1. Introdução
O progresso tecnológico é uma importante força motriz do crescimento
econômico, pois as inovações resultam em aumento de produtividade, alteram a
competitividade das nações, modificam as demandas para o mercado de trabalho e provocam
constantes alterações nas estruturas dos setores econômicos (Scherer, 1980). Para se ter
uma idéia da sua importância, dados da National Science Foundation apontam que as
companhias americanas gastaram no ano de 2004 mais de $180 bilhões em P&D (Canner, Mass, 2005).
De acordo com as pesquisas de Zander e Kogut (1995), o enfoque de inovação
baseada nos recursos organizacionais adquiriu uma nova perspectiva, quando se passou a estudar a tecnologia
não como informação, mas como conhecimento. Porém, uma vez que o conhecimento se
assimila via acumulação e é difícil de transferir, as pesquisas sobre
inovação passaram a se preocupar mais em como utilizar os recursos organizacionais e as
capacidades internas das empresas para serem mais eficientes na geração de conhecimento para as
inovações (Antolin, 2001).
Em setores de alta tecnologia, pesquisas indicam que o conhecimento inovador não vem
apenas da função de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de uma única empresa, mas sim de
um conjunto de alianças e parcerias entre diferentes organizações, de modo a aumentar as
fontes de conhecimento inovador (Powell et. al. 1996).
Esta estrutura composta por um conjunto de parcerias interorganizacionais se denomina
“redes de cooperação” (Amato, 2000). Como decorrência, surge o conceito de
redes de inovação como uma estrutura organizacional para aumentar a eficiência da
evolução do conhecimento tecnológico (Pyka, Küppers, 2002).
Neste contexto, esse artigo busca verificar de que modo parcerias tecnológicas em
redes organizacionais contribuíram para o desenvolvimento de um software de
programação da produção com algoritmos de Teoria das Restrições. Em
termos específicos objetiva identificar as estruturas de relacionamento que favoreceram a
formação dos conhecimentos explícitos e tácitos necessários para a
criação de um software de programação eficaz e constatar de que modo o
desenvolvimento de um novo produto por meio de uma rede de inovação favoreceu a mudança
no modelo de negócio da empresa inovadora.
O enfoque teórico da pesquisa fundamentou-se nos preceitos das teorias de
inovação, das teorias de redes de cooperação interorganizacional e das teorias de
redes de inovação. Por sua vez, a unidade de análise enfocou o desenvolvimento do
Drummer, um software de programação da produção com algoritmos
da Teoria das Restrições, criado por uma empresa denominada Linter Sistemas.
2. Revisão Bibliográfica
2.1 Definição de Inovação
Para a Comunidade Européia (1995), a inovação consiste: a) Da
renovação e ampliação do conjunto de produtos e serviços e dos mercados
associados; b) do estabelecimento de novos métodos de produção, fornecimento e
distribuição; c) e da introdução do gerenciamento para a mudança na
gestão, organização do trabalho e das condições de trabalho e
competências da força de trabalho.
O conceito de inovação adquire maior significado quando se observa o
desenvolvimento da inovação ao longo do século XX. Para Rothwell (1994), os modelos de
inovação podem ser classificados em cinco gerações:
- Inovação Empurrada pela Tecnologia – É o modelo adotado nas décadas de
50 e 60, nos quais a demanda é maior do que a capacidade de produção, de modo que a
maioria das inovações tecnológicas era bem aceita pelos mercados;
- Inovação Puxada pelo Mercado – Nos anos 60 e 70, o mercado é mais
competitivo, de modo que as empresas primeiramente se certificam das necessidades dos consumidores para,
então, desenvolverem soluções tecnológicas que satisfazem tais necessidades;
- Modelo Composto – Já nos anos 70 e 80, o processo de inovação define
complexos caminhos de comunicação interligando os agentes internos e externos para obter
conhecimentos externos na comunidade científica e no mercado.
- Modelo Integrado – Nos anos 80 e 90, os japoneses inauguram a integração entre os
diversos departamentos funcionais da empresa, a fim de se gerar inovações mais rapidamente,
por meio de atividades conduzidas em paralelo.
- Modelo de Redes – Por fim, Rothwell (1994) considera que, atualmente, a inovação
consiste de um processo de rede. Isso decorre do aumento das alianças estratégicas e do
P&D colaborativo; da maior consciência para a gestão da cadeia de suprimento; das redes
de pequenas e médias empresas com empresas grandes; e das redes de pequenas empresa
Freeman (1982) diferencia “inovação” de
“invenção”: invenção é a idéia ou modelo para a melhoria
em um produto, equipamento processo ou sistema. Por outro lado, uma inovação, no sentido
econômico, ocorre apenas após a primeira transação comercial resultante do novo
produto, equipamento, processo ou sistema.
Ainda se tratando de inovação, o Manual de Oslo de 1997 difere a
inovação do produto da inovação do processo de produção, por meio da
definição do TPP – Technological Product and Process innovation (Chen,
Wu, 2006).
2.2 Redes entre Empresas para a Inovação
Na década de oitenta, os estudos sobre inovação sofreram
influência da Economia Industrial e procuraram teorizar os fatores estruturais determinantes das
atividades inovadoras na empresa (Porter, 1983). Tais pesquisas indicam que um fator-chave para o
desenvolvimento da capacidade de inovação é a capacidade de uma empresa para estabelecer
relacionamentos em uma rede de organizações. Para analisar esse assunto, a OECD procurou
desenvolver métricas sobre (Stevens, 1997): a) O fluxo de pessoal técnico; b) As
ligações entre instituições; c) A formação de pólos
industriais; d) As fontes do comportamento inovador nas empresas; e) E o monitoramento do fluxo de
conhecimento.
Segundo Amato (2000), a cooperação interorganizacional visa atender a
vários objetivos das empresas, inclusive combinar competências, utilizar o know-how de
outras empresas, dividir os custos de pesquisas tecnológicas e compartilhar riscos ao se realizar
experiências em conjunto para se explorar novas oportunidades.
Redes de empresa representam um modo de se regular a interdependência de sistemas
complementares (em áreas funcionais como a produção, engenharia, pesquisa, e
coordenação). Portanto, uma rede é um modelo organizacional diferente de uma única
firma grande que agrega as diferentes funções sob um único comando comum, pois a rede
reduz os custos de gerenciamento do sistema (Amato, 2000).
Os fatores determinantes na formação de uma rede interorganizacional são
a diferenciação, a interdependência e a flexibilidade. A diferenciação
impulsiona a inovação dentro da rede sem gerar significativos aumentos de custo. A
interdependência é o fator que cria a motivação para a formação da
rede e a confere unidade organizacional. E a flexibilidade (produtiva, organizacional e de
inovação) é um atributo gerador de vantagem competitiva para a rede, por lhe conferir
grande poder de adaptação conforme mudem as contingências de seu ambiente de
negócio (Amato, 2000).
2.3 Gestão do Conhecimento para a Inovação Tecnológica
A competição e a evolução tecnológica “[...]
tornaram o conhecimento e o tempo um importante diferencial competitivo para as empresas. O ciclo de vida dos
produtos, graças aos crescentes investimentos em pesquisa e desenvolvimento, está sendo reduzido
drasticamente.” (Silva apud Terra, 2001, p. XIX).
Neste âmbito, é verdadeiro o conceito de que novas tecnologias podem mudar a
situação competitiva de vários modos, e que a descoberta antecipada de mudanças em
seu ambiente é um fator importante para o sucesso de toda empresa orientada para a tecnologia,
principalmente se for verificada a redução dos ciclos de vida dos produtos (Grawatsch, Schuh,
2003).
Nonaka e Takeuchi (1997) consideram que a inovação tecnológica na
empresa é função da dinâmica do conhecimento organizacional, partem da
distinção básica entre o conhecimento explícito (formalizado em livros,
fórmulas, treinamentos e manuais) e o conhecimento tácito e prático.
O conhecimento organizacional evolui por intermédio de quatro processos distintos do
conhecimento:
- O processo de internalização ocorre quando o conhecimento explícito é
transmitido através de apresentações formais verbais ou por escrito; o profissional
assimila os conceitos, os põe em prática até desenvolver habilidades, ou seja,
até obter conhecimento tácito;
- A combinação consiste do relacionamento sistemático de diversos conhecimentos
explícitos, resultando numa nova formalização de conhecimento explícito;
- O processo de socialização trata do compartilhamento de experiência que ocorre na
relação mestre-aprendiz, na qual o conhecimento tácito é adquirido ao se
observar e imitar diretamente o conhecimento tácito de um profissional mais experiente, sem usar a
linguagem como o principal meio para transmitir o conhecimento;
- Por fim, quando o conhecimento tácito consegue ser expresso de forma clara e sistemática
pelo processo da externalização, se transforma em conhecimento explícito.
Para Nonaka e Takeuchi (1997), a externalização é o tipo mais importante
de conversão do conhecimento, por criar conceitos novos a partir do conhecimento tácito.
Consideram que a inovação só ocorre pela interação entre o conhecimento
tácito e o conhecimento explícito.
Lichtenthaler (2005) observa que a efetividade da gestão tecnológica
fundamentalmente é influenciada pela qualidade das observações feitas sobre as
tecnologias atuais e as tendências de tecnologias futuras, i.e., a aquisição e taxa de
informação em tendências tecnológicas, é um dos processos centrais da
gestão tecnológica. Salienta ainda que a complexidade e o dinamismo do desenvolvimento
tecnológico tornam difícil a geração de informações bases
pertinentes às tendências tecnológicas.
2.4 Estrutura de Relacionamentos Organizacionais
Holmen, Pedersini e Torvatn (2004) fazem uma clara distinção entre
relacionamento e episódio. Um relacionamento é um conjunto de episódios de trocas
organizacionais conectadas. Os episódios são limitados no tempo e tratam de assuntos pontuais
como, por exemplo, um projeto conjunto de desenvolvimento de um novo produto, teste de produtos e troca de
pessoal. Quando certo episódio é precedido por uma série de outros episódios, os
agentes em questão já estabeleceram uma orientação conjunta, ou seja,
estabeleceram um relacionamento organizacional. Um relacionamento influencia um episódio de troca
organizacional e cada episódio afeta o próprio relacionamento.
Ahuja (2000) constata, em um estudou sobre como as redes afetam a inovação, que
redes fechadas, i.e., redes com relacionamentos de compromisso de longo prazo entre os agentes, são
propícias para criar ambiente colaborativo e para superar o oportunismo (risco do atual parceiro
não cumprir com os acordos da parceria e usar o conhecimento da parceria para disputar com a empresa
ex-parceira). Por outro lado, redes com buracos estruturais (isto é, contatos com diversos parceiros
que não interagem entre si) facilitam para se obter rápido acesso a informações
diversificadas, mas dificultam a inovação, por prejudicarem a relação de
confiança entre os agentes parceiros.
Nesse mesmo trabalho, mostra o efeito das ligações diretas e das
ligações indiretas no desempenho em inovações. Uma ligação direta
é o acesso à empresa com a qual se estabeleceu uma parceria, sendo que tal ligação
ocorre sem a intermediação de terceiros e proporcionam compartilhamento de recursos e
conhecimento.
Por outro lado, ligações indiretas são os relacionamentos nos quais a
empresa analisada tem algum tipo de acesso indireto a várias empresas por intermédio de uma
empresa com a qual tem parceria direta, propiciando apenas o compartilhamento de informações
para a empresa focal (Ahuja, 2000).
O processo de inovação em uma rede de inovação parte de um
agente, ou seja, de uma organização que realiza Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para
ampliar sua base de conhecimento. De tal base de conhecimento, a empresa cria uma inovação
potencial que é avaliada por uma instituição denominada pelos autores como
“oráculo da inovação” que vai julgar se a inovação potencial
terá sucesso ou fracasso. Se a empresa tiver sucesso na inovação, então
receberá uma recompensa financeira que valoriza suas ações de capital, viabilizando
futuros projetos de P&D.
Para acelerar o desenvolvimento de sua base de conhecimento e a chance de sucesso de uma
inovação potencial, uma empresa pode buscar uma outra organização para uma
parceria de inovação, de acordo com a sua estratégia de desenvolvimento de novos
produtos. Caso o parceiro potencial também se interesse pela parceria, então ocorre uma
mútua coincidência de intenções e a parceria é efetivada.
A parceria de inovação viabiliza que a empresa tenha duas fontes para
desenvolver a sua base de conhecimento: o seu próprio P&D e a base de conhecimento do parceiro.
Novamente, a base de conhecimento resultante da parceria cria uma inovação potencial que
é avaliada pelo “oráculo de inovação”. No caso de fracasso, a parceria
pode buscar um novo projeto ou, eventualmente, se dissolver. No caso de sucesso da inovação, os
parceiros são financeiramente recompensados e o parceiro não-integrante da rede de
inovação ganha a reputação necessária para ser convidado pelo parceiro
integrante da rede a participar da mesma. Com isso, o número de membros da rede cresce e aumentam as
fontes de desenvolvimento das bases de conhecimento para cada membro.
Fazendo parte da rede de inovação, o membro recém convidado passa pelo
mesmo ciclo de desenvolvimento da base de conhecimento através do aprendizado a partir do conhecimento
dos outros integrantes da rede, para criar uma nova inovação potencial, que será avaliada
pelo “oráculo de inovação”. No modelo, certo número sucessivo de
fracassos implica na dissolução da rede, enquanto que inovações bem sucedidas
resultam em recompensas financeiras que são distribuídas entre os agentes da rede, conforme o
acordo de colaboração.
2.5 Os Algoritmos da Teoria das Restrições para a Programação da
Produção
A Teoria das Restrições foi criada pelo físico israelense, Eliyahu
Goldratt. Após concluir o seu doutorado sobre otimização de fluxo de líquidos e
obter patentes neste campo, Goldratt se dedicou a resolver problemas de programação de
produção em uma fábrica. Para otimizar o atendimento de pedidos no prazo, aumentar a
produtividade e diminuir os estoques, elaborou um método de programação da
produção e fundou uma empresa para comercializar o Optimized Production Technology,
software criado para programar a produção de manufaturas.
Em 1982, sua empresa foi avaliada como a sexta empresa de maior crescimento nos EUA. Alguns
anos depois, escreveu o livro “A Meta”, que vendeu mais de dois milhões de cópias,
para divulgar sua metodologia de produção, o “Drum-Buffer-Rope” (Goldratt,
Cox, 2002).
Os detalhes sobre o funcionamento dos algoritmos do Tambor-Pulmão-Corda
(Drum-Buffer-Rope) foram publicados por Goldratt, quando ele decidiu enfocar no
ensino da Teoria das Restrições e não mais no software de
programação da produção (Goldratt, 1991).
A seguir são descritos os algoritmos e rotinas do Tambor-Pulmão-Corda.
a) Drum (Tambor) – A Definição do Ritmo Viável de
Produção
A programação da produção pela Teoria das
Restrições visa alinhar o ritmo de todo o fluxo de produção com o ritmo de vendas.
Para isso, apenas um recurso ou um centro de trabalho é programado.
Se a demanda for maior do que a capacidade, alguns pedidos não serão entregues
no prazo e o volume de produção do fluxo de produção como um todo vai ser
determinado pelo recurso de menor capacidade, ou seja, pelo gargalo. Portanto, a seqüência de
produção que irá maximizar a entrega de produtos no prazo deve ser definida no gargalo,
de acordo com sua capacidade real. Tanto a liberação de materiais como a seqüência de
produção dos recursos não-gargalo devem se subordinar à programação
do gargalo. Deste modo, o recurso com restrição de capacidade deve ser o responsável pelo
ritmo de todo o fluxo de produção.
Caso a demanda seja menor que a capacidade, haverá ociosidade. Neste caso, o ritmo
para o fluxo de produção como um todo deve ser dado pela seqüência da
expedição.
b) Buffer (Tempo de Proteção) - Imunização do Fluxo
contra Paradas Imprevistas
Nem tudo ocorre conforme o planejado em uma fábrica. Os pedidos de
produção podem atrasar por faltas de materiais ou embalagens, erro no sistema de
informação, defeito de qualidade, falta de mão-de-obra, etc. Além disso, os lotes
de produção, as reprogramações e os “encaixes” de pedidos de
última hora para clientes-chave são causas muito comuns para a fila de ordens de
produção crescer demais e dificultar a gerenciabilidade do sistema.
Apesar de não se saber o que dará errado, pode-se fazer um levantamento da
freqüência e duração das paradas imprevistas durante os últimos meses e
programar a liberação de materiais e o recurso com restrição de capacidade com um
tempo de proteção dimensionado em função deste levantamento. Essa medida simples
evita excesso de reprogramações.
c) Rope (Corda) – Limitação Controlada do Estoque em Processo
Para que a proteção de tempo seja formada, o programa da
liberação de materiais deve ser subordinado ao programa da restrição e da
expedição, sendo que está “amarração” entre os programas em
diferentes pontos do fluxo é feita pela “Corda”. Assim, a seqüência da
liberação de materiais respeita a capacidade do gargalo e, além disso, é
antecipada pela duração dos Tempos de Proteção.
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