ISSN 0798 1015

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Vol. 38 (Nº 05) Año 2017. Pág. 10

Motivações e expectativas de jovens egressos do ensino técnico: Continuidade ou não dos estudos configuram trajetórias incertas

Motivations and expectations of young graduates of technical education: continuity or not configure studies uncertain trajectories

Danilo José FERREIRA 1; Tania Regina RAITZ 2

Recibido: 29/08/16 • Aprobado: 21/09/2016


Conteúdo

1. Introdução

2. A juventude sobre a ótica histórica-sócio-cultural

3. Uma abordagem da categoria trabalho na perspectiva ontológica

4. Processo de transição entre Ensino Médio, Universidade e Mercado de Trabalho

5. Percurso metodológico: instrumentos de coleta de dados, sujeitos e análise da pesquisa

6. Perfil dos egressos do curso Técnico em Agropecuária, as dificuldades e facilidades de inserção profissional na área e a continuidade ou não no Ensino Superior

7. Considerações finais

Referências


RESUMO:

O presente artigo apresenta resultados analíticos de uma investigação que teve como objetivo analisar as motivações e expectativas de jovens egressos do Ensino Técnico Agropecuário de Santa Catarina, do IFC-Camboriú (Instituto Federal Catarinense). A concepção de aluno-trabalhador rural foi significativa para compreendê-lo como um ser social que contribui para o crescimento da sociedade e do setor agropecuário por meio de seu trabalho. A pesquisa é de abordagem qualitativa, para seu desenvolvimento e coleta de dados foram utilizados pesquisa bibliográfica, questionário e entrevista individual com 24 (vinte quatro) ex-alunos da instituição. Os pressupostos teórico-metodológicos desenvolvidos estão fundamentados na categoria trabalho (perspectiva ontológica) e juventude numa perspectiva histórico-socio-cultural. Os resultados confirmam a tese de que o Curso Técnico em Agropecuária no grupo pesquisado, não está atingindo seus objetivos na formação para o trabalho no ramo específico da Agropecuária, apesar de um cenário propício e atrativo para os egressos se inserirem no mercado de trabalho do agronegócio e darem continuidade nos estudos desta área. Os centros educacionais precisam trabalhar mais amplamente as possibilidades e os campos de trabalho, desenvolvendo e estimulando o empreendedorismo. Assim é possível fortalecer a região em que se instala o curso.
Palavras-Chave: Motivações e expectativas; Ensino técnico; Trajetórias Acadêmicas; Institutos federais.

ABSTRACT:

This article presents analytical results of an investigation that aimed to analyze the motivations and expectations of young graduates of the Agricultural Technical Education of Santa Catarina, the IFC-Camboriú (Federal Institute of Santa Catarina). The concept of rural student-worker was significant to understand it as a social being that contributes to the growth of society and the agricultural sector through its work. The research is a qualitative approach to its development and data collection were used bibliographical research, questionnaire and individual interviews with 24 (twenty four) former students of the institution. The developed theoretical and methodological assumptions are based on the work category (ontological perspective) and youth in a historical and socio-cultural perspective. The results confirm the thesis that the Technical Course in Agriculture in the study group, are not reaching their goals in training for work in the specific branch of Agriculture, despite a conducive and attractive setting for graduates in entering the agribusiness labor market and continued studies in this area. Educational centers need to work more extensively the possibilities and labor camps, developing and stimulating entrepreneurship. Thus it is possible to strengthen the region in which you install the course.
Keywords: Motivations and expectations; Technical education; Trajectories Academic; federal institutes.

1. Introdução

A problemática do ensino profissionalizante está intimamente ligada às questões históricas, políticas e econômicas dos países que compõem a América Latina, África e Ásia (UNESCO, 2006). O desenvolvimento industrial e a mecanização nos campos, no Brasil, despertaram, ao longo dos séculos e anos, nos governantes e nos empresários, a necessidade de se pensar em uma mão de obra qualificada. Por isso, a preparação de mão-de-obra para as indústrias esteve no início a cargo de poucas instituições, isso no século XVIII. Com o passar do tempo houve a criação e o aumento de escolas específicas para qualificar essa mão-de-obra, na presidência assumida por Nilo Peçanha, em 1909, foram criadas 19 (dezenove) escolas de aprendizes e artífices em diferentes unidades federativas (Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espirito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campos-RJ, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Sergipe, São Paulo). Estas escolas eram destinadas ao ensino profissional primário e gratuito.

O Decreto no 8.319, de 20 de novembro de 1910, trouxe a primeira regulamentação e estruturação do ensino agrícola no Brasil, passando a ser ministrado em quatro categorias: Ensino Agrícola Superior, Ensino Agrícola Médio, Aprendizes Agrícolas e Ensino Primário Agrícola. Esse Decreto apresentou como finalidade principal “a instrução técnica profissional relativa à agricultura e pecuária atendendo às indústrias correlatas”.

Na década de 1964, do século XX, época em que o país passava por uma forte modernização e com uma importância muito grande na sua participação na economia internacional, quando se discutiam as questões que embasaram o desenvolvimentismo, tanto o poder público como o setor privado, assumiram a função de preparar recursos humanos para serem absorvidos pelo mercado de trabalho. De início, quem teve mais acesso aos postos de trabalho foram os formados de nível superior, entretanto, a situação de dificuldades instaladas nas universidades que não conseguiam absorver a demanda, além dos interesses mais imediatistas do mercado, provocaram a busca da educação profissional de nível médio. (Sobral, 2009)

Assim, o ensino técnico assumiu uma maior importância no cenário econômico do país ao contribuir com as funções políticas e ideológicas do país, nos termos da política de modernização. O Ensino Técnico Profissionalizante é até hoje fundamental para o crescimento do nosso país e através dos desafios da educação profissional e do ensino médio, busca-se uma educação polivalente ou politécnico-tecnológica e oferece desta maneira aos jovens, uma melhor inserção e melhores possibilidades de obter uma vaga em seu primeiro emprego.

Partindo dessa premissa, o estudo realizado busca trazer as reflexões e análise a respeito das motivações e expectativas de jovens egressos do Ensino Técnico Agropecuário em Santa Catarina, do IFC-Camboriú (Instituto Federal Catarinense) juntamente com a concepção do desenvolvimento do aluno-trabalhador rural, como um ser social que contribui para o crescimento da sociedade e do setor agropecuário, por meio de seu trabalho. A preocupação é investigar as motivações e expectativas destes alunos em continuar ou não na área da Agropecuária, após o término dos estudos. Este processo que chamamos de transição acadêmica e laboral está permeado por dúvidas, ansiedades, exigências diversas, medo de sair de sua posição de conforto, comodismo, que para os jovens pode durar até sua inserção profissional.

O enfoque do estudo é qualitativo em que se utilizou como coleta de dados pesquisa bibliográfica, questionário e entrevista individual com 24 (vinte quatro) dos 58 (cinquenta e oito) alunos que finalizaram o curso. O presente artigo sugere que nem sempre a trajetória dos egressos expressa à continuidade na área de atuação, há um bifurcamento neste percurso que altera as escolhas feitas anteriormente devido a inúmeros fatores, por isso falamos em trajetórias incertas. A relevância deste trabalho se justifica pela busca da compreensão de que o Ensino Técnico Profissionalizante é fundamental para o crescimento do nosso país, porém há a necessidade de verificar os arranjos produtivos regionais e readequar as matrizes curriculares dos cursos técnicos para atender as novas demandas que o mercado exige.

2. A juventude sobre a ótica histórica-sócio-cultural

O conceito de juventude se apresenta com um posicionamento teórico que considera as construções sociais em torno dos jovens, para além das fronteiras das definições etárias e, frequentemente, é mais utilizado no campo das políticas públicas, tema este que norteia todos os assuntos ligados ao ensino médio propedêutico e ensino técnico. Para Sposito (2000) o reconhecimento da definição do termo juventude põe fim a um problema sociológico em que os critérios que constituem essa juventude são históricos e culturais. Por meio da literatura observamos que muitas foram as mudanças que ocorreram ao longo do século XX ao XXI e que trouxeram as questões mais relevantes quanto as definições sobre juventude e os contextos atuais vivenciado pelos jovens, especialmente no que se refere à educação, ao trabalho, ao ensino médio integrado, ao ensino superior, inserção profissional e as expectativas quanto a escolha e área de atuação.

A juventude é compreendida por Ozella (2002) como um período de latência social gerada por várias situações relacionadas ao ingresso no mercado de trabalho, prolongamento do tempo de permanência do aluno na escola, da necessidade do preparo técnico e da necessidade de justificar o distanciamento do trabalho de um determinado grupo social. A juventude é considerada por vários autores como a fase da vida em que mais afloram sentimentos opostos. Para Novaes (2004), a juventude é a convivência contínua entre a subordinação à família, a sociedade e ao mesmo tempo a expectativa da emancipação. É vista como uma fase em que os indivíduos se preparam para se inserir nos diferentes extratos da vida social, tais como: criar sua própria família, se inserir no mundo do trabalho e ser um cidadão conhecendo os seus direitos e deveres. Abramo (1997) diz que o reconhecimento da juventude constitui um fenômeno relativamente novo, ressurgindo com mais intensidade na década de 1990, depois de certo período de silêncio.

Considerando o desenvolvimento dos ciclos de vida e as condições sociais brasileiras, Sposito (1997) considera a faixa etária de 15 a 24 anos o conjunto de pessoas classificadas como jovens de acordo com as orientações de trabalhos na área demográfica. A crescente valorização desta fase da vida e de suas potencialidades é estudada por vários autores tais como Sposito (1994, 1997, 2000); Abramo (1997); Nakano (1995); Carrano (2000); entre outros. Para Giovinazzo (2000), o desenvolvimento ou florescimento da autonomia, continua sendo impedido através das regras sociais as quais os jovens são submetidos por entre as imposições, castrações e restrições. Em muitas sociedades ainda existem obstáculos sociais, que através do prisma econômico e/ou cultural, acabam por se tornar intransponíveis, impedindo uma formação mais completa dos indivíduos e das novas gerações.

No campo da educação os desafios encontrados estão ligados ao distanciamento entre a fala do educador e a maneira como esse jovem recebe e interpreta esta informação. Para Carrano (2000), é descrito como sendo os “vistos” e “passaportes” necessários para ocorrer o diálogo ou mesmo o compartilhamento dos sentidos culturais da juventude. Os jovens na sociedade atual sentem-se mais libertos para poder fazer suas próprias escolhas, não ficando engessados aos destinos familiares determinados de acordo com os modelos de sociedades antigas. Esse sentido de fluidez e abertura se estende em todas as áreas das suas vidas. Para Carrano (2005), o que torna a aprendizagem humana única não é a realidade sendo mostrada de forma direta, mas sim os inter-relacionamentos, as trocas de experiências, as emoções despertadas, o espaço e o tempo entre os sujeitos culturais.

3. Uma abordagem da categoria trabalho na perspectiva ontológica

Do ponto de vista marxista o homem é um ser social porque nossa ontologia é o trabalho. Portanto, para sobrevivermos precisamos produzir algo, “na produção social da própria existência, os homens entram em determinadas relações, independentes de suas vontades” Marx,( 2008, p.47). Da mesma forma diz o autor, “[...] essas relações de produção correspondem a um grau de determinado desenvolvimento de suas forças produtivas materiais”. Engels complementa dizendo que o trabalho “é a condição fundamental de toda a vida humana; e o é num grau tão elevado que, num certo sentido, pode-se dizer: o trabalho, por si mesmo, criou o homem” (Engels, 1979, p. 215).

Para Lukács (1984), o trabalho é a categoria gênese do ser social, e para esclarecer esta especificidade apresenta, a partir de uma visão crítica, outras três categorias – Linguagem, sociabilidade e divisão do trabalho, que são indivisíveis e requerem a constituição plena do ser social. Neste contexto, é relevante mencionar que a valorização do trabalho no sentido ontológico foi importante para o humano primitivo no momento em que através do uso das mãos, passou a fazer artefatos e o seu uso diminuiu os esforços, além de ter a possibilidade de replicação do mesmo artefato. O que nos diferencia de espécies ditas como inferiores com relação ao homem, é esta capacidade de pensar (elaborar mentalmente a construção do artefato e o seu uso) para posteriormente colocar em prática.

Desta forma, Marx (2006, p.84) explica “A atividade vital consciente distingue o homem imediatamente da atividade vital do animal”. Já para Lukács (1984, p. 4) “[…] a essência do trabalho humano está no fato de que, em primeiro lugar, ele nasce em meio à luta pela existência e, em segundo lugar, todos os seus estádios são produtos da auto atividade do homem.” A elaboração mental de uma atividade implica numa finalidade que, em nível consciente, estabelece um fim e dá início a um processo real.

Assim, o trabalho, na filosofia de Lukács (1984), é a possibilidade contida no conhecimento necessário, que permite ao homem, através da sua autonomia e livre arbítrio a escolha das alternativas que estão dispostas na natureza e na vida social; é o que torna possível transformar a realidade e conduzir o ser às formas cada vez mais elevadas (Semeghini, 2000). O trabalho, nesta perspectiva, é o ponto que permite reconhecer o homem através da sua relação “crítico-prática” como ser capaz de intervir na natureza e no mundo. Para Lukács (1984), O homem ao buscar os meios para realizar seus objetivos necessita do conhecimento efetivo do sistema causal dos objetos e processos, de modo a assegurar o compromisso de alcançar o fim. Neste sentido, a soma das condições, natureza e trabalho, os meios e a conquista do fim, chegam desta maneira no processo do trabalho e por fim, no produto do trabalho.

Para Ciavatta (1990), o trabalho como princípio educativo remete à relação entre o trabalho e educação, esta relação afirma o caráter formativo do trabalho e da educação como ação humanizadora, por meio do desenvolvimento de todas as potencialidades do ser humano. De acordo com a autora no início do século XX já existia a experiência socialista introduzindo a educação politécnica que objetivava a formação humana em todos os seus aspectos, físico, mental, intelectual, prático, laboral, estético, político, combinando estudo e trabalho.

No mesmo caminho Marx (1998), reforça a necessidade de uma educação para os jovens pautada na combinação de três pressupostos: Educação Mental, Educação Corporal e Educação Tecnológica, esta compreendida por meio dos princípios gerais e científicos de todos os processos de produção, iniciando os adolescentes nos processos elementares de todos os ramos industriais. A partir deste pensamento, o objetivo não era formar um homem capacitado a desempenhar diversas tarefas, que contribuíssem com o desenvolvimento da grande indústria e que ao ser desligado da sua função, pudesse se empregar em outra indústria mais facilmente, mas sim que pudesse ter conhecimentos tecnológicos sobre todo processo produtivo, ampliando sobremaneira as possibilidades de sua atuação no mercado de trabalho.

Todo trabalho humano envolve a concomitância do exercício dos membros, das mãos, e do exercício mental, intelectual; do pensamento teleológico. Isso está na própria origem do entendimento da realidade humana como constituída pelo trabalho. A escola se constitui na ferramenta mais apropriada para unir o homem aos elementos instrumentais e para inseri-lo efetivamente na sua própria sociedade.

Nessa perspectiva, devemos estabelecer a relação com os princípios ideológicos debatidos por Lukács (1984), na execução do por teleológico com a práxis do aluno do curso técnico. Através desta ótica é dada ao aluno formado em cursos técnicos a possibilidade de enfrentar o mercado de trabalho com a capacidade de atuar de uma forma mais crítica numa práxis desenvolvida com conhecimento das melhores escolhas.

A respeito da questão técnica, da ciência e da tecnologia, Ciavatta (2006), propõe uma reflexão através da relação existente entre o trabalho e a educação e elenca duas exigências nos processos educacionais que são significativas para reflexão desta pesquisa. A primeira atinge o patamar da ciência e a tecnologia e que proporciona ao homem conhecer, experimentar e manipular coisas jamais pensadas por gerações anteriores. A segunda é enfocada na formação educacional de crianças, adolescentes e jovens que necessitam dominar os conhecimentos da tecnologia, ciências e socialização objetivando as relações sociais com o planeta e a humanidade.

Com base nestas reflexões, provoca-se uma aproximação do ambiente da produção, da ciência e da tecnologia com a formação de um aluno habilitado ao trabalho complexo. Por outro lado temos o desafio da separação que ocorreu historicamente entre os processos de formação do ensino médio propedêutico e o de formação de ensino técnico. Esta situação ainda é presente, mesmo com todas as mudanças ocorridas ao longo da história do nosso país, barreira esta, que deve ser transposta pelos que cursam o ensino técnico para galgarem postos de trabalho que exijam o “pensar, delegar” mais do que o de “executar”.

O trabalho como princípio educativo, segundo Saviani (1997), tem três sentidos diversos, mas que se articulam. O primeiro é que o trabalho é princípio educativo, na medida em que determina pelo grau de desenvolvimento social, atingindo historicamente, o modo de ser da educação. O segundo sentido é que o trabalho é princípio educativo, na medida em que coloca exigências específicas que o processo educativo deve preencher na sua relação direta com a sociedade no trabalho socialmente produtivo. O terceiro sentido é o de que é princípio educativo, porque determina a educação como modalidade específica e diferenciada de trabalho, ou seja, na educação, o trabalho é pedagógico.

Para avançar na superação de uma formação para os trabalhadores centrada na prática, é preciso tomar o trabalho como princípio educativo e pedagógico, em cujo percurso educativo estejam presentes e articuladas as duas dimensões, a teoria e a prática em todos os momentos formativos. Assim, de acordo com Kuenzer,(2001), ensino obrigatório não tem a mesma função do que o de uma modalidade de ensino profissional por se traduzir em conteúdos, formas e esquemas de racionalização interna diferente; por ter a função social diferente em cada nível e possuir uma realidade social e pedagógica totalmente peculiar. É essa compreensão que deve orientar a concepção de Ensino Médio para os que vivem do trabalho, de modo a assumir a necessidade da formação de um trabalhador de novo tipo, ao mesmo tempo capaz de ser político e produtivo, atuando intelectualmente e pensando praticamente; um trabalhador crítico, criativo, autônomo intelectual e eticamente, capaz de acompanhar as mudanças e educar-se permanentemente.

Conforme Kuenzer,(2001), a integração entre ciência, trabalho e cultura a partir dos novos paradigmas de organização e gestão de processos flexíveis de trabalho, demandam uma formação científico-tecnológica e sócio histórica que verdadeiramente integre os conhecimentos científicos que fundamentam os processos sociais e produtivos contemporâneos. Razão pela qual o modelo de competência começou a ganhar relevo como diretriz para a formação do trabalhador em substituição ao conceito de qualificação.

A competência, segundo Hirata (1994, p.24), “designa saber ser, mais do que saber fazer e implica dizer que o trabalhador competente é aquele que sabe utilizar todos os seus conhecimentos nas mais diversas situações encontradas em seu posto de trabalho”. O conceito de competência representa a atualização do conceito de qualificação, conforme Ferretti (1997), adequando a novas formas pelas quais este se organiza para obter maior e mais rápida valorização. Para Ferretti (1997, p. 259), “o modelo de competência substitui a relação definida pela qualificação, pela relação marcada pela imprecisão, pela indefinição, pela instabilidade, em que o saber, a posse do conhecimento do ofício, tende a ser colocado em segundo plano”.

Conforme Ott, (1983) é necessário repensar a escola tanto no que diz respeito à formação dos profissionais, como no que tange a preparação do cidadão. Nesta perspectiva, é preciso desenvolver as habilidades relevantes à profissão e também provocar a interiorização dos níveis de consciência a respeito das relações de produção, e do domínio dos meios de produção. Esta última questão é fundamental no que se refere à vida democrática. (ott, Moraes e Rocha, 1987)

Desta forma, é através da organização e da ação que se constroem os direitos de cada um e de todos. A participação do indivíduo no processo de definição dos rumos da sociedade em que vive é tratada através de diferentes níveis e canais de atuação possíveis. (Höfling, 1987).

4. Processo de transição entre Ensino Médio, Universidade e Mercado de Trabalho

A saída do Ensino Médio para o mundo universitário é marcada por muita complexidade para os jovens que estão experimentando este momento de adaptação a nova situação vivenciada. Para Pinho, Bastos, Dourado & Ribeiro (2015), estas complexidades, conflitos e barreiras devem ser transpostas para que os indivíduos se adaptem melhor e possam garantir o seu desenvolvimento pessoal e obter o melhor aproveitamento na sua formação acadêmica. Nesse sentido a educação continuada e permanente é o caminho mais acertado para manter-se no mercado de trabalho, considerando, principalmente uma economia emergente caracterizada por constantes modificações no cenário econômico. Os autores concluem que as constantes transformações dentro do contexto mundial afetam os extratos familiares, educativos e laborais, instituindo novos desafios aos estudantes para enfrentar situações distintas de mudanças no ambiente laboral considerada por eles como elemento fundamental para o seu progresso.

Ao analisar o processo de transição do Ensino Médio para a universidade, Pinho et all (2015), mostram que esses jovens atravessam por momentos de conflitos gerados pela sua adaptação, obrigando-lhes em um primeiro momento a se apegar as suas redes externas, tais como suas amizades mais antigas e o ambiente familiar e em outro momento a adaptar-se ao ambiente interno da universidade através do seu entrelaçamento de relações sociais e a definição da sua vocação profissional. Para Ordoñez (2015) a transição é um processo complexo resultado da incidência de fatores pessoais e contextuais que se entrelaçam.

No sistema universitário, ao ser privilegiado as disciplinas que emolduram, habilitam e qualificam o aluno para atuar de acordo com as exigências do mercado, acaba por deixar as disciplinas reflexivas e críticas para segundo plano, assim gesta uma consciência que se retroalimenta entre professores e alunos e provoca nos alunos o desejo de uma educação que não os faça perder tempo com “bobagens teóricas, culturais e reflexivas” e que se restrinja a prepará-los de forma objetiva para servir ao sistema (Goergen, 1996). Para este autor a educação é um subsistema dentro de um sistema social geral, este subsistema possui a tarefa de formar as “competências indispensáveis” para o funcionamento do sistema geral.

Antigamente a educação tinha o objetivo da busca do ser social emancipado e hoje o estudante não se sente responsável em ser parte integrante de um progresso social na perspectiva da sua emancipação, mas sim no preenchimento de uma função lucrativa para ele e atenda às necessidades momentâneas do sistema. Segundo Goergen (1996), para estes jovens, não importa o sistema como um, toda sua estrutura, sua direção ou sua relação com a liberdade. O que está em jogo agora é que o sistema lhe remunera pela sua contribuição em buscar o seu funcionamento.

Um reconhecimento importante é apontado por Almeida; Soares & Ferreira, (2002), quanto a busca generalizada do ensino superior pelos jovens de Portugal, pois estes acreditam que o ensino superior certifica e valida uma vida profissional mais segura e promissora. Por outro lado, indica também um número crescente de jovens que buscam o ensino superior em detrimento da ausência de alternativas. Os autores destacam que após a conclusão dos estudos secundários os jovens têm tido dificuldades em sua inserção no mercado laboral. Este cenário induz a entrarem no ensino superior, instituindo a condição para o insucesso, falta de adaptação, insatisfação com o seu curso e consequente abandono.

Em Portugal, aproximadamente 30% (trinta por cento) dos alunos matriculados no Ensino Superior estão alocados em cursos que não estão relacionados à sua primeira opção vocacional (Almeida; Soares & Ferreira, 2002), cenário que não difere muito em relação ao Brasil. Desta maneira, corrobora para que os alunos nesta condição percam o interesse em investir em sua futura carreira ou permanecerem no curso.

A contínua exigência do mercado por uma formação continua qualificada/especializada promove no ambiente universitário a formação técnica com o escopo de satisfazer as demandas da economia e do mercado de trabalho, o que faz transformar, segundo Von Zuben (1995) a aspiração de busca pelo conhecimento e formação humana, uma preocupação secundária. Nessa perspectiva, é importante repensar a categoria trabalho que está atrelada a questão da inserção profissional. Para Pais (2005), o trabalho está relacionado diretamente às questões de sobrevivência, porém as relações estabelecidas pelos jovens estudantes produzem sentidos que se cruzam e se diversificam dificultando o nível de compreensão de seus projetos pessoais. Partindo-se da categoria trabalho o autor explica que essa condição do ser social torna-o capaz de contribuir para as necessidades da sociedade, revelando também a necessidade de uma formação emancipatória.

Um aspecto importante na fase de escolha da vida profissional do jovem e é determinante na escolha de um emprego que seja satisfatório e que possa lhe dar condições de mantê-lo. A Psicologia das carreiras e da orientação profissional seguida da decisão profissional é vista por Ordoñez (2015) como uma das fases mais importantes da vida, um período de transição significativo para os jovens, por estar indissoluvelmente atrelada a sua inserção futura no mercado de trabalho e a sua satisfação profissional.

5. Percurso metodológico: instrumentos de coleta de dados, sujeitos e análise da pesquisa.

A investigação deste estudo se baseou nas características da pesquisa de abordagem qualitativa utilizando técnicas para coleta de dados utilizada como: pesquisa bibliográfica, questionário e entrevista. A Aplicação dos questionários e a realização das entrevistas se deram em dois momentos. No primeiro foram aplicados os questionários elaborados com 18 (dezoito) perguntas fechadas e 10 (dez) abertas. A amostra foi caracterizada por acessibilidade, ou seja, “o pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que estes possam de alguma forma, representar o universo (GIL, 1999, p.104)”. Esta foi de 58 (cinquenta e oito) egressos do Ensino Técnico Agropecuário do Instituto Federal Catarinense - Campus Camboriú.

Os questionários foram aplicados pelo pesquisador individualmente, com horário previamente agendado com os egressos. Dos 58 (100%) ex-alunos contatados, 24 (41,37%) se disponibilizaram a participar da pesquisa. Os pesquisados assinaram o termo de consentimento da comissão de ética e após a apuração das informações obtidas nos questionários, estes foram tabulados, sistematizados e organizados utilizando o software SPSS . No segundo momento da investigação se investiu nas entrevistas individuais com o objetivo de expandir as informações coletadas nos questionários e para aprofundamento das informações.

Foram criadas três categorias para seleção dos egressos que participaram das entrevistas: 1) Egressos que cursavam uma faculdade de outra área de formação, que não a agropecuária; 2) Egressos que estavam cursando a faculdade dentro do campo da agropecuária e 3) Egressos que apenas estavam trabalhando.

Neste momento, a amostragem utilizada foi por tipicidade ou intencional, constituindo-se em uma “amostragem não probabilística que consiste em selecionar um subgrupo da população que, com base nas informações disponíveis, possa ser considerado representativo de toda a população (GIL, 1999, p.104). Dos 24 (vinte e quatro) egressos que responderam os questionários, selecionamos 3 (três) para cada categoria listada acima. Portanto, as entrevistas foram marcadas individualmente e os entrevistados foram denominados de entrevistado 1, entrevistado 2 e assim sucessivamente até o número 9.

Os primeiros a serem contatados foram os participantes que foram para outros cursos de graduação, o segundo grupo, os que estão na universidade e seguiram na área da agropecuária, e o terceiro grupo, os que só estão trabalhando e não seguiram na área da agropecuária. Para o primeiro grupo foram 14 (quatorze) perguntas, para o segundo grupo 14 (quatorze) perguntas e para o terceiro grupo 9 (nove) perguntas. Para análise dos dados foi utilizada a análise de conteúdo temática, de acordo com Bardin (1977, p.42) visa obter, “por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens”. Franco (2005) é outra autora que contribuiu para a análise de conteúdo. A partir do eixo “ Dificuldades e facilidades de inserção profissional na área e a continuidade ou não no Ensino Superior”, foi realizado a análise de conteúdo das entrevistas realizadas com os egressos.

6. Perfil dos egressos do curso Técnico em Agropecuária, as dificuldades e facilidades de inserção profissional na área e a continuidade ou não no Ensino Superior.

O perfil dos egressos foi importante para conhecer melhor estes jovens e aprofundarmos algumas questões relacionadas com as escolha feitas por eles. Nesse sentido, a condição de contratação ou remuneração ou se recebem alguma bolsa após o curso, foram aspectos significativos para esse entendimento. Dos 50% (12 egressos) que responderam o questionário possuem algum vínculo através de bolsa de estudos, estágio, trabalho informal ou trabalho formal. O dado que mais chama a atenção (gráfico 1) é o fato de que apenas um dos egressos informou que trabalha como técnico em agropecuária, enquanto mais de 45% (11 egressos) possuíam vínculos em áreas distintas ao da agropecuária.

GRÁFICO 1 - Atividade remunerada ou vínculo com bolsa de estudo

Fonte: Dados da pesquisa e gráfico elaborado pelo pesquisador

Apesar de o agronegócio ser um dos setores que mais cresce no Brasil (contribui decisivamente para a elevação do superávit comercial), desempenho que proporciona a elevação das expectativas com relação ao campo de trabalho e a imagem construída pelas pessoas sobre a agricultura (Gerra e Bonfim, 2006), este fato, não foi atrativo suficiente para promover a busca de inserção destes jovens no mercado de trabalho ligado ao agronegócio.

Para Pais (2005) a chamada “luta pela vida” é defendida como um processo de adaptação que o jovem acaba passando através de uma vivência precária do emprego e do trabalho na busca da sua autonomia. Já Mafra e Cavalcanti (1992), afirmam que os grupos de egressos que trabalham e estudam pertencem em geral a camadas e classes menos privilegiadas na sociedade e quando jovens adquirem hábitos e práticas do trabalho remunerado como meio de subsistência pessoal e familiar. Isso se percebia na década de 90, do século XX, mas é um fator que também pode ser observado na atualidade. Estes jovens com formação para o trabalho consideram suas experiências laborais como fundamentais e preponderantes sobre o trabalho intelectual.

Os dados do Dieese (2009) apontam que o comércio sempre foi considerado como porta de entrada para o mercado de trabalho respondendo como um dos principais setores econômicos no sentido de absorção da população jovem brasileira. Em 2008, do total de ocupados neste setor, tinha entre 16 (dezesseis) e 24 (vinte e quatro) anos de idade e respondiam por uma ocupação de 25%, segundo dados do Sistema Pesquisa de Emprego e Desemprego – Sistema PED, estas informações são frutos do convênio DIEESE/Seade/MTE – FAT no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo.

O mercado de trabalho, através da sua adaptação/modificação, vem, nos últimos anos, promovendo a seleção dos mais qualificados. Os dados do DIEESE (2011) mostram as trajetórias de crescimento do número de pessoas com maior escolaridade, bem como da redução do total das menos escolarizadas no decênio 1998-2008. Essa análise demonstra que o mercado de trabalho vem fazendo exigências cada vez maiores quanto à qualificação e exclusão de indivíduos de menor escolaridade entre aqueles economicamente ativos, já a participação no mercado do trabalho dessa população menos instruída tem sido registrada taxas cada vez mais declinantes.

Ao verificarmos se os egressos avaliados estão frequentando um curso superior na busca de uma continuidade de sua formação e com interesse na sua qualificação para a futura inserção no mercado de trabalho verificamos que 70,8% dos egressos pesquisados estavam cursando uma faculdade, o que demonstra que a realidade apontada nos estudos do DIEESE (2011), faz parte de um pensamento coletivo, ou seja, a qualificação promove um aumento das chances de inserção no mercado de trabalho. No mesmo caminho Almeida; Soares & Ferreira, (2002) indicam um número crescente de jovens que buscam o ensino superior em detrimento da ausência de alternativas e os força a seguir seus estudos em um curso superior na busca de uma colocação melhor, que lhes possibilite a sua emancipação.

A contínua exigência do mercado por uma formação constante qualificada/especializada promove no ambiente universitário, a formação técnica com o escopo de satisfazer as demandas da economia e do mercado de trabalho, o que faz transformar, segundo Von Zuben (1995), a aspiração de busca pelo conhecimento e formação humana, uma preocupação secundária. O entrevistado 2 demonstra que realizou o curso de Técnico em Agropecuária sem nenhum interesse pelo curso e sugere colocar a sua emancipação e conquista da tranquilidade financeira como alvo em detrimento até mesmo da sua vocação profissional,

É que eu não possuía identificação com essa área...e... existe pouca oferta de emprego na minha região. Eu estudo direito...., e eu to buscando estabilidade e um salário que me possibilite conforto.
(Entrevistado 2)

Nessa perspectiva, colocada pelo egresso, o sentido do trabalho fica entre a busca por realização profissional e valor financeiro. Desta forma, convém salientar que a categoria trabalho está atrelada a questão da inserção profissional, conforme pondera Figuera; Raitz & Ordoñez, (2013), o trabalho está relacionado diretamente às questões de sobrevivência, porém as relações estabelecidas pelos jovens estudantes produzem sentidos que se cruzam e se diversificam dificultando o nível de compreensão de seus projetos pessoais.

A saída do Ensino Médio para o mundo universitário é marcada por muita complexidade para os jovens que estão experimentando este momento de adaptação a nova situação vivenciada, além de questões de nível pessoal. Para Pinho et all (2013), esta soma de complexidades, conflitos e barreiras devem ser transpostas para que os indivíduos se adaptem melhor e possam garantir o seu desenvolvimento pessoal e obter o melhor aproveitamento na sua formação acadêmica. Esta afirmativa pode ser observada na fala do entrevistado 3 ao declarar a sua predileção em estudar nesta escola, mas com o objetivo principal no ensino médio e não no que o curso como um todo tinha a lhe oferecer,

Eu fiz uma opção em estudar no CAC ( colégio agrícola de camboriú) pelo ensino médio.., mas acabei adorando o curso....pretendia fazer agronomia..., só que não passei na UDESC.. então acabei desistindo desse curso. Talvez daqui alguns anos eu volte a tentar porque eu gosto muito da área. Eu estou estudando matemática e direito ao mesmo tempo
(Entrevistado 3)

Ainda, segundo Figuera; Raitz & Ordoñez, (2013), as constantes transformações dentro do contexto mundial afetam os extratos familiares, educativos e laborais, instituindo novos desafios aos estudantes para enfrentar as situações distintas de mudanças no ambiente laboral considerada por eles como elemento fundamental para o seu êxito. Para Ordoñez (2015) o momento de transição do ensino médio para a universidade é um processo complexo, resultado da incidência de fatores pessoais e contextuais que se entrelaçam.

Ao analisar o processo de transição do Ensino Médio para a universidade Pinho et al (2013), mostram que esses jovens atravessam momentos de conflitos gerados pela sua adaptação. Num primeiro momento se apegam em suas redes externas, tais como suas amizades mais antigas e o ambiente familiar, já em outro a própria adaptação ao ambiente interno da universidade, com o seu entrelaçamento de relações sociais e a definição da sua vocação profissional. Desta forma, podem evitar a tomada de decisões como o abandono do curso. O apoio familiar e as dificuldades que o jovem tem que passar em sua adaptação e inserção ao meio universitário é demonstrado pelo entrevistado 5, apesar de sua formação técnica e capacidade de trabalhar no agronegócio, preferiu trabalhar no comércio para estar mais próximo da faculdade de Administração e poder conciliar o trabalho com os estudos.

O meu pai me apoia.... porque eu estou cursando Administração....que é uma área que abrange muitas opções no futuro. Atualmente eu estou trabalhando em uma Lotérica...., Mais pela questão financeira...., para poder arcar com os meus estudos, só que o trabalho na lotérica não tem nenhuma perspectiva de melhora.... ou de que em algum momento... vou ter algum cargo melhor.
(Entrevistado 5)

Ao dar mais ênfase ao que está mais próximo ou nas possibilidades de maior número de ofertas de vagas, neste caso em Administração, o jovem parece se enquadrar no sistema adotado hoje pela maioria dos jovens que privilegia as disciplinas que emolduram, habilitam e qualificam o aluno para atuar de acordo com as exigências do mercado, deixando as disciplinas reflexivas e críticas para segundo plano. Contudo, provocam nos alunos o desejo de uma educação que não os faça perder tempo com “bobagens teóricas, culturais e reflexivas” restringindo-se a prepará-los de forma objetiva para servir ao sistema (Goergen, 1996).

A educação já teve o objetivo da busca do ser social emancipado e agora o estudante não se sente responsável por ser parte integrante de um progresso social na perspectiva da sua emancipação, mas sim no preenchimento de uma função que seja lucrativa para ele e para o sistema. Segundo, ainda, Goergen (1996), para estes jovens, não importa o sistema, sua estrutura, sua direção ou sua relação com a liberdade. O que está em jogo agora é que o sistema lhe remunera pela sua contribuição em buscar o seu melhor funcionamento.

Um reconhecimento importante é apontado por Almeida; Soares & Ferreira, (2002), quando registram em estudo a busca generalizada do ensino superior pelos jovens de Portugal, pois estes acreditam que o ensino superior certifica e valida uma vida profissional mais segura e promissora. Por outro lado, indica também um número crescente de jovens que buscam o ensino superior em detrimento da ausência de alternativas. Os autores destacam que após a conclusão dos estudos secundários os jovens têm tido dificuldades em sua inserção no mercado laboral. Este cenário induz a entrarem no ensino superior, instituindo a condição para o insucesso, falta de adaptação, insatisfação com o seu curso e consequente abandono.

7. Considerações finais

A Psicologia das carreiras e da orientação profissional é vista por Ordoñez (2015) como um aspecto importante na fase de escolha da vida profissional do jovem e é determinante na escolha de um emprego que seja satisfatório e que possa lhe dar condições de mantê-lo. A decisão profissional é uma das fases mais importantes da vida, um período de transição significativo para os jovens, por estar indissoluvelmente atrelada a sua inserção futura no mercado de trabalho e a sua satisfação profissional.

Muitas vezes o jovem vivendo a experiência de um início da sua emancipação, privilegia o seu emprego em detrimento do seu estudo, destinando uma carga horária maior ao trabalho do que a formação continuada. Esta situação pode provocar um ciclo vicioso entre a ocupação de vagas consideradas de menor valor pelos jovens ansiados por terem seu primeiro emprego e a ocupação de cursos nos horários que lhes restam após o turno de trabalho, sem que seja levado em consideração o seu perfil vocacional.

Nessa perspectiva, é importante repensar a categoria trabalho que está atrelada a questão da inserção profissional. Conforme Pais (2005), o trabalho está relacionado diretamente às questões de sobrevivência, porém as relações estabelecidas pelos jovens estudantes produzem sentidos que se cruzam e se diversificam dificultando o nível de compreensão de seus projetos pessoais. Neste sentido, os jovens desta pesquisa parecem viver num movimento cambiante, que oscila em ir e vir, em busca da realização de seus projetos pessoais e profissionais num mercado de trabalho extremamente heterogêneo.

O fato de encontramos posturas críticas diferentes entre os sujeitos da pesquisa nos faz refletir quanto à formação dos alunos do curso técnico em agropecuária. A educação destes jovens deve ser entendida no âmbito mais amplo do ensino técnico, transmitindo e relacionando os conteúdos com as experiências vividas pelos estudantes, em que se busca enfatizar aspectos técnicos e assim abre-se uma perspectiva de uma formação mais completa para o exercício do ser social crítico e cidadão.

A análise do processo de transição do Ensino Médio para o Ensino Superior dos egressos do curso Técnico em Agropecuária identificou um direcionamento para áreas diferentes das quais foram formados. O plano político pedagógico do curso Técnico em Agropecuária possui como objetivo a preparação dos alunos para o trabalho, a cidadania a formação ética, além do pensamento crítico e da autonomia intelectual, objetivando ainda relacionar teoria com a prática priorizando a pesquisa, a capacidade de aprender, criar, formular e resolver problemas, desenvolvendo competências e habilidades na área agropecuária e preparação básica para o trabalho.

A tendência de contratação de mão de obra cada vez mais técnica ou especializada indica aparentemente um cenário propício e atrativo para os egressos se inserirem no mercado de trabalho agropecuário e darem continuidade nos estudos desta área, todavia, este indicativo não se confirma na amostra pesquisada.

Os centros educacionais precisam trabalhar mais amplamente as possibilidades e os campos de trabalho, desenvolvendo e estimulando o empreendedorismo, fortalecendo a região onde está instalado o curso através dos seus arranjos produtivos locais assim como também lhe ampliar os horizontes para que desenvolvam trabalhos em outras regiões. Portanto, diante dos resultados obtidos concluímos que a continuidade ou não dos estudos acabam por configurar estas trajetórias dos egressos como incertas num mundo de transformações constantes.

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1. Doutorando do curso de Doutorado em Educação da Universidade do Vale do Itajaí, Professor do Instituto Federal Catarinense – Campus Camboriú, pesquisador do grupo de Pesquisa Educação e Trabalho- danjosferreira@hotmail.com

2. Professora do Programa de Doutorado e Mestrado em Educação da Universidade do Vale do Itajaí, Coordenadora do grupo de Pesquisa Educação e Trabalho- raitztania@gmail.com


Revista ESPACIOS. ISSN 0798 1015

Vol. 38 (Nº 05) Año 2017

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