiros passos, ocorreram grandes transformações que exigem dos atores do
processo práticas de compartilhamento.
A necessidade crescente de conhecimentos científicos para o alcance do progresso técnico,
simultaneamente ao encurtamento do ciclo tecnológico das inovações e aliada ao
fenômeno da globalização dos mercados, vem exigindo dos atores envolvidos no processo
de geração e difusão de inovações esforços no sentido da
intensificação das práticas de cooperação tecnológica. (FUJINO;
STAL; PLONSKI, 1999, p. 47).
Essas constatações levaram também a necessidades de intercâmbio de conhecimento e
de melhoria nos processos cognitivos, auxiliados por ferramentas que ampliaram enormemente a capacidade de
conhecer, com o desenvolvimento de pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento. De acordo com
Beillerot (2005, apud PRYJMA, 2009, p. 87), “a noção de pesquisa é
utilizada em diversos campos de práticas sociais e conduz à ideia de ‘uma
produção de conhecimentos novos; uma produção rigorosa de conhecimento; uma
comunicação de resultados’.”
Um dos principais atores envolvidos no processo de geração de pesquisa nos países em
desenvolvimento, é a Universidade. Pereira, et al. (2009, p. 131) destacam que essa
situação surpreende e preocupa não apenas os países desenvolvidos, mas
principalmente os em desenvolvimento. Isso porque estão despreparados e desprovidos de práticas
inovadoras, de laboratórios e de potencial humano para pesquisa. Por isso, vêem-se obrigados a
voltar seus olhos para a universidade, considerada como um dos poucos lugares privilegiados na
geração de novos conhecimentos.
De acordo com Pryjma (2009), as universidades precisam estar preparadas para atender às demandas da
sociedade no que concerne ao desenvolvimento de novos conhecimentos. É uma exigência para essas
organizações repensarem a gestão de suas pesquisas, tendo em vista os desafios da
sociedade contemporânea que necessita de soluções para as suas necessidades.
Apesar das dificuldades ainda presentes, as relações de cooperação têm
evoluído, fruto de experiências bem sucedidas, sendo que esses países têm muito a
desenvolver ainda. Contudo, trazem consigo a necessidade de proporcionar melhores condições de
vida para suas populações, o que demanda, por sua vez, uma melhoria nas capacidades intelectuais
em suas organizações.
Nesse contexto, “[...] a informação, a pesquisa e a transmissão do conhecimento
são aspectos complexamente interligados e trabalhados por indivíduos influenciados por um
contexto sócio-econômico-político-cultural específico.” (SAMPAIO, 2000, p.
1). Portanto, a cooperação está se transformando em um elemento diferenciador dentro das
universidades e das organizações como um todo. Além de incorporar novos conceitos e
práticas de ensino e de pesquisa, vem atendendo aos anseios de uma determinada parcela da comunidade
acadêmica e empresarial, constituindo-se como um processo crescente e irreversível. (PEREIRA;
et al., 2009, p. 142).
Segatto (1996, p. 17-18) destaca em um quadro alguns fatores motivacionais para a cooperação
entre empresas e universidades, no desenvolvimento de pesquisas:
- falta de fontes de financiamentos para pesquisa;
- carência de equipamentos e/ou materiais para laboratório;
- meio de realização da função social da universidade, fornecendo tecnologia
para gerar o bem-estar da sociedade;
- possibilidade de geração de renda adicional para o pesquisador universitário e para o
centro de pesquisa;
- aumento do prestígio institucional;
- difusão do conhecimento;
- meio para manter grupos de pesquisa;
- permissão de que pesquisadores universitários tenham contato com o ambiente industrial;
- aumento do prestígio do pesquisador individual e expansão de suas perspectivas
profissionais.
Segatto (1996, p. 17) ainda destaca ser possível obter ou ter acesso “[...] a financiamentos,
conhecimentos, equipamentos, oportunidades, experiências, estímulos e economias [...].”
Mais adiante, ela descreve os instrumentos de cooperação entre universidade empresa, segundo os
seguintes tipos e exemplos:
- relações pessoais informais – consultoria, publicação de pesquisa,
trocas informais em fóruns ou Workshops;
- relações pessoais formais – trocas de pessoal, estudantes internos, cursos
sandwich;
- acordos formais com alvo definido – pesquisa controlada; treinamento de trabalhadores, projetos de
pesquisa cooperativa;
- acordos formais sem alvo definido – patrocinadores de P&D nos departamentos
universitários;
- criação de estruturas focalizadas – contratos de associações,
consórcio de pesquisa universidade-empresa, centro de incubação-inovação.
(SEGATTO, 1996, p. 31-32)
A literatura ainda é muito vaga no que se refere aos fatores que motivam os pesquisadores a realizarem
suas pesquisas. Mas, a partir dos pontos listados anteriormente, pode-se inferir como motivos para realizar a
pesquisa a possiblidade de desenvolver conhecimento e/ou competências, possibilidade de acesso a
recursos, ampliação da remuneração e reconhecimento no campo acadêmico.
3. Aspectos
metodológicos
Trata-se de um estudo exploratório, que, segundo Collis e Hussey (2005, p. 24),
A pesquisa exploratória é realizada sobre um problema ou questão de pesquisa quando
há pouco ou nenhum estudo anterior em que possamos buscar informações sobre a
questão ou problema. O objetivo desse tipo de estudo é procurar padrões, idéias ou
hipóteses, em vez de testar ou confirmar hipóteses.
É este o caso, pois existem poucos estudos sobre os motivos que levam os pesquisadores a desenvolverem
seus estudos, no âmbito do conjunto de pesquisadores de instituição pública.
A estratégia de pesquisa é o levantamento (survey), com coleta de dados por meio de
questionário disponibilizado eletronicamente online. “Basicamente, procede-se à
solicitação de informações a um grupo significativo de pessoas acerca do problema
estudado para, em seguida, mediante análise quantitativa, obterem-se as conclusões
correspondentes aos dados coletados.” (GIL, 2002, p. 50). Dentre outras informações, no
questionário estão treze motivadores, dispostos em um quadro onde o respondente deve atribuir
importâncias a cada um deles, conforme uma escala intervalar de cinco pontos. “Uma escala
intervalar utiliza números para classificar objetos ou eventos de modo que a distância
entre os números seja igual.” (HAIR JR.; et al., 2005, p.184).
Então, a coleta de dados segue a metodologia Positivista, utilizando um questionário com
“perguntas cuidadosamente estruturadas, escolhidas após a realização de
vários testes, tendo em vista extrair respostas confiáveis de uma amostra escolhida.”
(COLLIS, HUSSEY, 2005, p. 165).
Para análise dos dados, foi utilizado o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)
para realização da análise fatorial exploratória e para realização
de testes estatísticos entre os quais, o teste Qui-Quadrado, o α (Alfa) de Cronbach, o teste de
Tukey, o teste t-Student e o teste de Kaiser-Mayer-Olkin (KMO), além da geração de
gráficos para confirmação dos resultados dos testes de Tukey e do teste t-Student. O
embasamento teórico de cada análise ou teste estatístico será realizado na
Seção 4 deste estudo.
Em resumo, o estudo: classifica-se como quantitativo, quanto ao seu processo; como exploratório,
quanto ao seu objetivo; faz uso da estratégia levantamento (survey); utiliza como
método de coleta de dados o questionário estruturado, disponibilizado eletronicamente em um
sitio na internet; utiliza o SPSS para realização da análise fatorial
exploratória, para os testes estatísticos e para visualização de gráficos.
O questionário utilizado para a coleta de dados foi implantado na internet, montado por meio do
formulário de questionários disponibilizados pelo site Google.com. A
participação dos pesquisadores foi espontânea. O processo de
disponibilização do questionário passou pelas seguintes fases, realizadas nos meses de
maio e junho de 2010: estruturação e montagem das questões; avaliação da
estrutura e das questões; implantação no site; testes iniciais e correções;
teste por seis pesquisadores; realização as correções sugeridas;
avaliação por especialista; correções sugeridas e re-testes; teste final;
disponibilização; encerramento do recebimento.
Para este estudo, o questionário estava composto de duas partes, sendo que na primeira estavam a
identificação e caracterização do pesquisador; e, na segunda, os aspectos que
motivam os pesquisadores a realizarem suas pesquisas. O tempo médio para se responder todo o
questionário foi estimado em 10 minutos, nos testes realizados previamente.
A disponibilização foi feita pelo encaminhamento de e-mail aos pesquisados da
UNICENTRO, segundo listagem da Diretoria de Pesquisa, solicitando a participação
voluntária na pesquisa. No total foram encaminhados 437 e-mails contendo o link onde
o questionário poderia ser acessado e respondido. Destes e-mails em torno de 8,5% apresentaram
problemas diversos como, por exemplo, caixa postal cheia, e retornaram. Não é possível
precisar quantos deles foram recebidos e marcados como spam pelo provedor e, neste caso,
excluídos sem a leitura, fato que também ocorreu. Outro problema identificado foi a recusa em
responder por consideração do link ou do e-mail como uma forma de
disseminação de vírus. Durante o período de recebimento das respostas foi feito o
trabalho de divulgação verbal do envio do e-mail da pesquisa, buscando minimizar os
problemas apresentados.
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