1. Introdução
Segundo Brigido e Jansen (2006), as pesquisas no Brasil se concentram na esfera pública.
Historicamente, estes esforços de investimentos têm sido alinhados com políticas
públicas de desenvolvimento de setores específicos. Exemplo disto são os editais
públicos de fomento à pesquisa e desenvolvimento que priorizam áreas estratégicas
contempladas nas políticas industriais vigentes. Assim como as empresas, universidades e outras
instituições recebem recursos, por meio de editais, para o desenvolvimento científico,
tecnológico e inovação em áreas contempladas nos objetivos
macroestratégicos dos governos.
O objetivo desta pesquisa é avaliar o papel de instituições públicas de pesquisa
na implementação de políticas públicas. O caso estudado é a
atuação da Embrapa Suínos e Aves no esforço de mitigação dos
impactos ambientais causados pela suinocultura no oeste de Santa Catarina.
Uma primeira hipótese deste estudo é que os impactos ambientais decorrentes da
produção intensiva de animais, geradora de elevada quantidade de dejetos, como a
produção suína, são minimizados por meio da ação local de
instituições públicas de pesquisa. A segunda hipótese é que, em
função da dinâmica do respectivo sistema de produção, a efetividade da
contaminação e da degradação do meio ambiente é maior do que a efetividade
das pesquisas na área.
Para validar essas hipóteses, adotou-se uma delimitação em termos de tempo, de
espaço e em relação aos agentes envolvidos. Foi analisado o caso da atuação
da Embrapa Aves e Suínos na produção de suínos, na região oeste de Santa
Catarina. Trata-se de uma instituição pública representativa que direciona
esforços para o desenvolvimento sustentável das atividades agropecuárias, inclusive a
suinocultura. Essa instituição está envolvida em diversos projetos de cunho ambiental,
como por exemplo, a execução do Projeto Suinocultura Santa Catarina, integrante do Programa
Nacional de Meio Ambiente, além de outros projetos voltados à busca de soluções
ambientais, como desenvolvimento de equipamentos, metodologias e diagnósticos.
Escolheu-se esta região para o estudo, primeiramente, pela importância econômica da
produção brasileira de suínos e pelo fato da região ocupar apenas 26% da
área de Santa Catarina e concentrar 75% do rebanho do estado (Denardin & Sulzbach, 2005). Um
segundo motivo, muito importante, é o impacto ambiental da atividade da suinocultura, resultado do
aumento de produtividade, por animal e por área. Esta maior produtividade causa problemas como o odor
desagradável, provocado pelas criações mal manejadas, e a poluição do solo
e das águas, em decorrência do descarte inadequado dos efluentes no meio ambiente.
2. Metodologia
Para realização do estudo foram utilizadas técnicas de pesquisa bibliográfica,
entrevista, análise documental e análise de conteúdo. Inicialmente buscou-se compreender
como a Embrapa define suas políticas públicas. A realização da entrevista
semi-estruturada, junto a pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, buscou uma melhor compreensão
do processo existente na Embrapa para a definição das ações derivadas de
políticas públicas, a serem implementadas em nível local. Em seguida foi iniciado o
levantamento de informações para avaliar a contribuição da Embrapa na
região na área de tecnologias para minimização do impacto ambiental. Para tanto,
foi analisado o conteúdo de dois bancos de informações: o de pesquisas realizadas para
minimização do impacto ambiental em razão da suinocultura e; o TAC para suinocultura
catarinense. Identificaram-se os projetos desenvolvidos e aprovados por processo seletivo interno da Embrapa
descrevendo: objeto do projeto; resultados esperados e resultados obtidos. Em seguida verificaram-se os termos
de conduta realizados pelos produtores e efetuou-se uma análise comparativa e descritiva com os
projetos de pesquisa. Por fim, relacionaram-se os esforços de pesquisa dessa instituição
pública para melhoria do meio ambiente da atividade e o impacto ambiental na região.
Em relação à apresentação deste artigo, primeiramente, discute-se o
arranjo institucional estabelecido entre os formuladores da política pública, a
prospecção dos agentes de pesquisa e a comunidade local. A compreensão deste arranjo
mostrará o processo de definição e implementação da política
pública por meio dos projetos de pesquisa desenvolvidos e aplicados pelo agente institucional
público representativo em determinada região e atividade econômica. Em seguida, tal
arranjo será compreendido pelo caso estudado: a Embrapa Suínos e Aves, na região oeste de
Santa Catarina, com projetos direcionados para redução do impacto ambiental da atividade de
suinocultura. Na quarta seção são apresentados os projetos realizados, com
informações disponíveis, no período delimitado pelo trabalho, de 2003 a 2009,
buscando-se relacioná-los aos resultados alcançados na região. Por fim, são
apresentadas as considerações finais.
3. Políticas públicas
Diante das falhas de mercado e das distorções e problemas gerados no próprio sistema
capitalista, a intervenção do Estado se insere como um mecanismo de minimização
destas distorções e correção das falhas. Contudo, a forma como o Estado
intervém carrega um conteúdo ideológico que o sustenta e determina as diversas formas de
concepção de ação e relação do Estado com a própria
sociedade. Essa base ideológica é a primeira sustentação da compreensão e
ação do Estado, que se materializa pela concepção, formulação,
implementação e avaliação de políticas públicas (Filellini, 1994;
Hochman et al., 2007).
A política pública é um campo relativamente recente no Brasil, mas muito rico em
produção e fértil em possibilidades de novos estudos (Souza, 2006). Envolve vários
segmentos e possibilidades, em que o processo de descoberta teórica se relaciona com o intricado
processo empírico de formação e consolidação do processo democrático
brasileiro e de novos instrumentos de gestão e administração pública sob a
ótica da governança, governabilidade e constituição de um Estado sólido,
demandando um campo de estudo multidisciplinar.
Birkland (2005, p. 17-18) afirma que não há um consenso sobre o conceito de política
pública, mas alguns atributos se destacam: a política é feita em nome do público;
a política é geralmente feita ou iniciada pelo governo; política é interpretada e
implementada por atores públicos e privados; política é o que o governo intenciona fazer;
política é o que o governo escolhe não fazer. Isso remete a um conjunto complexo de
interações e relações que se originam no governo sobre temas de interesse
público e que demanda maior interação entre o governo e os interessados no tema
público em questão.
Nem toda a sociedade se envolve em todas as políticas. O envolvimento depende dos interesses de cada
um dos seus grupos. Assim, ao se tratar de política ambiental, por exemplo, os agentes que se envolvem
são aqueles que de alguma forma intervém no processo político, como produtores, ONGs,
associações de classe, sindicatos, agentes institucionais de pesquisa e os próprios
representantes do Estado.
Talvez uma das mais simples e utilizada definição de políticas públicas seja a
escrita por Thomas Dye (2011). Segundo o autor, política pública é qualquer escolha que o
governo faz ou deixa de fazer. Corroborando com o argumento de Birkland (2005), as escolhas são
próprias de sistemas com recursos escassos e a existência de um processo que delimita estas
escolhas leva a prioridades políticas, que estão envolvidas com o processo de
definição, de implementação e avaliação das políticas (Dye,
2011, p.1). Esse processo envolve não somente as instituições (regras e leis), como os
agentes institucionais (pessoas ou órgãos que implementam a política).
Neste aspecto, Peters (1999) ressalta a importância dos agentes na definição das
políticas públicas, tratando-as como a soma de atividades governamentais, seja pela
ação direta ou por meio dos agentes, que influenciam a vida dos cidadãos. Complementando
essa percepção, Kraft e Furlong (2010) enfatizam a influência do contexto na
concepção das políticas públicas, desde contexto socioeconômico, ao
político, governamental e cultural. Kraft e Furlong ainda retratam o crescimento dos governos e a
capacidade política para definição de alternativas institucionais para
implementação de políticas públicas para minimizar ou solucionar problemas urbanos
oriundos da produção intensiva (Braga et al., 2005; Miller Jr, 2007). Isso mostra a
importância da consideração, pelas estratégias nacionais, das diferentes formas de
influência de política e pesquisas ambientais nos diferentes contextos locais.
A análise da política pública (policy analysis) é complexa na
prática por envolver vários elementos, demandas, objetivos, integrações e
interações políticas (Lowi, 1964; Laswell, 1936). Enfim, um conjunto de elementos que
normalmente transcendem a análise puramente racional, com pouca contribuição do processo
político, como pressupõe a teoria das escolhas públicas (public choise),
introduzida por James Buchanan (1999). O resultado de uma política pública (policy)
está relacionado à estrutura política (polity) e ao processo político
(politics). Já a análise da política pública (policy analysis)
envolve todos esses elementos. Neste contexto, o processo político é integrado ao resultado da
política e não dependente deste. Isso faz com que não somente os resultados sejam
elementos importantes de estudo, mas o ciclo político da concepção até a
implementação e avaliação (politics cycle), assim como as
instituições que consolidam esse processo (neoinstitucionalismo e estilo político)
fundamentais para compreensão da política pública (Costa; Castanhar, 2003).
4. Instituições e desenvolvimento
Um ciclo importante das políticas públicas é a implementação. Como observa
Heidemann (2009, p.37), “sem ação não há política pública. E
as organizações de serviço são os principais instrumentos de
implementação de políticas”. À luz do processo político, este artigo
avalia uma aplicação de política pública, por meio da orientação de
pesquisa e extensão agropecuária, sob a ótica da forma de organização do
arranjo institucional, que redunda em um processo particular de intervenção local, e seu impacto
na gestão de serviços prestados, considerando as instituições como relevantes para
o processo de desenvolvimento e de efetividade das políticas públicas (North,2002; Menard, 2000;
Teixeira & Braga, 2007; Espino, 1999).
Hollingsworth (2003) denomina arranjo institucional a disposição de cinco componentes de
análise institucional: Estados, mercados, redes, associações e comunidades. Esses
arranjos, que além de serem por si só institucionalizados, são compostos de
múltiplas instituições e organizações. Para o autor, a análise
institucional envolve: i) Instituições (normas, regras, convenções, hábitos
e valores); ii) Organizações (empresas, associações, partidos, escolas etc.); iii)
Setores institucionais (o sistema financeiro, e o sistema de educação, sistema de pesquisa;
sistema social de produção; e iv) Resultados e desempenhos (estatutos, decisões
administrativas, performance setorial e societal).
No âmbito deste trabalho, consideram-se arranjos institucionais aqueles compostos por múltiplas
instituições e organizações. As instituições formais são as
normas e regras estabelecidas por determinada sociedade. As instituições informais são as
articulações e regras informais geradas em determinada sociedade. E, o ambiente institucional
é aquele composto pelas instituições formais e informais e pelos próprios arranjos
institucionais.
Espino (1999) aponta diferentes conceitos de instituições, entre as quais aquelas que prestam
serviços públicos, como as instituições de pesquisa. North (2002), por outro lado,
distingui instituições de organizações. Para ele, instituições
referem-se as “regras do jogo” e as organizações seriam “os jogadores”.
Estas organizações seriam segmentadas, por exemplo, conforme a finalidade: política,
econômica e religiosa (North, 2002). Para North (2002, p.4), as instituições definem, de
alguma forma, os limites que as pessoas estabelecem para suas relações, sejam elas formais
(regras criadas pelos seres humanos) ou informais (convenções ou códigos de
comportamento). Essas instituições permeiam todas as relações entre os
indivíduos, estejam agregados em grupos de interesses ou individualmente, mas se estabelece como
elemento base das relações em determinado local. Isso faz com que seja imprescindível
compreender a estrutura institucional e os elementos que interferem em sua mudança, ou ainda a sua
capacidade de interferir nas relações.
Neste artigo, será adotado o conceito de instituição explicitado por North, já
por agentes institucionais entende-se aqui como sendo as organizações públicas de
serviços.
5. Política pública e desenvolvimento local
Os modelos de planejamento e desenvolvimento local surgem com o objetivo de mostrar que a história
pode ser diferente da tendência, quando ações são executadas para mudá-las.
O processo de planejamento e implementação de modelos de desenvolvimento local é
antagônico e controverso pela estrutura da sociedade. Mercado e Córdova (2005) recontam a
história controversa entre o desenvolvimento sustentável e a indústria e mostram diversos
dilemas e diferenças entre o discurso e a prática do desenvolvimento sustentável, como,
por exemplo, o que se refere à ecologia global:
(...) durante los noventa, se presenciaron procesos político-ecónomicos suficientemente
antagónicos como para frenar el proceso de conformación de la nueva cultura ambiental industrial
que comenzaba a avizorarse. De una parte, digamos positiva, podría destacarse la considerable
ampliación de la preocupación ambiental en la sociedad (y) …hacían posible no
sólo la disminución del impacto ambiental de la actividad industrial sino también
proponer nuevas formas de producción y hasta de consumo. Por la otra, digamos negativo, estarían
el decaimiento significativo del ímpetu de dicha participación debido a que muchas de las
oportunidades fueron cerradas a inicios del nuevo siglo, fundamentada por presiones del ‘mercado’
y disminución de respaldo por parte del Estado (Mercado Códova, 2005, p. 37).
Silva (2005, p. 15) avança sobre esta controvérsia e argumenta que:
a diferença entre o discurso e a prática ainda continua gerando conflito porque, em ambas
óticas (capitalista e ambientalistas), ao refletir sobre o longo prazo, a zona de
negociação é menos árida do que no curto prazo. Por exemplo, negociar que a
geração futura tem de preservar para sobreviver é muito mais simples do que acordar que
essa geração preservará o meio ambiente e não utilizará formas degradantes
para os recursos.
Segundo Vivien (2005), essa diferença entre o discurso e a prática do desenvolvimento
sustentável é minimizada no âmbito da discussão, pela sua retórica
dominante. O autor observa que :
Il est courant de présenter le développment soutenable comme la solution aux problèmes
rencontrés par les sociétés contemporaines. (...). Il cache (...) une volonté
grandissante de nier les conflits, de passer outre les divergences et d’aligner les arguments
contradictoires (Vivien, 2005, p. 4).
Mercado e Córdova (2005) retomam tal controvérsia para relativizar os dogmas criados em torno
de um conceito, que ressalta mais a existência de um problema do que uma solução. A
inserção do Estado é um meio de contemporizar o discurso com a prática, mas esse
desenvolvimento não ocorrerá se o processo se mantiver apenas pela retórica.
Outro ponto a destacar é a referida diminuição do respaldo do Estado, citado
anteriormente por Mercado e Córdova. Como mencionado, segundo Relatório do Banco Mundial, um dos
papéis do Estado seria o de proteger o meio ambiente. A efetividade dessa proteção
é condicionada, segundo os autores, à pressão industrial, que restringe o poder de
mediação do Estado frente ao dilema da preservação ambiental e crescimento
industrial. A despeito desse dilema, o processo de desenvolvimento das regiões deve considerar
ambas óticas (econômica e ambiental), valendo-se da presente retórica do desenvolvimento
sustentável, cuja complexidade é incontestável e inerente as suas
implicações geopolíticas (Ajara, 2003, p.9). Neste sentido, deve-se ajustar o processo de
desenvolvimento ao local. Para Froehlich (1998, p. 95):
o espaço passa hoje a desempenhar um papel crucial para se pensar o desenvolvimento, pois a
própria sociedade só é concreta com o espaço, sobre o espaço, no
espaço. Espaço agora multifacetado, porque se considera que, só pensado enquanto
multidimensional, pode ser autêntico o desenvolvimento. (...) É neste âmbito argumentativo
que se pode considerar válido atribuir um sentido ‘localista’ ao desenvolvimento,
podendo-se falar em algo como ‘desenvolvimento local’.
Para Blakely (1994), que enfatiza a dimensão econômica do desenvolvimento, o desenvolvimento
econômico local é um processo orientado. O autor explica que esse desenvolvimento:
it is a process involving the formation of new institutions, the development alternative industries, the
improvemen of the capacity of existing employers to produce better products, the identification of new
markets, the transfer of knowledge, and the nurturing of new firms and enterprises (BLAKELY, 1994: p. 50).
Na realidade, segundo Blakely (1994), o processo de desenvolvimento é algo inerente ao próprio
local e especifica o papel da intervenção pública para o provimento das necessidades da
indústria privada. Isso, conforme o autor, a partir da orientação e dinâmica dos
agentes e instituições locais, que seriam os responsáveis pelo processo de
desenvolvimento.
Souza (1997, p. 19) também entende desenvolvimento como sendo algo dinâmico, um movimento (sem
fim - ou seja, sem ‘estágio final’ ou mesmo direção concreta predeterminados
ou previsíveis e que não poderá jamais ser declarado como ‘acabado’ - e
sujeito a retrocessos) em cuja esteira uma sociedade torna-se mais justa e aceitável para seus membros
(grifo nosso).
Tanto Blakely (1994) como Souza (1997) priorizam o papel dos agentes locais em detrimento da
participação do Estado. Desta forma, ressalta-se que o processo de desenvolvimento local
é endógeno e orientado, como citado por Blakely, um movimento inacabado, como exemplificado por
Souza, mas influenciado pela intervenção do Estado. A participação do Estado pode
ser ativa e direta, como agente e investidor, ou institucional, como regulador, ou seja, intervém no
processo de desenvolvimento local
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