ISSN 0798 1015

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Vol. 38 (Nº 06) Año 2017. Pág. 27

O que é uma organização? Diálogos entre conceitos modernos e a Actor-Network Theory

What is an organization? Dialogues between modern concepts and Actor-Network Theory

Carlos Dias CHAYM 1

Recibido: 26/08/16 • Aprobado:22/09/2016


Conteúdo

1. Introdução

2. Teoria Organizacional sob lentes modernas

3. Teoria Ator-Rede e pós-modernidade

4. Análise e discussão dos resultados

5. Concluo

Referências


RESUMO:

No presente ensaio eu fiz um breve relato da descrição das concepções de organização e administração de acordo com as principais correntes de pensamento em Estudos Organizacionais e, posteriormente, investiguei a literatura que trata da Teoria Ator-Rede, especialmente em sua vertente francesa. Objetivei, então, destacar as concepções de organização historicamente localizadas nas Teorias Organizacionais e, posteriormente, encontrar concepções subjacentes ao discurso da Teoria Ator-Rede. Para tanto, realizei uma revisão bibliográfica na literatura clássica de Estudos Organizacionais e da TAR utilizando a técnica de análise temática de conteúdo. O procedimento permitiu que eu chegasse a quatro conceitos representacionais básicos de organizações subjacentes ao discurso da TAR: a) arranjos heterogêneos; b) alistamento entre atores; c) entidade temporariamente estabilizada e d) organização como processo flexível. Por fim, concluo no presente ensaio que a organização, sob a lente da Teoria Ator-Rede, deve ser entendida enquanto alistamento de atores-em-rede e que, uma vez aglutinados em torno de um objetivo comum, esta se sustentará enquanto mantiver essa ordem aparente e somente terá sentido se for praticada por seus clientes. Isso remete a pensar a organização não como algo estabelecido, mas enquanto condição fluida e em construção – o organizar.
Palavras-chave: Teorias Organizacionais; Teoria Ator-Rede; Organização.

ABSTRACT:

In this essay I made a brief account of the description of the organization and management concepts in accordance with the main currents of thought in Organizational Studies and subsequently investigated the literature on the Actor-Network Theory, especially in its French slope. I sought then highlight the organizational conceptions historically located in Organizational Theories and later find concepts underlying the discourse of Actor-Network Theory. Therefore, I conducted a literature review in the classical literature of Organizational Studies and ANT using the technique of thematic content analysis. The procedure allowed me to get the four basic concepts underlying representational organizations to address the ANT: a) heterogeneous arrangements; b) enlistment among actors; c) temporarily stabilized entity and d) organization as flexible process. Finally, I conclude in this test that the organization, through the lens of Actor-Network Theory, must be understood as enlisting actors-in-network and, once bound together around a common goal, this will be sustained while holding this apparent order and only make sense if it is practiced by its customers. This makes us think the organization not as something established, but as fluid and building condition – the organizing.
Keywords: Organizational Theories; Actor-Network Theory; Organization.

1. Introdução

No pensamento moderno, a teorização organizacional vale-se de pressupostos cientificistas e apresenta como métrica uma racionalidade instrumental da ação humana. Esta racionalidade, fruto da intensa inspiração nas ciências naturais, vem exercendo influência nas formas como a organização vem sendo conceituada ao longo das diversas correntes de pensamento em Estudos Organizacionais. Não raro, visões segmentadas do fenômeno social e suas organizações remetem a entendimentos lineares e estanques, o que desvela um reducionismo dos meandros complexos do social. A busca pela compreensão do fenômeno organizacional nas teorias clássicas partia então de uma concepção de organização como algo objetivo e racionalmente estabelecido, onde apenas as ações dos atores humanos eram consideradas.

Em contraponto a esta racionalidade narcísica, para utilizar o termo utilizado por Cooper e Burrell (1988), uma perspectiva mais ampla vem transformando profundamente diversos campos, tais como a estética, filosofia, literatura, as artes, a ciência e, posteriormente, os estudos organizacionais a partir do final do século XIX (HALL, 2000; LYOTARD, 1984; VIEIRA; CALDAS, 2006). Correntes pós-modernas, por sua vez, buscam superar essa condição limitadora do fenômeno social encontrando sua razão não “[...] na homologia dos peritos, mas na parologia dos inventores.” (LYOTARD, 1984, p. 13).  O reflexo do entendimento social como redes complexas e heterogêneas têm feito emergir novas abordagens em estudos organizacionais. Esta corrente, denominada pós-modernismo, é um termo guarda-chuva que abrange um conjunto de abordagens que se contrapõem à hegemonia moderna e, com isso, prenuncia uma visão de mundo onde impera o dissenso, fronteiras não estanques e uma negação da visão antropocêntrica de mundo.

Robert Cooper (1976), então um lecturer na University of Lancaster, inspirado nas discussões promovidas pelos teóricos da pós-modernidade introduziu alguns desses conceitos no campo dos Estudos Organizacionais, considerando as organizações como fenômenos difusos, processuais e de “campo aberto”. Em sua visão, a compreensão de tal fenômeno passa por uma epistemologia do processo como forma de desenvolver a ação expressiva e criativa, considerando o organizar enquanto práticas difusas onde estrutura e processo são complementares (CAVALCANTI, 2015).

Sob essa nova ótica, os Estudos Organizacionais experimentaram um salto qualitativo e quantitativo de abordagens teóricas que por vezes destoa do paradigma dominante. A Teoria Ator-Rede (TAR) surge como uma das lentes possíveis nessa busca pela compreensão da representação da complexidade dos fenômenos sociais e suas organizações. Seus pressupostos transcendem o de outras correntes sociológicas ao considerar o social – do latim socius – em seu sentido primeiro: o de associações. Isso faz da TAR uma abordagem relacional cujo foco está nas relações entre atores e em como estes formam redes, associando-se a outros atores.

Conforme Latour (2000; 2012) e Latour e Woolgar (1997) este social por sua vez é heterogêneo e complexo, composto por atores humanos, não-humanos e híbridos, de modo que é preciso uma análise simétrica da composição do social, isto é, dar o mesmo tratamento a humanos e não-humanos, vencidos e esquecidos, natureza e sociedade. Segundo John Law (1992), o cerne da TAR reside na metáfora de redes heterogêneas “(...) e é uma maneira de sugerir que a sociedade, as organizações, agentes e máquinas são todos efeitos gerados pela modelação da rede feita de diversos materiais (e não apenas humanos)” (LAW, 1992, p. 380, tradução nossa).

Dada a noção de que os fenômenos estão interconectados por meio de redes heterogêneas que se entrelaçam, subentende-se que a ação política dos atores remete a complexidade como sendo onipresente em qualquer contexto. Deste modo, sua compreensão ocorre apenas parcialmente e, ainda sim, limitado ao uso da linguagem que o descreve. Dito de outra forma, o que se constrói acerca do conhecimento é, portanto, interpretações de mundo do observador e que não possui caráter definitivo (COOPER; BURRELL, 1988).

Assim, na medida em que novos entendimentos vão surgindo, a Teoria das Organizações vem constantemente reformulando discursivamente seus conceitos operacionais de organização. Deste modo, faz-se pertinente observar ainda que an passant pela extensa literatura que aborda o assunto, os diversos conceitos de organização encontrados nas principais correntes de estudos organizacionais. Não se pretende, contudo, encerrar o debate acerca de tais conceitos, pois, como bem explica Lyotard (1984, p. 61) “O consenso é um horizonte nunca atingido”.

Dado que as correntes modernas e pós-modernas valem-se de pressupostos distintos para suas teorizações, subentendo que tais distinções desvelarão conceptualizações distintas de acordo com as diversas lentes possíveis aparadas por essas metanarrativas. Levanto então a seguinte questão de pesquisa: quais concepções de organização emergem de lentes teóricas modernas e da Teoria Ator-Rede? Assim, o objetivo geral do presente estudo é confrontar as concepções de organização por diversas escolas de pensamento em administração com o conceito de organização que emergirá do discurso da Teoria Ator-Rede. Como objetivos específicos, buscarei: a) extrair conceitos de organização das principais correntes teóricas da administração e b) extrair conceitos de organização da literatura básica da Teoria Ator-Rede.

Ao trazer à tona diversos conceitos de organização neste breve ensaio, espero promover um debate conceitual que permitirá ao leitor revisar alguns conceitos ao mesmo tempo em que este se familiarizará com o discurso recorrente na TAR acerca da compreensão do que é organização. Reitero que a busca não é chegar a um conceito definitivo do que é organização; ao contrário, eu advogo a favor da compreensão de que a multiplicidade de pontos de vista promove uma miríade de conceitos – por vezes complementares.

Como forma de viabilizar esta empreitada, realizei um ensaio teórico embasado em referências que tratam especificamente de cada teoria. Posteriormente, fiz fichamentos de transcrição dos textos mais relevantes de cada corrente teórica para que aplicasse a técnica de análise temática de conteúdo, como forma de análise dos dados. Optei por seguir o roteiro sugerido por Bardin (2006), que apresenta as seguintes etapas: a) extração de unidades de contexto; b) seleção das unidades de sentido e c) tematização das unidades. Após esta introdução, apresento uma síntese dos principais conceitos encontrados nos textos “modernos” sobre organização, a seguir, uma apresentação acerca da Teoria Ato-Rede e pós-modernidade. Adiante, apresento os resultados obtidos da literatura que aborda a TAR, com especial ênfase aos textos de Bruno Latour e, por fim, concluo mostrando algumas limitações deste ensaio e sugerindo pesquisas futuras. 

2. Teoria Organizacional sob lentes modernas

Conforme Guerreiro Ramos (2008), já no século XIX estabelecia-se a ideia de que a sociedade poderia ser racionalmente organizada e, por consequência, tal influência se estenderia posteriormente para o ambiente organizacional. Esta influência incide diretamente no positivismo cujo cerne é entender a organização como algo observável e objetivo, onde o papel da teoria seria entender e prever o funcionamento organizacional (GREY, 2010). A partir dessa perspectiva, diversas lentes valeram-se destas premissas na busca por entender o fenômeno organizacional.

Acerca de tais metanarrativas modernas, Bruno Latour (1994) é enfático:

“(...) Através do adjetivo moderno, assinalamos um novo regime, uma aceleração, uma ruptura, uma revolução do tempo. Quando as palavras ‘moderno’, ‘modernização’ e ‘modernidade’ aparecem, definimos, por contraste, um passado arcaico e estável. (...) ‘Moderno’, portanto, é duas vezes assimétrico: assinala uma ruptura na passagem regular do tempo; assinala um combate no qual há vencedores e vencidos.” (LATOUR, 1994, p. 15)

 

Não obstante, cabe ressaltar que em todas as escolas teóricas inseridas no paradigma positivista os conceitos de organização e a administração são basicamente estruturas assimétricas: de um lado, temos a estrutura (organização) e do outro a agência (administração), conforme visto no Quadro 1 abaixo:

Quadro 1 – Escolas do pensamento moderno na Teoria das Organizações

Escola

Teoria

Ideias Centrais

Organização

Clássica

Administração

Científica

Mecanicismo
Padronização

Uniformizar

A organização era vista com objetivo de ser eficiente e produtiva o suficiente para ter lucro e visão de longo prazo (MOTTA E VASCONCELOS, 2013; PRYOR; TANEJA, 2010).

Archer (1990) nota que imperava o princípio da ordem.

Humanística

Teoria das Relações Humanas

Fatores psíquicos

Aspectos emocionais

Para alcançar o êxito a organização precisa de eficácia nas operações e de sinceridade e honestidade para com o empregado. O foco central é obter a cooperação coletiva e que é facilitada pelo papel do líder (NOVICEVIC et al., 2011)

Neoclássicas

Teoria

Neoclássica

Organização formal e informal

Sistema organizacional para ser cumprido racionalmente (MOTTA E VASCONCELOS, 2013)

Estruturalista

Burocracia

Racionalidade substantiva

Racionalidade instrumental

Autoridade

A organização é vista sob o aspecto racional e sistêmico. A organização aqui segue piamente as leis e regras (RIBEIRO, 2012).

Motta e Vasconcelos (2013) entendem que a organização deve passar por conflitos para que alcance a eficiência de suas operações.

 

 

Comportamental

Teoria Comportamental

O homem e suas necessidades latentes;

Comportamento humano;

Motivações;

A motivação das pessoas e de seus respectivos grupos, fazem com que a organização alcance bons resultados e melhore as relações entre os grupos informais e formais (SAMPAIO, 2009; HOFFMAN, 2004).

Sistêmica

Teoria dos Sistemas

Conexão

Relação de pontos pequenos que formam o todo.

A organização (sistema maior organizado) é vista como agrupamento de pequenos sistemas interligados (BERTALANFFY, 2012).

Contingencial

Teoria da Contingência

Sistema (estrutura, processos, gestão, pessoas) preparado para se adaptar às mutações dos agentes sociais.

O ambiente é mutável e organização deve ser também. A organização forma a sua identidade conforme os grupos sociais com os quais ela se relaciona (MOTTA; VASCONCELOS, 2013).

Fonte: Elaborado pelo autor, 2016.

Como reflexo dos pressupostos da modernidade, as teorias acima estudadas apresentam uma visão de organização como algo já estabelecido previamente; em contraponto, o saber pós-moderno expande o horizonte de compreensão ao viabilizar mudanças nos níveis ontológico, epistemológico e metodológico  (COOPER, BURREL, 1988).

3. Teoria Ator-Rede e pós-modernidade

Bruno Latour (2000) utiliza a metáfora da caixa preta para mostrar como, em laboratórios científicos, os fatos são resumidos em inputs e outputs, sem considerar todo o sistema complexo subjacente a este ambiente. Sua mensagem, entretanto, sugere que tais caixas pretas devem ser abertas para desvelar a rede complexa e heterogênea que compreende o que de fato existe. Dito nas palavras do próprio Latour (2000, p. 70) “A construção do fato é um processo tão coletivo que uma pessoa sozinha só constrói sonhos, alegações e sentimentos, mas não fatos.” Assim sua abordagem preconiza os fatos não como ciência pronta (as tais caixas-pretas), mas como ciência em construção.

Desponta assim a Teoria Ator-Rede como uma lente que permite analisar elementos presentes em uma rede heterogênea onde não há distinção entre agência e estrutura (CAVALCANTI; ALCADIPANI, 2013). Ao contrário do que era proposto pelas lentes anteriores, tais redes são altamente instáveis e dinâmicas e remetem a uma constante construção por meio de elementos que são, ao mesmo tempo, atores e a própria rede. No núcleo desta rede heterogênea reside a preocupação de como os atores mobilizam, justapõem e mantem juntos os pedaços e peças, cada qual com suas próprias particularidades (LAW, 1992).

Dada a constante instabilidade dos atores, esta rede é compreendida não como pontos interconectados, tais como telefones, rodovias ou uma “rede” de esgoto; mas como uma realização dos agentes em movimento (LATOUR, 2012). A dinâmica de tais atores distancia-se de uma visão estruturada da coisa-em-si uma vez que, segundo Law (2002) “um termo adquire sentido somente por meio das relações que ele estabelece em uma rede de significantes.” Alvesson e Deetz (1988) explicam que neste contexto, o foco deve ser os sistemas relacionais e não simplesmente o objeto e suas propriedades.

Uma vez que um ator só passa a ter sentido enquanto arregimenta outros atores, que por sua vez estão e são redes heterogêneas, o princípio de simetria passa a ter posição fundamental na construção do conhecimento. Este princípio consiste em tratar igualmente  atores humanos, não-humanos e híbridos (LAW, 2003), sociedade e natureza (LATOUR & WOOLGAR, 1997; LATOUR, 2000; 2012), vencedores e vencidos (LAW, 1992; LATOUR & WOOLGAR, 1997).

A eliminação de fronteiras por meio do princípio da simetria pode induzir a um erro de interpretação, como explicam Tureta e Alcadipani (2007). Para estes autores, é preciso entender a realidade enquanto rede-de-atores e não como polos antagônicos com distinções claras. Ao considerar o princípio de simetria, a TAR abre precedentes para uma análise mais abrangente do fenômeno, como mostra Law (1992):

Esta é uma reivindicação radical porque diz que essas redes são compostas não só de pessoas, mas também de máquinas, animais, textos, dinheiro, arquiteturas - qualquer material que você gostaria de mencionar. (...) Portanto, nesta visão a tarefa da sociologia é caracterizar essas redes em sua heterogeneidade, e explorar como é que eles vêm a ser modelado para gerar efeitos como organizações, a desigualdade e poder. "(LAW, 1992, p. 381, tradução nossa)

Conforme Schatzki, Knorr Cetina e Savigny (2001) na modelação dessas malhas pelos atores encontra-se a chave para a compreensão de como ocorrem no campo das práticas - o lócus central da ciência, da atividade humana, do poder, da linguagem das instituições sociais e qualquer outro fenômeno. Este mecanismo de reconfiguração da rede heterogênea pelos atores humanos e/ou não-humanos é chamado de translação (LATOUR, 2000; 2001; LAW, 1992)  Nas palavras de Latour (1999, p.20) translação é o “(...) trabalho por meio do qual os atores modificam, deslocam e transladam seus interesses diversos e contraditórios.”

Segundo Cavalcanti e Alcadipani (2013), a translação é uma noção fundamental usada por estudiosos da TAR para examinar os processos do organizar. Não se trata de uma simples difusão linear de interesses como, por exemplo, a difusão de conhecimento. Transladar interesses, segundo Law (1992) é um processo pelas  quais segmentos do social, do técnico, do conceitual e do textual arregimentam interesses dentro de uma rede-de-atores para realizar diferentes organizações de mundo. Já Latour (2000) acrescenta o ponto de vista da “(...) interpretação dada pelos construtores de fatos aos seus interesses e aos das pessoas que eles alistam.” É por este motivo que a Teoria Ator-Rede é também chamada de sociologia da translação.

Em síntese, observar as práticas utilizando a lente da TAR significa compreender o mundo como uma malha contínua de atores humanos e não-humanos que transladam seus interesses ao elencar outros atores humanos e/ou não-humanos. Deste modo, produz-se fatos, coisas ou fenômenos em constante construção – o organizar, uma vez que tais conexões são instáveis em contraponto ao que já foi estabelecido – o organizado.

Segundo Alvesson e Deertz (1998), o dogmatismo da tradição hegemônica em estudos organizacionais foi um dos motivos para que as lentes pós-modernas chegassem com certo atraso neste campo de estudos. Segundo estes autores, contudo, o declínio e a desilusão com os pressupostos modernistas em estudos organizacionais tem atraído cada vez mais pesquisadores que veem neste novo paradigma um campo fértil para estudos em gestão.

Nesta seara, a TAR vem sendo utilizada como um modo de compreender as organizações e ordenações sociais sob uma perspectiva processual (CAVALCANTI; ALCADIPANI, 2013; LAW, 1994; TURETA E ALCADIPANI, 2009;). Investigar as organizações como sendo fruto de uma reordenação de atores de uma rede heterogênea promove de antemão uma mudança de perspectiva, conforme versa Cooper e Burrell (1988, p. 106): “É uma questão de analisar, digamos, a produção da organização, e não a organização da produção.”.

Embora o relato da existência de máquinas e equipamentos em estudos organizacionais não seja algo novo, considerar apenas a presença e não a agência destes atores não-humanos parece ter sido uma das grandes falhas de estudos anteriores. John Law (1986), por exemplo, mostra como o ordenamento de documentos, dispositivos e pessoas capacitadas permitiu o domínio do comércio marítimo por Portugal e a ascensão deste país enquanto potência mundial nos séculos XV e XVI. Este entendimento, mais amplo do que o encontrado até então na literatura sobre história e expansão marítima, só foi possível por reagregar elementos outrora negligenciados nas narrativas clássicas acerca desse processo.

Assim, pesquisas processuais em estudos organizacionais buscam uma nova compreensão do que é organização e o que é administração ante a complexidade encontrada no campo das práticas. Por este motivo, faz-se pertinente pesquisas que busquem elementos conceituais na literatura acerca da Teoria Ator-Rede como forma de contribuir na ampliação deste entendimento.

4. Análise e discussão dos resultados

A busca por conceitos representacionais de organização e administração subjacentes aos argumentos da TAR necessita de uma compreensão ampla destes fenômenos. Isso ocorre por um lado pela própria natureza da teoria em questão, onde a estrutura perde força e o fenômeno é visto por meio de uma forma processual e difusa, por outro, pelo fato de que a literatura que versa sobre esta teoria, salvo raras exceções, não trata especificamente de organização e administração tal qual as teorias modernas. Cooper e Burrell (1988) já fornecem indícios desta condição ao sugerir o abandono da definição circunscrita econômico-administrativa em favor do papel destas enquanto produtoras de sistemas de racionalidade.

Com efeito, estes sistemas de racionalidade transcendem a barreira da organização burocrática e permite aplicação em outros contextos. Grey (2010, p. 28) parece abrir espaço para essa perspectiva “[...] mais fundamental, porém, é o fato de que todas as formas de atividades coletivas – a política, a família, bem como o trabalho – constituem de alguma forma uma organização.”.

Uma vez que o campo encontra-se aberto para interpretações e aplicações, verifica-se cinco conceitos principais quando o assunto é organização e administração sob a Teoria Ator-Rede:

a) Arranjos heterogêneos

Dentro de uma rede heterogênea e complexa, a organização começa quando atores humanos e não-humanos aglutinam à sua realidade outros atores humanos e não-humanos. Este pensamento destoa das lentes modernas já que estas partem da concepção de organização enquanto entidade já formada.

b) Alistamento instável entre atores

A formação da organização não exclui a agência dos atores envolvidos: eles permanecem com seu poder de agência ainda que este não se manifeste na prática. Portanto, na busca pelo entendimento de fenômenos complexos a pós-modernidade (e, por consequência, a Teoria Ator-Rede) adota modelos processuais de investigação, já que algumas controvérsias surgem apenas nas práticas cotidianas.

c) Entidade temporariamente estabilizada

Utilizar argumentos tais como “uma vez formada a organização...” perde o sentido, já que o pretérito embute um engessamento da organização. Esta por sua vez, é representada no argumento da TAR como algo temporário e transitório, não enquanto entidade definitiva. Assim, a organização somente se sustentará enquanto tal na medida em que ela for capaz de estabilizar as controvérsias dos atores humanos e não-humanos envolvidos em seu contexto (LAW, 2000; 2002).

d) Organização como processo flexível

Segundo Latour (2000, p. 50) “o status de uma afirmação depende das afirmações ulteriores”. Do mesmo modo ocorre com a organização, pois não basta arregimentar e estabilizar atores de um arranjo heterogêneo é preciso que a mesma seja praticada para que esta permaneça enquanto tal. Desta maneira não faz sentido falar de teleologia da organização sem que haja a translação dos interesses da mesma: de que adiantaria uma organização com finalidade clara e ninguém “comprando” seus produtos? Serão os seus clientes e parceiros que perpetuarão a sua existência e sentido; sem eles, tentativas de organizar perdem o sentido.

5. Concluo

Neste artigo eu resgatei conceitos sobre organização presentes em diversos textos das principais correntes teóricas da Administração e procurei encontrar na literatura que trata da Teoria Ator-Rede referências do que é uma organização. Assim, no presente ensaio concluo que a organização sob a lente da Teoria Ator-Rede deve ser entendida enquanto alistamento de atores e que, uma vez aglutinados em torno de um objetivo comum, a organização se sustentará enquanto mantiver essa ordem aparente e somente terá sentido se for praticada por seus clientes. Este alistamento não é definitivo, ao contrário, ele é altamente instável e em constantes associações entre os atores; isso difere dos conceitos clássicos que emergem das teorias organizacionais ditas modernas. Ademais, convidei o leitor a conhecer os conceitos que versam sobre o assunto para que possa continuar os debates e ampliar os limites de compreensão da teorização organizacional. Por fim, sugere-se estudos futuros que identifiquem o poder de agência de atores não-humanos, visão típica da Teoria Ator-Rede e que ainda é pouco explorado empiricamente.

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1. Professor do Departamento de Administração, Ciências Contábeis e Recursos Humanos da Faculdade Kurios. Mestrando em Administração de Empresas pela Universidade Estadual do Ceará. E-mail: carlosd.chaym@yahoo.com.br


Revista ESPACIOS. ISSN 0798 1015
Vol. 38 (Nº 06) Año 2017

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