ISSN 0798 1015

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Vol. 38 (Nº 28) Año 2017. Pág. 26

Registro de ocorrência de Heterotermes longiceps Snyder, 1924 (Isoptera: Rhinotermitidae) em frutos de Babaçu no município de Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, Brasil

Case record, Heterotermes longiceps Snyder, 1924 (Isoptera: Rhinotermitidae) in fruit of Babaçu in the city of Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, Brazil.

Josamar Gomes da SILVA JUNIOR 1; Otávio PERES-FILHO 2; Lilian Guimarães de FAVARE 3; Alberto DORVAL 4; Marcelo Dias de SOUZA 5; Valdiclei Custódio JORGE 6

Recibido: 04/01/17 • Aprobado: 24/02/2017


Conteúdo

1. Introdução

2. Material e métodos

3. Resultados e discussão

4. Considerações finais

Referências bibliográficas


RESUMO:

Heterotermes longiceps, conhecido como cupins subterrâneos, são nativos, encontrados tanto em área de mata, quanto em campo a céu aberto, livre de vegetação arbustiva. Seus registros comumente encontrados são a respeito de sua predação a madeiras estruturais em áreas urbanas. O presente estudo visa registrar a ocorrência de H. longiceps em frutos maduros de babaçu (Orbignya phalerata), encontrados sob as árvores desta espécie. A pesquisa foi desenvolvida no município de Nossa Senhora do Livramento – MT, onde foram observados ataques aos frutos, assim, coletados como amostras para análise no Laboratório de Proteção Florestal da Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Mato Grosso. Por meio da determinação da ocorrência de cupins subterrâneos em ataque atípico a frutos de babaçu, na região e para confirmação desta informação, é aconselhável aferir sua população, bem como os danos causados. Conhecer a incidência da praga com antecedência é de suma importância para seu controle e previsão de possíveis surtos.
Palavras-chave: Cupim, praga florestal, susceptibilidade, cerrado

ABSTRACT:

Heterotermes longiceps, known as subterranean termites, are native, found in both forest area and open field, free of shrub vegetation. Their commonly found records are regarding their predation to structural timbers in urban areas. The present study aims to record the occurrence of H. longiceps in mature fruits of babaçu (Orbignya phalerata), found under the trees of this species. The research was carried out in the city of Nossa Senhora do Livramento - MT, where fruit attacks were observed, collected as samples for analysis in the Forest Protection Laboratory of the Faculty of Forestry Engineering of the Federal University of Mato Grosso. By determining the occurrence of subterranean termites in atypical attack to babassu fruits in the region and to confirm this information, it is advisable to check their population as well as the damages caused. Knowing the incidence of the pest in advance is of paramount importance for its control and prediction of possible outbreaks.
Key words: Termite, pest, susceptibility, cerrado

1. Introdução

Babaçu é o nome comum dado às palmeiras oleaginosas da família Palmae e seus integrantes dos gêneros Orbignya e Attalea. O gênero Orbignya inclui espécies nativas da região norte do Brasil, zona de transição entre o cerrado e as florestas abertas do sul da Amazônia (Clement, 2005). Entre as espécies relacionadas, Orbignya phalerata apresenta maior distribuição, variação morfológica, e importância econômica (Zylbersztajn et al., 2000). Seu subproduto principal é o óleo de babaçu, assim como o de soja, tem destaque no mercado de óleos comestíveis.

O “complexo babaçu” está distribuído principalmente nos Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Amazonas, Pará e Mato Grosso, ocupando em torno de dezoito milhões de hectares (Lorenzi et al., 2010). A comercialização brasileira de óleos láuricos é o principal mercado para o óleo de babaçu. As indústrias dos segmentos de higiene, limpeza e cosméticos absorvem 35 mil toneladas anuais de óleo de babaçu bruto. Além deste mercado, o fruto tem importância para empresas da indústria siderúrgica, pela utilização do coco carbonizado como carvão vegetal, em substituição ao oriundo de matas nativas (Zylbersztajn et al., 2000).

Práticas de desmatamento periódico associado às queimadas sucessivas, apesar de impactantes ao meio ambiente, causam efeito positivo para estabelecimento de babaçuais em locais de ocorrência da espécie (May, 1990). Outra questão, está relacionada a agricultura itinerante para “limpeza de áreas”, que é frequentemente utilizada, entretanto os babaçuais são extremamente resistentes, tem grande capacidade e velocidade de regeneração, e até então, imune aos predadores de frutos/sementes (Albiero, et al., 2007), o que acarreta em baixa diversidade das espécies no local, que pode ocasionar possíveis mudanças no comportamento de insetos predadores de sementes.

As térmitas (ordem Isoptera) ocorrem em áreas tropicais e temperadas do mundo. Seus habitats naturais são continuamente substituídos pela agricultura e urbanização; fatores que facilitam a introdução de novos registros de insetos enquadrados como pragas no âmbito agrícola florestal (Constantino, 2002), e não pragas quando estes, exercem o papel benéfico eficientes como decompositores (Varma & Swaran, 2007). São insetos de hábito subterrâneo, e seu comportamento voraz e endógeno é de difícil controle. Também são capazes de se mover e distribuir amplamente no meio ambiente (Milano & Fontes, 2002).

Este estudo teve como objetivo registrar a ocorrência do cupim (Heterotermes longiceps) em frutos maduros encontrados sob árvores de babaçu (Orbignya phalerata), em área de cerrado, localizado no município de Nossa Senhora do Livramento no Estado de Mato Grosso.

2. Material e métodos

o município de Nossa Senhora do Livramento, nas proximidades da Fazenda Cavalo Branco I (48 km de Cuiabá/MT), com coordenadas geográficas 56°31'26,70"O 15°33'57,02"S. A coleta foi realizada de fevereiro e agosto de 2015 em árvores, nativas do cerrado, conhecida como babaçu Orbignya phalerata (Mart.) Barb. Rodr.Os frutos/sementes, coletado nas árvores, foram encaminhados ao laboratório de Proteção Florestal da Universidade Federal de Mato Grosso - LAPROFLOR.

O material para estudo foi coletado antes e pós queda, em dez indivíduos da mesma espécie florestal. Os frutos/sementes em pré-queda, foram coletados com auxílio de podão (Figura 1a). Já os pós queda foram coletados sobre o solo de forma manual. O material de estudo foi disposto em de sacolas plásticas (Figura 1b), devidamente identificados e encaminhados para o LAPROFLOR, onde foram acondicionados em recipientes apropriados, em ambiente adequado, com variação de 20 a 25ºC até a emergência dos insetos.

Figura 1 – Coleta e acondicionamento dos frutos. (a) coleta em campo com auxílio do podão;
(b) amostras acondicionadas no LAPROFLOR. Nossa Senhora do Livramento/MT, 2015.

Após a emergência dos insetos, do material coletado, estes foram acondicionados em recipientes contendo álcool 70%, e transferidos ao laboratório de triagem (LAPROFLOR), sendo assim, identificados por meio de comparação aos espécimes, presentes no laboratório, processo realizado pelo Dr. Mauricio Martins da Rocha.

3. Resultados e discussão

Os cupins foram encontrados atacando frutos maduros, que estavam caídos ao chão, sendo a espécie identificada como Heterotermes longiceps SNYDER, 1924 (Figura 2).  Registra-se aqui, nova fonte de alimento para esses insetos, considerando as propriedades do fruto do babaçu, como favoráveis a adaptação alimentar da espécie.


Figura 2 – Danos ocasionados no fruto de babaçu. (a) Cupim, Heterotermes Longiceps coletados no fruto;
(b) Orifícios causados pelo ataque do cupim.Laboratório de Proteção Florestal, UFMT, 2015.

Frutos de babaçu tem composição física lenhosa, com polpa fibrosa-farinácea; pode atingir de 5 a 15 centímetros por 3 a 8 centímetros de diâmetro, e chegar ao peso de 90 a 240 gramas. É dividido nas seguintes partes: a) Epicarpo (12-18%) material fibroso, lignocelulósico; b) Mesocarpo (17-22%) composição amilácea, contendo tanino e amido; c) Endocarpo (52-60%) altamente resistente, tendo em sua composição: sílica, fósforo, ferro, magnésio e metais alcaninos; d) Amêndoa oleaginosa (6-8%), sua composição: 7,25% de proteína, 66,00% de óleo, 18,00% de carboidratos e 7,80% de materiais minerais (Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras do Bico do Papagaio – ASMUBIP).

As térmitas são classificadas como simbiontes e evoluíram de forma conjunta aos seus microrganismos associados, os quais estão envolvidos em seu processamento alimentar. Sua dieta é de difícil digestão, pela presença de moléculas complexas, com deficiências nutricionais, ausência de lipídeos e aminoácidos essenciais (Byrne et al., 2003), para isso, contam com microrganismos simbiontes, no auxílio a desintoxicação e quebras fisioquímicas do material vegetal. Assim, novas vias metabólicas, proporcionadas pelos microrganismos, podem ser a explicação para possível mudança no comportamento alimentar, baseada em novas fontes, aqui, o ataque aos frutos do babaçu.

Os primeiros estudos de danos causados por cupins na América do Sul foram relatados, por naturalistas europeus (Pohl, 1832; Hagen, 1855). O trabalho de ARAÚJO (1977), foi utilizado como base para os demais estudos científicos, que compõem a lista dos cupins classificados como pragas, relatados no Brasil, apresentada por SILVA et al. (1968). Seis espécies de Heterotermes ocorrem na América do Sul e sua taxonomia foi revista por CONSTANTINO (2001), considerando que todos eles são pragas, porém Heterotermes tenuis e H. longiceps são os mais importantes, por causar lesão de raízes, injurias em folhas, e caules das plantas atacadas.

No bioma Cerrado, os cupins são extremamente abundantes e diversificados, e na mais importante fronteira agrícola no país, as áreas são substituídas por agrossistemas. O gênero Heterotermes possui 50 espécies, encontradas em regiões tropicais e subtropicais (Constantino, 2001), faz parte da subfamília Heterotermitinae e é importante economicamente; várias são as espécies com status de praga (Constantino, 1998). Constroem ninhos difusos no solo, no interior de troncos, embaixo de pedras ou em ninhos de outras espécies de térmitas (Mathews, 1977). A espécie Heterotermes longiceps é encontrada no Brasil e na Argentina (Constantino, 1998). A espécie H. longiceps (Snyder), possui uma posição mais derivada dentro da família Rhinotermitidae (Inward et al., 2007). Apesar de ser comumente encontrado em ambientes urbanos, pode habitar área de mata (campos abertos e/ou livre de vegetação arbustiva) (Trevisan et al., 2008). São organismos particularmente evidentes e abundantes no cerrado, onde alguns tipos de cupinzeiros podem alcançar elevados níveis de densidade.

As culturas mais afetadas no país são cana, arroz de terras altas, e eucalipto. A espécie H. longiceps, juntamente com H. tenuis (Hagen), são as pragas mais importantes em plantios de cana-de-açúcar, ocorrendo principalmente nos estados do Sudeste e Centro-Oeste (Pizano & Fontes, 1986). Outras, com menor nível de dano incluem, milho, algodão, amendoim, soja, café, mandioca, frutos de árvores e alguns legumes. FONSECA (1949) relataram que, em uma localidade no Estado de São Paulo, cupins do gênero Syntermes matou até 70% das árvores jovens de eucalipto em área de Cerrado. Cornitermes spp., Procornitermes spp. e Heterotermes spp. também são comuns nesse bioma. Já os danos de cupins em pastagens ainda se encontram em estudo.

4. Considerações finais

Os cupins subterrâneos podem dificultar à promissora produção de subprodutos de babaçu. Os danos causados pela praga são severos e prejudicam o fruto/semente, podendo levar a mortalidade do povoamento florestal. Dessa forma, encontrar estratégias que possam ser eficientes para conter possíveis surtos, devem ser preconizadas.

Referências bibliográficas

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1. Engenheiro Florestal, Mestre pela Universidade Federal de Mato Grosso - Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais e Ambientais, (UFMT/PPGCFA), Cuiabá - MT. Email: josamargomes@gmail.com

2. Professor Doutor, Titular (DE), da Universidade Federal de Mato Grosso - Faculdade de Engenharia Florestal, Campus Cuiabá - MT, (UFMT/FENF) – Área: entomologia florestal.

3. Doutora em Ciência Florestal pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Faculdade de Ciências Agronômicas (UNESP/FCA), Botucatu - SP e Pós doutoranda em Ciências Florestais e Ambientais pela Universidade Federal de Mato Grosso na Faculdade de Engenharia Florestal (UFMT/FENF), Cuiabá - MT.

4. Professor Doutor, Adjunto (DE), da Universidade Federal de Mato Grosso - Faculdade de Engenharia Florestal, Campus Cuiabá - MT, (UFMT/FENF) – Área: ecologia de insetos.

5. Professor Doutor, Celetista (CLT), no curso de Engenharia Ambiental da Universidade de Cuiabá, Campus Cuiabá - MT, (UNIC) – Área: Estatística.

6. Biólogo e Mestre em Ciências florestais e Ambientais – Área de Entomologia.


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