Introdução
O atual cenário econômico de acirrada competição internacional, de
necessidade de introduzir os avanços tecnológicos nos processos produtivos e de
evolução do sistema econômico têm feito surgir nas empresas uma constante
preocupação em desenvolver estratégias para o aprimoramento da capacidade inovadora, bem
como têm influenciado no comportamento de busca que se encontra na base da inovação
(Cassiolato; Lastres, 2000; Corazza; Fracalanza, 2004).
As revoluções tecnológicas trazem consigo um conjunto de novas
indústrias, com baixo custo de entrada, um conjunto de tecnologias genéricas que estão em
toda a parte e princípios organizacionais que são capazes de renovar as outras atividades
produtivas (Perez, 2004).
A inovação, ao longo do tempo, passou por transformações na
maneira como é vista. Inicialmente, o conceito de Schumpeter (1985) definia a inovação a
partir do resultado da ação do empreendedor como novas combinações colocadas no
mercado, sejam na introdução de um novo bem, novo processo, novo mercado, nova fonte de
matéria-prima ou de uma nova forma de organizar as empresas.
A partir da percepção das relações formadas entre empresas e
instituições e da forma como influenciam o desenvolvimento econômico, passou-se a analisar
a inovação por meio de uma abordagem sistêmica (Cassiolato; Lastres, 2000; Nelson, 2006;
Marion Filho; Sonaglio, 2007). Esses sistemas, por sua vez, podem ser considerados a partir do seu
delineamento geográfico como setoriais, locais, regionais, nacionais e supranacionais (Johnson;
Edquist; Lundvall, 2003; Silvestre; Dacol, 2006).
Observou-se também a evolução de conceitos e entendimentos relacionados
à capacidade tecnológica dentro das organizações. Essas evoluções
tiveram dois marcos: um deles nos anos 1970, quando começaram a surgir estudos com o objetivo de
examinar a mudança tecnológica e o que ela representava para o desenvolvimento industrial e
econômico dos países e empresas; e, nos anos 1990, quando surgiram estudos que visavam examinar
as implicações dos processos de aprendizagem na trajetória tecnológica das
empresas nos países em desenvolvimento (Figueiredo, 2005).
Assim, observa-se a crescente importância, nas últimas duas décadas, dos
estudos ressaltando o valor da “aprendizagem” e da “capacidade” para o desempenho das
empresas (Cassiolato; Lastres, 2000; Lemos, 2000; Figueiredo, 2002).
O que se percebe a partir de Lall (2005) é que a competição global tem
um efeito positivo no desenvolvimento das capacidades tecnológicas, sendo o contato com o exterior uma
fonte importante de conhecimentos tecnológicos.
O que pode ser entendido, no entanto, é uma relação entre o
desenvolvimento de capacidades tecnológicas e o aumento do conhecimento do mercado, o que faz com que
as empresas tenham possibilidades maiores de ingressar em mercados e se tornarem mais competitivas. Nesse
sentido, é preciso identificar, além da importância e das capacidades tecnológicas
que as empresas podem adquirir ao longo do seu desenvolvimento, quais meios elas utilizam para se tornarem
internacionais.
Assim, nos estudos sobre internacionalização observam-se dois tipos de
abordagem. A primeira se relaciona com aspectos mais econômicos da
internacionalização e com questões voltadas à maximização dos
retornos econômicos, denominando-se abordagem econômica (Dib; Carneiro, 2006). A outra está
voltada a aspectos mais processuais e comportamentais e leva em consideração o comportamento da
empresa no processo de internacionalização; ela é chamada de comportamental e teve origem
com os estudos sobre o processo por estágios da internacionalização (Blomstermo,
Eriksson; Sharma, 2004; Dib; Carneiro, 2006).
A internacionalização de empresas a partir de uma perspectiva evolucionista
é um processo em que ela aumenta seu envolvimento internacional a partir do aumento do conhecimento dos
mercados externos e acúmulo de experiência em operações nesses mercados
estrangeiros (Johanson; Vahlne, 1977; Zander, 2002).
Partindo dos pressupostos acima descritos e da importância que se percebe na
relação entre o desenvolvimento de capacidades tecnológicas em empresas
internacionalizadas e não internacionalizadas sob um mesmo sistema setorial de inovação,
este artigo tem como pergunta: Como se dá a trajetória de acumulação de capacidade
tecnológica em empresas de diferentes níveis de internacionalização sob um mesmo
sistema setorial de inovação?
Nesse sentido, o trabalho procederá à explicação de cada
categoria de análise, propondo ao final um modelo analítico relacionando as categorias, para ser
aplicado em pesquisas que pretendem adotar a relação desses três temas.
QUADRO 1 - MODELO DE ANÁLISE PROPOSTO
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Sistema Setorial de Inovação
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Capacidade
Tecnológica
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Internacionalização
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Como pode ser caracterizado um Sistema Setorial de
Inovação?
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Quais os níveis e funções de Capacidade
Tecnológica?
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Como se dá o processo de aumento de envolvimento da empresa com
o mercado externo?
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Capacidade Tecnológica e Internacionalização no Sistema
Setorial de Inovação
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Como se dá a relação entre o desenvolvimento de
capacidade tecnológica, internacionalização e o sistema setorial de
inovação em que a empresa está inserida?
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FONTE: Os autores
A fim de investigar essas questões, o trabalho está estruturado como um estudo
teórico que buscou na literatura autores para responder às perguntas colocadas no quadro 1 e
propor pesquisas sobre o tema como forma de aprofundar as pesquisas que relacionem a capacidade
tecnológica e internacionalização de empresas em sistemas setoriais de
inovação.
Primeiramente, além desta introdução sobre o tema proposto, faz-se uma
abordagem sobre o sistema setorial de inovação e a forma como o mesmo pode ser caracterizado. Em
seguida, têm-se os principais conceitos e propostas de avaliação das capacidades
tecnológicas das empresas, abordando-se principalmente modelos de referência da literatura. A
terceira parte faz menção às abordagens sobre internacionalização,
destacando o conteúdo e contextos relacionados às abordagens econômicas e comportamentais.
Posteriormente, na quarta parte, propõe-se uma forma de analisar os três temas de forma conjunta,
ressaltando fontes da literatura que fazem referência a essa relação. Por fim,
têm-se as considerações finais, com a proposição de um modelo
analítico integrando os três temas e suas variáveis.
1. Sistema setorial de inovação
A partir da revisão da literatura feita para o tópico de sistema setorial de
inovação, como segue, pretende-se responder à pergunta de pesquisa colocada na
introdução: “Como pode ser caracterizado um sistema setorial de
inovação?".
Diante de todos os agentes e aspectos que se relacionam com a inovação nas
empresas e o desenvolvimento econômico, o modelo sistêmico de inovação é
desenvolvido por Freeman (1995) como meio de ampliar a concepção de inovação,
considerando as influências dos fatores organizacionais, institucionais e econômicos, buscando
explicar por que algumas regiões são mais desenvolvidas tecnologicamente que outras (Marion
Filho; Sonaglio, 2007).
>De acordo com a concepção de vários autores (Cassiolato; Lastres, 2000;
Marion Filho; Sonaglio, 2007; Nelson, 2006), um sistema de inovação tem por objetivo explicar a
relação entre instituições de diferentes tipos que, em conjunto e individualmente,
contribuem para o desenvolvimento do desempenho inovador e transferências de tecnologias, além de
ser uma alternativa para as empresas adquirirem novas habilidades e competências.
Os sistemas de inovação podem ser delimitados de acordo com seu posicionamento
geográfico, com o seu setor específico e a partir das atividades principais (Johnson; Edquist;
Lundvall, 2003; Silvestre; Dacol, 2006).
O sistema de inovação é geograficamente definido, podendo ser local,
regional, nacional e “supranacional”. Este tipo de delimitação leva em
consideração que a área referida possui um grau razoável de coerência ou
inward orientation em relação ao processo de inovação (Johnson; Edquist;
Lundvall, 2003; Silvestre; Dacol, 2006).
O sistema é definido como setorial quando inclui apenas uma parte regional, nacional
ou internacional. Refere-se a tecnologias específicas ou áreas produtivas, concentradas dentro
dos limites setoriais. Podem também ser, mas não necessariamente, restritas a um setor de
produção (Johnson; Edquist; Lundvall, 2003; Silvestre; Dacol, 2006).
O sistema setorial de inovação e produção, segundo Malerba (2002,
p. 4), “é composto por um conjunto de agentes heterogêneos que realizam
interações mercantis e não-mercantis para geração, adoção e
uso de (novas e estabelecidas) tecnologias para criação, produção e
utilização de (novos e estabelecidos) produtos que pertencem a um setor (produtos
setoriais)”.
De uma maneira mais detalhada, Malerba (2002, 2003, p. 332) acrescenta que o sistema setorial
é composto por três blocos distintos: “domínio de conhecimento e tecnologia; agentes
e relações; e instituições”.
FIGURA 1 - FATORES CARACTERIZADORES DO SISTEMA SETORIAL DE
INOVAÇÃO

FONTE: Adaptado de Malerba (2003)
O primeiro refere-se à distinção que pode ser feita de setor para setor
a partir dos seus conhecimentos específicos, tecnologias e insumos. O conhecimento e a tecnologia
constituem os elementos restritivos em todo o conjunto de comportamentos e organização das
empresas em um sistema setorial (Malerba, 2003).
O segundo está relacionado à heterogeneidade dos agentes que compõem o
setor, que podem ser individuais ou organizacionais. Nos agentes organizacionais são encontradas as
empresas, como usuários, produtores e fornecedores de matéria-prima, e
organizações não-empresariais, como universidades, instituições
financeiras, agências do governo, bem como organizações que podem ter maior ou menor
nível de agregação, como consumidores, departamentos de P&D ou
associações industriais (Cassiolato, Lastres, 2000; Malerba, 2002, 2003).
O terceiro bloco trata das instituições. São elas que regem as
interações entre os agentes e podem ser em forma de normas, rotinas, hábitos,
práticas, regras, leis, entre outras. Nessa concepção destacam-se as
relações importantes entre as instituições nacionais e as setoriais, uma vez que
as nacionais exercem diferentes influências nos diversos setores de um país.
De acordo com Malerba (2003), o sistema setorial está focado na heterogeneidade de
agentes dentro do setor com relação a competências, comportamento e
organização. Além disso, os setores diferem entre si a partir das extensões e
tipos de heterogeneidade dos agentes, dos seus “processos de aprendizagem, competências,
crenças, objetivos, estrutura organizacional e comportamento”, interagindo no meio de ambientes
mercantis ou não-mercantis através de processos de comunicação, de trocas de
cooperação, competição e comando (Malerba, 2002, 2003, p. 333; Nelson, 2006).
Vale ressaltar, então, que o interesse nos sistemas de inovação é
influenciado pela cultura de que as empresas passam pelos processos de inovação a partir de
políticas do governo. Com isso, percebe-se que duas das grandes características relacionadas aos
SI fazem referência à educação (formação da força de trabalho
e pesquisa) e à estrutura macroeconômica (Nelson, 2006).
Nota-se que os sistemas de inovação fazem uso de abordagens históricas e
perspectivas evolutivas. Os processos de inovação se desenvolvem no transcorrer do tempo e
são influenciados por muitos fatores e processos de feedback, além de serem
considerados path dependent (Johnson, Edquist, Lundvall, 2003).
Essa abordagem é enfática no sentido da interdependência e da não
linearidade, uma vez que é baseada no entendimento de que as empresas normalmente não inovam
isoladamente, mas em interação mais ou menos próxima com outras
organizações por meio de relações complexas baseadas nos princípios da
reciprocidade e nos mecanismos dos círculos de feedback (Johnson, Edquist, Lundvall, 2003).
Entender a inovação por uma visão sistêmica, portanto, é
enxergar o processo como a integração entre empresas numa complexa relação
econômica e social com o meio em que estão inseridas (Cassiolato, Lastres, 2000).
Pressuposto 1 - O sistema setorial de inovação é
caracterizado de acordo com o domínio de conhecimento e tecnologia dos agentes e suas
relações e das instituições que regem as interações econômicas
e sociais com o meio em que estão inseridas.
2. Capacidades tecnológicas
Neste tópico, assim como no anterior, o estudo da literatura sobre capacidades
tecnológica visa responder à pergunta de pesquisa para essa categoria, também apresentada
na introdução, a saber: “Quais os níveis e funções de capacidade
tecnológica?”
Observa-se que nas duas últimas décadas cresceu o número de estudos
sobre a importância da “aprendizagem” e da “capacidade” para o desempenho das
empresas, destacando a globalização e a crescente competição internacional como
fatores que têm provocado mudanças no modo de conduzir os negócios de uma
organização. Assim é que, para estar à frente dessas mudanças, é
fundamental adquirir novas capacidades e conhecimentos, ou seja, tornar mais intensa a habilidade das pessoas,
organizações e nações de aprender e transformar o aprendizado em valor
competitivo, revelando-se importante a gestão baseada no conhecimento e nos processos de aprendizado
(Cassiolato, Lastres, 2000; Figueiredo, 2002; Lemos, 2000).
Relacionados a esses fatos, os altos índices de inovação que se
encontram no cenário de competição atual levam a uma procura maior por habilidades que
deem respaldo às necessidades e oportunidades que surgem, como novos investimentos em pesquisa,
educação e treinamentos, pois todos os instrumentos tecnológicos já
disponíveis podem se tornar inúteis caso não exista uma estrutura de
capacitação para utilizá-los, acessar informações e transformá-las
em conhecimento e inovação (Lemos, 2000).
A distinção de diferentes conceitos e rótulos que identificam a
explicação de variáveis da vantagem competitiva da empresa tem criado uma confusão
de terminologias (Prencipe, 2000). Assim, como já havia colocado Praest (1998), os termos
competência e capacidade vêm sendo utilizados de forma alternada, sem uma distinção
específica entre os conceitos centrais: recursos, ativos, competências e capacidades.
Nesse sentido, completa Savory (2006) que tais termos (recursos, capacidade e
competência) têm sido utilizados para fazer referência a ideias similares, o que resulta em
uma falta de clareza. Para o autor, o motivo de tal confusão pode ser simplesmente a diversidade das
pessoas e suas histórias, que contribui para a construção da literatura, mas
também pode ser devido às diferenças na compreensão dos conceitos relacionados,
como tecnologia e conhecimento organizacional.
Praest (1998) faz então uma distinção importante entre competência
e capacidade. Para ele, competência é a habilidade de resolver problemas e tomar decisões
na organização, sendo, portanto, uma combinação de capacidades específicas
da empresa e das informações incorporadas nas pessoas. Já a capacidade é a
disposição dos recursos em executar atividades. Desse modo, a capacidade está associada a
uma específica aplicação na empresa (Praest, 1998).
O valor da informação e do conhecimento, no entanto, tem sido relacionado,
atualmente, ao surgimento de novas tecnologias de informação, que passaram a influenciar no modo
de produzir e distribuir bens (tangíveis e intangíveis) (Albagli, Maciel, 2004).
As informações tecnológicas aumentam o estoque de conhecimento
codificado, e as capacidades (tácita e explícita) relacionadas ao uso dessas novas tecnologias
tornam-se cada vez mais importantes, gerando, assim, muitas das inovações locais e incrementais
(Lundvall, 2006; Malerba, 1992).
Em vista dessas perspectivas, autores como Hobday e Rush (2007) definem a capacidade
tecnológica de uma organização como o acúmulo de conhecimentos, habilidades,
experiências e base organizacional que habilitam a empresa a adquirir, desenvolver e usar tecnologia
para alcançar vantagem competitiva. Esses conhecimentos e capacidades estão incorporados em
indivíduos, organizações e instituições localizados em uma área
geográfica delimitada e propícia à inovação (Iammarino,
Padilla-Pérez, Tunzelmann, 2008).
Nesse sentido, além das interações e comportamentos organizacionais
dentro da empresa, a abordagem ao nível micro olha para as relações da empresa com fontes
externas de conhecimento, como outras empresas, universidades e centros de pesquisa e agências
públicas, com foco no conhecimento de uma direção e fluxos de recursos provenientes
destas fontes externas à empresa (Iammarino, Padilla-Pérez, Tunzelmann, 2008).
O desenvolvimento das capacidades tecnológicas de uma empresa é resultado,
portanto, de investimento feito pela empresa em resposta a estímulos internos e externos, e de uma
interação com outros agentes econômicos (privados e públicos, locais e
estrangeiros), sendo essas capacidades os próprios ativos intangíveis que se enquadram na
categoria de ativos do conhecimento (Lall, 1992; Savory, 2006).
Além disso, existem fatores que são específicos da empresa e aqueles que
são comuns a alguns países, que dependem dos regimes políticos, habilidades e estrutura
institucional (Lall, 1992).
Como concluem Archibgui e Coco (2004), a capacidade tecnológica sempre foi considerada
um componente fundamental do crescimento da economia, sendo uma de suas principais características a
dificuldade em distribuí-la uniformemente entre países, regiões e empresas.
Observa-se, diante do contexto apresentado, que a complexidade e dinamismo dos novos
conhecimentos exigem um olhar especial para o aprendizado permanente e interativo, seja entre
indivíduos, empresas ou demais instituições, a fim de se capacitarem para enfrentar os
desafios impostos pelo novo cenário, desenvolvendo os processos de inovação por
intermédio de novos conhecimentos e da habilidade de apreendê-los, acumulá-los e
utilizá-los (Lastres, Cassiolato, 2003).
Nesse sentido, destaca-se que, na literatura, são vários os autores que
propõem um modelo de capacidade tecnológica (Lall, 1992; Bell, Pavitt, 1995; Dutrénit,
2004; Figueiredo, 2003).
Lall (1992, 2005) parte do princípio de que a análise da tecnologia se
dá a partir da teoria evolucionista. Segundo Lall (1992), o ponto de partida dessas teorias é
que as empresas não podem adotar uma função de operação comum. A teoria
evolucionista está muito mais capacitada a lidar com o aspecto sistemático da capacidade
tecnológica ou a analisar e explicar a ocorrência dessas capacidades no mundo (Lall, 2005).
Assim, a capacidade tecnológica é um conjunto de habilidades,
experiências e esforços que dão às empresas a condição de utilizar,
adaptar, aperfeiçoar e criar tecnologias (Lall, 2005).
O modelo de Lall (1992), no entanto, comporta três graus de complexidade das
capacidades tecnológicas que são absorvidas pelas empresas: básico, intermediário
e avançado, e considera ainda as diversas funções em que essas podem ser acumuladas
nível por nível. São elas: capacidade de investimento, de produção e de
relação com a economia. Essas funções especificam as atividades referentes
às capacidades de cada grau de complexidade da capacidade tecnológica. Mas é importante
destacar, segundo Lall (1992), que essas funções não são exaustivas nem precisam
ser desempenhadas por todos os setores da indústria.
O modelo de Bell e Pavitt (1995) leva em conta que a capacidade tecnológica é a
capacidade de gerar e gerenciar mudanças, e que a tecnologia não pode ser considerada
simplesmente como uma questão de informação, mas sim como um complexo agrupamento de
informações (codificadas e tácitas).
Os autores afirmam que, no caso da inovação, é necessário muito
mais que o conhecimento codificado. A inovação requer ainda o conhecimento tácito, pois
este é específico para produtos, processos e empresas, podendo ser adquirido por
acumulação de experiência (Bell, Pavitt, 1995).
A ideia central está na diferenciação entre capacidade de
produção e capacidade tecnológica. Segundo os autores, essa
distinção mostra uma importante mudança ao longo dos anos nos processos de
acumulação tecnológica na indústria: o aumento da especialização e
profissionalização de atividades envolvidas em gerar e gerenciar as mudanças
técnicas (Bell, Pavitt, 1995).
A capacidade tecnológica necessária para gerar e gerenciar a mudança
tecnológica inclui habilidade, conhecimento e experiência que geralmente (mas nem sempre) diferem
substancialmente daqueles necessários para operar sistemas técnicos existentes, bem como tipos
particulares de estruturas institucionais e as ligações necessárias para as
mudanças técnicas (Bell, Pavitt, 1995).
Os autores afirmam que, pela natureza e recursos do conhecimento tecnológico nas
diversas indústrias, fica difícil uma generalização a respeito da sequência
da acumulação de capacidades tecnológicas. Nesse sentido, propõem cinco categorias
que se diferenciam em fontes e direções da mudança tecnológica: empresas dominadas
por fornecedores, empresas de escala intensiva, empresas de informação intensiva, empresas
baseadas na ciência e empresas fornecedoras especializadas (Bell, Pavitt, 1995).
O trabalho de Dutrénit (2004) sugere que algumas empresas estão em um
estágio que pode ser chamado de “processo de transição”. Essas empresas
têm acumulado conhecimento e construído uma base mínima de conhecimento essencial e,
além disso, estão próximas à fronteira internacional tecnológica em algumas
áreas, mas não possuem ainda capacidades centrais/estratégicas.
Dois tipos de capacidade relacionada às atividades de acumulação
são definidos nesse modelo. A capacidade estratégica, baseada na concepção de
capacidade da literatura de gestão estratégica, é definida como a capacidade
tecnológica inovadora, usada para distinguir a empresa em termos competitivos, para competir na base do
conhecimento. Assim, elas são capazes de dar à empresa vantagem competitiva (Dutrénit,
2004).
A capacidade estratégica embrionária, por sua vez, é aquela capacidade
tecnológica inovadora ainda incipiente. Ela não é usada para distinguir a competitividade
da empresa e inclui um estoque de conhecimento mais profundo em algumas funções técnicas,
áreas técnicas ou campos de conhecimento, podendo ser a base para a construção de
capacidades estratégicas (Dutrénit, 2004).
O modelo distingue três estágios de acumulação e as
diferenças entre capacidades estratégicas e embrionárias, e ilustra algumas
características das empresas no processo de transição. Os três estágios de
construção de capacidades tecnológicas são definidos de acordo com o nível
de acumulação de capacidades tecnológicas inovadoras (básica para avançada)
e o uso de capacidades tecnológicas inovadoras (para distinguir a competitividade da empresa ou
não) (Dutrénit, 2004).
O modelo desenvolvido por Figueiredo (2003) foi adaptado de Lall (1992) e Bell e Pavitt
(1995), e faz também uma diferenciação dos níveis de capacidade tecnológica
entre níveis básicos e avançados.
Nesse sentido, o modelo propõe que as capacidades tecnológicas sejam divididas
em "rotineiras" e "inovadoras", colocadas ao longo de diferentes funções
tecnológicas. Sendo assim, as capacidades rotineiras se referem a “atividades tecnológicas
realizadas num determinado nível de eficiência e utilização de insumos”
(Figueiredo, 2003, p. 38). Em suma, são capacidades necessárias para fazer uso das tecnologias,
conhecimentos e arranjos organizacionais (Figueiredo, 2003; Ariffin, Figueiredo, 2004).
As capacidades inovadoras têm o poder de modificar as tecnologias, conhecimentos,
experiências e mecanismos organizacionais. Assim, elas possibilitam a modificação,
criação ou melhoria de produtos, processos, organização da produção
ou equipamentos, e consistem na habilidade de mudança tecnológica, conhecimentos,
experiências e arranjos organizacionais (Figueiredo, 2003; Ariffin, Figueiredo, 2004).
Têm-se, no modelo, sete níveis de capacidade (entre inovadoras e rotineiras)
para cinco funções tecnológicas: 1. decisão e controle sobre a planta; 2.
engenharia de projeto; 3. processos e organização da produção; 4. produtos, e 5.
equipamentos. Segundo o autor, as funções 1 e 2 são examinadas em conjunto como
“investimentos” (Figueiredo, 2003).
A partir desse modelo de Figueiredo (2003), outros estudos específicos para
áreas diversas da indústria foram sendo elaborados, como os de Tacla (2003), no setor de papel e
celulose; Figueiredo (2005), no setor de telecomunicações; Castro e Figueiredo (2005), em uma
unidade da Companhia Siderúrgica Nacional; Ohba e Figueiredo (2006), na indústria
farmacêutica, e Miranda e Figueiredo (2006; 2010), na indústria de software.
Todos esses trabalhos utilizaram a proposta inicial de divisão das capacidades
tecnológicas em níveis de complexidade de rotineiras e inovadoras e propuseram
funções tecnológicas específicas.
Cite-se como exemplo o trabalho de Tacla (2003), que divide as funções em seus
diferentes níveis de capacidade tecnológica para o setor de papel e celulose: engenharia de
sistemas, gestão de projetos, processos e sistemas operacionais e equipamentos de processo.
Em um trabalho mais recente publicado por Miranda e Figueiredo (2010), essa divisão
é feita para o setor de software e está assim configurada: engenharia de
software, produtos e serviços, e processos.
Nesse sentido, observa-se a importância de determinar funções
específicas, em que as capacidades tecnológicas são acumuladas para cada setor, visto que
cada um deles possui especificidades que caracterizam as capacidades que as empresas necessitam para serem
mais ou menos inovadoras e para adquirirem uma vantagem competitiva sustentável.
Esse caso pode ser observado, por exemplo, no modelo estudado por Figueiredo (2003) e pelos
autores que fizeram uso do seu modelo como base, mas que o adaptaram para cada setor que pesquisaram. Assim,
nota-se, nesses estudos, a importância de se observar as especificidades de cada setor para adaptar os
tipos de capacidades tecnológicas presentes em cada grau de complexidade e em cada função
tecnológica.
Pressuposto 2 - As capacidades tecnológicas acumuladas pelas empresas
apresentam especificidades setoriais, passam por níveis de complexidade de rotineiras e inovadoras, e
são desenvolvidas em funções organizacionais como engenharia, produtos, serviços e
processos.
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