Espacios. Vol. 32 (4) 2011. Pág. 41


A influência dos Stakeholders sobre as práticas de responsabilidade ambiental da cadeia produtiva do tabaco no sul do Brasil

The Influence of Stakeholders on Environmental Responsibility Practices of Southern Brazil's Tobacco Production Chain

La influencia de las partes interesadas sobre las Prácticas de Responsabilidad Ambiental en la Cadena Productiva de Tabaco en el Sur de Brasil

Douglas Wegner y Daiane Mülling Neutzling


6. Influências dos Stakeholders nas Práticas de Gestão Ambiental

A análise das ações de responsabilidade ambiental divulgadas pela cadeia do tabaco permite identificar quais stakeholders tiveram influência determinante para que essas ações fossem efetivamente colocadas em prática. Sob a luz da teoria de rede de stakeholders (Rowley, 1997), percebe-se que estas influências podem ser originadas de indivíduos ou grupos que estão direta ou indiretamente ligados à organização em análise. Apesar da publicidade realizada pela cadeia a respeito de sua responsabilidade ambiental nos próprios Anuários do segmento, a pesquisa mostra que stakeholders governamentais e regulatórios foram os principais responsáveis pelas ações realizadas no setor. O aumento da área reflorestada na região fumageira, divulgada em 1997 pelo setor como resultado dos esforços de Sinditabaco, Afubra e Fetag (que efetivamente levaram os produtores a reflorestar), foi uma ação resultante de um acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA). A influência do IBAMA, como stakeholder com poder de regulação, foi decisiva para que houvesse uma recuperação de florestas na região.

A redução no uso de agrotóxicos utilizados nas lavouras resulta de duas influências distintas: o desejo dos agricultores de menos produtos químicos, como observado na análise documental, mas também o estabelecimento de um acordo internacional que previa a eliminação do brometo de metila, uma das principais substâncias tóxicas utilizadas na cultura do tabaco. Nesse caso, mais uma vez a influência governamental foi fundamental como indutor para que houvesse uma substituição do produto, conforme previsto internacionalmente.

Outra ação ambiental importante foi o estabelecimento de um processo organizado para o recolhimento das embalagens de agrotóxicos utilizadas pelos agricultores. No ano 2000 o setor já divulgava a informação de ter organizado o processo de recolhimento. O Governo Federal determinou que empresas fabricantes e fornecedores fossem responsáveis pelo retorno ou destinação adequada das embalagens utilizadas. Apesar da influência de stakeholders regulatórios, através de legislações obrigando o recolhimento, o setor mostrou-se ágil em encontrar uma solução para a demanda. Situação semelhante ocorreu em relação aos resíduos industriais gerados pelas empresas beneficiadoras. Nos dois principais municípios onde essas empresas estão instaladas (Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires) foram criados locais adequados para armazenar os resíduos gerados.

O estímulo ao desenvolvimento e produção de fumo orgânico, embora não seja propriamente uma ação ambiental, pode ser considerado um avanço em função da eliminação do uso de agrotóxicos em todas as etapas de cultivo da planta. O aumento da demanda de fumos cultivados organicamente (com a verificação de entidade certificadora) foi o estímulo necessário para que os projetos de fumo orgânico fossem ampliados pela cadeia. Por último, a reciclagem das bandejas de isopor, através do envio para empresas do setor calçadista, foi uma ação desenvolvida pela cadeia do tabaco, sem interferência governamental ou influência de outros stakeholders.

Uma análise conjunta das ações de responsabilidade ambiental divulgadas pelo setor fumageiro mostra que stakeholders com poder de regulação tiveram grande influência nas tomadas de decisão. Clientes, fornecedores e a associação dos fumicultores influenciaram outras ações. Essa análise mostra a importância de stakeholders regulatórios para estimular a adoção de práticas ambientais, mas também demonstra a prontidão do setor fumageiro em atender as demandas estebelecidas, muitas vezes antes dos prazos estabelecidos. A teoria de rede dos stakeholders mostra que as redes de relações são complexas e não facilmente identificáveis, mas podem gerar influências múltiplas sobre as organizações.

Uma explicação possível para os rápidos avanços nas práticas de gestão ambiental da cadeia, cumprindo as exigências legais e atendendo as demandas dos stakeholders, é a imagem negativa do seu produto. As discussões sobre os riscos do tabagismo e as campanhas anti-tabagismo já são preocupações suficientes para a cadeia. Evitar discussões sobre aspectos ambientais é um problema a menos para as empresas. Assim, é possível concluir que a cadeia produtiva está mais próxima da perspectiva instrumental de Jawahar e Mclaughlin (2001), em que as organizações buscam gerenciar a relação com os stakeholders.

7 Considerações finais

O artigo teve como objetivo analisar a influência dos stakeholders sobre as decisões de responsabilidade ambiental da cadeia produtiva fumageira no Sul do Brasil. Optou-se por esta cadeia devido à controvérsia do setor, fortemente influenciado por dois conjuntos claros de stakeholders, pró e anti-tabaco, que afetam significativamente suas decisões em termos de responsabilidade social e ambiental. O estudo foi realizado em nível de cadeia, visto a maior facilidade de acesso às informações, embora se reconheça que empresas individuais do setor realizam ações de responsabilidade ambiental específicas, que também merecem ser identificadas e analisadas em estudos futuros.

A partir da elaboração do mapa da rede de stakeholders da cadeia fumageira, e divisão destes segundo sua influência a favor ou contra a cadeia identificou-se que as relações entre os grupos interessados são complexas e nem sempre claramente identificáveis, assim como suas influências mútuas.

Uma análise das ações de gestão ambiental empreendidas pela cadeia nos últimos dez anos mostra que stakeholders regulatórios foram os principais responsáveis por influenciar essas ações. Em alguns casos, influências indiretas de stakeholders externos também impactaram nas decisões. Somente em casos isolados, as ações foram realizadas a partir de influências de clientes, fornecedores ou agentes dentro da cadeia. Mesmo assim, as ações apresentadas mostram que a cadeia atende as exigências legais de responsabilidade ambiental e realiza outras ações para evitar prejuízos de imagem e para promover a educação ambiental.

A principal limitação do estudo está relacionada à dificuldade de obtenção de informações diretamente com as empresas que compõem o setor. A realização de estudos futuros em empresas específicas pode contribuir para a identificação de outras práticsa adotadas individualmente pelas empresas e para confirmar as influências dos stakeholders destacados nesta pesquisa. 

Referências

AA1000. (2008) Accountability institute of social and ethical accountability. Site institucional. Disponível em <http://www. accountability21.net>. Acesso em 25 jun. 2008.

Afubra. Associação dos Fumicultores do Brasil. (2008) Site institucional. Disponível em <http://www.afubra.com.br>. Acesso em 15 jun. 2008.

Beling, R.R.(ed) (2002) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Beling, R.R.(ed) (2003) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Beling, R.R.(ed) (2004) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Beling, R.R.(ed) (2005) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Beling, R.R.(ed) (2006) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Beling, R.R.(ed) (2007) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Donaldson, T.; Preston, L.E. (1995) “The Stakeholder of the Corporation: Concepts, evidence and implications”. Academy of Management Review, 20 (1), 65-91.

Dyllick, T.; Hockerts, K. (2002) “Beyond the Business Case for Corporate Sustainability”. Business Strategy and the Environment, v.  11, 2002, p. 130–141.

Elkington, J. (1994) “Towards the sustainable corporation: Win-win-win business strategies for sustainable development”. California Management Review, v. 36, n. 2, 1994.

Freeman, R.E.(1984) Strategic Management: A stakeholder approach. Boston: Pitman.

Freeman, R.E.; Wicks, A.C.; Parmar, B. (2004) “Stakeholder Theory and the Corporate Objetive Revisited”. Organization Science, 15 (3), 364-369.

Frooman, J. (1999) “Stakeholder influence strategies”. The Academy of Management Review, 24 (2), 191-205.

Jawahar, I.M.; McLaughlin, G.L. (2001) “Toward a descriptive stakeholder theory: An organizational life cycle approach”. The Academy of Management Review, 26 (3), 397.

Mackay, J.; Eriksen, M.P. (2002) The tobacco atlas. Geneva: World Health Organization.

Menezes, J. B. (2005) Município de Santa Cruz. Santa Cruz do Sul: Editora Gazeta Santa Cruz.

Merriam, S. B. (1998) Qualitative Research and Case Study Applications in Education. San Francisco: Jossey-Bass.

MMA. Ministério do Meio Ambiente. (2008) O Brasil e a Camada de Ozônio. Brasília: MMA, 1997. Disponível em <hhtp://mma.gov.br > Acesso em 15 jun. 2008.

Neumann, R.I.(ed) (1997) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Neumann, R.I.(ed) (1998) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Neumann, R.I.(ed) (1999) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Neumann, R.I.(ed) (2000) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Neumann, R.I.(ed) (2001) Anuário Brasileiro do Fumo. Santa Cruz do Sul: Ed. Gazeta Santa Cruz.

Rao, P.; Holt, D. (2005) “Do green supply chains lead to competitiveness and economic performance?” International Journal of Operations & Production Management, 25 (9), 898-916.

Rowley, T. J. (1997) “Moving beyond dyadic ties: a network theory of stakeholder influences”. Academy of Management Review, 22 (4), 887-910.

Sindifumo. Sindicato das Indústrias do Fumo. (2008) Site institucional. Disponível em <http://sindifumo.com.br>. Acesso em 10 jul. 2008.

UN. United Nations. (1987) Our Common Future: Report of the World Commission on Environment and Development (1987). Disponível em <http://www.un-documents.net/ocf-02.htm#I>. Acesso em 09 jul. 2010.

Vargas, M.A.; Santos Fº, N.; Alievi, R.M. (1999) “Análise da dinâmica inovativa em arranjos produtivos locais no RS: complexo agroindustrial fumageiro”. Santa Cruz do Sul: Estudos do CEPE, 9/10, 149-173.

World Health Organization. (2003) Tobacco industry and corporate responsibility...an inherent contradiction. Disponível em <http://www.who.int>. Acesso em 17 Abr 2008.


[anterior] [inicio]

1. Mais de 70% de todo o tabaco produzido no Brasil é destinado à exportação. Em 2006, foram enviados ao exterior 581 milhões de kg do produto, com receitas de US$ 1,750 bilhão (AFUBRA, 2008).

2. Em 1987 foi estabelecido o Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio, impondo a progressiva redução e eliminação do uso dessas sustâncias, como o Brometo de Metila, usado em esterilização de solos e fumigação de grãos estocados. Em 1996 foi elaborada no Brasil a Carta de Florianópolis, que previa um cronograma para eliminação do uso da substância na agricultura (MMA, 1997).


Vol. 32 (4) 2011
[Índice]