ISSN 0798 1015

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Vol. 38 (Nº 14) Año 2017. Pág. 10

Incubação do Empreendimento Econômico Solidário «Renascer da Cidadania» e a reforma de suas instalações elétricas

Incubation of Solidarity Economy Entreprenneur «Citizenship Reborn» and reform of their electrical installations

Graciela Alessandra Dela ROCCA 1; Fernanda Cristina Silva FERREIRA 2; Geraldo Augusto LOCKS 3; Leonardo Ceccato DE LIMA 4; Thiago Baschiroto BURIGO 5; Marcos Adalberto MATEI 6

Recibido: 27/09/16 • Aprobado: 19/10/2016


Conteúdo

1. Contexto histórico do empreendimento “Renascer da Cidadania”

2. O processo de incubação

3. Relato dos estudantes de engenharia elétrica

4. Metodologia de incubação

5. Resultados do processo de incubação e das metodologias

6. Considerações finais

Referências


RESUMO:

Este artigo relata uma das ações da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC), junto ao empreendimento econômico solidário “Renascer da Cidadania” localizado em uma região de periferia da cidade de Lages/SC. O grupo possuía uma prensa que se encontrava paralisada no barracão de trabalho pela necessidade de instalação da mesma. Os estudantes de Graduação do Curso de Engenharia Elétrica da UNIPLAC atuaram neste sentido, sendo que dentre os diversos ganhos do projeto podem ser citados o aumento da produtividade do empreendimento, aumento da renda, organização e melhoria no ambiente de trabalho, entre outros.
Palavras-chaves: EES. Renascer da Cidadania. Economia solidária. Instalação elétrica.

ABSTRACT:

These paper presents one the works of the Technological Incubator of Popular Cooperatives (ITCP) in University of Santa Catarina’s Plateau (UNIPLAC), with the Solidarity Economy Enterprise (EES) “Renascer da Cidadania” located in a outskirts region of the Lages/SC. In the shed of the group had a press that was not in operation due to the need for installation. The electrical engineering students of UNIPLAC acted in this direction, and among the various project gains can be cited increasing the productivity of the undertaking, increased income, organization and improvement in the working environment, among others.
Keywords: EES. “Renascer da Cidadania”. Solidarity economy. Electrical installation.

1. Contexto histórico do empreendimento “Renascer da Cidadania”

O empreendimento de economia solidária (EES) Renascer da Cidadania iniciou seu trabalho de coleta de resíduos sólidos em 2003. Localizado na região da Cidade Alta de Lages, SC, entre os limites de dois bairros periféricos, Santa Mônica e Caroba.

O número de residentes nestes bairros é de 5.381 pessoas e de domicílios ocupados é de 1762, segundo dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). Trata-se de uma área Industrial, criada em 1973, consolidando o processo de urbanização da cidadã de Lages. Foi aí que o nome antigo da região, denominado de Boqueirão foi pouco a pouco sendo substituído por Cidade Alta. Moradores do bairro Santa Mônica mais antigos, relataram que passaram-se mais de cinco anos para que se fizesse o arruamento e fossem implantadas as redes de água e luz.  No bairro Caroba percebe-se uma situação particular, enquanto a população de muitos bairros de Lages cresceu nos últimos 15 anos, a do bairro decresceu. Em 1996, segundo dados do IBGE, havia 2648 moradores e hoje este número está em 2396. Enquanto isso o número de domicílios decresceu de 961 para 717. Diante destes números, deduz-se que a causa pode estar no deslocamento de moradores para outros bairros de Lages ou outras cidades.

O bairro Santa Mônica conta com a Escola de Educação Básica Francisco Manfrói, uma Unidade Básica de Saúde que funciona até as 22 horas, um Centro de Educação Infantil Municipal (CEIM), um Centro de Referência e Assistência Social (CRAS 5), oficina de marcenaria, quadra de futebol de areia, horta comunitária no terreno da Caritas Comunitária e um campo de futebol. O projeto da quadra de areia e o da horta comunitária, com espaço para cursos, foi desenvolvido em parceria com a Associação de Moradores do bairro Santa Mônica, Cáritas Comunitária e a Tractebel, sendo que esta empresa garantiu os recursos financeiros e o poder público municipal fez a doação do terreno. Além disso, o bairro ainda tem um centro comunitário. O bairro Caroba tem a Escola Municipal de Educação Básica Izidoro Marim e um centro de Educação Municipal (CEIM). Os moradores se utilizam a Unidade Básica de Saúde do bairro vizinho, Santa Mônica. Dentre as igrejas existentes, está a Capela Santa Luzia, que possui um salão comunitário. A usina da Tractebel está dentro do bairro Caroba, onde também existem minimercados, mercearias, bares, salão de beleza, oficinas, dentre outros estabelecimentos comerciais e industriais.

 É neste contexto que se localiza o empreendimento Renascer da Cidadania. No início o grupo constituiu-se por 51 integrantes entre homens e mulheres. Ao fazerem a coleta e reciclagem dos resíduos sólidos, os catadores contavam como contrapartida, uma cesta básica por catador oferecida pela Cáritas Comunitária, uma instituição não governamental, sem fins lucrativos, existente na Cidade Alta. Os recursos financeiros captados pela Caritas eram oriundo do poder público municipal, recursos repassados até 2013, quando o empreendimento passou a ter baixas nos seus integrantes.  Atualmente, cinco pessoas integram o Renascer da Cidadania.

É em um terreno adquirido também pela Caritas Comunitária junto ao poder público que o empreendimento tem seu barracão de trabalho. Foi construído em parceria com a empresa TRACTEBEL ENERGIA em 2005. As condições atuais do barracão são extremamente precárias (Figura 1), contudo, ao longo do tempo tem sido depredado, objeto de arrombamento, portas e janelas foram substituídas por materiais abaixo da qualidade de sua origem. Hoje receberam reforço de madeira. Portanto, o ambiente de trabalho não apresenta iluminação natural, ventilação inadequada. Por não ter instalação sanitária, os catadores utilizam as disponíveis na sede da Cáritas Comunitária que se situa ao lado do barracão.

Figura 1 – Imagem do barracão do grupo Renascer da Cidadania.

Fonte: Os autores, 2016.

O empreendimento ocupa-se com a coleta de materiais recicláveis nos bairros de seu entorno. Também recebe espontaneamente doação de material de construção e de material reciclável de algumas famílias da comunidade do bairro Santa Mônica e Caroba que entregam seus materiais no barracão, assim como da empresa TRACTEBEL. Recebeu da Caritas Diocesana [7] quatro carrinhos destinados à coleta de resíduos. Atualmente estes encontram-se em precárias condições devendo ser substituídos. O Renascer da Cidadania também contou com a doação de uma prensa e uma balança eletrônica em 2010. Foram doados pelo projeto “Fortalecendo experiências de Economia Solidária” (Projeto FORTES) da Petrobrás, porém estes equipamentos há cinco anos estavam em desuso, aguardando sua instalação elétrica adequada. Exigiam uma mão de obra especializada.

Já frisamos que a ausência da cesta básica o empreendimento foi reduzido ao grupo de cinco integrantes, evidenciando que o maior interesse dos “catadores” não era a atividade da coleta dos resíduos sólidos, mas o acesso à cesta básica, o que caracterizava, uma ação assistencialista patrocinada pela Caritas Comunitária, sob a anuência do poder público. A ocupação com a coleta dos resíduos sólidos configurou-se como meio e não fim da atividade econômica destes trabalhadores. Na dispersão dos catadores, observou-se que alguns deles conseguiram o direito à aposentadoria, outros empregaram-se em outros setores da economia com carteira assinada, resultando num pequeno grupo elegendo a atividade de catadores de materiais recicláveis.

Em novembro de 2014, período em que a ITPC UNIPLAC iniciou o processo de incubação, o Renascer da Cidadania contava com duas integrantes. As aparências indicavam o fim do empreendimento. Mas, a busca de geração de trabalho e renda garantia a resistência. Logo, mais três catadores, passaram a agregar à dupla. Logo, um deles desistiu em função da dureza do trabalho. Enfrentam muitas dificuldades, dentre elas podemos citar: preconceito e o bullying por parte de alguns membros da comunidade, isso ocorreu por ser um grupo constituído de mulheres e homens acima de 50 anos; por serem explorados pelos atravessadores e com isso auferirem uma renda variável e indigna ao trabalho realizado; pela falta de uma estrutura mais adequada para o trabalho; e pela falta de campanhas de conscientização para reciclagem de resíduos sólidos junto à comunidade de seu entorno.

A faixa etária do Renascer da Cidadania varia de 52 a 63 anos. A média de renda recebida individualmente é variável, oscilando entre R$180/mês e R$240/mês. Tradicionalmente sempre foi um grupo constituído por mulheres em sua maioria. Em termos de escolaridade, uma integrante concluiu o segundo ano do Ensino Médio. Outra concluiu o Ensino Fundamental e os demais não passaram do quarto ano do Ensino Fundamental. Exerceram profissões como: cuidadores de idosos, babá, diarista, doméstica e motorista de caminhão. Observamos que ao trabalharem coletivamente, esses catadores se sentem valorizados, como numa família, nas palavras deles: “são como irmãos, irmãs”.

Ao responder as demandas apresentadas pelo empreendimento, a ITCP UNIPLAC definiu como objetivo, realizar a instalação da energia elétrica da prensa e da balança, proporcionando melhores condições de trabalho, elevando a autoestima, consequentemente agregação de novos catadores existentes nos bairros ao empreendimento; aumento do volume de materiais reciclados, agregação de valor. O desafio a ser enfrentado pelo processo de incubação foi o desenvolvimento de uma metodologia própria para responder às demandas do empreendimento. Convém registrar que a ITCP UNIPLAC existe há dois anos e meio, uma incubadora também em processo de incubação.

2. O processo de incubação

As Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), surgiram da preocupação de consolidar uma interação maior entre universidade e sociedade. Tem como finalidade promover o desenvolvimento sustentável através da assessoria sistemática às organizações e empreendimentos de economia solidária. Segundo Pereira (2003), as incubadoras pretendem

dar condições aos grupos ou empreendimentos para que possam ter oportunidades melhores de trabalho e renda através da cooperação e da solidariedade, resgatando a cidadania e permitindo que os envolvidos se sintam capazes de tornarem atores do próprio desenvolvimento” (Pereira, 2003 apud FREITAS; FREITAS; DIAS, 2009, p. 54)

A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade do Planalto Catarinense (ITCP UNIPLAC) surgiu em 2014 para fomentar a economia solidária em Lages e na região do Planalto Serrano Catarinense. Atende mais uma dezena de empreendimentos econômicos solidários em diferentes atividades econômicas, como alimentação, móveis sob medida, salões de beleza, agricultura familiar agroecológica, costura, artesanato e materiais recicláveis. Deste universo de empreendimentos, alguns já estavam em desenvolvimento como é o caso do Renascer da Cidadania, outros foram emergindo com a ação da ITCP.  Os processos de incubação tem suas especificidades e complexidades próprias, exigindo da incubadora constate adequação, criatividade, inovação na busca de tecnologias adequadas que proporcionem respostas às demandas de cada empreendimento que busca inclusão social e produtiva de seus integrantes.

Segundo Vasconcelos (1995 apud GOERCK; CELSO; ALVES, 2013, p. 407),

a incubação na economia solidária consiste em uma assessoria voltada para a busca de totalização no processo de prática no sentido de apontar, resgatar e trabalhar as deficiências, os limites, recursos e possibilidade da equipe, socializando conteúdos, instrumentos de indagação e análise, e também produzindo estudos e análises que a equipe não está preparada e nem é seu papel realizar, tendo em vista as respostas concretas e imediatas que precisa dar às demandas que a realidade põe à sua ação.

Esse processo de assessoria funciona através de acompanhamento e monitoramento de atividades, em que o assessor, normalmente, tem vínculo por período estabelecido com o local da prestação e realização desse trabalho. O território dos bairros Santa Mônica e Caroba, caracteriza-se por uma situação de vulnerabilidade social, com elevado índice de população em situação de baixa renda, um percentual considerável de beneficiários do Programa Bolsa Família, número expressivo de famílias em situação de precariedade alimentícia, assim como muitos trabalhadores inseridos no mercado de trabalho informalidade, sem acesso a direitos fundamentais trabalhistas e sociais elencados na constituição.

O processo de incubação do Renascer da Cidadania iniciou após a concordância dos integrantes de participarem do processo de incubação por parte da ITCP UNIPLAC. Depois das etapas preliminares, de entrevistas e análise do perfil socioeconômico, desenvolveram-se ações técnico-pedagógica.

As demandas do empreendimento inicialmente eram a instalação elétrica do barracão e doação de materiais de proteção. A ITCP UNIPLAC constituiu parceria com o curso de engenharia elétrica da UNIPLAC, que por meio de trabalhos voluntários passou a oferecer serviços técnicos, assessoria operacional, cursos de capacitação, assim como conseguiu a doação de um conversor elétrico, materiais para instalação elétrica, óleo para funcionamento da prensa, botinas e luvas de proteção para o trabalho dos catadores.

Na parte operacional, os alunos do curso de engenharia elétrica da UNIPLAC, realizaram um trabalho contínuo no barracão do empreendimento trocando toda a fiação elétrica, instalando um conversor, tomadas, colocando para funcionar os equipamentos existentes (prensa e a balança eletrônica). A ação de incubação não se restringiu à assessoria técnica pois os estudantes acompanhada por professores integrante da ITCP UNIPLAC mantem acompanhamento do processo de qualificação dos catadores, suporte técnico, político, atendendo a demandas sociais, assim como busca integrar atividades do grupo, com outros grupos de catadores existentes na cidade, no caso a Cooperativa de Trabalho de Catadores do Município de Lages (COOPERLAGES), um empreendimento econômico solidário também incubado pela ITCP. Teve sua constituição em dezembro de 2015. Hoje, com 30 cooperados este empreendimento realiza a coleta seletiva de materiais recicláveis em setenta e quatro bairros da cidade de Lages.

No processo de incubação, a capacitação em tecnologia social adequada é de extrema importância, pois é durante esse momento que os cooperados aprendem técnicas produtivas, conhecem os meios de produção, administração e/ou comercialização e são capacitados sobre assuntos como economia solidária, normas técnicas e sanitárias, equipamentos de proteção obrigatórios, noções de custos, fluxos de caixa, administração de negócios, como deve ser o planejamento para produção, técnicas de comercialização, criação de regimento interno, informações sobre a Lei Federal n° 12.305/ 2010 que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, entre outras ações (BRASIL, 2010). Observamos que neste processo, ocorreu o fortalecimento de vínculos entre os cooperados, estudantes, professores, afirmação da identidade individual e grupal, altamente benéficos para a solidificação do empreendimento.  

3. Relato dos estudantes de engenharia elétrica

Com o intuito de promover o desenvolvimento socioeconômico dos trabalhadores de uma unidade de reciclagem, através da ampliação da capacidade de produção, bem como capacitação de seus trabalhadores, três acadêmicos do curso de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) em parceria com a ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) participaram ativamente do projeto do grupo Renascer da Cidadania. A atividade teve como característica o comprometimento de seus integrantes em trabalhar nos conceitos da economia solidária, que prioriza a auto-gestão do empreendimento e divisão equitativa dos resultados do trabalho e renda, colocando-se por tanto como uma alternativa ao modelo econômico que subordina o trabalho ao capital. O livre relato abaixo resultou do registro das conversas entre os estudantes após cada etapa vencida na capacitação dos integrantes do empreendimento e a realização dos trabalhos de assessoria técnica.

Realizamos, no âmbito técnico, a substituição de toda a instalação elétrica do local de trabalho do empreendimento Renascer da Cidadania, uma vez que a mesma, encontrava-se em péssimas condições e em desconformidade com as normas técnicas estabelecidas, não havendo por tanto, condições de restauração.

No primeiro momento, fez-se o reconhecimento do local aonde seria realizado o serviço. O ambiente de trabalho estava desorganizado, insalubre e era potencialmente perigoso para os trabalhadores. Com relação a parte elétrica, constatou-se total incoerência com os padrões mínimos solicitados pelas normas vigentes no país (NBR 5410/2004), norma esta que regula instalações elétricas de baixa tensão.

A situação era a seguinte: a fiação estava mal dimensiona; havia fiação enrolada sem isolação próxima a passagem de pessoas e de cargas; emendas malfeitas e energizadas, sem a devida isolação, próximas à madeira seca, plástico e papel; bocal da iluminação ligado de forma perigosa; ausência de qualquer tipo de sistema de proteção da instalação; tomadas com risco eminente de choque elétrico; e iluminação, inadequada e ineficiente para ambiente de trabalho fazendo com que as pessoas que trabalhassem neste local, forçassem sua visão trazendo problemas ergonômicos a elas entre outros problemas, afinal estava tudo incompatível com normas e conceito de ambiente sustentável de trabalho. A Figura 2 mostra imagens da situação inicial encontrada no barracão.

Figura 2 – Condições iniciais do barracão, com instalações precárias e fiação exposta

Fonte: Os autores, 2016.

Porém, observou-se que o equipamento disponível no empreendimento era de qualidade. Eles possuíam uma prensa hidráulica e uma balança eletrônica, mas que não podiam utilizar devido a instalação elétrica estar inadequada para estes ativos. As pessoas se encontravam em situação de vulnerabilidade socioeconômica, havendo a necessidade de apoio não somente de infraestrutura, mas também de capacitação, melhor, do conhecimento, para a utilização adequada dos equipamentos.

Posteriormente, fez-se o levantamento do orçamento para contabilizar o custo da nova instalação elétrica de acordo com os padrões, ligar a prensa hidráulica e a balança eletrônica. Sem muitos recursos financeiros, apelamos para a sociedade e empresas do setor elétrico da cidade. Dentre elas podemos citar a empresa WIATEC com a doação de um inversor de frequência e a empresa COISARADA na qual fez a montagem do quadro e fez a doação de alguns componentes elétricos.

Após conseguir os materiais e os recursos necessários, iniciou-se o trabalho com a substituição da antiga instalação pela nova, como pode ser observado na Figura 3.

Figura 3 – Acadêmicos da Engenharia Elétrica terminando a instalação da rede elétrica no
barracão do grupo Renascer da Cidadania e imagem da rede elétrica concluída.

Fonte: Os autores, 2016.

A seguir foram instalados os componentes novos e os equipamentos conforme discutido em reuniões de grupo e com as pessoas que ali trabalham. A Figura 4 apresenta a instalação da prensa hidráulica.

Figura 4 – Instalação do inversor de frequência para o perfeito funcionamento da prensa

Fonte: Os autores, 2016.

Então concluiu-se a instalação, realizando testes operacionais de prensa e pesagem, comprovando seu funcionamento efetivo. Após a instalação dos equipamentos, na semana seguinte foi realizada uma visita ao local para capacitação para a operação dos novos equipamentos, o que ocorreu de maneira harmoniosa, já que os trabalhadores do empreendimento estavam ansiosos para aprenderem a mexer nas máquinas. A Figura 5 mostra uma imagem da prensa instalada e em funcionamento.

Figura 5 – Prensa hidráulica em funcionamento após a instalação.

Fonte: Os autores, 2016.

Passados um mês da instalação, retornou-se ao Renascer da Cidadania para ver como estava se dando o funcionamento dos equipamentos e se as pessoas haviam se familiarizados com o manuseio deles. A mudança observada foi, de certa maneira, radical. O material reciclado estava prensado e empilhado de maneira organizada, o ambiente de trabalho se tornou mais limpo e mais pessoas haviam começado a trabalhar ali. Víamos o sorriso no rosto das pessoas, realmente tínhamos feito a diferença para elas. Para nós, responsáveis pela instalação da parte elétrica e da prensa hidráulica, foi bastante gratificante perceber a mudança que havia ocorrido naquele ambiente. Pudemos perceber que nossa contribuição de fato ajudou aqueles trabalhadores, melhorando sua qualidade no ambiente de trabalho e, até mesmo, sua autoestima.

4. Metodologia de incubação

A sistemática de acompanhamento dos EES incubados pelo ITCP UNIPLAC, inclui reuniões semanais com os integrantes para planejamento e relato de atividades realizadas nos grupos. Os encontros com os empreendimentos são precedidos de reuniões preparatórias para o planejamento da visita e definição de quantos e quais membros do ITCP serão necessários no encontro. Inicialmente têm-se um processo mais intenso, que requer alguns dias da semana, posteriormente ocorre um espaçamento maior nos encontros. Após a realização de cada reunião com os empreendimentos faz-se um diário de campo, ou seja, registro e avaliação das atividades com os grupos, com objetivo de levantar elementos que possam subsidiar a intervenção seguinte, ou mesmo em outros empreendimentos de economia solidária. Neste processo profundamente interativo entre os integrantes da ITCP e integrantes dos empreendimentos ocorre a articulação da prática- teoria- práxis. Ou seja, busca associar os conhecimentos contidos no saberes e fazeres populares e os conhecimentos acadêmicos, resultando em novos saberes capazes de potencializar a incubação. Dito de outra maneira, trata-se de refletir criticamente a prática, tendo em vista uma ação transformadora, modificadora da realidade na sua totalidade, em movimento e adensada de contradições.

Atualmente as mais de sessenta incubadoras existentes no Brasil, compõem uma rede universitária de ITCPs. No que tange a metodologia de trabalho, as ITCPs, em sua maioria adotam uma metodologia própria que nas palavras de Moura (2014), constitui uma ação sistemática de monitoramento aos empreendimentos incubados através de atividades de campo desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar. Isto faz com que professores e estudantes de diferentes áreas do conhecimento se dediquem a atividades de incubação numa perspectiva de fazerem parte do processo, como agentes ativos dessa criação e inovação.

Na metodologia utilizada pela ITCP UNIPLAC, acontece a capacitação dos próprios formadores da incubadora por meio de encontros semanais, cursos, debates e grupos de trabalho. O objetivo é que o estudante, professor ou técnicos, estejam preparados para as “intervenções”, que são efetuadas enquanto equipe da ITCP UNIPLAC formada por pessoas de diferentes cursos, garantindo a interdisciplinaridade das equipes. Temos em nossa equipe, antropólogos, assistentes sociais, administradores, economistas, pedagogos, psicólogos, estudantes de psicologia, direito, engenharia, serviço social e psicologia. Novas demandas vem ocorrendo em empreendimentos solidários existentes no meio rural, que já apontam para novos engajamentos de professores e estudantes dos cursos de engenharias de produção, elétrica e civil.

O processo de incubação envolve alguns processos norteadores, que denominamos de fases. Na primeira fase, por meio de atividades em grupo e entrevistas semiestruturadas, busca-se levantar quais são as condições socioeconômicas e culturais das pessoas e grupos envolvidos. É um trabalho de sensibilização e aproximação (MOURA, 2014). Procura-se investigar também os motivos que levaram os indivíduos à participação no grupo e suas necessidades. Depois dessa etapa preliminar, promovem-se cursos básicos sobre os princípios que regem a Economia Popular Solidária, o cooperativismo, auto-gestão, assim como a criação junto aos grupos incubados um regimento interno para delimitar as regras a serem seguidas pelo grupo.

No segundo momento, inaugura-se um período intensivo de incubação, busca-se também analisar os mercados para os produtos e/ou atividades, aperfeiçoar as práticas dos integrantes por meio de cursos de capacitação oferecidos pela ITCP UNIPLAC ou outros agentes ou instituições parceiras. O objetivo é que as atividades e a organização dos empreendimentos possam se tornar sólidas o bastante para concretizarem o que buscam: a geração de trabalho e renda, consequentemente, melhores condições de vida, garantia dos direitos de cidadania, com a perspectiva da emancipação dos sujeitos envolvidos.

Na última fase, inicia-se o processo de desincubação do empreendimento, podendo estar na condição formal ou informal diante do mundo do trabalho, ou seja, nesse momento o coletivo de trabalho começa a se emancipar da necessidade contínua de assessoria e o EES consegue caminhar por pernas próprias, permanecendo, se for o caso no atendimento a demandas pontuais. O que se busca também é que os empreendimentos constituam redes e se fortaleçam mutuamente tendo em sua vista sua vida longa e saudável como aponta a economia solidária.

5. Resultados do processo de incubação e das metodologias

A metodologia de incubação está na primeira fase no empreendimento deste estudo. Esse processo será mais amplo em virtude de nosso objetivo ser a reorganização do grupo com agregação de novos catadores individuais residentes nos bairros Santa Mônica e Caroba. O projeto é mais amplo que a própria existência e ação do Renascer da Cidadania. Ele está compreendido no contexto de um objetivo mais amplo que é incluir os trabalhadores catadores de Lages, em torno de 250 cadastrados na Secretaria do Meio Ambiente, numa única cooperativa em Lages, disseminada em nove postos de coleta distribuídos pela cidade, conforme prevê o Plano Municipal de Coleta Seletiva.

Diante deste desafio a ITCP UNIPLAC antecipou-se e em parceria com o Consórcio Intermunicipal Serra Catarinense (CISAMA) que desenvolve o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PIGIRS), passando a incubar a referida cooperativa. A demanda inicial veio da Secretaria do Meio Ambiente até a ITCP. Um grupo espontâneo de catadores, alguns oriundos do antigo lixão da cidade, outros de uma cooperativa dissolvida recentemente, ocupava um barracão de propriedade do poder público localizado no bairro São Miguel. Realizava o serviço de reciclagem de modo extremamente precário, com um renda individual não superior a R$ 150,00.

Após a constituição da COOPERLAGES, no final de 2015, iniciamos um trabalho de aproximação desta organização com o Renascer da Cidadania. A conversa de catador para catador, mostrou-se uma excelente metodologia de incubação pois vem gerando resultados concretos e rápidos. Um deles é a disseminação de Pontos de Entrega Voluntária (PEV) na área de atuação do empreendimento que se estende por cinco bairros na região da Cidade Alta de Lages. Cinco pontos de entrega voluntaria já foram organizados funcionando como pontos estratégicos para a coleta seletiva do Renascer da Cidadania.

Devemos destacar que o processo de incubação do Renascer da Cidadania não se encontra isolado, mas insere-se num universo maior de catadores, particularmente, a COOPERLAGES que em convênio com o poder público realiza a coleta seletiva da cidade, e quem tem em foco o Plano Intermunicipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos – um plano que visa orientar as decisões e estabelecer metas para a melhoria da destinação e disposição final do lixo nos municípios da Região Serrana. A partir do Plano, serão elaborados programas para alcançar estas metas. O município de Lages, graças à constituição da COOPERLAGES, passou a integrar este Plano no qual os catadores organizados em cooperativa, tem e terão um papel importante na coleta seletiva e destinação dos resíduos sólidos.

6. Considerações finais

O contexto e o desenvolvimento do empreendimento econômico solidário Renascer da Cidadania descrito acima, aponta para desafios e possibilidades que não podem ser ignorados no processo de incubação. Um dos desafios que emergiram em nossas observações e escutas foi o modo como o grupo se constituiu pelo lastro social do assistencialismo vinculado à Caritas Comunitária e o poder público municipal. Na contramão, após a paralização desta ação, um pequeno grupo, inicialmente duas, depois quatro pessoas permaneceram na resistência indicando a possibilidade de continuidade do empreendimento. Este último fato permitiu a ITCP UNIPLAC aproximar-se do grupo e acordar o processo de incubação.

Do ponto de vista da metodologia utilizada é pertinente destacar que o ponto de partida dessa primeira fase de incubação, foi a demanda apresentada pelo grupo no que tange às condições dos equipamentos ainda em desuso devido às instalações precárias de energia. Desde a composição original da ITCP teve-se o cuidado de constituir um grupo multidisciplinar.  A demanda da capacitação e assessoria técnico-pedagógica no Renascer da Cidadania, foi atendida pelos estudantes da engenharia elétrica que engajaram-se e responderam aos desafios postos na incubação.

As observações descritas acima pelo estudantes demonstram os resultados gerados na interação com os integrantes do empreendimento: a garantia de funcionamento dos equipamentos em desuso acompanhado de mudanças, significativas como aumento do volume de material reciclado, prensado e empilhado de maneira organizada; o ambiente de trabalho se tornou mais limpo e mais pessoas haviam começado a trabalhar ali. Reitera-se a constatação do sorriso no rosto das pessoas, realmente foi feito a diferença para eles. Percebeu-se que aqueles trabalhadores foram efetivamente ajudados, melhorando a qualidade do ambiente de trabalho e, até mesmo, sua autoestima. A partir desta contribuição específica podemos afirmar que incubar é responder demandas apresentadas pelo empreendimento, com a utilização de metodologia adequada, que considere os saberes e fazeres interagidos entre o conhecimento popular e o acadêmico. Por fim, salienta-se a relevância social da Universidade, ainda mais de uma Universidade Comunitária como é o caso da UNIPLAC cuja missão é “ser uma universidade comunitária que promove a formação humanística, técnico-científica e cultural do cidadão por meio do ensino, pesquisa e extensão priorizando o desenvolvimento regional”, conforme seu Plano de Desenvolvimento Institucional para o período 2010-2018 (UNIPLAC, 2010).

Referências

BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Lex: Legislação Federal e marginalia. Brasília.

FREITAS, Alan Ferreira de; FREITAS, Alair Ferreira de; DIAS, Marcelo Miná. DESAFIOS METODOLÓGICOS NA INCUBAÇÃO DE EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS SOLIDÁRIOS. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI, Erechim, v. 5, n. 8, p.53-61, out. 2009.

GOERCK, Caroline; CELSO, Raquel Aparecida; ALVES, Bruna Surdi. Incubação de empreendimentos de economia solidária em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 12, n. 2, p.403-412, jul. 2013.

IBGE. Cidades - Santa Catarina: Lages. 2010. Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=420930&search=santa-catarina|lages>. Acesso em: 22 ago. 2016.

MOURA, Eliana Perez Gonçalves de. O que estamos fazendo quando incubamos? In: SCHOLZ, Robinson Henrique (Org.). Economia Solidária e Incubação: uma construção coletiva de saberes. São Leopoldo: Oikos, 2014. p. 9-24.

SCHOLZ, Robinson Henrique; BROCHIER, Rita de Cássia da Rosa Sampaio; ROMERO, Mychel da Silva. Dádiva, inovação social e liderança solidária compartilhada em cooperativas de catadores. In: SCHOLZ, Robinson Henrique (Org.). Economia Solidária e Incubação: uma construção coletiva de saberes. São Leopoldo: Oikos, 2014. p. 25-46.

UNIPLAC. Plano de Desenvolvimento Institucional: Período 2010 - 2018. 2010. Disponível em: <http://ww2.uniplaclages.edu.br/uniplac/PDI_Uniplac.pdf>. Acesso em: 20 set. 2016.


1. Mestre em Economia Industrial pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora do curso de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: ga.rocca@bol.com.br

2. Doutora em Engenharia Química pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora do curso de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: fernanda.csferreira@yahoo.com.br

3. Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: geraldolocks@gmail.com

4. Engenheiro Agrônomo pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e Acadêmico de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: leocdelima@hotmail.com

5. Acadêmico de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: burigo-thiago@bol.com.br

6. Acadêmico de Engenharia Elétrica da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) – e-mail: madalberto@tbe.com.br

7. A Caritas Diocesana é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, tem disseminado a constituição de Cáritas Comunitárias pela região do Planalto Catarinense numa abrangência de dezoito municípios. A Cáritas Cidade Alta, é uma dessas organizações, independente pois tem seu CNPJ próprio.


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Vol. 38 (Nº 14) Año 2017

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